35. O engodo do marketing verde

Sustentável é uma palavra fácil de escrever e um conceito muito difícil de praticar. Desconfie dos produtos que se dizem ecológicos.

A revista de grande circulação ia fazer uma matéria especial sobre “consumo verde”. Um amigo me indicou para ser entrevistada. O fotógrafo veio antes e fez alguns retratos em que eu aparecia no jardim, cercada de plantas. A primeira pergunta da jornalista foi algo como: “O que você compra quando quer ser ecológica?”. Não consigo lembrar as palavras exatas da questão, mas era um paradoxo com ponto de interrogação no final.

Respirei fundo e respondi: “Quando quero mesmo ser ecológica, não compro nada”. O feng shui da entrevista desandou. Tentei me salvar explicando que nenhum produto transportado, embalado e frequentando prateleiras de uma loja consegue ser 100% sustentável. Listei a cesta de vegetais orgânicos do Sítio A Boa Terra (www.aboaterra.com.br) como as coisas mais ecológicas que minha família consome. Naquela época, eu ainda não tinha horta, não fabricava em casa alguns produtos de limpeza naturais nem fazia compostagem. Fosse hoje, continuaria minha declaração por aí. Inutilmente…

Dias depois, abro a tal revista. Eu não estava lá. Com foto em página dupla, uma mulher contava que comprou uma calça jeans e, ao chegar em casa, o filho adolescente perguntou se aquela marca cuidava de golfinhos ou baleias. A eco-cidadã não soube responder. E passou a consumir marcas relacionadas a projetos ambientais, para ficar  quites com a natureza.

Esse foi o melhor exemplo que já vi da eficiência do greenwashing — expressão que define os artifícios das empresas para pegar carona no apelo de venda da ecologia sem mexer de fato com seus sistemas de produção que detonam a natureza. Em geral, significa fazer ações pontuais não relacionadas com a própria área de atuação. Tudo bem grife de moda ajudar animais em extinção, petrolífera patrocinar concurso de eco-fotografia, banco usar papel reciclado em talão de cheques. Mas seria melhor que a primeira deixasse de empregar mão de obra semi-escrava, a segunda tomasse precauções mais eficientes contra vazamentos (para dizer o mínimo) e o terceiro se recusasse a financiar setores da economia comprovadamente predatórios.

Quando se trata de marketing ecológico, vê-se que nem é preciso agir. Basta pintar de verde a embalagem, colocar bastante mato e passarinho no comercial de TV ou batizar o produto com um nome pró-ambientalismo.

Aí junta a fome com a vontade de comer. A maioria dos consumidores anda assustada com os problemas do planeta, mas não quer mudar seus hábitos. Comprando itens que parecem ecológicos, sentem que já fizeram sua parte. Se quiser saber mais sobre o greenwashing, veja a ótima matéria da Página 22 (publicação do Centro de Estudos de Sustentabilidade da FGV que está disponível na internet): http://pagina22.com.br/index.php/2010/07/que-historia-e-essa/.

Sustentável é uma palavra fácil de escrever e um conceito muito difícil de praticar. Tudo o que consumimos tem algum impacto negativo na natureza. Exceções são muito raras. A simplicidade voluntária é um caminho interessante (não consigo pensar em outros) para reduzir a herança maldita que cada um de nós deixará no planeta. Existem ótimos sites sobre o assunto, vale a pena pesquisar.

34. Tá quente ou tá frio?

Tem gente dizendo que o aquecimento global é uma farsa. Tem gente dizendo que a poluição química não é um problema. Nós vamos pagar para ver?

Viajei durante alguns dias e estive no Parque Nacional do Itatiaia. Bem alto, bem frio, bem lindo.  As montanhas ficam acima das nuvens e o Vale do Paraíba parecia coberto de algodão. De volta a São Paulo, calor seco e ardido em pleno julho. Por e-mail, uma amiga confessa seus dilemas em relação ao aquecimento global. Seria uma farsa? Ela viu o documentário dos céticos (http://www.archive.org/details/TheGreatGlobalWarmingSwindle) e ficou encafifada.

Minha amiga pergunta se eu acho que é culpa do homem o planeta estar esquentando. Não tenho nenhuma condição de opinar na polêmica científica internacional em torno do clima. E mesmo os estudiosos parecem perdidos no meio da tempestade de dados que eles mesmos produzem. 

A ciência é baseada em experimentos replicáveis. Idealmente, todas as variáveis precisam ser aferidas e controladas. Isso não acontece em relação ao clima. O sistema é complexo demais, impossível de reproduzir em laboratório. 

A investigação mais ampla a esse respeito foi realizada pelo IPCC (Intergovernmental Panel on Climate Change, criado pela Organização Meteorológica Mundial e o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente – PNUMA). O relatório divulgado em 2007 é tão contundente que gerou reações dos grupos que se autodenominam céticos do clima. Por outro lado, estou acompanhando o escândalo dos cientistas flagrados trocando e-mails em que se incentivavam mutuamente a exagerar nos alertas. Lamentável…

Tendo a concordar com o pessoal do IPCC que a atividade humana está causando a bagunça no clima. Mas certeza não dá para ter. Esse pode ser um fenômeno natural que daqui a pouco passa.  Pode ser que até o final do século a temperatura global suba menos de 2 graus, o que vai ser mais ou menos tranquilo. Mas pode ser que suba 6, o que seria catastrófico. Pode ser isso, pode não ser aquilo e assim vamos.

Em regiões delimitadas (a cidade de São Paulo, por exemplo), a gente sente na pele que a retirada da cobertura vegetal e as descargas dos escapamentos levaram ao aquecimento e ao aumento dos eventos extremos, como secas, ventanias e tempestades. No campo, a devastação da mata faz a água sumir. Tira-se a vegetação, as nascentes desaparecem, a capacidade da terra de fazer reservas em forma de lagoas, rios e mangues também vai embora. Nos lugares rurais pobres da África isso significa que a lavoura e os animais morrem. E as pessoas muitas vezes em seguida, de fome.

Soube numa eco-palestra que os fazendeiros australianos só toparam manter algumas áreas com florestas quando viram fotos de satélite em que as áreas desmatadas eram desérticas e, ao lado, as áreas com florestas eram úmidas.

Pena que, quando se trata de questões ecológicas, o princípio da precaução em geral não é adotado. Tenho estudado um pouco problemas relacionados à poluição química. Assusta. E ninguém dá bola. As indústrias e os governos se apegam nas possibilidades de dúvida sobre as substâncias artificiais fazerem ou não mal para continuar colocando-as nas coisas. Pode ser que câncer, problemas hormonais etc nada tenham a ver com isso. Mas é pouco provável. A polêmica já tem quase 50 anos. O livro que inaugurou o moderno ambientalismo se chama “Primavera Silenciosa” e fala sobre o DDT (escrevi sobre a obra e sua autora no post 14 – A rainha da primavera).

Outro dia eu estava conversando com o Marcelo Furtado, diretor do Greenpeace no Brasil. Ele é engenheiro químico e dizia que existem cerca de 100 mil compostos químicos fabricados pelo homem circulando por aí. Os “testes de segurança” para liberar o consumo dessas coisas são muito superficiais. E ninguém checa a ação conjunta dessas moléculas. De modo que a humanidade toda vive um grande experimento, sem saber no que vai dar. Será que alguma hora acontecerá uma tragédia de grandes proporções? Conseguiremos despoluir quimicamente o ar, a água e a terra? Será que situações pontuais de envenenamento e morte de trabalhadores agrícolas, operários e outras pessoas sensíveis a essas fórmulas não são suficientes para repensar essas políticas? Ninguém quer falar sobre isso.

Com o clima acho que é mais ou menos a mesma coisa. Há uma pressão para acharmos que o mundo superindustrializado, hipermotorizado, sem florestas e encharcado de produtos químicos vai muito bem e que não é preciso mudar nada. Há uma pressão para aceitarmos que as pessoas com mais dinheiro (nós) consumam quase todos os recursos naturais e que os pobres mais pobres vivam sem ter acesso sequer à água potável.

Eu discordo de quem pensa assim.

33. Vou até ali e já volto

Descobri que esse negócio de fazer blog vicia… Durante uma semana estarei viajando, mas deixo com vocês os posts anteriores, organizados por tema. Para encontrá-los, é só digitar o título na caixa de busca e depois clicar na chamada quando aparecer.  Ou usar a numeração como referência, ir lendo mais para baixo e acessar as páginas “older entries”. Na volta, terei várias novidades.

POLÍTICA
14. A rainha da primavera
17. Voto sustentável
24. Eco-sessão da tarde

CONSUMO
2. Encaixotando tudo
5. Por que uma super-power-over-festa?
8. Somente o necessário 

MODA
1. Pensamentos no varal
11. Ecossistema do guarda-roupa
19. Roupas com história

ALIMENTAÇÃO/HORTA/ORGÂNICOS
3. De volta às origens
6. Livros para devorar
10. Semear. Regar. Adubar. Esperar. Colher.
25. O mar não está para peixe
29. Churrasquinho de mato
30. Entrevista com o leiteiro
31. A safra de tomates

EDUCAÇÃO
9. A melhor festa de aniversário
15. O brinquedo preferido
18. Um dia no brechó escolar
32. Tempo de espera

POLUIÇÃO/LIXO/RECICLAGEM
4. PETs de estimação
7. Vida plastificada
12. A limpeza que polui
20. Reciclando problemas
21. Mais vale reduzir e reutilizar

ESTILO DE VIDA
16. Manual da Ambientalista em Férias
23. Ianomâmis são sustentáveis. Eu não.
24. Momento embrulhado para presente
26. Um feriado que precisamos inventar
28. Cidade das bicicletas

TECNOLOGIA
13. Deixe sua mensagem após o bip
22. Celuless

32. Tempo de espera

O imediatismo é a lei hoje em dia. Por isso, a gente consome, consome, consome e nunca fica saciado. Faria muito bem para o nosso coração e para o planeta filtrar os desejos e jogar fora os meros impulsos sem significado.

Outro dia, minha filha cismou que queria uns lápis de cor especiais. Como acontece com toda criança, o desejo veio urgente, incontrolável e apimentado pelo fato de que algumas amigas da escola já possuíam aquele item. De um momento para o outro, Julieta precisava desesperadamente dos tais lápis e, sem eles, a vida parecia perder o sentido.

Tentando dialogar com ela, lembrei de todas as vezes em que eu já quis algo com muita urgência e de como é difícil até respirar quando se vive nesse estado. Continuo tendo desejos súbitos, que os anos me ensinaram a domar. É isso que nos faz adultos, não é?

“Seu aniversário é só daqui a um mês e você já tem vários lápis de cor. Não está na hora de dar presente”, eu disse. “Mãe, eu vou comprar com a minha mesada”, ela respondeu. “Então tá, amanhã vamos à papelaria”, negociei.

No dia seguinte, conforme combinado, percorremos a pé o bairro em busca dos lápis de cor neon. Só que, nos três lugares em que procuramos, não havia. Julieta ficou muito brava e despejou toda a frustração em mim. Queria ir de carro a uma loja maior. Eu disse que naquele momento não ia dar (e não ia mesmo, pois eu tinha outro compromisso). Brigamos.

Mais tarde, quando ela se acalmou, fui abraçá-la e nos enroscamos nos bichinhos de pelúcia que vivem em sua cama. Tivemos uma das melhores conversas dos últimos tempos. Eu disse que esperar por algo que a gente quer muito é difícil, mas só desse jeito o amor pode crescer. Comecei a falar sobre os nove meses de espera para que ela e o Alex (seu irmão gêmeo) nascessem. Curti a preparação do quarto e das roupinhas de bebê, fiz planos, sonhei com o futuro da nossa família. “Se os bebês viessem ao mundo de um dia para o outro, teria menos graça. Esperar por um presente, uma festa, uma viagem dá mais sabor àquilo que a gente vai experimentar”, concluí. E ela entendeu.

É uma pena que o imediatismo impere nos dias de hoje. Como resultado, a gente consome, consome, consome e nunca fica saciado. Faria muito bem para o nosso coração e para o planeta cultivar o tempo de espera. Ir filtrando os desejos para perceber quais são verdadeiros e quais são meros impulsos sem significado. E, ao alcançar o que foi sonhado, espremer cada gota de satisfação. Se a gente conseguir ensinar isso para os filhos, talvez fique mais fácil, lá na frente, escapar das compulsões, seja por drogas, comida, jogos eletrônicos, sexo casual ou qualquer outro comportamento de risco.

Os lápis neon, que no dia seguinte compramos, já produziram alguns desenhos bonitos. Custaram R$ 11,30. A conversa que eu e a Julieta tivemos sobre esperar o amor crescer vale infinitamente mais.