63. Vivendo em São Paulo, destruindo a Amazônia

Basta ir ao supermercado para encontrar produtos de marcas famosas que utilizam matéria-prima obtida de forma ilegal na Floresta Amazônica.

Quem se beneficia com a destruição da Amazônia? Essa foi a pergunta lançada pelo projeto Conexões Sustentáveis e que resultou num extenso rastreamento das cadeias produtivas da pecuária, da soja e da extração de madeira. Uma iniciativa da Rede Nossa São Paulo e do Fórum Amazônia Sustentável, com o objetivo de demonstrar por A + B que a economia legalizada da maior cidade do país se aproveita de crimes sociais e ambientais cometidos na Região Norte. Todas as informações coletadas estão na internet: http://reporterbrasil.org.br/conexoes/ .

No dia 23 de fevereiro fui assistir à apresentação do estudo. Fiquei boquiaberta com o relato e a coragem dos jornalistas Leonardo Sakamoto e Marques Casara, que lideraram a equipe no trabalho de campo. Ou seja, essa galera saiu do ar condicionado da redação e foi fazer reportagem em zonas de bang-bang com o objetivo de tornar transparente o que as empresas, o governo e os consumidores fingem não existir. Do lado de lá, matérias primas extraídas por empresas poderosas, mas que os urbanóides desconhecem, como Sulmap, Berneck e Santos Andirá. Transformadas, essas commodities viram produtos de marcas famosas, com os quais todos estamos familiarizados.

No dia seguinte, acordei ansiosa para conferir nos jornais as manchetes relacionadas às descobertas de Sakamoto, Casara & cia. Como não encontrei nenhuma, resolvi produzi-las por conta própria. São 100% verdadeiras, como você pode conferir nos links indicados:

Soja destinada a virar óleo de cozinha das marcas Soya, Cyclus, Delícia e Andorinha e Salada é produzida em regiões de desmatamento http://reporterbrasil.org.br/conexoes/?p=127

Grupo JBS Friboi — fornecedor do Pão de Açúcar, Carrefour, Walmart e Sonda — adquire gado de áreas embargadas pelo IBAMA http://reporterbrasil.org.br/conexoes/?p=141

Madeira de desmatamento na Amazônia vai parar em prédios de luxo paulistanos http://reporterbrasil.org.br/conexoes/?p=231

Fabricante dos óleos Liza, Maria, Mazola e maionese Gourmet compra soja de produtor acusado de escravizar trabalhadores http://reporterbrasil.org.br/conexoes/?p=133

Móveis produzidos com madeira ilegal são vendidos nas Casas Bahia, Lojas Cem, Marabraz, Ponto Frio e Magazine Luiza. http://reporterbrasil.org.br/conexoes/?p=182

Tramontina compra madeira de fornecedor acusado de crimes ambientais http://reporterbrasil.org.br/conexoes/?p=292

Metade das fazendas brasileiras que utilizam mão de obra escravizada produz carne bovina e se concentra em áreas de desmatamento http://reporterbrasil.org.br/conexoes/?p=80

62. De-com-po-si-ção

 Usar a composteira e o minhocário para fabricar adubo em casa é muito mais do que uma atitude ecológica. Existe algo de profundamente espiritual em permitir que microorganismos e minhocas transformem plantas mortas em alimento para plantas vivas.

Por dentro, o minhocário é assim
Por dentro, o minhocário é assim

Minha horta é irmã gêmea da composteira. Quando resolvi plantar, achei totalmente ilógico continuar jogando fora sobras da cozinha e podas do jardim se teria que comprar “terra vegetal” nas lojas do ramo. Esses resíduos não são lixo e sim matéria prima para fabricar adubo. Sem um espaço especialmente projetado para a composteira, simplesmente cavei um buraco embaixo de um canteiro suspenso e comecei a colocar lá cascas, talos, caroços, folhas e galhos.

Foi inesquecível a primeira vez que abasteci a composteira. Ao depositar os restos do dia na cova e atirar por cima uma pá de terra, percebi que aquilo era literalmente um enterro. Deu arrepio, mas nada parecido com filme de terror. Tive a sensação de estar intensamente conectada ao ciclo da vida. Parei um instante para contemplar os fragmentos do que tinha sido usado na preparação das refeições e agora seria decomposto por exércitos de microorganismos. Depois, esse mesmo material iria fertilizar as próximas gerações de legumes e verduras aqui mesmo.

Semanas se passaram e, como por milagre, não era mais possível enxergar a casca da banana ou o talo do brócolis: tudo tinha virado uma terra preta, soltinha e cheirosa. Com o tempo, me acostumei a revirar a composteira e encontrar minhocas e toda uma mini-fauna desconhecida. Foi assim até que adquiri um minhocário, para onde agora vão as “sobras nobres” (restos da cozinha) misturadas com material seco (folhas, guardanapos brancos usados, rolinhos de papel higiênico e restos de papelão sem nenhuma tinta). Dizem que serragem é excelente para o minhocário, mas não sei como conseguir. Se a mistura fica muito árida, as minhocas desaparecem. Se fica muito úmida e ácida, idem. Aqui já aconteceu invasão de uns vermes esquisitos, que solucionei mudando o manejo. Mais ou menos como cozinhar, aos poucos vamos pegando o jeito e acertando a mão. Troca de experiências e conselhos de quem está na mesma trip minhocal sempre são bem-vindos.  

A composteira continua firme e forte, mas cuida sobretudo do setor de jardinagem. Comprei também um triturador, máquina barulhenta que parece um liquidificador gigante e serve para picar folhas e galhos secos, o que acelera o processo de decomposição. O ritual punk de triturar, aliás, é um santo remédio para o mau humor.

Misturo o composto que produzo ao húmus de minhoca também feito em casa ou a fertilizantes orgânicos (Bokashi e Tsuzuki). Semanalmente ou a cada quinze dias, uso o mix para adubar a horta. A essa mesma fórmula recorro quando quero expandir a lavoura. Só tem um detalhe: composteira e minhocário não aceitam restos de carne, queijo, frutas cítricas, cebola, alho, pimenta, comida muito gordurosa ou temperada.

Andando pelo bairro, fico indignada com aquelas fileiras de sacos pretos que os jardineiros deixam nas calçadas para os lixeiros levarem. Até as empresas de paisagismo entraram na onda da cadeia de produção linear, algo que na natureza não existe! Assim como todos os objetos industrializados, hoje em dia as plantas ornamentais começam sua história numa loja e terminam num grande lixão, onde tudo mistura e se contamina.

O documentário “Lixo Extraordinário”, nas boas locadoras, apaga a ilusão de que o lixo desaparece magicamente quando o caminhão de coleta vira a esquina. E o livro “Cradle To Cradle: Remaking the Way We Make Things” (Do Berço ao Berço: Repensando a maneira como fazemos as coisas — ainda não editado no Brasil) faz uma profunda reflexão sobre o assunto e aponta novos caminhos.

61. Gastei R$ 163,60 com a volta às aulas

Resolvi fazer a contabilidade financeira e ambiental dos materiais escolares dos meus filhos.

Como no ano passado, o grupo de pais ao qual pertenço organizou um esquema de reaproveitamento de material e uniformes escolares. Desde dezembro, coletamos doações de livros didáticos e paradidáticos, uniformes e fichários. Alguns dias antes da volta às aulas montamos a barraca da Troca Solidária em plena escola, ao lado do local onde estavam sendo vendidos os materiais novos para 2011.

Com isso, consegui gastar bem pouco. O valor total da lista seria R$ 250 para cada filho, totalizando R$ 500, sem contar uniformes. Paguei apenas R$ 30. Para economizar esses R$ 470, eles continuaram com os fichários e pastas do ano anterior e até mesmo os cadernos tipo brochura que estavam pela metade passaram de ano (simplesmente retiramos as folhas utilizadas). Uniformes que ficaram pequenos procuraram novos donos na barraca da Troca Solidária, onde retirei gratuitamente as mesmas peças em tamanho maior, doadas por outros alunos.

Estojos foram lavados e cada item examinado. Apontamos lápis, limpamos borrachas, verificamos apontadores e canetinhas coloridas, colocamos grampo nos grampeadores, reforçamos a identificação nas tesouras e voilá! Só precisou comprar 5 novos lápis grafite para cada.

Mochilas iniciaram seu terceiro ano letivo. Como a do Alex estava com o zíper arrebentado, paguei R$ 60 pela colocação de um fecho reforçadíssimo. Caro, né? Também achei, pois tudo conspira para que a gente jogue fora as coisas. A mão de obra dos consertos se tornou rara e enfia a faca. Mesmo assim insisti, pois sou contra a cultura do descartável.

Os estojos de inglês continuaram sua carreira, assim como o estojo de escola do Alex. Julieta sonhava com um maior e lindo, de marca que faz sucesso com os pré-adolescentes. Custou R$ 149, mas não entra na conta porque foi o único presente de Natal que lhe demos.

Até o 6º ano, o colégio das crianças só adota conteúdo didático produzido internamente. Os únicos livros são o dicionário e o atlas, reaproveitados do ano anterior. As apostilas custam cerca de R$ 700 anuais por aluno, cobrados em boletos semestrais que ainda não apareceram por aqui.

Contabilizando tudo, ficou assim:
• 3 cadernos – R$ 30
• 10 lápis pretos – R$ 20 (5 para cada criança, de ótima qualidade, custando R$ 2,00 cada)
• 1 saia-shorts para Educação Física – R$ 20 (modelo novo, ainda não disponível no brechó)
• 4 tubos de cola em bastão – R$ 33,60 (2 para a escola e 2 para o estojo do curso de inglês)
• Conserto de mochila – R$ 60
Total – R$ 163,60

Agora a contabilidade ambiental: tirando as canetinhas que secaram, a produção de lixo foi zero. As apostilas e os desenhos que vêm da escola eu guardo ano após ano. Quando crescerem, meus filhos poderão escolher o que querem como lembrança. E eu garanti um estoque de papel de rascunho até o ano 2050. Quando chegar aos 70 anos de idade quero anotar recados no verso das pinturas que os filhotes fizeram no maternal. Já pensou que luxo?

Nem sempre é fácil convencer as crianças e bancar entre os amigos a reutilização das coisas. O ambiente é consumista e eles às vezes sentem vergonha por não exibir coisas novíssimas e traquitanas Made in China que piscam e apitam. Preciso agir com suavidade, respeitando um ou outro desejo pelo supérfluo. Mas nossa família não abre mão do consumo consciente.