15. O brinquedo preferido

Ter centenas de brinquedos não faz bem para as crianças. Reduzir a oferta de presentes é a melhor forma de estimular os pequenos a brincar melhor.

Está na internet o documentário “Criança, a Alma do Negócio”, de Estela Renner. Vale a pena assistir, principalmente nessa época de Natal. É um panorama muito interessante da relação que as crianças têm com a mídia e o consumo hoje em dia. Um dos trechos de que mais gosto mostra um menino de mais ou menos sete anos exibindo com orgulho seu armário atulhado de brinquedos. Aí a entrevistadora pergunta qual o favorito entre todos aqueles. O garoto tira do bolso um bonequinho de plástico muito simples, menor do que seu dedo polegar e diz: “Esse aqui!”.

Quando vi a cena, lembrei de uma coisa que costuma dizer a Lídia Aratangy (psicóloga, escritora, mãe e avó de mão cheia, de quem sou fã). Vou tentar repetir mais ou menos: “O que importa não é tanto o brinquedo, mas sobretudo o vínculo de afeto que a criança estabelece com ele. E nenhuma criança consegue se ligar emocionalmente a 100 brinquedos”.

Na convivência com meus filhos e os amigos deles, tenho observado que a quantidade objetos que possuem é gigantesca. Mas há menos brincadeiras. Quase não rola faz-de-conta, pega-pega, esconde-esconde, cavalinho com cabo de vassoura, banho de esguicho no quintal e atividades do gênero. Talvez por falta de tempo, de iniciativa e até por preguiça. Talvez porque os programas de TV, os videogames, os DSs e os computadores tenham se tornado tão sedutores e estejam disponíveis o tempo todo. Uma pena.

Ao despejar tantas coisas sobre as crianças, nós, adultos, roubamos deles a oportunidade de querer ardentemente e batalhar pela realização de um desejo. Pediu, ganhou! Extinguiu-se o tempo da saudável expectativa ansiosa.

Parece até que eu estou propondo algum tipo de tortura anticonsumista para a garotada, mas é justamente o oposto. Criar expectativa e regular a quantidade de presentes vale a pena. Mesmo. Penso nisso toda vez que vejo minha filha agarrada e batendo altos papos com seu brinquedo preferido, uma tigrinha de pelúcia chamada Lili. Julieta tem uns 30 outros bichos do gênero, a maioria desprezada, empoeirando na estante. Mas Lili é especial: tem uma casa de caixas de papelão e enfeites montada ao lado da cama de sua “mãe” e viaja conosco para todos os lugares.

A tal Lili é daqueles bichos customizáveis, vendidos em quiosques de alguns shoppings, com direito a roupas e acessórios personalizados. Há vários meses, a filhota manifestou a vontade de ter esse brinquedo. Dissemos que ela só ganharia no aniversário (em junho) e minha mãe se prontificou a oferecê-lo. Só que, no dia tão esperado, a loja teve um problema e fechou minutos antes de avó e neta chegarem. Ansiosa como toda criança, Julieta não quis voltar para casa de mãos abanando e trocou o objeto do desejo por outra coisa. No dia seguinte, percebeu o erro e pediu novamente a pelúcia tão sonhada. “Só no Dia das Crianças”, respondemos. Então, em outubro, bastante tempo depois de formulado, o desejo virou realidade. Nada foi feito de propósito, mas o resultado é que Julieta ama Lili acima de todo o pelotão de Barbies e congêneres que povoam seu quarto. Outro dia, uma amiguinha dela, que possui meia dúzia de primos da Lili, feitos na mesma loja, achou estranhou tamanha predileção e comentou: “Julieta, não entendo porque você adora tanto essa Lili!”. Eu entendo.

14. A rainha da primavera

Rachel Carson foi a primeira pessoa a dizer ao grande público (nos anos 60) que os agrotóxicos não fazem bem a saúde das pessoas e dos ecossistemas.

Estou lendo “A Primavera Silenciosa”, de Rachel Carson, numa edição em inglês, já que está fora de catálogo no Brasil. Fiquei curiosa a respeito desse livro, publicado em 1962, porque vários artigos e entrevistas de gente fera em ecologia o citam como um marco no movimento ambientalista. O título se refere ao fato de que o inseticida DDT — na época considerado uma solução eficaz contra as pragas da lavoura – extermina os pequenos animais do solo e voadores, acabando com a melodia dos passarinhos na primavera.

Rachel foi a primeira pessoa a transmitir para fora do mundo acadêmico a mensagem de que os agrotóxicos causam imensos prejuízos para os ecossistemas e a saúde humana. Havia tanta inocência em relação a esses produtos que em 1945, segundo conta meu amigo e produtor orgânico Joop Stoltenborg em seu ótimo informativo, o governo holandês chegou a polvilhar com DDT em pó o corpo de todas as crianças (inclusive ele) para combater piolhos e sarna. Uma década depois da publicação de “A Primavera Silenciosa”, o veneno foi banido dos Estados Unidos. Mas, antes de vencer a batalha e já doente de câncer, Miss Carson, nossa heroína, foi vítima de uma campanha de difamação e acusada, entre outras coisas, de ser comunista e – acredite! – solteirona.

Para aumentar a produção de alimentos, após a Segunda Guerra Mundial todo o arsenal recém-descoberto de venenos passou a ser jogado nas plantações, sendo que várias substâncias eram originalmente armas químicas. Até certo ponto, houve sucesso, pois, sem os predadores naturais, as colheitas realmente foram a princípio mais fartas. No entanto, estamos pagando caro por essa opção até hoje…

Dá tristeza pensar que aquelas pilhas coloridas e apetitosas de frutas e legumes nos supermercados e feiras contêm muitos itens envenenados. Mas essa é a pura verdade. E não se trata de papo de ecoxiita. Em maio desse ano, a Anvisa (órgão do governo brasileiro vinculado ao Ministério da Saúde) publicou a avaliação de 1773 amostras de 17 tipos de vegetais vindos de diversos Estados. Nada menos do que 64% dos pimentões, 30% das cenouras, 19% das alfaces e 18% dos tomates estavam contaminados por inseticidas em níveis acima do permitido por lei.  

O Brasil ostenta atualmente o título de maior consumidor de agrotóxicos do planeta e aqui são comercializadas livremente diversas substâncias proibidas em outros países. Os exatos efeitos desses venenos sobre a saúde das pessoas e do meio ambiente são difíceis de aferir e há interesses econômicos poderosos contra sua divulgação. Intoxicações agudas acontecem sobretudo com trabalhadores rurais e, segundo dados de 2007 do Sistema Nacional de Informações Tóxico-Farmacológicas, naquele ano houve 9.670 casos, com 213 mortes. A revista Veja de 7/1/09 publicou uma matéria sobre a cidade de Jardim Olinda, no Paraná, onde nascem muito mais mulheres do que homens por causa da contaminação do lençol freático por agrotóxicos, fato que está ocorrendo também em outras regiões. Consumidas diariamente em doses homeopáticas, essas substâncias podem causar doenças hormonais, câncer, problemas neurológicos e má formação genética, pois são absorvidas pelo organismo, vão se acumulando ao longo da vida e estão presentes até mesmo no leite materno. 

Várias pessoas já me disseram que se recusam a pagar R$ 3 por um pé de alface e só vão experimentar os orgânicos quando o preço for o mesmo dos produtos convencionais. Entendo o interesse em reduzir a conta do supermercado, mas nessas horas penso no show de horror descrito no parágrafo acima e fico sem palavras.

13. Deixe sua mensagem após o bip

Os fabricantes de celular tentam dificultar ao máximo o conserto dos aparelhos. Se a gente joga fora o produto ao menor sinal de defeito, melhor para eles e pior para o planeta.

Na semana passada, com apenas seis meses de uso, meu celular pifou. O aparelho, um dos mais simples, foi “doado” pela operadora da qual sou cliente como forma de impedir que eu mudasse para a concorrência nos próximos 12 meses. Qual a coisa mais simples a fazer numa situação dessas? Jogar fora o telefone, ir à loja da operadora, pegar outro “de graça” e assinar novamente o papel com o juramento de fidelidade à empresa por mais um ano. Isso tomaria meia hora do meu tempo e ainda me garantiria um telefoninho brilhando de novo.

Acontece que, do ponto de vista do meio ambiente, a história não é nada simples, rápida, prática ou indolor. Se os celulares estão cada vez mais leves e pequenos, os problemas ambientais que causam se tornam a cada dia maiores e mais pesados. A consultoria inglesa Informa Telecoms & Media calcula que, em dezembro passado, tenhamos atingido a incrível marca de 4 bilhões de linhas de celulares em uso no planeta. Estimativas da empresa norte-americana ReCelllular, líder mundial na reciclagem desses equipamentos, indicam que 40 mil celulares são jogados fora todos os dias apenas nos Estados Unidos, acumulando 150 milhões por ano. Somente uma pequena parte dos aparelhos é reciclada (cerca de 6% em 2007, diz a ReCellular).

No Brasil, o número de celulares em operação chegou a 157,5 milhões em junho de 2009, segundo a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel). E não existem estatísticas oficiais sobre o destino dos aparelhos usados. Às vezes ficam esquecidos numa gaveta. Em alguns casos são vendidos ou trocados na compra do aparelho novo ou vão para as caixas de coleta que algumas lojas têm. Mas grande parte é jogada mesmo no lixo comum e acaba nos aterros sanitários poluindo a natureza por séculos com seus ingredientes supertóxicos como mercúrio, chumbo e cádmio.

Com essas informações na cabeça, não consegui simplesmente jogar fora meu celular. Procurei o fabricante (LG) e soube que existem apenas quatro locais numa cidade gigante como São Paulo onde eu poderia levá-lo para o conserto. Nenhuma deles perto da minha casa. Então, esperei quatro dias até conseguir uma brecha na agenda, peguei a nota fiscal e lá fui eu para o hospital dos eletrônicos. Como imaginava, não havia fila, já que é tão mais fácil jogar fora e arranjar um novo. Deixei lá o aparelho, que estava na garantia, e fui informada que dali a sete dias úteis (!) eles entrariam em contato para informar se o conserto foi bem sucedido. Ainda estou nessa fase de espera e em breve vou fazer nova peregrinação pelo trânsito paulista para buscar meu telefoninho. Enquanto isso, já avisei familiares, amigos e clientes que tirei férias do fantástico mundo da telefonia móvel. 

O lado bom? Minha querida irmã, Malu, compadeceu-se da situação e me trouxe um celular velho que estava encostado. Até ensinou a instalar meu chip nele. Por algum mistério da dimensão eletrônica, no entanto, não funcionou. Mas a atitude fofa da Malu já valeu muito mais do que a comodidade de ser interrompida pelo toque do celular a qualquer hora durante a próxima semana.

12. A limpeza que polui

O arsenal de limpeza comum é muito agressivo para o meio ambiente e para a nossa saúde. Eu indico produtos naturais e força muscular!

Brasileiro tem mania de limpeza, mas não gosta de pensar muito sobre o tema. E nem de colocar a mão na massa, pois nosso país é líder mundial na contratação de empregadas domésticas. Resultado: a natureza e nossa saúde sofrem bastante com alguns hábitos arraigados e nunca questionados. Para começar, rola muito desperdício de água. Na hora de lavar calçadas e quintais, por exemplo, a mangueira toma o lugar da vassoura e centenas de litros de água tratada são jogados fora para empurrar algumas folhas caídas. Falando nisso, nunca entendi para quê usar tanto produto e fazer tanta espuma onde dali a cinco minutos todo mundo vai pisar e o pneu imundo do carro vai entrar.

Na hora de comprar detergentes e desinfetantes, a regra costuma ser economizar ao máximo, sem preocupação com a procedência. Reproduzo aqui um trecho que está no site da Fundação Oswaldo Cruz, vinculada ao Ministério da Saúde: “Muitos produtos utilizados no ambiente doméstico são de fabricação clandestina e ilegal. Estes produtos, normalmente, são comercializados de porta em porta, com a promessa de serem ‘mais fortes e menos tóxicos’, além de mais baratos. Na realidade, por serem em geral mais concentrados, causam intoxicação com maior frequência e de maior gravidade que os fabricados legalmente”. E, pesquisando o assunto, descobri que mesmo os produtos de marcas famosas devem ser usados com moderação, pois podem conter componentes corrosivos e irritantes como fosfatos, EDTA, formol e NTA, alguns sob suspeita de serem cancerígenos.

De acordo com diversos estudos de medicina, o excesso de limpeza pode estar por trás do incrível aumento na incidência de alergia nas regiões industrializadas. A teoria é conhecida como “hipótese da higiene” e, se você ou alguém da família é alérgico, vale a pena pesquisar na internet sobre isso e rever alguns procedimentos de faxina.

Aqui em casa estamos implantando algumas mudanças. Para começar, dispensei a faxineira e estou assumindo a lavagem das roupas e boa parte da limpeza doméstica. Tenho usado pouca água, quantidades mínimas de sabão de coco ou sabão artesanal (aquele feito com óleo de cozinha usado) e mais músculos. Eliminei o amaciante de roupas há vários anos e não suporto aquele cheirinho químico nem de longe. Também estamos evitando colocar no cesto as roupas que podem ser usadas mais um pouco.  Tenho certeza de que é o caminho correto a seguir pelo bem do planeta e, sobretudo, para que o meio ambiente interno de casa fique menos poluído. 

Para quem está nessa transição, vale a pena conhecer os produtos da Cassiopéia, feitos com óleos vegetais, sem matérias primas derivadas do petróleo. Prefiro os limpadores líquidos Auxi (a versão concentrada do conhecido Bio Wash) que servem tanto para a faxina quanto para as louças. Vêm em embalagens de 1 litro que duram meses, pois para usar precisa diluir bastante em água. Dá para comprar pelo site: www.cassiopeiaonline.com.br.

Essa receita de detergente natural também é o máximo:

11. Ecossistema do guarda-roupa

Ter menos roupa é uma boa opção para diminuir nosso impacto pessoal no meio ambiente. Além disso, investir em poucas e boas peças ajuda a construir um estilo personalizado de vestir.

Olho para o meu armário e vejo peças feitas de algodão, couro, metal, plástico e borracha. Cada uma delas percorreu longa trajetória até estar pronta para me vestir. Penso em gigantescas plantações de algodão irrigadas dia e noite e no petróleo sendo extraído das profundezas do mar para ser colorido e moldado em formas fashion. Em seringueiros valentes, no meio da floresta tropical, extraindo a borracha que depois vai virar um calçado moderninho.

Por trás dos produtos pelos quais nos apaixonamos nas lojas existe uma complexa teia de relações econômicas, ecológicas, sociais e até emocionais. Incontáveis horas de trabalho e muitos recursos da natureza são investidos na fabricação de roupas. Verbas de marketing astronômicas são usadas para nos fazer desejar a última moda. Muito da nossa autoestima depende do que vemos no espelho quando nos arrumamos para sair. Razões obscuras fazem com que várias peças jamais sejam usadas. E, é bom lembrar, às vezes queimamos nossas reservas financeiras para abastecer o closet com uma profusão de itens.

Você já parou para pensar na quantidade de roupas que compra para si mesmo durante um ano?

Há algum tempo tomei susto por perceber quanta coisa eu trazia para casa em doses homeopáticas naquelas irresistíveis sacolas de griffe. O que me apavorou de verdade foi notar as montanhas de roupas “seminovas” que iam embora aos primeiros sinais de qualquer desgaste. Ou porque eu, a rainha do universo do consumo, tinha enjoado de tal look.

A ficha caiu quando, numa tarde de verão, quis vestir uma calça jeans branca. E não havia nenhuma no closet, embora anos atrás eu tivesse comprado tal peça nos Estados Unidos. Ocorre que, num daqueles surtos de renovação, eu tinha mandado embora a calça. Comprei outra, bem parecida, e decidi que passaria a tomar muito cuidado com essa história de doar roupas. Até porque acho um pouco indigno despejar nas pessoas pobres as coisas que a gente não quer mais. Para fazer uma boa ação real, mais vale presentear uma criança ou adulto carente com uma roupa nova. Ou, melhor ainda, pagar bem as pessoas que trabalham para nós, de modo que elas tenham uma folguinha no orçamento e possam exercitar suas escolhas fashion por si próprias.

 Ao restringir o descarte, mudei minha relação com shoppings e estabelecimentos afins. Agora, quando compro uma roupa, sei que vou me obrigar a viver com ela longos anos. Provavelmente até o dia em que realmente a peça esteja velha, puída, quase destroçada. Claro que não uso coisas em tal estado para passear ou visitar os clientes. Mas, para ficar em casa, roupa velha é a regra. Sem muita opção de enjoar daquilo que adquiri, passei a escolher muito melhor. A ter critérios mais perenes, baseados com meu estilo e tipo físico. As modas passageiras não me interessam. Muitas vezes, acabo gastando mais para adquirir algo de boa qualidade. Mas, como estou em busca de um casamento eterno e não de uma paixão volátil, o investimento vale a pena. De forma geral, vivo feliz para sempre as peças eleitas.

10. Semear. Regar. Adubar. Esperar. Colher.

Cuidar da horta aqui em casa é uma das coisas mais deliciosas que existem e não dá para explicar o prazer de comer uma salada colhida no quintal.

Pensando em reduzir o impacto ambiental da minha família e aprender na prática sobre agricultura orgânica, assim que compramos um terreno para construir nossa casa comecei a sonhar com a minha horta.

Infelizmente, perdi contato com meus amigos de adolescência que resolveram fazer faculdade de agronomia. Hoje em dia, convivo sobretudo com jornalistas, administradores de empresas, psicólogos, advogados e designers. Essa turma de profissionais urbanos não ajuda em nada a resolver as dúvidas da micro-agricultora aqui. O que são aquelas pintinhas amarelas nas folhas de rúcula? O que eu faço para o pepineiro não morrer? Por que só alguns pés de pimentão estão produzindo? É verdade que cascas de laranja não servem para fazer adubo? Tento pesquisar esses assuntos na internet e em suplementos agrícolas, mas a safra de informações não é muito abundante.

Com a horta, estou descobrindo um mundo totalmente novo. Encontrar uma minhoca revolvendo a terra, por exemplo, se torna motivo de grande alegria. Lagartas adoram comer couve. No auge do verão, muitas plantas sofrem e, quando esfria, elas ficam viçosas novamente. Demora uns três meses para colher cenoura. Sementes em geral são minúsculas e precisa ter a maior atenção para colocar uma só em cada buraquinho. Não é bom deixar a terra exposta ao sol e à chuva (por isso coloco em volta de cada planta a palha seca que sobra do corte da grama). Manjericão, alecrim, sálvia, erva cidreira e hortelã são fáceis de produzir e se revezam nas receitas aqui de casa. Formigueiros a gente extermina com água fervente e dá pena ver aquela comunidade ser massacrada para não destruir minhas saladas. Pés de abobrinha e berinjela precisam de mais espaço do que há nos canteiros suspensos: agora vou tentar plantá-los no chão. Ainda não consigo organizar muito bem a época da semeadura para ter sempre o que colher.

O mundo agrícola parece o mundo do consumo de cabeça para baixo. Nada é imediato, dinheiro tem pouco valor e lixo não existe. As sobras de vegetais da cozinha e do jardim vão para um buraco na terra (a composteira) onde se transformarão em adubo, reiniciando o ciclo da vida. Esterco de gado é um ótimo presente (!). Ganhei uma porção da minha sogra fazendeira e, inicialmente, a ideia de mexer em cocô de vaca me deu a maior aflição. Demorei semanas para abrir o primeiro saco, mas agora misturar esse material com a terra é uma parte trivial da rotina.

 De manhã, adoro espiar na sementeira os novos brotos saindo da terra. A Rose, que trabalha aqui em casa, é especialista em regar. No final da tarde, sempre que possível, deixo os projetos dos clientes descansarem um pouco e faço o “serviço pesado de camponesa” que for necessário naquele dia. Isso significa, entre outras tarefas, pegar na enxada para revirar a composteira, transplantar mudas ou fazer adubação. E tudo isso acontece diariamente no meu quintal, em pela metrópole!

9. A melhor festa de aniversário

Fez muito sucesso aqui em casa comemorar o aniversário dos filhos com os amigos mais queridos, sem superprodução, sem lembrancinhas e sem aqueles milhões de produtos descartáveis .

Alex e Julieta, meus filhos gêmeos, são experts em aniversários. Se os buffets e os animadores infantis tivessem programas de milhagem, provavelmente eles receberiam um daqueles cartões dourados. Outro dia, conversávamos sobre o assunto quando perguntei qual foi a melhor festa que eles tiveram. Ambos escolheram a mais recente, de sete anos. Está certo que, na memória das crianças, os acontecimentos próximos tendem a ser recordados com mais emoção. Mesmo assim, fiquei agradavelmente surpresa com a resposta. A última comemoração, além de bastante ecológica, foi bem econômica.

Na verdade, aconteceram dois eventos, pois pela primeira vez eles escolheram comemorar separadamente. Alex quis convidar apenas o grupo de meninos da classe para jogar futebol numa quadra alugada perto de casa, um lugar bem simples. Era junho, fazia frio e garoava. Pegamos a garotada na escola de micro-ônibus e lá fomos nós junto com o aparato: bolo, doces, salgados, jogos de tabuleiro (que temos em casa) e várias toalhas para secar os garotos e evitar devolvê-los gripados às famílias. Meninos dessa idade em geral amam jogar futebol e foi só o que fizeram durante três horas e meia seguidas. Reclamaram até de ter que para e cantar parabéns. Assim que se ouviu o “bum” do “rá-tim-bum”, aliás, já estavam todos de volta ao campo.

A festa da Julieta foi em casa e em sociedade com a Ludmila, uma colega da classe que faz anos na mesma semana. Eu e a Cris, mãe dela, nos associamos no planejamento e rachamos as poucas despesas (bolo, brigadeiros, salgadinhos, sucos, refrigerantes, papéis, canetinhas coloridas e tintas). No Dia D, a dupla de mães foi a pé buscar a classe que o micro-ônibus já aguardava na porta da escola. A decoração consistiu em alguns balões e uma sala livre de móveis e tapetes para deixar o espaço livre. As crianças se esbaldaram com correrias no quintal, se divertiram com os brinquedos e jogos do acervo familiar e também com a oficina de arte com sucatas. O grande momento da noite foi a contação de histórias, performada pela Luciana, tia da Ludmila, que é atriz professora de artes. Depois que os convidados foram embora, as crianças nos ajudaram a dar um jeito na bagunça. Uma das fotos do evento mostra, inclusive, as meninas varrendo o chão.

Toda essa simplicidade parece um tanto exótica nos dias de hoje. Mas fez sucesso. Acredito que o fato de os adultos da família terem se empenhado bastante na organização e no relacionamento com a garotada tenha sido importante. E quer saber de uma coisa? A gente também se divertiu.

8. Somente o necessário

Compras demais, objetos demais e importância demais para os gadgets eletrônicos estão desviando a atenção daquilo que realmente vale a pena: aproveitar a convivência com as pessoas de quem a gente gosta.

No mês passado, fui comemorar o aniversário de uma amiga solteira num bar com música ao vivo. Na autêntica balada (programa raro para mim hoje em dia) o que mais chamou a atenção foi a quantidade de gente se fotografando com o celular em pose de contorcionista. Um minuto dançando, clic. Chegou alguém, clic. Beijo no namorado, clic. Hora do bolo, clic. Começou o show, clic. O pessoal na mesa, clic. Voltei para casa pensando no destino de tantas imagens digitais. Trocas de e-mail? O Orkut? O esquecimento completo? Para o meu gosto, a noite teve muita parafernália eletrônica e pouco olho no olho.

Numa bela tarde, fui visitar outra amiga, que está esperando o primeiro filho. Ela fez questão de mostrar o quarto do bebê, as roupinhas, os brinquedos, a babá eletrônica, os bichinhos de pelúcia, os presentes que já chegaram, o berço, a coleção de sapatinhos etc, etc. Tudo tão lindo e de bom gosto que os outros assuntos simplesmente não vingavam. Uma pena. Seria interessante discutir os sentimentos que rolam quando a gente está grávida. Já passei por isso e gosto de trazer à tona lembranças e trocar experiências. Já os tais sapatinhos – que talvez nem sejam usados – se tornarão inúteis quando os primeiros meses de vida do bebê, exaustivos e maravilhosos, passarem. E aí ficarão vagando pelo mundo durante décadas (ou séculos, se tiverem plástico na composição). Perto da grandeza daquele momento na vida da mulher e da criança, a importância dos equipamentos chiques é praticamente nula. Mas os objetos estavam no centro das atenções enquanto conversávamos.

Nós três – minha filha de sete anos, sua colega e eu – almoçávamos num dia qualquer. A convidada estava entusiasmadíssima com sua coleção de mochilas de uma marca cara e muito apreciada pelas crianças. Entusiasmada não: quase histérica! Falava alto sobre como tinha sido a recente incursão ao shopping para adquirir mais uma. Dava pulinhos de alegria ao enumerar as cores, os modelos, os brindes. A comida esfriava e minha filha já estava começando a se sentir por baixo, já que ela tem “só” uma peça da tal grife. Decidi conversar com elas sobre o fato de ser muito bom possuir algo bacana. No entanto, como isso está longe de ser a essência da vida, melhor não idolatrar as coisas.  

Agora o papo era com mães de adolescentes. Uma delas contou que o único lugar onde seus filhos podem passear livremente é o shopping. Com medo de deixá-los em lugares públicos por causa da criminalidade, sua saída foi incentivar programas completos por ali: cinema, lanche, compras, salão de beleza. Então o grupo todo começou a falar de lojas, liquidações e temas afins.

Já se sabe que não será possível alcançar a sustentabilidade com o nível atual de consumo. Teremos então que rever nossos hábitos, nossas palavras e nossos pensamentos. Inevitavelmente, isso significará abandonar excessos e tomar para si “somente o necessário”, lema do urso Baloo, amigo do Mogli. Aliás, esse clássico é uma ótima dica de filme para alugar e ver com as crianças, sentindo o encanto de uma vida menos aparelhada.

7. Vida plastificada

As sacolas plásticas talvez sejam a maior praga do nosso tempo. Tímidas iniciativas de reduzir o seu uso estão por aí mas, se continuarmos no ritmo atual, vamos acarpetar o Brasil de plásticos.

Nunca me passou pela cabeça que algum dia sentiria falta das aulas de química orgânica que cabulei no colegial. Mas foi exatamente o que aconteceu quando resolvi pesquisar na internet por que as sacolinhas plásticas se tornaram inimigas do meio ambiente. Cavando entre expressões como “cadeias de carbono” e “petro-polímeros”, descobri que o primeiro plástico sintético foi patenteado em 1855 pelo inglês Alexander Parkes. E logo soube que provavelmente as obras de Mr. Parkes ainda devem estar inteirinhas por aí, já que o prazo estimado para que esse tipo de material se desfaça é de no mínimo 200 anos. Alguns sites chegam a falar em vestígios que duram mais de mil anos. A minha dúvida é: como eles sabem isso, já que, desde a invenção da tal coisa, ainda não se passaram nem dois séculos?

A triste realidade é que não só os diamantes são eternos e as sacolas plásticas protagonizam um verdadeiro filme de terror:

  • Calcula-se que entre 500 milhões e um trilhão delas são fabricadas todos os anos no mundo;
  • Menos de 1% dos sacos é reciclado, por uma simples questão matemática: uma tonelada do produto é vendida por cerca de 32 dólares e, para reciclar a mesma quantidade, o custo é centenas de vezes maior;
  • Os oceanos já estão contaminados com cerca de 46 mil sacos plásticos por milha quadrada, responsáveis pela morte por asfixia de grande quantidade de animais marinhos.

Se eu já tinha alergia aos tais saquinhos, esse banho de informação me deixou à beira do pânico. Há mais de 10 anos costumo recusar sacos plásticos em lojas. No supermercado, pego as frutas uma a uma e levo para pesar sem embrulhar. Depois as compras viajam até a despensa em velhas sacolas de lona.

Só que os saquinhos estão vencendo a guerra e continuam brotando em todos os cantos. Praticamente tudo o que entra em casa vem compulsoriamente plastificado. Jornais, revistas, pão de forma, presentes de aniversário e até os vegetais da cesta orgânica! Nenhum deles é jogado fora sem antes ser utilizado. Os grandes embalam a sucata destinada ao caminhão da coleta seletiva. Os pequenos viram lixo de banheiro ou guardam peças dos brinquedos das crianças. Com eles recolho o cocô do meu cão, Nino. Também forneço saquinhos para passeadores de cachorro fazerem o mesmo por seus clientes. E o estoque nunca acaba…

Sinceramente, não sei o que acontecerá se a invasão das sacolinhas não for contida. O governo de Bangladesh, depois de enchentes devastadoras devido ao entupimento da rede de esgotos por sacos plásticos, decidiu bani-los. Na China, a distribuição gratuita de sacolinhas pelo comércio já foi proibida, assim como na cidade de São Francisco. A Irlanda criou um imposto sobre essa praga e seu consumo caiu 90%.

E nós, o que estamos esperando para fazer alguma coisa e evitar que nossos filhos recebam de herança um mundo forrado de sacolas plásticas?

6. Livros para devorar

Michael Pollan é o cara. Vale muito a pena ler “O Dilema do Onívoro” e “Em Defesa da Comida”, que ele escreveu para mostrar o que o conteúdo do nosso prato tem a ver com o futuro do planeta.

Toda vez que eu abro a geladeira, escolho um prato no restaurante ou faço a lista de supermercado, estou me intrometendo no que acontece em lugares muito distantes do meu bairro. Nunca fui a Mossoró, no Rio Grande do Norte, mas é por minha causa que lá se plantam melões e mangas. Também ainda não conheço o Chile, mas suas fazendas de salmão foram criadas para atender à minha vontade de comer sushi. O pessoal do Mato Grosso trabalha duro, muitas vezes derrubando floresta, para aumentar as pastagens dos bifes que sirvo para meus filhos.

Pensar na produção de alimentos em escala industrial me deixa bem angustiada. Não gosto de imaginar aviões despejando agrotóxicos, campos de confinamento de gado e aves, montanhas de dejetos, doses maciças de antibióticos e hormônios sendo aplicados nos animais e colheitadeiras gigantes arranhando a terra. Se lembrar disso tudo a cada garfada, perco o apetite. Outro dia, conversando com amigas, ensaiei um comentário a esse respeito quando uma delas disse: “Sobre essas coisas é melhor não pensar”. E o assunto morreu na minha boca. Mas não saiu da cabeça.

Sempre me interessei em saber de onde vem o que coloco no prato. Por isso, O Dilema do Onívoro e em Defesa da Comida, dois ótimos livros do jornalista norte-americano Michael Pollan, foram para mim uma verdadeira viagem no tempo e no espaço. Da pré-história à época das vitaminas sintéticas. Das plantações de milho astecas à granjas de frango que virarão nuggets no jantar das crianças.

Meu amigo Pollan passa longe do estilo sombrio e ameaçador de muitos ativistas ambientais. Ele usa o melhor da objetividade da cultura americana para criar, com o bom humor possível, um amplo painel sobre os avanços científicos, as mudanças sociais e ambientais que foram necessários para alimentar a humanidade a partir da revolução industrial. Em O Dilema do Onívoro, MP investiga com brilhantismo o DNA do brekfast, lunch e dinner dos americanos. E, como nosso cardápio hoje em dia tem muito mais hambúrguer e cookies do que couve refogada e pamonha, muito do que ele retrata se aplica também à realidade brasileira. Pollan — que trabalhou alguns dias numa fazenda alternativa, caçou javali e até comprou um bezerro para fornecer carne ao McDonalds — tem muita história saborosa para contar. Já Em Defesa da Comida é um manifesto contra a neurose de contabilizar calorias e acreditar em modismos pseudocientíficos. Ele propõe buscar nas antigas tradições culturais e nos alimentos in natura a solução para ter mais saúde e deixar um planeta em melhor forma para nossos filhos. Esses livros, na verdade, invadem o território da filosofia, pois defendem o ponto de vista de que os problemas ecológicos atuais são consequência de desprezarmos o caráter sagrado dos alimentos. Vale a pena conferir.

PS – Felizmente, dá para usufruir de alimentos com maior qualidade ambiental, nutricional e ética se a gente se dispuser a estudar o tema e garimpar bons fornecedores. Mas isso é assunto para outra conversa…