70. Páscoa sem ovo kitsch e sem coelho

Overdose de guloseimas com qualidade duvidosa e animais abandonados nada têm a ver com o verdadeiro sentido dessa festa, que surgiu a partir de rituais agrícolas muito antigos.

Lendo o Estadão me deparei com a notícia Coelhinhos da Páscoa acabam abandonados http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20110417/not_imp707275,0.php  e soube que algumas pessoas acham divertido dar de presente um coelho vivo a uma criança nessa época. Imaginam o animal como um brinquedo qualquer e não levam em conta o quanto é complicado trazer mais um membro para a família. Assim, muitos desses bichinhos são simplesmente jogados fora e almas caridosas de ONGS como a norte-americana  House Rabbit Society   http://www.rabbit.org/ e a brasileira  Adote um orelhudo  http://www.adoteumorelhudo.com  se esfalfam para recolher e encaminhar os abandonados.

Tenho certeza que eu e você não faríamos essa crueldade, mas o fato revela até onde o consumismo pode nos levar. Antigamente, as festas religiosas tinham significado em si. O que valia era o rito, a reflexão, o sentimento religioso que une a comunidade. Hoje em dia, o templo foi transferido para o Shopping Center. Quando é Páscoa ou Natal, mesmo quem se diz religioso exagera nas compras e são poucos os que aparecem na igreja. A intenção pode ser boa, mas o resultado não: muito lixo produzido, muito dinheiro gasto à toa e, no caso da Páscoa, muita guloseima ruim incentivando maus hábitos alimentares desde a infância.

Veja bem, eu AMO chocolate, mas em outro formato e situação. Troco quantidade por qualidade e prefiro degustar em doses pequenas aquelas marcas justificadamente bem caras. Mantenho o consumo estável ao longo do tempo e não vejo motivo para me entupir de doce só porque é Páscoa. Aliás, a vontade até diminui, pois só de ver os ovos de chocolate das grandes indústrias tenho vontade de comer outras coisas. Feitos com ingredientes inferiores, eles têm embalagem demais e até o formato é péssimo (logo depois de aberto, o produto vira uma maçaroca de papel enrolado em cacos marrons). As versões infantis são piores ainda, com seus personagens licenciados, embalagens kitsch e brinquedos vagabundos dos quais a criança enjoa em dois minutos. Aliás, o Projeto Criança e Consumo, do Instituto Alana, registra que o Código de Defesa do Consumidor proíbe a venda casada de produtos infantis (no caso, ovo + brinquedo). Veja lá: http://www.consumismoeinfancia.com/2011/04/18/ovos-de-pascoa-e-brinquedos-o-que-estamos-comemorando/ .

Antes de ser herdada pelos cristãos, essa festa muito antiga era – e continua sendo — um feriado judaico bem interessante. Para celebrar o fim da escravidão no Egito, até hoje os judeus se reúnem em família para o Sêder, um jantar cerimonial, onde cada alimento tem um significado simbólico. Ou seja, um rito que é a antítese do fast-food. Já tive o privilégio de participar de alguns Sêders e guardo ótimas lembranças.

Num tempo anterior ao judaísmo, as sociedades agrícolas mais antigas já faziam comemorações nessa época do ano. Na Europa, a Páscoa marca o fim do inverno, período em que é impossível plantar e a fome está sempre à espreita. Com a horta em casa, percebo que por aqui também a data acontece num momento especial para a agricultura, mas pelo motivo inverso, já que no verão o excesso de calor e umidade prejudica o cultivo.

Então, a essência da Páscoa é renascimento, início de um novo ciclo de fertilidade. Seria muito bom se reaprendêssemos a expressar sentimentos de outras formas, sem adquirir objetos. Deveríamos festejá-la respeitando e agradecendo a natureza em vez de abandonar bichos e consumir demais.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *