139. Jornalistas de roça e fogão

 

Esse é o Michael Pollan

Michael Pollan é jornalista, tem horta em casa e cozinha para a família. Eu também, eu também, eu também! Então Pollan virou meu amigo imaginário e, como está chegando ao Brasil, deve aparecer nas manchetes em breve. Aliás, o movimento das hortas comunitárias e da agroecologia em São Paulo está cheio de colegas nossos de profissão. Por que será que os jornalistas estão ficando doidos por uma enxada?

 

Que eu saiba, o ativismo culinário dos jornalistas começou com Carlo Petrini em 1986, quando a rede Mc Donald’s abriu um de seus restaurantes na Piazza di Spagna, em Roma, ponto simbólico da capital italiana. Foi a gota d’água para Petrini, que já estava muito incomodado com o sumiço do saboroso pimentão quadrado d’Asti, espécie típica do Piemonte que vinha sendo substituída por variedade híbridas sem gosto. Vieram com fast-food e ele inventou o Slow Food, movimento que hoje está em 150 países (inclusive no Brasil) e tem mais de 100 mil membros. A turma age em prol do direito ao prazer na alimentação, do respeito ao meio ambiente e aos agricultores e chegam até mesmo a salvar variedades de alimentos da extinção.

Conheci Michael Pollan em 2007, quando foi lançado “O Dilema do Onívoro”. Nosso relacionamento se aprofundou com a leitura de “Em Defesa da Comida” e de “Cooked” (que está saindo no Brasil como “Cozinhar”, título lindo!). As aventuras agropecuárias de Pollan começam na horta de casa e incluem matar frango em abatedouro artesanal, caçar javali na floresta, estagiar em fazenda orgânica, fazer queijo em mosteiro, preparar vinho, cerveja, pão… Embora nunca o tenha visto, trocamos ideias por telepatia sobre as hortaliças do quintal e as tarefas diárias de preparar refeições para a família. Pollan está chegando para a Flip, onde vai lançar o “Cooked” e em seguida passa por São Paulo. Lá vou eu com os livros debaixo do braço para a fila dos autógrafos.

Na cena paulistana das hortas comunitárias e ativismos agroecológicos, os colegas jornalistas também são muitos. A começar pela querida Tatiana Achcar, que inventou os Hortelões Urbanos, grupo do Facebook que hoje é ponto de encontro de quase 10 mil plantadores de comida (https://www.facebook.com/groups/horteloes/). Tem também o Marcio Stanzani, diretor da AAO – Associação de Agricultura Orgânica (http://aao.org.br/aao/ ). Já a coleguinha Fernanda Danelon criou o Instituto Guandu (http://institutoguandu.com/) , que faz o importante  trabalho de transformar em adubo os resíduos orgânicos de restaurantes. Mariana Belmont vive articulando com os agricultores de Parelheiros e Francine Lima criou o canal “Do Campo à Mesa” (http://canaldocampoamesa.com.br/) para mostrar as maracutaias dos produtos alimentícios industrializados.

Hoje em dia me apresento como “jornalista e agricultora urbana” e acho que as duas atividades combinam muito bem. Aliás, os mutirões das hortas comunitárias parecem reuniões de pauta com tanto colega de profissão. Não imagino por que justamente a minha categoria está entusiasmada com as enxadas, mas percebo que as atividades de plantar e cozinhar complementam perfeitamente o esforço  intelectual da escrita. Aprendi também que cultivar legumes na praça é uma boa maneira de comunicar ideias sobre o relacionamento da nossa sociedade com a alimentação, os agricultores e o meio ambiente. Só que quando estou lá brincando de camponesa nem lembro disso, já que fico muito ocupada em ser feliz.

Quer bater um papinho com o Pollan? Boa entrevista essa do jornal português Público: http://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/esta-a-comer-comida-verdadeira-1663742