128. Cidade em Movimento

Uma pesquisa e opiniões de especialistas mostram uma revolução em curso no mundo dos transportes paulistanos. Ao que parece, a Carrocracia está com os dias contados.

Abaixo um resumo (com meus comentários) da pesquisa sobre mobilidade em São Paulo que a Rede Nossa São Paulo encomendou ao Ibope e foi divulgada em 16/09/2013 . Dados completos aqui: https://www.facebook.com/events/606105722766287/

  • Os paulistanos que usam automóvel diariamente (ou quase diariamente) para se locomover são apenas 27%. E basta uma olhada para os espaços públicos para constatar que a paisagem foi totalmente dominada por essa minoria (da qual ainda faço parte).
  • Contando deslocamento por deslocamento, o meio de transporte mais comum é a caminhada (54%) seguida por ônibus (24%), carro (14%), metrô (12%), lotação (9%), trem (8%), moto (3%) e bicicleta (2%).
  • Cerca de 50% das residências paulistanas contam com carro na garagem. Entre as famílias motorizadas, 80% possui apenas um veículo. 17% dois. Os multiveiculares são apenas 3%.
  • 47% dos paulistanos gasta entre 1 e 2 horas por dia para ir e voltar de sua atividade principal. A média chega a espantosos 2h15 se forem computados todos os deslocamentos.
  • Evangelina Vormittag, do Instituto Saúde e Sustentabilidade, lembrou que o modelo rodoviarista é o principal problema ambiental e de saúde de São Paulo. Além da poluição atmosférica (que mata mais do que cigarro por aqui), contribui para ilhas de calor, contaminação do solo, colisões e atropelamentos, sedentarismo forçado e poluição sonora. Para quem se interessa pelo assunto, um evento inteirinho sobre isso na próxima segunda-feira às 18h, na Câmara Municipal. (Inscrições aqui: http://viradadamobilidade.wordpress.com/programacao/palestras/inscricao-mobilidade-urbana-e-qualidade/)

A melhor notícia: o Império do Automóvel está com os dias contados.

  • 79% dos motorizados deixariam o carro em casa se tivessem uma boa alternativa de transporte público. Quanto a isso, tenho observado algo curioso: muitas pessoas que dizem essa frase nunca experimentam fazer seus trajetos cotidianos de ônibus ou metrô. Obviamente, a qualidade geral desse serviço é ruim na cidade. Mas existem horários e percursos muito bem servidos por transporte público e falo isso por experiência própria.
  • 93% são a favor da ampliação das faixas exclusivas de ônibus (86% entre os usuários freqüentes de automóvel). De acordo com Jilmar Tatto, Secretário Municipal dos Transportes, é para lá que vamos. Ele disse: “São Paulo tem hoje 120km de faixas exclusivas para ônibus e pretendemos implantar mais 150 km até 2016. O ideal seria chegar em 460km”. Analisando a fala completa do secretário,  percebi que, tecnicamente, transporte de larga escala seria atribuição do metrô, mas é quase impossível São Paulo chegar perto de Paris, que tem uma estação quase em cada esquina na região central. Vamos quebrar o galho com ônibus mesmo.  E os planos imediatos da prefeitura incluem uma reforma do sistema e até mesmo ações ousadas como um concurso para criação de aplicativos que ajudem o usuário a saber em tempo real quando chegam e para onde vão os ônibus que passam no ponto onde ele está .
  • 56% são favoráveis à proibição total de estacionar no centro expandido, 49% aprovariam o aumento do rodízio para 2 dias na semana e 45% aceitariam de bom grado um imposto sobre os combustíveis para financiar o transporte público.

Podemos comemorar o fato de que boa parte dos paulistanos pretende dar sua contribuição individual em prol de uma melhoria coletiva, não é? Mas a mudança de cultural ainda precisa avançar muito.

“Não dá para pensar em mobilidade sem pensar em habitação”, afirmou Maurício Lopes, promotor do Ministério Público. De acordo com ele, para reduzir a necessidade de deslocamento mais empregos são necessários na periferia e mais habitações populares no centro. Por outro lado, estou acompanhando algumas discussões do Plano Diretor em que associações de moradores de bairros residenciais resistem ao adensamento em torno de eixos de transporte proposto pela prefeitura. Concordo que o tema é polêmico e que as alterações nas normas de uso do solo precisam ser muito cuidadosas. Mas não dá para querer preservar a todo custo quarteirões canadenses em meio a um padrão africano de urbanização. Teremos que negociar, repensar, buscar a melhoria da cidade para todos, o que significa inclusive diminuir a desigualdade territorial.

“Uso bastante transporte público e cada vez mais eu acho de mau gosto sair de casa de carro. Compre seu carro, mas no dia-a-dia deixe na garagem. Melhor usar só no final de semana, para viajar ou em casos especiais”. Quem falou isso foi o próprio Jilmar Tatto.

Estamos ou não num mundo novo? Nem tanto… Enquanto escrevia sobre poluição, ilhas de calor e mudanças culturais, minha vizinha veio pedir que eu derrube uma árvore que está em meu terreno para que as folhas não caiam na casa dela.

Não resisto a acrescentar esse mapa de caminhadas feito pelo pessoal do Sampa a Pé. Vamos nessa, ocupar as ruas sem motores!


127. O que será feito com o lixo de São Paulo nos próximos 20 anos?

Para descobrir a resposta e tentar interferir nos rumos da metrópole, participei da 4ª Conferência Municipal do Meio Ambiente como representante (eleita) da população do subdistrito de Pinheiros.

Foram três dias de muito trabalho e aprendizado. Em primeiro lugar, me chamou a atenção que o engajamento dos cidadãos das regiões periféricas era bem maior. Mais adiante ficará claro o motivo. O encontro abordou unicamente o Plano de Gestão Integrada de Resíduos Sólidos da Cidade de São Paulo. Não começamos do zero. Muito ao contrário, todas as discussões se pautaram por um documento de 60 páginas escrito a partir de reuniões realizadas nas 31 subprefeituras, oficinas temáticas, grupos de trabalho inter-setoriais e propostas da equipe técnica da prefeitura. Um processo bastante democrático, porém pouco divulgado.

Só para ter uma ideia do desafio, atualmente menos de 2% dos resíduos coletados pela prefeitura vão para a reciclagem. Mais de 98% têm os aterros como destino, o que representa um enorme problema ambiental e desperdício de recursos. A meta para 2032 é dar um fim mais nobre para 70% dos resíduos (30% continuarão indo para os aterros). A conferência se concentrou nas estratégias para alcançar esse objetivo, que não foi questionado.

Além dos delegados da sociedade civil, havia representantes do empresariado e do poder público. Todos com direitos iguais a voz e voto. Cada delegado poderia escolher uma sala temática e lá fui eu para a dos Resíduos Orgânicos, ou seja, tudo aquilo que a natureza produz e, se deixarmos, ela mesma sabe reciclar lindamente transformando em adubo. Estou falando de restos de comida, podas de árvore, talos, caroços, folhas secas, madeira, serragem etc que representam 51% do lixo produzido em SP. Assunto totalmente ligado à agricultura urbana e às hortas comunitárias, já que usamos exclusivamente composto orgânico e esterco como adubo.

Fechados numa sala sem janela durante todo o sábado de sol, debatemos e alteramos as 23 diretrizes, objetivos, estratégias e metas apresentadas para os orgânicos que, no documento final, se tornaram 31. Nada fácil abdicar do fim de semana para trabalhar duro e sem remuneração em prol do coletivo, mas a oportunidade de propor mudanças no texto da lei e ver que elas foram realmente incorporadas compensou o esforço.

Logo no início dos trabalhos, percebi que valeu a pena participar desde 2012 do Grupo Pró-Viabilização da Compostagem em São Paulo, uma rede de pessoas interessadas em promover essa prática e não uma ONG ou grupo institucionalizado. Graças em parte à nossa militância em favor da compostagem, tanto no Programa de Metas da gestão Haddad quanto nesse PGIRS (sigla do tema da conferência), ganhou força a ideia de que a cidade deve compostar aqui mesmo os resíduos orgânicos que gera. A discussão passou a ser sobre a melhor forma de fazer isso.

Nesse ponto abandono o relato do evento para refletir sobre os próximos passos. Quem tiver interesse pode ler todo o PGIRS, que será disponibilizado e colocarei o link aqui.

Um ponto importante do plano é que São Paulo em breve vai ganhar quatro grandes Centrais de Processamento da Coleta Seletiva (para os resíduos industrializados) e imensas Unidades de Compostagem. Ou seja, de modo geral o município adotará  soluções macro para seu lixo nos próximos 20 anos.  Isso implica em investimentos volumosos, caminhões de coleta que continuarão circulando intensamente e concentrar as concessões em grandes empresas.

A opção pela larga escala, que os técnicos da prefeitura dizem ser incontornável, na minha opinião tem maior risco de prejudicar a qualidade do produto final. Explico usando como exemplo os resíduos orgânicos: quanto maior a quantidade, mais difícil o controle. Aqui em casa, tomo precauções máximas com a compostagem porque ela vai gerar o adubo para a minha horta e eu vou comer os alimentos que vierem dela. Mas quem garante que a população será extremamente cuidadosa se continuar podendo jogar o que quiser num caminhão que vai embora para longe? E se, por descuido ou má intenção, contaminantes como carcaças de animais, pilhas, baterias e outros produtos tóxicos forem depositados junto com o lixo da cozinha? Uma única lata de tinta  poderia contaminar mais de uma tonelada de composto orgânico. Quais mecanismos seriam adotados para impedir que isso aconteça?

Outro ponto muito delicado: a centralização das soluções do lixo gera injustiças territoriais. Nas regiões mais ricas, onde a produção de resíduos é maior, não há aterros e provavelmente não serão instalados centros de triagem ou de compostagem. Moro em Pinheiros e os caminhões de coleta levam embora tudo o que recolhem aqui. Mas o distrito de São Mateus, na Zona Leste, já possui quatro aterros e agora está em estudo a instalação do quinto. Aliás, nos bairros “bons” da cidade, todo muito acha ecochique reciclar, mas a população sequer admite que cooperativas de catadores se instalem.

Pessoalmente, sou uma adepta da descentralização de tudo, baseada na filosofia do Small is Beautiful (que explico nesse post: http://conectarcomunicacao.com.br/blog/49-beleza-pequeno/) . E da extinção do lixo, baseada na ideia do movimento Do Berço ao Berço (http://conectarcomunicacao.com.br/blog/85-prxima-revoluo-industrial/).  Acredito que embalagens descartáveis não deveriam existir, com exceção do papel e papelão impresso com pigmentos vegetais, que vira adubo facilmente. Que todos deveriam compostar seus resíduos orgânicos. Que os supermercados deveriam vender a granel e os líquidos serem transportados em vidros retornáveis. Mas quando digo isso para amigos e empresários, a resposta em geral é: “Isso é impossível, não é prático, dá trabalho, ia complicar muito os negócios.” Desconfio que essa opinião mudaria radicalmente caso o tratamento do lixo ocorresse obrigatoriamente no local onde foi gerado. Se as garrafas PET, as fraldas descartáveis, as latas, os aparelhos eletrônicos quebrados e tudo mais tivesse que ser processado do lado da nossa casa, tentaríamos ao máximo não gerar lixo, não é? E o catador de materiais recicláveis seria o herói da vizinhança.

No ano que vem haverá revisão do Plano de Metas da prefeitura. Daqui a quatro anos, o PGIRS será revisto. A partir de agora, estou me aliando a quem tiver interesse em batalhar pela seguinte causa: BUSCAR SOLUÇÕES PARA QUE PROGRESSIVAMENTE OS RESÍDUOS ENCONTREM DESTINAÇÃO ADEQUADA (POR COMPOSTAGEM, PREPARAÇÃO PARA RECICLAGEM OU TRATAMENTO DE REJEITOS) DENTRO DAS FRONTEIRAS DE CADA BAIRRO.