57. Fechando para balanço

Em 2010 a preocupação com o meio ambiente aumentou, mas os seres humanos estão consumindo os recursos naturais com maior voracidade.

Outro dia me perguntaram se eu estava otimista, pois só se fala em ecologia. Não soube dizer. Verdade que os temas ambientais vêm causando menos rejeição. E que o nível de consciência das pessoas cresce. Em termos supermacro, esse ano tivemos a conferência da biodiversidade em Nagoya e do clima em Cancún. Finalmente, parece que os governos começam a se mexer, ainda que devagar-quase-parando.

Ocorre que o processo evolui de forma paradoxal e absurda como só a realidade consegue ser. 

Se por um lado as pessoas se preocupam mais com o futuro do planeta, por outro as engrenagens do consumo nunca giraram tão rápido. No Brasil, a boa maré econômica se traduz em boom na construção civil, compras e mais compras, viagens e mais viagens. A indústria automobilística, por exemplo, bateu o recorde histórico de produção em 2010: 3,3 milhões de veículos chegaram às ruas (sem contabilizar ainda as vendas de dezembro). Grandes fatias da população dos chamados países emergentes passaram a comer mais carne, aumentando a pressão para transformar floresta em pasto e plantação de soja. Sem falar da flatulência bovina, que por si só agrava o aquecimento global.

Longe de mim reclamar disso. Se existem muitas pessoas saindo da pobreza, devemos comemorar. Viver numa casa decente, comer três refeições por dia, ter acesso à água potável e ao lazer faz parte dos direitos humanos. Só que o mundo tem gente demais e, se formos acomodar todos num patamar superior de consumo, o grau de conforto dos privilegiados (grupo que inclui eu e você) vai diminuir.

Uma alternativa sensata é dissociar o consumo do bem-estar e da autorealização. Se nos concentrarmos no essencial, será possível diminuir a produção do que é supérfluo (ou seja, quase tudo) e preservar os recursos naturais. Isso implica em um novo modelo econômico a ser criado, não sei como. Utopia delirante? Pode ser.

Respondendo à pergunta do começo, o que me dá otimismo mesmo é existir uma rede de pessoas buscando outro estilo de vida e questionando os valores consumistas que ainda predominam.

Esse é o último post que escrevo em 2010. Começo agora uma pausa para curtir a família, ler muito, cuidar da horta e, luxo máximo, não fazer nada. Mas, por falar em rede, deixo vocês em ótima companhia, recomendando o blog De Verde Casa, da minha amiga virtual Juliana Valentini. Aí vai o link: http://www.deverdecasa.com/

Até 2011!

56. Para as crianças, menos consumo e mais natureza

Nesse Natal, em vez de entregar algo feito de plástico potencialmente tóxico, que tal oferecer como presente uma brincadeira perto da natureza? 

Estamos naquele momento febril do ano e comprar parece inevitável. Numa sociedade em que os antigos rituais religiosos foram substituídos pelo consumismo, Natal só é Natal se tiver muitos pacotes de presentes. Especialmente para as crianças.

Meus filhos já têm nove anos e muitas das geringonças complicadas que ganharam no passado estão empoeirando no armário. Como seus companheiros de geração, eles têm fascínio pelo trio TV/videogame/computador. Mas, nos momentos unplugged, preferem brincar com acessórios mais simples, como corda, bola, cartas de baralho, lápis e papel, tampinhas de garrafa e outras sucatas.

De um lado, observo que as crianças de hoje têm brinquedos demais e pouco tempo ou paciência para brincar. Do outro, percebo que são rodeadas por adultos ansiosos por presentear, mas sem disponibilidade para lhes dedicar tempo. No ótimo documentário “Criança, a Alma do Negócio” (http://www.youtube.com/watch?v=rW-ii0Qh9JQ) , de Estela Renner, numa cena a entrevistadora pergunta a um grupinho: “O que vocês preferem: brincar ou comprar?”. A ida ao shopping ganhou a eleição de lavada. Sem dúvida alguma, um empobrecimento da infância já que, dizem os especialistas, é brincando que os pequenos elaboram sentimentos e constroem a si mesmos.     

Sugestão: nesse Natal, em vez de entregar algo feito de plástico potencialmente tóxico, que tal oferecer como presente uma brincadeira perto da natureza? 

A psicanalista Lucia Paiva, amiga de longa data, me apresentou há alguns anos o fascinante universo de Jean Piaget. De acordo esse grande estudioso do desenvolvimento humano, crianças entre dois e seis ou sete anos de idade estão na “fase pré-operatória”. Nessa etapa, a fantasia toma conta e vem daí aquela paixão pelos contos de fada. Realidade e sonho se misturam. Tudo o que existe ganha sentimentos: objetos, lugares e fenômenos naturais. São comuns atitudes como colocar os brinquedos para dormir ou achar que a cadeira se machucou porque caiu. Também há a ideia de que todos os acontecimentos do universo são criação humana. Um exemplo: Sabrina, minha sobrinha, outro dia viu a lua minguante e perguntou quem mordeu o outro pedaço (rs).

Na primeira infância, nada é mais maravilhoso do que descobrir a natureza. Então, quando estiver num eco-momento com uma criança, mostre o meio ambiente que a rodeia. A começar pelos bichos que estão perto ou aparecem nos livros e filmes. Deixe-a sentir a chuva, ouvir vento, assistir ao pôr do sol. Aponte o cume das montanhas, a forma das nuvens, as ondas do mar. Deixe a imaginação de ambos voar e trazer explicações malucas. Não transforme o encontro numa aula: simplesmente divirtam-se!

 A sensibilidade para o fato de que nós e a natureza somos uma coisa só surge a partir de singelas experiências cósmicas. No futuro, esse ser humano será mais receptivo às informações relacionadas à sustentabilidade e mais disposto a participar de ações em favor do meio-ambiente. E é de pessoas assim que a humanidade está precisando.

55. Brinquedos envenenados

Os badulaques pirateados que viram presentes infantis contêm substâncias muito perigosas para a saúde e para o meio ambiente. Passe esse alerta adiante, pois o assunto é sério.

O Natal está chegando e os brinquedos muito baratos nunca pareceram tão irresistíveis. Mas a saúde das crianças corre risco. Infelizmente, os fabricantes piratas simplesmente ignoram as recomendações da Organização Mundial da Saúde e de outros órgãos reguladores para conseguir lucros vendendo mercadorias a preços baixíssimos. Essas empresas desonestas acrescentam os ingredientes à vontade, sem se preocupar com a possibilidade de envenenamento dos pequenos consumidores.

Uma edição de 2007 da Revista da Fapesp, disponível online, fala sobre o recall de 1 milhão de brinquedos nos Estados Unidos devido ao excesso de chumbo. Reproduzo aqui o trecho que explica o motivo: “O cérebro em desenvolvimento é extremamente sensível a esse metal e o contato, mesmo que em pequenas quantidades, pode diminuir o quociente de inteligência (QI), promover déficit de atenção e auditivo, o retardo do crescimento e até danos renais”. Se quiser conferir na íntegra, o link é http://revistapesquisa.fapesp.br/?art=4164&bd=2&pg=1&lg=. Nunca ouvi falar desse tipo de recall no Brasil, até porque aqui grande parte desses produtos envenenados são provenientes de contrabando e circulam no comércio informal, onde os direitos do consumidor não existem.

A Folha de São Paulo ouviu o Inmetro em outubro de 2006 e noticiou algo ainda mais alarmante: empresas chinesas estavam usando até lixo hospitalar reciclado como matéria prima de brinquedos (http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u126936.shtml). E recentemente assisti a uma palestra da pesquisadora da USP Tereza Cristina de Carvalho, que é coordenadora geral do CEDIR (Centro de Descarte e Reúso de Resíduos de Informática). Ela estava alarmada com o fato de as crianças manipularem brinquedos eletrônicos contendo pilhas piratas, que possuem dezenas de vezes mais mercúrio do que as pilhas certificadas, além de outras substâncias tóxicas como chumbo e o cádmio. As pilhas podem vazar ou explodir devido ao seu mau uso, causando danos muito sérios.

Para piorar a situação, os brinquedos envenenados não aparecem só no Natal, Dia das Crianças e aniversários. Vivemos uma época em que as crianças são presenteadas o tempo todo com tralhas descartáveis de qualidade cada vez pior. Esse tipo de lixo inunda festas infantis, festas juninas, gincanas e promoções de lojas. Todo dia é dia e toda hora é hora de dar para uma criança um objeto baratinho que vai quebrar em cinco minutos e passar centenas de anos contaminando o meio ambiente.

Esse texto foi publicado originalmente na minha coluna (“Sustentável Leveza de Ser”) da revista Pais & Filhos, edição de novembro de 2010.

54. Notícias do front

O ponto de partida da busca da sustentabilidade é a consciência de que somos cidadãos planetários e devemos respeitar todas as formas de vida. A começar pelas pessoas. Quando policiais cometem crimes, traficantes ameaçam famílias de soldados e muita gente se diverte metralhando bandido num videogame, podemos guardar para outra hora as manchetes de triunfo .

O jornalista Plínio Fraga, da Folha de São Paulo, assina uma matéria excelente (“Tudo isto é complexo”) sobre o dia-a-dia de moradores do Complexo do Alemão após a chegada da polícia. Se você é assinante da Folha ou do UOL, aí vai o link: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff0112201018.htm. Mais sobre o assunto em http://noticias.uol.com.br/cotidiano/2010/12/01/moradores-do-alemao-relatam-arrombamentos-de-casas-vazias-revistas-repetidas-e-humilhacao.jhtm. Os relatos incluem corrupção, humilhações variadas, achaques, arrombamentos, furtos e ameaças de estupro. Todos esses crimes cometidos pelas forças policiais que foram saudadas como a redenção da pátria.

Em outras favelas, militares são impedidos de voltar para casa porque traficantes os ameçam de morte e mantêm suas famílias sob terror (http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/839541-militares-que-moram-em-favelas-sao-expulsos-de-casa-pelo-trafico-e-acampam-em-quartel.shtml).

Enquanto isso, “Fuga da Vila Cruzeiro”, criado pela Pindorama Games, da Bahia, teve mais de 60 mil acessos em apenas 30 horas, após ser disponibilizado online e virar sucesso no Facebook. O cenário do videogame, cujo objetivo é metralhar os traficantes, se baseia nas famosas imagens captadas pelo helicóptero da TV Globo.  Para saber mais: http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20101201/not_imp647662,0.php . O sucesso desse passatempo de mau gosto revela que, para algumas pessoas, a ideia de reproduzir o massacre do Carandiru no Rio de Janeiro seria bem interessante…

Diante desses fatos, seria bom dedicarmos o dia para pensar no ecossistema da nossa sociedade.