153. 13 sugestões para hortas escolares

A boa notícia é que as escolas querem hortas. Só que não é tão fácil assim fazer um projeto relevante. Para tentar ajudar, escrevi esse post. Ainda me considero uma agricultora pouco experiente, mas já dá para compartilhar o que tenho aprendido nos últimos anos sobre cultivo de alimentos e ativismo coletivo.

Bom, esse é um post aberto. Por favor dê sugestões e escreva suas dúvidas que aos poucos vamos completando e aperfeiçoando o roteiro da horta escolar, está bom?

1. Responder 2 perguntas –  Por que fazer uma horta na escola? Como a horta vai se relacionar com as atividades pedagógicas e comunitárias da escola? É legal responder por escrito e coletivamente (todos que participarão do projeto). Reler e atualizar de vez em quando.

2. Começar fazendo – Cuidar de uma horta é que nem cozinhar, andar de bicicleta, ter um cachorro, educar um filho. Estudar e planejar antes ajuda, mas a prática costuma ser bem diferente do que foi imaginado. Então coloque logo a mão na terra e comece pequeno. Alguns vasos ou um metro quadrado de chão já é o suficiente para iniciar. Sem nunca ter plantado nada, a gente não sabe nem fazer as perguntas.

3. Iniciar o aprendizado pelos adultos –Já faz algumas décadas que o hábito de cultivar alimentos no quintal foi abandonado por quase todos. Então temos gerações de adultos que nunca plantaram nada. Alguns até sentem medo e nojo da terra e das minhocas. É importante reconhecer, aceitar e refletir sobre esses sentimentos. E, quem sabe, esperar um pouco para iniciar as atividades com os estudantes. Vale a pena os educadores envolvidos com o projeto investirem tempo e energia em adquirir um pouco de experiência antes de envolver os alunos na atividade. No caso de se perceberem pouco à vontade com a ideia da horta, repensar o projeto e a participação.

4. Definir (e respeitar) os guardiões da horta – Quem vai cuidar da horta no dia-a-dia? Quem vai se preocupar com a falta e o excesso de chuvas, o vento, o granizo e as temperaturas extremas? Quem vai se virar para arranjar os insumos e sair correndo para acudir a horta em caso de necessidade? O diretor da escola? Um ou vários educadores? Outro funcionário? Pais de alunos? Voluntários? A pessoa ou as pessoas que assumirem esse papel merecem reconhecimento e liberdade para trabalhar. Só quem está ali no dia-a-dia com a enxada na mão é que sabe do que a horta precisa e quais são suas potencialidades. Talvez seja alguém não muito graduado na hierarquia da instituição e com pouca escolaridade, mas que traz consigo o principal: amor à terra. Os guardiões da horta devem decidir (debatendo com a direção da escola) o que é o melhor para ela e os rumos a serem tomados. E também as estratégias para manter a horta durante as férias, feriados e finais de semana.

5. Deixar as crianças brincarem – A simples existência da horta na escola já traz muitas oportunidades de reconexão com a natureza. Se as atividades por lá forem excessivamente dirigidas e pouco lúdicas, talvez tenham o efeito inverso do esperado, ou seja, os alunos detestarem a horta. Caso a horta vire um espaço sobretudo para fazer fotos e dar um verniz ecológico para escola, também não é legal. Bom mesmo é deixar o acesso livre para os estudantes poderem brincar e colher livremente. E se a horta virar uma sala de aula ao ar livre, com atividades de matemática, arte, ciências, história, geografia, melhor ainda! A intervenção dos adultos pode ser mínima em alguns momentos, apenas para evitar depredações e desperdício (principalmente nos primeiros tempos, depois não será mais necessário).  Ah, cuidado com o excesso de rega. Regar é uma atividade simples e divertida, mas água em excesso mata muita planta.

Quando a horta vai precisar mesmo ser usada para complementar a merenda e ajudar a garantir a segurança alimentar dos estudantes, sugiro fazer parcerias com agricultores profissionais para viabilizar o cultivo intensivo, sendo que eles podem trocar uma parte da produção pela possibilidade de acessar a terra e os insumos oferecidos pela escola.

6. Quebrar o concreto – A maior parte das escolas (assim como das residências, empresas, hospitais, igrejas, condomínios e ruas) tem cimento demais. Que tal tirar o pavimento da escola onde for possível e trazer de volta o solo, as plantas, os bichinhos? Isso deixará o ambiente mais fresco, menos poluído, menos barulhento. E os estudantes mais calmos, já que o verde reduz o estresse e a correria.

7. Plantar flores, PANCs e receber bem os bichinhos – Se vocês criarem um lindo jardim comestível provavelmente esse vai ser o canto mais agradável e mais amado da escola. Veja bem: a horta não precisa ser apenas um local com canteiros retangulares e hortaliças convencionais. É melhor que não seja, aliás. Plante pensando nos serviços ambientais que ela vai oferecer, como, por exemplo, abrigo de microfauna (incluindo as valiosas abelhas nativas sem ferrão) e reserva de biodiversidade vegetal sobretudo comestível. Por isso vale a pena aprender a identificar, cultivar e deixar nascer sozinhas muitas Plantas Alimentícias Não Convencionais (as PANCs).

8. Observar o que a terra quer produzir – Agricultores iniciantes em geral só querem cultivar alface, tomate, cenoura e outras espécies comuns de supermercado. Mas com o tempo a gente percebe que mais importante ainda é trazer de volta para nossos canteiros e nossas refeições as plantas que já fizeram parte das nossas tradições culinárias, mas hoje são tão raras que ficaram conhecidas como PANCs  (Plantas Alimentícias Não Convencionais ). E tem também alimentos tradicionais que facilitam a vida, pois não exigem muita dedicação: batata doce e mandioca, por exemplo.  Várias PANCs são muito nutritivas e bem fáceis de cultivar. E ao plantar tudo misturado vocês vão perceber quais espécies combinam e que isso ajuda a evitar infestações de bichinhos que alguns consideram pragas (eu não acredito em pragas, só acredito em proliferações que acontecem quando o ambiente não está equilibrado). A melhor maneira de aprender agricultura é assim: plantando e observando. Algumas PANCs: caruru, ora-pro-nobis, almeirão selvagem, bertalha, serralha, capuchinha, taioba, nirá, peixinho.

9. Não desperdiçar matéria orgânica – Fazendo compostagem, não é preciso comprar terra nem adubo, basta enriquecer o solo com matéria orgânica. Toda folha seca e graveto que cai no terreno da escola deve ser devolvido ao solo. E quase todos os resíduos da cozinha podem ser compostados. Aqui tem um guia muito legal sobre o tema, elaborado pela jornalista Raquel Ribeiro: http://www.compostagem.ecophysis.com.br/files/Guia-de-Compostagem-Caseira—Raquel-Ribeiro—2-Edicao—2013.pdf .

10. Ser criterioso com o reaproveitamento de materiais – Fazer uma horta na escola não demanda muito material. Regadores podem ser construídos a partir de embalagens plásticas e bordas de canteiros com sobras de madeira ou telhas. Na minha opinião, no entanto, com exceção dos regadores, convém evitar o plástico. As matérias primas naturais (madeira e pedras) deixam o visual mais bonito e evitam as falsas mensagens ecológicas. Virou mania as escolas pedirem para os alunos levarem embalagens plásticas para reaproveitar (inclusive de bebidas nada saudáveis) e sou contra essa prática, pois estimula o consumo e passa uma impressão – falsa – de que esse reaproveitamento resolve os problemas causados pelo plástico no mundo. Minha experiência com vasos em garrafa pet também foi ruim: são muito pequenos, esquentam demais, não respiram, podem liberar Bisfenol A. Não uso mais de jeito nenhum. Com pneus a situação é ainda mais complicada, pois eles contaminam o solo, de acordo a pesquisa “Reciclagem de granulados de pneus inservíveis em pavimentos de playgrounds: estudos de caso de avaliação de riscos à saúde humana e ao meio ambiente”, da arquiteta Mara Cabral  (infelizmente ainda não publicada). Mas esse post do blog “Hortas orgânicas e alimentação saudável’ traz diversos links internacionais sobre o tema http://sustentaveleorganico.blogspot.com.br/2015/05/bom-dia-pessoal.html.

11. Trocar sementes e mudas – A natureza é abundante e, a partir do momento em que começamos a plantar, passamos a produzir mudas e sementes em nossas hortas. Os agricultores sempre as trocaram entre si e esses momentos são muito intensos em dicas e aprendizados. Existem grupos realizando encontros em torno de mudas em sementes em diversas regiões. Para entrar nesse mundo sugiro participar da comunidade Semear Conhecimentos (https://www.facebook.com/Semearconhecimentos/).

12. Abrir as portas para a comunidade – A horta é um excelente mediador social. Todos têm memórias, experiências e vivências relacionadas à comida que vêm à tona quando estamos lidando com os canteiros. Fazer eventos e convidar pais de alunos e vizinhos para participar das atividades da horta pode dar muito certo. Só cuidado com o excesso de expectativa em relação aos voluntários. Cuidar de horta é maravilhoso, mas dá trabalho e inclui muito serviço pesado. Depender de voluntários para a manutenção nem sempre dá certo. Sobretudo se os voluntários forem vistos apenas como mão de obra e as decisões ficarem por conta de quem não costuma pegar na enxada.

13. Receber lições dos agricultores – Precisa de ajuda? Ninguém melhor para orientar do que o agricultor profissional, aquele que tira seu sustento da terra todos os dias. Convide-os e convide-as (mulheres são maioria na agricultura urbana) para visitar a horta, mas fique atento a alguns detalhes que, se não forem bem cuidados, podem causar desconforto. Para começar, numa escola não pode entrar agrotóxico. Então certifique-se de que o agricultor ou agricultora usa técnicas orgânicas. Lembre também que os agricultores são mal pagos e pouco valorizados em nossa sociedade. Por esse motivo, ele ou ela provavelmente não poderá se dedicar à horta da escola sem receber remuneração. Mas uma aula especial ou uma homenagem serão muito bem-vindas e a horta escolar se beneficiará de dicas preciosas.

PARA SABER MAIS
Livros e manuais incríveis (em português)
A Fuga das Minhocas, de Raquel Ribeiro – Uma história deliciosa que apresenta o assunto compostagem e hortas para as crianças.

Horta Escolar / Uma sala de aula ao ar livre, de Amanda Frugg, Bruno Helvécio, Lucas Ciola e Peter Webb – Bem completo, com orientações, depoimentos e sugestões de atividades para fazer com os estudantes.

Manual para Gestão de Resíduos Orgânicos nas Escolas, lançado pelo ISWA (Internacional Solid Waste Association) em parceria com a ABRELPE (Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública). Link para download aqui:  http://www.abrelpe.org.br/noticias_detalhe.cfm?NoticiasID=2555

Livros/sites incríveis (em inglês)
American Grown, Michelle Obama – Um relato lindamente ilustrado sobre a horta da Casa Branca durante a gestão Obama. A horta, aliás, foi criada como um projeto de combate à obesidade infantil entre os alunos das escolas públicas de Washington.

Edible Schoolyard/A Universal Idea, de Alice Waters – Uma escola pública de má fama em Berkeley, California, floresceu quando a famosa chef aceitou o desafio de mexer na cozinha de lá e quebrar o concreto de uma quadra esportiva pouco usada para criar uma horta. Agora o projeto está em diversos lugares do mundo: http://edibleschoolyard.org/

Incredible! Plant Veg, Grow a Revolution, de Pam Wharhurst e Joanna Dobson – Um relato bem aprofundando da experiência de Todmorden, a cidadezinha inglesa que renasceu (inclusive economicamente) quando as hortas invadiram todos os espaços públicos, inclusive as escolas. No site tem muita informação também: https://www.incredible-edible-todmorden.co.uk/.

PARA TERMINAR
Algumas frases sobre hortas e escolas que já ouvi e não gostei muito…

“Estou ligando para você porque minha diretora quer uma horta”

“Queremos fazer uma horta vertical de garrafa PET”

“Você pode chamar os hortelões urbanos para cuidar da horta na nossa escola?”

“Queremos levar um grupo grande de crianças para trabalhar na sua horta apenas por um dia”

“Vamos fazer uma horta na escola. Arranja para a gente a terra, as mudas e as sementes?”

“Crianças: cuidado! Não mexe aí! Não corre! Fica quieto e escuta! Não põe a mão na terra! Não vá se sujar”

PARA TERMINAR MESMO
Traduzi algumas páginas (129 a 131) do livro Incredible! que dão uma ideia de como mobilizar a escola por meio da horta. Sim, as condições ali são bem melhores do que na maioria das escolas brasileiras. Mesmo assim, vale pela inspiração.

 Como diretora da escola, você pode ter as melhores ideias, mas a menos que exista alguém na equipe fazendo o projeto acontecer, não deslancha”, disse Helen Plaice [diretora da escola de Ensino Médio de Todmorden – Tod High]. “Você gira em falso e não alcança os estudantes”. Então foi feita uma chamada para que alguém aceitasse o posto de Líder de Estudos Vocacionais e o candidato bem sucedido foi o professor de Física, Paul Murray. Deram a ele alguns períodos livres durante a semana para trabalhar no currículo e algum dinheiro extra para remunerar suas novas responsabilidades. Para Helen isso era crucial para alcançar mudanças duradouras.  A nova posição deu a Paul a autoridade para fazer perguntas e pedidos a outros membros da equipe, o que seria impossível para alguém que estivesse trabalhando voluntariamente.

O ponto de mudança para a escola inteira aconteceu no verão quando Paul organizou o “Dia Diferente”, o nome que a escola dá para o dia em que o currículo normal é suspenso e os professores se voluntariam para realizar atividades com os alunos de uma série em particular. Um exemplo típico seria oficinas para desenvolver habilidades de estudo para alunos que se aproximam dos exames nacionais. Mas em vez disso Paul planejava algo muito mais imaginativo e nessa ocasião ele pegou os alunos mais jovens, de 12 e 13 anos, e deu-lhes um dia que não só eles como também os professores iriam lembrar como o dia em que viram as conexões entre comida e aprendizagem sob uma perspectiva completamente diferente.

Primeiro, Paul convidou Sally e Jonathan, os fazendeiros que já estavam fornecendo para Tod High a maior parte de sua carne, a trazer alguns de seus animais para a escola e montaram  uma minifazenda no gramado. Lá estavam os porquinhos e bezerros para providenciar o fator “ahhh” e, apesar de haver muita agricultura na área, foi a primeira vez que alguns alunos tocaram em um animal de fazenda. Então Paul apresentou uma série de atividades para ajudar as crianças e adolescentes a pensar sobre comida de novas maneiras. Aconteceram aulas sobre o ciclo de vida das plantas e como construir um minhocário, havia estudantes calculando os quilômetros rodados por cada tipo de maçã para chegar à sua mesa e suposições sobre qual a porcentagem do preço se devia ao transporte. Então eles estudaram as proporções para produzir smoothies [um tipo de suco mais consistente]: quantos kiwis são necessários para uma determinada quantidade de abacaxis, por exemplo.

Tony [chef local] apareceu com algumas demonstrações culinárias e fez com que os estudantes montassem saladas usando os ingredientes que eles tinham cultivado na escola. No fim do dia os professores estavam  vibrando com ideias para incluir temas sobre alimentação em suas áreas de ensino, exatamente o que Helen esperava que acontecesse quando designou Paul . “A equipe saiu da escola naquele dia vendo o currículo de uma perspectiva diferente”, ela disse. “Acho que se eu tivesse dito simplesmente que era para inserir três atividades relacionadas a comida no planejamento pedagógico até o fim do ano eles teriam pensado ‘o que será que ela bebeu?’”.

Gradualmente o assunto comida começou a entrar em todas as partes do currículo. A escola tem status de especialista em artes visuais e os professores de arte foram os primeiros a aderir, produzindo, entre outras coisas , um livro com as melhores receitas de Tony, lindamente ilustrado pelos alunos. Um estudante que se preparava para a universidade trabalhou com o Incredible Edible para produzir posters que ele poderia apresentar como parte de seu portfólio de design gráfico. Em história, os estudantes aprenderam sobre comida em diferentes épocas e em ciências estudaram a composição dos diferentes alimentos. Em matemática calcularam qual porcentagem de um salário mínimo é gasta com alimentação e então trabalharam com o departamento de Tecnologia Alimentar para comparar o custo e o valor nutricional da comida processada e da comida feita em casa (a comida fresca se mostrou 40% mais barata). Em todas as áreas, o objetivo era enviar mensagens sobre nutrição, higiene, sustentabilidade e ética da produção de alimentos. Para Paul, uma das mais importantes recompensas provenientes dessa abordagem foi que os estudantes não estavam apenas aumentando seus conhecimentos sobre determinados assuntos como também adquirindo habilidades vitais como administração financeira e como fazer escolhas que beneficiem a própria saúde.

151. Microcurso de horta

O que dá para aprender sobre horta em um texto? Bastante coisa. Quanto tempo leva para aprender tudo sobre horta? Muito mais do que uma vida inteira. E no meio desse paradoxo do tempo os agricultores há milênios vêm repetindo o ciclo mágico de semear, cuidar, colher, compostar. Aqui vão 10 lições sobre hortas domésticas e hortas comunitárias que podem ser úteis.   

MICROLIÇÃO 1 – SONHAR
A primeira etapa para fazer uma horta é a “fase do sonho”. Vale a pena dar tempo ao tempo. Deixe a sementinha da vontade de ter uma horta, seja em casa ou na praça, criar raízes dentro de você. Passeie pelo bairro, pela varanda ou pelo jardim observando o espaço disponível, a incidência de sol (o ideal é pelo menos 5 horas por dia) e de vento (quanto menos melhor). Converse com os amigos e possíveis parceiros, pesquise sobre o assunto, visite quem já possui uma horta e as hortas comunitárias. Comece logo a fazer compostagem: assim você já vai preparando o adubo enquanto planeja sua lavoura.

MICROLIÇÃO 2 – ONDE PLANTAR?
HORTA DOMÉSTICA – Em qualquer canto que bata sol direto pelo menos 4 horas por dia e, de preferência, não vente muito. Para começar, quanto menor a horta, melhor. Um metro quadrado ou quatro vasos está muito bom. Quando pegar o jeito, você vai expandindo aos poucos a roça. Grandes áreas são trabalhosas e quem está começando precisa aprender a encaixar as atividades de agricultor na rotina diária. Se não tiver acesso ao solo, faça canteiros elevados ou plante em vasos. Um bom tamanho para os vasos é a partir de 30 cm de diâmetro. Os menorzinhos são úteis só para fazer mudas ou cultivar espécies menores, como cebolinha, salsinha e tomilho. Vasos de barro são os melhores.

HORTA COMUNITÁRIA – Pode ser no jardim do condomínio, na escola, na empresa, na igreja ou na praça. Em São Paulo não há uma lei proibindo as hortas em praça, mas ainda não existe regulamentação para a atividade. Procure locais ensolarados, sem vento e longe de pontos muito carregados de tráfego (por causa da poluição).  Certifique-se de que o solo não está contaminado (tema da próxima Microlição). Vá conversando com os vizinhos porque é fundamental a comunidade apoiar a horta. E procure o Conselho de Meio Ambiente (CADES) da subprefeitura. Fazer amizade com os trabalhadores da prefeitura que fazem a manutenção das áreas verdes do bairro também ajuda muito.

MICROLIÇÃO 3 – NA CIDADE NÃO É TUDO CONTAMINADO?
Não, nem tudo. E o campo também tem bastante contaminação hoje em dia. O assunto é complexo e vou tentar explicar um pouco resumidamente. No dia do Festival podemos aprofundar o debate. E quem tiver conhecimento na área, por favor compartilhe. Seja horta em casa ou no espaço público, os cuidados são semelhantes:

POLUIÇÃO ATMOSFÉRICA – Evitar regiões industriais e locais próximos a grandes avenidas e aeroportos. Se não for possível encontrar um lugar com boa qualidade do ar, colocar sempre barreira verde (árvores ou arbustos altos) entre a fonte de poluição de suas plantas. Prefira consumir as folhas e frutos jovens, que ficaram menos expostos. Mas não adianta ficar muito neurótico com isso porque suas plantas estão absorvendo o mesmo ar que você. O problema não é a horta: é o excesso de veículos e as outras fontes de poluição. Melhor comer seus vegetais cultivados na cidade do que não comer vegetais. E não há garantia de que os alimentos vendidos em supermercados e feiras estejam livres da poluição atmosférica (há muito cultivo ao lado de rodovias lotadas de caminhões, por exemplo).

CONTAMINAÇÃO DO SOLO – Pesquise no site da Cetesb se o local está na lista das áreas contaminadas (http://areascontaminadas.cetesb.sp.gov.br/relacao-de-areas-contaminadas/). Verifique se não há postos de gasolina num raio de 500m. Saiba se no terreno já houve indústria, posto de gasolina, depósito de lixo, oficina mecânica. Verifique se há infiltração de esgoto no terreno. Se deu positivo em algum dos itens anteriores, provavelmente o solo está contaminado. Se nada disso faz parte da história do terreno, provavelmente está OK para plantar (certeza só fazendo análise em laboratório). Se houver dúvida, não plante com a terra do local. Faça canteiro elevado e bem isolado (com alvernaria) do solo. Ou plante em vasos.

CONTAMINAÇÃO DA ÁGUA – Só regue com água cuja procedência você conhece e confia. Se for água do abastecimento (Sabesp) está OK. Se for água coletada da chuva, que a cisterna tenha filtro e seja feita com todas as precauções necessárias, inclusive contra criadouro de Aedes (dicas aqui: www.cisternaja.com). Se no local tem nascente ou poço, cheque todos os itens da contaminação do solo. Se falhar em algum aspecto, não use a água de jeito nenhum. Se estiver tudo OK, faça análise química e de coliformes antes de começar a usar na rega.

MICROLIÇÃO 4 – COMO PREPARAR O PLANTIO
SOLO – Planeje o desenho do seu canteiro, que pode ser retangular, em formato de fechadura, em espiral ou ter formas irregulares. Se for plantar no chão, delimite o local e vá cavando e quebrando a terra para retirar raízes, grama, pedrinhas. O ideal é aprofundar o buraco uns 40 centímetros. Depois de cavar, se possível peneire a terra retirada. Isole o canteiro do restante do terreno para evitar a volta da grama (tábuas velhas são ótimas para isso). Misture à terra peneirada composto orgânico, esterco e/ou húmus de minhoca (olha só a importância do minhocário doméstico!). Pó de osso também é muito bom (fonte de fósforo), assim como cinzas (potássio). Faça o monte de terra chegar a uns 20 cm de altura. Depois de montado o canteiro, nunca mais pise na terra. Por isso a largura máxima deve ser 1,20m. Se for possível acessá-lo apenas por um dos lados, reduza para uma medida que você alcance confortavelmente sem pisar. Cubra o canteiro com uma camada de mais de 10 cm de espessura de material seco (palha, folhas ou podas de grama). Para colocar as mudas, basta abrir a terra com as mãos. Essa orientação serve para áreas pequenas e para solos degradados. Se você tem um sítio inteiro para plantar, não é possível revolver e substituir a terra. Aí o caminho é a recuperação de solos degradados, o que é uma outra história e leva alguns anos. E se você vai plantar num local onde a terra já está superfértil, soltinha, cheia de nutrientes e de vida, sua vida está fácil (mas em geral isso não acontece).

COMO MONTAR O VASO
Camada 1 – Coloque no fundo 2 cm de argila expandida, cacos de telha ou pedaços de louça quebrada (com a parte convexa para cima). Em vasos grandes essa camada pode chegar a 10 cm. Preste atenção para não vedar totalmente os furos, pois um bom escoamento de água é fundamental. Ah, todo recipiente usado para o plantio precisa ter furos no fundo, se não a água fica parada e as raízes apodrecem. Para economizar espaço, eu dispenso essa camada nos vasos pequenos e vou direto para a próxima: o tecido.
Camada 2 – Em cima dos cacos, tecido de algodão (trapos). Evite a manta drenante vendida em lojas de jardinagem, que é feita de plástico reciclado e com o tempo entope. Já o algodão é muito melhor para essa função porque se decompõe e vira alimento para a planta. Uso minhas roupas até quase rasgarem e aí elas viram tecido de forração de vasos.
Camada 3 – Complete o vaso com terra adubada, deixando uma faixa superior livre, onde vai a cobertura de solo. Nos vasos maiores coloque uma camada de cerca de 5 cm de palha, serragem ou folhas bem secas. Nos vasos pequenos uns 2 cm bastam.

MICROLIÇÃO 5 – COMO PREPARAR A TERRA E ADUBAR
Esse é o segredo e a parte mais difícil do plantio. Verificar quantas horas de sol tem no local diariamente é fácil. Acertar a mão para não deixar a terra muito seca ou muito encharcada também não é muito complicado. Proteger do vento excessivo idem. Mas descobrir os segredos da composição do solo para o bom rendimento das plantas demora a vida inteira.

Não existe uma só receita. Mais ou menos como tempero de feijão, cada um faz de um jeito, mas dá para perceber quando está certo e quando deu errado. E para complicar cada planta é de um jeito: as necessidades nutricionais variam bem.

Eu me sinto um pouco cara-de-pau dando essa lição porque ainda não domino completamente as técnicas de adubação. Mas vou compartilhar algumas dicas básicas que já conseguir captar e seguimos em frente aprendendo juntos.

1 – O primeiro passo para aumentar a fertilidade do solo é incorporar matéria orgânica. Se a terra do seu quintal está dura e sem vida, comece jogando um monte de palha em cima (camada de 30 cm mais ou menos) e deixe lá um tempo. Isso já é meio caminho andado. Se aparecer minhoca, comemore. Se aparecer formiga, agradeça (as formigas são espécies colonizadoras, que ajudam a recuperar solos degradados).

2 – Se você vai plantar em vasos, a receitinha básica é: 40% de terra (qualquer terra), 30 % de areia, 30% de composto orgânico.

3 – Os macronutrientes das plantas são nitrogênio (N), fósforo (P) e potássio (K). N você encontra nos estercos, húmus de minhoca, borra de café (mas como a borra acidifica, melhor compostar antes). O P é abundante na farinha de osso que as lojas de jardinagem vendem. E o K aparece bastante nas cinzas de madeira. Mas não pode vir misturado com sal e gordura de churrasco. Então, se tem uma pizzaria perto da sua casa, peça para doarem para você. Sobre as quantidades, não sei dar uma fórmula, mas é decrescente. Mais N do que P, mais P do que K.

4 – Não use adubação química. Se você vai cultivar de forma orgânica, fique longe dos produtos das lojas de jardinagem que têm letras e número (tipo NPK 10 -10-10). Fique com os insumos que têm nomes de coisas da natureza: esterco, húmus, farinha de osso, casca de ovo, borra de café, cinzas. E, principalmente, faça compostagem em casa! O adubo químico solúvel é o fast-food da planta. Faz crescer e engordar, mas deixa suscetível a doenças.

5 – Observe as plantas que nascem espontaneamente. Elas são indicadoras das condições e necessidades do solo. Dá uma olhada nesse post do querido Gui Reis. http://www.matosdecomer.com.br/2015/08/as-plantas-bioindicadoras-nao-e-tudo.html. Pois eu estou nessa lição. Com os macronutrientes já aprendi a lidar mais ou menos. Para incorporar os micronutrientes aos meus vasos e canteiros estou tendo certa dificuldade e aceito dicas.

MICROLIÇÃO 6 – O QUE PLANTAR?
Isso depende do que você gosta de comer, da época do ano, do espaço disponível, da intensidade da insolação, do acaso (às vezes vc se apaixona por uma planta ou ganha mudas e sementes de amigos). O melhor é usar sementes orgânicas, mas elas são difíceis de encontrar. Por isso, frequentar encontros de trocas é importantíssimo e no Festival haverá essa oportunidade! J Se não tiver sementes orgânicas, fique com as normais, que são vendidas em saquinhos em lojas de jardinagem. Só fuja das transgênicas. Ou seja, grãos milho e soja, se não forem comprovadamente orgânicos, não plante! Na embalagem estão informações sobre período e forma de plantio e espaçamento das mudas.

Uma boa opção é começar a horta pelas ervas: manjericão, salsinha, cebolinha, alecrim, orégano, tomilho. Você conseguirá colher todos os dias e ainda assim as plantas continuarão crescendo. As hortaliças são mais trabalhosas, demoram a dar frutos e em uma salada às vezes você acaba com a safra, o que pode desanimar.

Antes de colocar a mão na massa, a horta dos meus planos tinha sobretudo alface, tomate e cenoura. Três espécies das mais difíceis para cultivar, descobri depois, e que até agora não consigo produzir com regularidade. Eu nem sonhava com almeirão, taioba, bertalha, caruru, ora-pro-nobis, escarola, capuchinha e outras PANCs (Plantas Alimentícias Não Convencionais). Hoje é essa turma, junto com manjericão, couve, capim santo e pimentão, que se tornou abundante no meu quintal.

Às vezes dá a impressão de que certas plantas escolhem a gente e aparecem em profusão, sem serem chamadas. Aproveite a fartura e partilhe os excedentes com amigos e vizinhos. Outras espécies a gente semeia mil vezes, cerca de cuidados e não vão muito bem. Tem a ver com as particularidades climáticas, do solo e outros mistérios que aos poucos vamos desvendando.

MICROLIÇÃO 7 – MUDAS & SEMENTES
Tecnicamente é possível fazer uma horta em casa ou comunitária comprando sempre as mudas e o adubo prontos em lojas de jardinagem. Só que essa não é a experiência completa. Agricultura de verdade é reconexão com o ciclo da vida em todas as suas formas e todas as suas fases, da germinação à decomposição. Também é busca da autonomia, das relações horizontais, de refazer as redes de trocas de sementes e conhecimentos. Na escala doméstica é contrapor-se a um sistema que quer transformar absolutamente tudo em mercadoria e que busca submeter cada pequeno detalhe das vidas de todos nós ao poder do dinheiro.

Germinar as sementes, produzir as mudas e preparar seu próprio composto são partes importantes do processo. Tudo bem comprar adubo pronto de vez em quando ou até as mudinhas que são vendidas no supermercado. Mas vale a pena mergulhar na experiência de aprender a criar vida desde o começo e buscar conexões entre as pessoas e entre as hortas. Você se tornará um guardião da biodiversidade, alguém que vai receber e doar sementes e mudas de espécies que muitas vezes já não existem mais nos supermercados e feiras comuns. Olha só a importância disso!

A sementeira é uma bandeja cheia de casulos, própria para semear (veja a foto). Mas você pode fazer a germinação de copinhos de café, latas ou qualquer outro recipiente pequeno e furado. Misture terra “comum” com composto e passe na peneira para ficar bem fofinho. Aí é só iniciar suas experiências com germinação e trocar ideias com a tribo dos plantadores. O grupo Hortelões Urbanos é ótimo para isso: https://www.facebook.com/groups/horteloes/.

A sementeira é um berçário muito delicado. Precisa ficar abrigado do excesso de sol, de vento e das chuvas fortes. O ideal é construir um estufinha, mas varandas de apartamento e beirais de janelas bem iluminadas também funcionam bem. Não está fácil encontrar sementes orgânicas, então conte com a rede de trocas entre os plantadores. A Daniela Pastanafaz um trabalho lindo na articulação desses grupos. Também dá para comprar pela internet na Bionatur (http://biodinamica.org.br/sementes-bionatur). E aqui em São Paulo tem um lugar incrível para conseguir mudas de centenas de tipos de ervas: a Sabor de Fazenda (http://www.sabordefazenda.com.br/), das queridas Silvia e Sabrina Jeha. Vale o passeio.

MICROLIÇÃO 8 – CUIDADOS DIÁRIOS. E NÃO SE PREOCUPE, VOCÊ VAI ERRAR
Ter uma horta é como ter filho pequeno ou animal de estimação. Você se tornar responsável por cuidados frequentes e imprescindíveis. Se for viajar, terá que arranjar alguém para cuidar diariamente da sua horta. Seja ela no seu quintal ou um projeto comunitário na praça.  Então pense bem nisso antes de embarcar na aventura. Se você é do tipo ultraviajante ou tem uma rotina maluca sem tempo livre, pense em oferecer ajuda a uma horta que já existe. Num verãozão, por exemplo, se você não cuidar sobretudo das mudas pequenininhas por apenas um dia, é provável que aconteça uma mortandade que vai desperdiçar meses do seu trabalho. Então vamos à dicas:

  • Regar demais é tão ruim quanto deixar as plantas secarem. Use o “dedômetro” para aferir a umidade ideal. É assim: você enfia o dedo bem fundo na terra e verifica se está úmida e grudando. Se estiver bem molhado, não precisa regar mais. Se estiver úmido, regue pouco. Se estiver seco, regue bastante.
  • Melhores horários para regar e manejar as plantas: início da manhã ou final da tarde. Prefira os dias nublados e mais frescos para transplantar.
  • A terra deve estar sempre fofíssima como um bolo. Se ficar endurecida, deve estar faltando matéria orgânica, cobertura de palha, água ou tudo isso.
  • Algumas plantas são perenes ou vivem durante várias safras, como é o caso das ervas. Outras têm apenas uma colheita, como o tomate e a alface. Misture esses dois tipos para sempre ter uma horta viva.
  • Enquanto uma safra de folhosas cresce, vá preparando a próxima na sementeira.
  • Quanto mais biodiversidade, melhor. Troque mudas com amigos hortelões, arranje sementes diferentes e vá trazendo novas espécies.
  • Na agroecologia não se fala em ervas daninhas e sim em espécies espontâneas. São os matinhos que crescem sem ser semeados. Não precisa exterminar. Se não estiverem alastrando demais ou atrapalhando o desenvolvimento da planta comestível, deixe lá. Observe o que elas dizem sobre o seu solo. Aqui vai de novo a dica do post do Guilherme que coloquei na microlição 5: http://www.matosdecomer.com.br/2015/08/as-plantas-bioindicadoras-nao-e-tudo.html.
  • O biofertilizante (chorume) do minhocário diluído em água é um excelente adubo para borrifar nas folhas.
  • A cada mês ou quando sentir que a planta está precisando, adube a terra. Mas sem exagero.
  • Contemple todas as etapas da vida: nascimento, crescimento, frutificação, morte e decomposição. Cada uma tem seu encanto.
  • O verão tropical escaldante e sujeito a tempestades é um período complicado para as plantas. Paciência e atenção redobrada nessa época. Se na hora mais quente do dia as plantas murcharem e se contorcerem, respire fundo e aguente. Não é hora de regar. Muitas vezes isso acontece mesmo com a terra bem molhada. Sua planta está tentando se defender da alta temperatura e provavelmente voltará ao normal no fim da tarde. Se a onda de calor dura muitos dias, algumas plantas morrem. O mesmo acontece com as ondas de frio. Vá observando quais são as espécies mais resistentes ao stress climático. Conhecimento fundamental daqui para frente.

Fique tranquilo: você vai errar. Vai errar muito e vai errar muitas vezes. Por falta de experiência, distração, problemas climáticos ou outras razões. Faz parte do processo. Ter uma horta é uma excelente oportunidade de treinar a resiliência, a humildade, a aceitação de que somos falíveis e nem tudo acontece de acordo com a nossa vontade. E se você acertou de primeira, provavelmente não sabe muito bem por quê. Então nas próximas provavelmente vai errar. Só não existe essa história de “não ter mão” para planta. Assim como a culinária, o plantio exige prática e experiência. É fazendo e refazendo mil vezes o ciclo semear, adubar, cuidar, colher e compostar que a gente vai aprendendo “o ponto” de cada etapa.

MICROLIÇÃO 9 – AS ‘PRAGAS’. OU MELHOR, OS SÓCIOS.
Para começar, não existe praga. Nenhum ser vivo desse planeta pode ser considerado uma praga, embora sob certo ponto de vista quem mais mereça o título seja o homo sapiens. Mas desequilíbrios populacionais acontecem. Vamos então chamar o que acontece nas nossas hortas de “proliferações”, que podem ser tanto vegetais quanto animais.

MATOS, MATINHOS E MATÕES – Não se surpreenda se, ao plantar sua muda de alface, outras espécies invadam o canteiro. Tanto a alface quanto as demais hortaliças mais comuns no supermercado são, como diria o permacultor Peter Webb, mimadas. Em geral trata-se de plantas não nativas do Brasil e, portanto, menos adaptadas ao nosso clima e às características do nosso solo. Aprender a comer taioba, caruru, bertalha e outras PANCs (Plantas Alimentícias não Convencionais) faz parte do processo de virar um hortelão.

Aquele visual “pelado” da agricultura convencional não faz bem para o solo, que precisa estar sempre coberto. Então deixe vir os matinhos, aprenda quais podem ser degustados e vai protegendo com carinho as suas plantinhas mais frágeis, o que significa retirar delicadamente quem está querendo sufocar a sua alface, por exemplo. Outra desvantagem do excesso de capina é não deixar alimento para os bichinhos da horta nem esconderijo para os predadores dos bichinhos da horta. Se no canteiro só tiver a sua comida, será o único alimento disponível para os outros seres e aí eles vão atacar mesmo.  Agradeça os matinhos que aparecerem, pois eles inclusive contam como está o solo (de novo, indico o post do Guilherme Reis- http://www.matosdecomer.com.br/2015/08/as-plantas-bioindicadoras-nao-e-tudo.html).

OS BICHOS – Horta saudável é horta cheia de bichinhos. Abelhas polinizam, joaninhas comem pulgões, lagartas serão borboletas, as vespas (carnívoras) ajudam a controlar populações. Formigas em geral são injustiçadas: espécies pioneiras, proliferam em solos degradados e ajudam a incorporar matéria orgânica. Se tem formiga comendo suas plantas, experimente colocar um monte de palha sobre a terra. Elas vão ficar ali felizes nas áreas menos férteis do solo, trabalhando compenetradas para o bem do território. Aranhas, sapos e morcegos mostram a vitalidade do ecossisteminha. Dê boas vindas se aparecerem.

Proliferações de bichinhos acontecem mais nos primeiros tempos da horta, quando há pouca biodiversidade vegetal e animal. Tenha paciência, permitas os matinhos crescerem, plante flores (para atrair bichinhos do bem) e incorpore muita folha seca na cobertura do solo (que deve ter cerca de 7 cm de espessura). Qualquer inseticida é péssimo. Aliás, qualquer produto terminado em “cida” não é para usar, o que inclui fungicida, nematicida etc. Cida — sufixo originário do latim, caedere — significa matar. E a horta agroecológica precisa ser cheia de vida. Ah, o tal neem também está nessa classificação. Eu não uso de jeito nenhum.

DOENÇAS – Às vezes o problema não é nem mato nem bicho. São manchas nas folhas, podridões etc. Pode ser fungo, bactéria, vírus, sei lá. Disso não entendo nada. Se minhas plantas adoecem procuro  entender o que está errado no manejo para tentar acertar na próxima. Se o solo está fértil e equilibrado, a luminosidade, temperatura e quantidade de águas estão adequados, em geral as plantas são saudáveis.

MICROLIÇÃO 10 – COMO AJUDAR NUMA HORTA
Esse é o último post do microcurso. Como deu para ver nos outros 9, cuidar de horta é maravilhoso mas dá um trabalhão. Sempre estamos precisando de ajuda. Felizmente sempre há pessoas bem-intencionadas, mas nem sempre a ajuda é aquilo que precisamos. Então fiz essas duas listinhas simplificadoras baseadas unicamente nas minhas vivências e com tendência de dar polêmica. Peço licença para usar uma linguagem tão direta (assim o texto fica curto) e deixo cada item em aberto para discussão.

O QUE FAZER
– Oferecer insumos: composto, biofertilizante, esterco, mudas, bambus para fazer estacas, sementes, folhas secas, serragem, cinzas, casca de ovos, pó de café, ferramentas, carona para buscar insumos em algum lugar. Mas conte o que pretende doar e veja se aquele item realmente é necessário. Em caso afirmativo, veja se consegue se tornar um fornecedor frequente do item.
– Perguntar: do que vocês estão precisando? E tentar oferecer. Tem serviço para todo tipo de talento. Sempre é preciso fazer placas de identificação e contribuições para o lanche são muito bem-vindas, por exemplo.
– Serviço braçal. Carregar sacos de insumos. Capinar. Podar. Rachar lenha. Manejar a composteira.
– Ajudar a regar. Na época da seca e nos dias de calorão, dependendo do tamanho da horta a rega é uma tarefa bem extensa. Seja em casa ou na praça, pergunte ao cuidador mais experiente quando, quanto e de que modo regar. Cada pessoa tem suas manias, cada planta também. Várias não gostam de água nas folhas, tem as mais sedentas e as que preferem solo mais seco e por aí vai.
– Ser o cuidador da horta no caso de viagem dos que trabalham nela diariamente.
– Perceba que na primeira vez que você vai ajudar seja lá em que tarefa for, você estará solicitando diversas explicações e a atenção do cuidador da horta. Se for algo que você fará apenas uma vez na vida e nunca mais, talvez seja melhor apenas ficar papeando e observando. A menos que o hortelão insista bastante para você participar.
– Colher. Se o cuidador da horta está oferecendo as plantas, aproveite. Nós gostamos muito de repartir o que cultivamos. Mas pergunte como, quanto e quais plantas podem ser colhidas.

O QUE NÃO FAZER
(Antecipadamente peço desculpas se os comentários abaixo soarem antipáticos. Mas são situações frequentes, que tornam mais difícil a vida do hortelão doméstico ou dos voluntários de hortas comunitárias).
– Começar a remodelar canteiros e arrancar “mato” sem antes conversar com quem cuida da horta no dia-a-dia. Existem muitas PANCs (Plantas Alimentícias Não Convencionais) e muitas histórias de canteiros de PANCs que foram dependados porque alguém chegou e resolveu “limpar”.
– Encontrar uma pessoa dando duro na horta e, sem oferecer ajuda, reclamar que os canteiros estão feios, mal cuidados, que tal e tal tarefa deveria ser feita de outra forma. Em geral, sempre faltam braços e sobram palpites nas hortas.
– Encontrar uma pessoa dando duro na horta, não oferecer ajuda e dar explicações sem fim sobre os motivos pelos quais você não participa, contando detalhadamente seus projetos profissionais, problemas pessoais, de saúde e familiares.
– Oferecer seu quintal, outra praça ou seu sítio para o pessoal da horta ir lá plantar, sendo que você não tem intenção de participar. Em geral, o que falta para a expansão da agricultura urbana é mão de obra. Oferecimentos de novos locais para implantação de hortas são bastante frequentes, mas as que já existem têm déficit de voluntários.
– Antes de sugerir embelezamentos, leve em conta que a estética da agroecologia é diferente daquilo que as pessoas costumam identificar como uma horta bonita (canteiros com um único tipo de hortaliça organizado em fileiras e sem nenhum matinho em volta).
– Largar pneus (contaminam o solo), entulho, fórmica (tem muito produto químico e não serve para delimitar canteiros) e outros materiais na horta. Madeira e telhas às vezes são úteis, mas lembre-se que apenas ao largar lá você está dando trabalho extra para os voluntários, que terão que prover um destino ao material. Pergunte antes se o que você tem para doar será útil e participe do trabalho que reutilizará o material.
– Dar uma ideia de alguma melhoria bem trabalhosa que deve ser feita, mas de cuja implantação você não tem interesse em participar.
– Dizer que pretende se tornar voluntário, fazer um milhão de perguntas, solicitar materiais, mais dicas, livros e nunca mais aparecer.
– Adotar um canteiro, ir na horta duas ou três vezes, abandonar o canteiro e não avisar ninguém.
– Dizer para as crianças não se sujarem de terra. É para sujar!
– Roubar mudas, ferramentas e retirar insumos da horta comunitária, sem oferecer nada a ela. Nem material nem trabalho.

Reparou que não comentei o item plantar uma muda? É que o momento do plantio equivale a 0,0001% das atividades na horta. É um instante mágico, mas apenas um instante. O que dá trabalho mesmo é conseguir os insumos, preparar os canteiros e cuidar das plantas por toda a vida delas.

 

139. Jornalistas de roça e fogão

 

Esse é o Michael Pollan

Michael Pollan é jornalista, tem horta em casa e cozinha para a família. Eu também, eu também, eu também! Então Pollan virou meu amigo imaginário e, como está chegando ao Brasil, deve aparecer nas manchetes em breve. Aliás, o movimento das hortas comunitárias e da agroecologia em São Paulo está cheio de colegas nossos de profissão. Por que será que os jornalistas estão ficando doidos por uma enxada?

 

Que eu saiba, o ativismo culinário dos jornalistas começou com Carlo Petrini em 1986, quando a rede Mc Donald’s abriu um de seus restaurantes na Piazza di Spagna, em Roma, ponto simbólico da capital italiana. Foi a gota d’água para Petrini, que já estava muito incomodado com o sumiço do saboroso pimentão quadrado d’Asti, espécie típica do Piemonte que vinha sendo substituída por variedade híbridas sem gosto. Vieram com fast-food e ele inventou o Slow Food, movimento que hoje está em 150 países (inclusive no Brasil) e tem mais de 100 mil membros. A turma age em prol do direito ao prazer na alimentação, do respeito ao meio ambiente e aos agricultores e chegam até mesmo a salvar variedades de alimentos da extinção.

Conheci Michael Pollan em 2007, quando foi lançado “O Dilema do Onívoro”. Nosso relacionamento se aprofundou com a leitura de “Em Defesa da Comida” e de “Cooked” (que está saindo no Brasil como “Cozinhar”, título lindo!). As aventuras agropecuárias de Pollan começam na horta de casa e incluem matar frango em abatedouro artesanal, caçar javali na floresta, estagiar em fazenda orgânica, fazer queijo em mosteiro, preparar vinho, cerveja, pão… Embora nunca o tenha visto, trocamos ideias por telepatia sobre as hortaliças do quintal e as tarefas diárias de preparar refeições para a família. Pollan está chegando para a Flip, onde vai lançar o “Cooked” e em seguida passa por São Paulo. Lá vou eu com os livros debaixo do braço para a fila dos autógrafos.

Na cena paulistana das hortas comunitárias e ativismos agroecológicos, os colegas jornalistas também são muitos. A começar pela querida Tatiana Achcar, que inventou os Hortelões Urbanos, grupo do Facebook que hoje é ponto de encontro de quase 10 mil plantadores de comida (https://www.facebook.com/groups/horteloes/). Tem também o Marcio Stanzani, diretor da AAO – Associação de Agricultura Orgânica (http://aao.org.br/aao/ ). Já a coleguinha Fernanda Danelon criou o Instituto Guandu (http://institutoguandu.com/) , que faz o importante  trabalho de transformar em adubo os resíduos orgânicos de restaurantes. Mariana Belmont vive articulando com os agricultores de Parelheiros e Francine Lima criou o canal “Do Campo à Mesa” (http://canaldocampoamesa.com.br/) para mostrar as maracutaias dos produtos alimentícios industrializados.

Hoje em dia me apresento como “jornalista e agricultora urbana” e acho que as duas atividades combinam muito bem. Aliás, os mutirões das hortas comunitárias parecem reuniões de pauta com tanto colega de profissão. Não imagino por que justamente a minha categoria está entusiasmada com as enxadas, mas percebo que as atividades de plantar e cozinhar complementam perfeitamente o esforço  intelectual da escrita. Aprendi também que cultivar legumes na praça é uma boa maneira de comunicar ideias sobre o relacionamento da nossa sociedade com a alimentação, os agricultores e o meio ambiente. Só que quando estou lá brincando de camponesa nem lembro disso, já que fico muito ocupada em ser feliz.

Quer bater um papinho com o Pollan? Boa entrevista essa do jornal português Público: http://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/esta-a-comer-comida-verdadeira-1663742

132. SP Zona Rural

 

Sítio Oyama: floresta, lavoura e nascentes
Vistoria participativa da Agricultura Limpa

A visita a um agricultor de Parelheiros e as muitas ameaças que o último refúgio de lavoura e floresta em São Paulo está enfrentando.

Moro em São Paulo desde que nasci e não conhecia Parelheiros. Voltei de lá com a sensação de que estive em outro mundo. 

Nas lonjuras ainda verdes do extremo sul de São Paulo existem cerca de 400 agricultores. Apenas 30 são orgânicos ou estão em processo de transição (os outros continuam jogando agrotóxico em plantações próximas às represas). Essa turminha assinou o Protocolo Guarapiranga, fundou a Cooperativa Agroecológica dos Produtores Rurais e de Água Limpa da Região Sul de São Paulo, mais conhecida como Cooperapas, e criou uma Organização de Controle Social (OCS) para a autofiscalização. Eles oferecem suas hortaliças sem veneno nas feiras orgânicas da Água Branca, Modelódromo (próximo ao Parque do Ibirapuera) e Parque Burle Marx. E, o mais importante, são os defensores de nossas águas.

Para garantir a qualidade do cultivo agroecológico, é necessário que o poder público e os consumidores fiscalizem. Aí que eu e alguns colegas entusiasmados com a importância de incentivar a agricultura limpa entramos: ajudando a vistoriar a lavoura. Embarquei nesse programa por causa do Henrique Paulo, horteleiro de quintal como eu. Ele é o cara que está articulando a ponte entre a turma das hortas comunitárias de SP e os agricultores ecológicos profissionais da cidade.  Um trabalho voluntário muito lindo. Estava conosco também a Fabíola Donadello, que tem mãos de fada para germinar sementes e levou para a ZR paulistana mudas que fez brotar em sua casa no Sumaré.   

Visitamos o Sítio Oyama, que produz umas 30 espécies de hortaliças inclusive algumas raras como berinjela japonesa (bem escura e fininha). No sítio rolou um encontro alegre e muito produtivo entre vários produtores de Parelheiros, alguns funcionários nota 10 da prefeitura e nós, os consumidores. Adorei conhecer as agricultoras Valéria Marcoratto, Vânia dos Santos, Maria José Kunikawa, Cida Oshi e Massue Shirasawa. Alguns dias depois estive na feira do Parque Burle Marx, comprei umas coisinhas deliciosas na barraca da família Shirasawa e encontrei o simpático Cícero, filho da Massue. É outra coisa levar para casa verduras entregues pelo próprio produtor e ainda por cima vindas de um local que a gente conhece!

Bom, voltando a Parelheiros, nosso encontro começou com uma feirinha de troca de sementes e em seguida a pauta da reunião foi cumprida rigorosamente e registrada em ata. Aí veio a vistoria. Com o maior orgulho, Ernesto Oyama mostrou os dois hectares onde família vive há 70 anos, quando o avô instalou ali uma granja. Em 2010 abandonaram os agrotóxicos e pouco a pouco estão se aperfeiçoando nas técnicas orgânicas. As sementeiras ficam à sombra de cerejeiras que fazem lembrar as origens nipônicas. Tem bastante mata nativa em volta dos campos cultivados e o córrego de água cristalina que brota da floresta é suficiente para regar. Tudo cultivado com o maior amor apenas pelo Ernesto e seus pais. O encontro terminou com um delicioso almoço caipiro-japonês que a Dona Tereza, mãe do Ernesto, preparou. Sentamos no terraço, ao lado de um tanque com carpas. Olhando toda aquela beleza, achei possível São Paulo um dia se tornar cenário de sonho.

Mas a situação atual de Parelheiros está mais para prenúncio de pesadelo e todos os 20 milhões de habitantes da megalópole deveriam estar muito preocupados com isso. Os problemas são os seguintes:

  1. Como já citado, são centenas de agricultores jogando agrotóxicos perto das represas. De lá para nosso copo e nossa panela é um pulo. Ou melhor, um cano.
  2. A região está sob forte pressão imobiliária. Enquanto o novo Plano Diretor, em vias de ser aprovado, tenta requalificar a área como rural, grupos se articulam para invasões de terra, criação de novos condomínios e conjuntos de prédios que fatalmente reduzirão a água disponível para a cidade e ainda por cima despejarão esgoto nos mananciais.
  3. Há um malfadado projeto de aeroporto na área, o que aumentaria o incentivo ao desmatamento, além de prejudicar a flora e fauna local.
  4. Se a região sul de São Paulo perder o verde, acabou de vez o cinturão florestal da cidade. Com isso, as nascentes de água diminuirão na proporção inversa do aumento de temperatura,  secura e poluição. Ou seja, viveremos literalmente num deserto.

O que fazer para impedir essa desgraça? Só pensava nisso durante o trajeto de volta. Saí do sítio do Ernesto por uma bucólica estradinha de cascalho cercada por floresta, peguei a Av. Senador Teotônio Vilela (ainda com bons nacos de verde em volta) e entrei no bairro cinza do Grajaú, onde peguei o trem sentido Osasco que corre ao lado do degradadíssimo Rio Pinheiros. Na estação que tem o nome do rio recuperei minha bicicleta e voltei pedalando para casa sem descobrir a resposta.

(As visitas aos sítios de Parelheiros acontecem todo mês. O ideal é ter 4 ou 5 consumidores acompanhando por vez. Qualquer pessoa pode participar e eu recomendo.)


 

 

130. 20 motivos para incentivar a agricultura urbana

Horta do Ciclista (Av. Paulista entre Bela Cintra e Consolação)

Esse post é de 2013 e chamava “18 motivos…”. Descobri mais dois:
19º – Valorizar quem traz consigo saberes desprezados pela sociedade de consumo, como a ciência e a arte de cultivar alimentos para subsistência. Essa turma — que inclui muitos idosxs, pobres, mulheres e analfabetxs das letras — é que está nos alfabetizando na lida com as plantas comestíveis.
20º – Reconstruir pontes entre as pessoas. Nesse momento de opiniões polarizadas e conflitos ideológicos, a agricultura urbana nos faz lembrar que todos nos alimentamos, que todos estamos ligados à terra e somos irmãos perante a natureza.

Daqui para frente vem o texto original…

Típico da nossa sociedade compartimentada, o viaduto é uma solução pontual e ineficiente para apenas um problema. Custa muito, em geral não resolve o congestionamento, mas consegue aniquilar a qualidade de qualquer espaço urbano. Uma horta comunitária em uma praça ou uma horta para comercialização nas zonas mais afastadas do centro representa o oposto: solução quase grátis, prazerosa e sistêmica para um montão de problemas. Senhores governantes: por que investir tanto em viadutos e tão pouco em agricultura urbana?

Quando comecei a plantar comida na cidade só estava pensando no primeiro objetivo dessa lista. Aos poucos, fui descobrindo todos os outros.  

BENEFÍCIOS AMBIENTAIS

 1 Menos pressão sobre os recursos naturais – Cada pé de alface produzido no quintal ou na horta da esquina dispensa espaço no campo, transporte e embalagem. Na verdade, no caso da hortaliça-símbolo da salada, até o método de colheita muda: você só retira da planta as folhas que vai consumir naquele momento e ela continua produzindo por mais alguns meses. É urgente que as populações urbanas reduzam a demanda sobre os recursos naturais, pois as cidades hoje ocupam 2% da superfície terrestre mas consomem 75% dos recursos.

2 Combate às ilhas de calor –  Áreas pavimentadas irradiam 50% a mais de calor do que superfícies com vegetação. Em São Paulo, a geógrafa Magda Lombardo constatou que a temperatura pode variar até 12 graus entre um bairro e outro. Não por acaso, a Serra da Cantareira e a região de Parelheiros são as mais frescas da cidade: é onde a vegetação se concentra.

3 Permeabilização do solo – Enchentes e enxurradas violentas são em parte resultado do excesso de pavimentação na cidade. E simples jardins de grama, onde o solo fica compactado, não absorvem tanta água quanto canteiros fofinhos das hortas.

4 Umidificação do ar  – As plantas contribuem para reter água no solo e manter a umidade atmosférica em dias sem chuva.

5  Refúgio de biodiversidade – Nas hortas comunitárias recuperamos espécies comestíveis que se tornaram raras (como caruru, ora-pro-nobis, bertalha), plantamos variedades crioulas (as plantas “vira-lata” que têm maior variedade genética e por isso são mais resistentes às condições climáticas adversas) e atraímos uma rica microfauna, especialmente polinizadores como abelhas de diversas espécies, que estão em risco de extinção provavelmente pelo uso de agrotóxicos nas zonas rurais. Sou voluntária da Horta do Ciclista e testemunha de que as borboletas, joaninhas e abelhas aparecem em plena  Avenida Paulista quando plantamos flores e hortaliças.

6 Redução da produção de lixo – Os alimentos produzidos localmente não só dispensam embalagens (que correspondem à maior parte do lixo seco produzido) como absorvem  grande quantidade de resíduo orgânico na fabricação de adubo e até materiais de difícil descarte como restos de madeira, que são usados na delimitação de canteiros.

7 Adaptação às mudanças climáticas – A emissão descontrolada de gases do efeito estufa está tornando o clima mais instável e imprevisível, o que é péssimo para a produção de alimentos. A agricultura urbana tem sido considerada uma importante alternativa para a segurança alimentar e existem estudos indicando que cerca de 40% dos alimentos podem ser produzidos dentro das cidades.  Para saber mais veja  http://conectarcomunicacao.com.br/blog/96-comida-de-amanh/

BENEFÍCIOS URBANÍSTICOS

8 Conservação de espaços públicos – Para explicar vou contar uma historinha: em 12 de outubro de 2012, quando fizemos o primeiro mutirão na Horta do Ciclista (http://pt.wikiversity.org/wiki/Horta_do_Ciclista) encontramos no local muito lixo, cacos de vidro e até fezes e seringa usada. A partir do momento que começamos  a cuidar daquele canteiro, a população passou a respeitar. Não houve depredação nem mesmo durante as grandes festas e manifestações que têm acontecido na Avenida Paulista.

9 Redução da criminalidade – Uma horta necessita de cuidados diários e se torna um local muito visitado. Famílias com crianças pequenas gostam de freqüentá-las, assim como  velhinhos, grupos de estudantes e um monte de gente bem intencionada em busca de uma canto pacífico na urbe. O clima comunitário naturalmente afasta quem está pretendendo cometer atos ilícitos. No Brasil ainda não há estimativas sobre isso, mas nos Estados Unidos vários estudos já foram feitos, alguns deles citados nesse artigo http://www.motherjones.com/media/2012/07/chicago-food-desert-urban-farming.

10 Vida local  – Um dos problemas das grandes cidades, particularmente de São Paulo, é o excesso de deslocamentos numa malha viária sobrecarregada. A agricultura — seja ela praticada como forma de lazer, trabalho comunitário ou profissão — fixa as pessoas no território diminuindo a demanda por transporte.

11 Contenção da mancha urbana – Se há incentivo para a produção agrícola nas franjas das cidades e a atividade se combina com turismo rural, diminui a pressão para desmatar e lotear.  Mas esse benefício a população e os agricultores não conseguem manter sem o apoio do poder público.

BENEFÍCIOS SOCIAIS E PESSOAIS

12 Renascimento da vida comunitária – As hortas promovem a integração entre pessoas de diferentes idades, origens e estilos de vida. Assim como os cachorros, são mediadores sociais muito eficientes. Não falta assunto quando há tanta coisa a admirar, tanta tarefa a compartilhar, tanta dica e receita a trocar.

13 Lazer gratuito – Plantar custa praticamente nada. É divertido, um bom pretexto para juntar os amigos e fazer um lanche comunitário e ainda dá para levar umas verduras para casa sem pagar.

14 Mais saúde – Agricultura é exercício e cada pessoa regula a intensidade. Do tai-chi-chuan contemplativo de joaninhas ao aero-power-enxadão, tem ginástica para todos os gostos. Além disso, mexer com a terra é terapia preventiva e curativa de depressão, ansiedade, adicção, sedentarismo, obesidade, entre outros problemas, sobretudo mentais. E nesse item tem até pesquisa brasileira para comprovar. A autora é Silvana Ribeiro, da Faculdade de Saúde Pública da USP: http://www5.usp.br/29818/agricultura-urbana-agroecologica-auxilia-promocao-da-saude-revela-pesquida-da-fsp/. Tem também o documentário “Saindo da Caixinha”. Sim, cuidar de uma horta pode substituir medicamentos psiquiátricos barra-pesada. https://www.youtube.com/watch?v=brrrX8biFJE.

 15 Educação ambiental na prática – Ver de perto o desenvolvimento das plantas, da germinação à decomposição, é muito melhor e mais eficaz do que aprender sobre os ciclos da natureza numa sala de aula ou num livro. Além de uma universidade viva de botânica, as hortas são excelentes locais para estudar o ciclo da água e a microfauna, entre muitos outros temas.

16 Educação nutricional – Como na TV não passa anúncio de brócolis e abobrinha e o “estilo de vida moderno” afastou muitas famílias dos alimentos na forma natural, existem crianças hoje em dia nunca viram um pimentão ou uma cenoura. Para ter uma ideia dos riscos da alimentação industrializada para as próximas gerações, sugiro assistir o documentário Muito Além do Peso (http://www.muitoalemdopeso.com.br/). Para ver como a agricultura urbana pode inverter esse jogo, sugiro ler American Grown (de Michelle Obama) e Edible Schoolyard (de Alice Waters). Ou simplesmente dar uma voltinha na horta comunitária mais perto de você.

17 Promoção da segurança alimentar – Nossos antepassados sabiam conseguir comida sem ter que comprar. Praticamente toda a humanidade era composta de camponeses. Esses conhecimentos foram sendo desprezados nas últimas décadas e, diante da  perspectiva de crise econômica e ambiental, reavivá-los pode ser muito útil. Se você não gosta de conversa apocalíptica, favor voltar ao item anterior: segurança alimentar não é só ter o que comer, é também saber escolher os alimentos corretamente.

18 Integração agricultor/consumidor – Quem planta comida, mesmo que seja em três vasos no quintal, se torna curioso a respeito da origem dos alimentos que consome. E se sente irmanado aos agricultores: quer saber mais, tem vontade de visitar e apoiar os produtores, busca alimentos  cultivados de forma mais justa e sem uso de fertilizantes químicos e agrotóxicos. Junto com as hortas urbanas que surgem nos bairros de classe média de São Paulo estão nascendo muitas conexões e até amizades com agricultores próximos da metrópole. Um ciclo virtuoso e nutritivo de cuidados mútuos.

PARA SABER MAIS

  • A cidadezinha de Tordmorden, na Inglaterra, ficou famosa porque tem hortas comunitárias em todos os cantos, até na delegacia e no cemitério. O pessoal de lá registrou dicas para quem quer replicar a experiência.
    http://www.shareable.net/blog/10-steps-toward-an-incredible-edible-town
    1) Comece com o que vc tem e não com o que vc não tem;
    2) Não faça um plano estratégico;
    3) Não espere por permissão;
    4) Simplifique;
    5) Deixe a existência da horta divulgar o movimento e provocar diálogos;
    6) Faça conexões;
    7) Comece agora, pensando duas gerações adiante;
    8 ) Redescubra talentos esquecidos;
    9) Reconecte pequenas empresas e artesãos com os consumidores;
    10) Redesenhe sua cidade.
  • Aqui no Brasil, nós, do grupo Hortelões Urbanos (https://www.facebook.com/groups/horteloes/), fizemos esse
    ROTEIRO COLABORATIVO PARA UMA HORTA COMUNITÁRIA
    1) Encontre um espaço disponível;
    2) Procure parceiros;
    3)Converse com os vizinhos;
    4) Vá com a turma visitar as hortas comunitárias que já existem;
    5) Junte os voluntários para desenhar e planejar a horta que será construída;
    6) Consiga sementes, mudas, composto orgânico, enxadas, pazinhas de jardinagem, folhas secas, material para delimitar os canteiros e fazer plaquinhas;
    7) Realize o primeiro mutirão;
    8 ) Monte uma escala de trabalho para regas e manutenção;
    9) Crie uma forma de contato para outras pessoas se comunicarem com o pessoal da horta (blog, e-mail, grupo no Facebook, o que preferirem);
    10) Celebre a abundância e a solidariedade.

125. Vida louca, vida linda

Parece que toda a diversidade humana resolveu visitar a solitária jardineira que cuidava de uma horta na Avenida Paulista em plena terça-feira à tarde.  

Por causa do post anterior, teve gente perguntando se eu ia fechar o blog ou estava com algum problema sério. Nada disso. É que as manifestações de junho trouxeram tanta cacofonia de opiniões que resolvi ficar quieta um pouco.

Para falar a verdade, ultimamente tenho me dedicado mais à agricultura do que à escrita. Descobri que, empunhando a enxada, a gente aprecia o mundo de outra forma, assim como provoca reações diferentes. Sobretudo se a roça em questão fica no canteiro central da Avenida Paulista entre a Consolação e a Bela Cintra: a Praça do Ciclista. Ali, ponto dos mais muvucados na megalópole insana, existe uma horta comunitária desde 12 de outubro de 2012. Trata-se do frágil jardim comestível que, no entanto, já sobreviveu ao Réveillon, à Parada Gay, à guerra entre manifestantes e polícia nos momentos mais tensos dos protestos de junho e a muitos outros encontros de multidões reivindicadoras e anárquicas. Além de cotidianamente servir de abrigo noturno para moradores de rua. Pois bem, a horta nunca foi pisoteada. E a praça ficou muito mais limpa depois que ela chegou.

Um pequeno grupo de voluntários, do qual faço parte, se reveza na manutenção diária. E no primeiro domingo do mês a partir do meio dia acontecem os mutirões, onde nos encontramos para dar um trato mais caprichado na microlavoura e confraternizar.

Hoje, 16 de julho de 2013, uma terça feira qualquer e quase milagrosamente calma, foi a minha vez de cuidar da Horta do Ciclista (http://pt.wikiversity.org/wiki/Horta_do_Ciclista).  Ver a cara das pessoas quando a gente atravessa a Paulista carregando esterco e enxada já vale o programa. Mas o melhor veio depois. Na chegada conversei com uma mineira sorridente que nunca tinha ouvido falar em horta comunitária e ficou maravilhada porque qualquer um pode colher. E pode mesmo! Os manjericões, por exemplo, estão lindos e precisando de uma poda radical. Isso significa que a matéria prima para um belo pesto está ali esperando o cozinheiro aparecer. Vc se habilita?

Enquanto adubava os canteiros, skatistas arrepiavam no cimento. Aí passou um ciclista com máscara antipoluição perguntando se pode plantar cannabis (expliquei que não, pois pode dar rolo e inviabilizar todo o projeto). Mãe e filha sentaram na mureta em clima de contemplação e a três metros dali se acomodou um casal meio punk aos amassos. Quando eles foram embora apareceram duas meninas para fumar cannabis e ofereceram. Agradeci a gentileza, mas declinei alegando estar no serviço. Depois veio um cara oferecendo muda de ora-pro-nobis (recusei porque a planta fica muito grande e é espinhuda demais para uma horta tão pequena). Então ele respondeu que volta lá alguma hora para plantar um lance parecido com malva que não guardei o nome. Uma velhinha investigou várias plantas com cara de conhecedora de horticultura, mas se mandou sem conversa.

Fui até o estacionamento em frente preparar a rega. Essa horta, aliás, só existe graças à boa vontade dos manobristas, que armazenam nosso equipamento em seu minúsculo banheiro (dois baldes, um regador e uma enxada) e ainda liberam a água. Ao destrancar a torneira, a caixa do estacionamento explicou que os noias vão lá toda hora pedir para tomar banho de esguicho. Enquanto isso, a delegação de jovens de Milão que vieram ao Brasil encontrar o Papa Francisco passou cantando e com bandeiras imensas da Itália. Ao mesmo tempo, uma manifestação de um monte de gente vestida de branco (depois descobri que eram médicos querendo garantir a reserva de mercado) fechava a Rua da Consolação.

Luciano Santos, advogado que tem escritório em frente e é um dos principais guardiões da horta, adentrou portando terno e gravata para a gente trocar uma ideia sobre como lidar com as lagartas do maracujá. Sim, em breve teremos borboletas nativas! Atravessei a rua umas 10 vezes carregando água, reguei tudo e missão cumprida. De carro na Paulista vi pelo retrovisor um grupinho PMs circundando uma motociclista acidentada cinco metros atrás. Ela levantou e sacudiu a poeira (ufa, nada grave).

Só mesmo a necessidade de carregar sacos e sacos de adubo me convence a ir dirigindo para a avenida mais famosa da cidade.  E enquanto aguentava o trânsito na volta, só conseguia pensar na loucura e maravilha que é o mundo. Não fiz foto porque sou uma das únicas pessoas desse universo que não anda por aí com máquina e não consegue tirar foto com o celular. A que ilustra o post é dessa horta mágica, alguns meses atrás.

117. Tem horta na Paulista!

Sabe onde é isso? Av. Paulista quase esquina da Consolação.

Sabe o que é isso? O quarto mutirão da Horta Comunitária da Praça do Ciclista (um pedacinho de terra que começamos a cultivar em 12 de outubro). Em 2/12/2012 já deu para colher manjericão e ver tomatinhos aparecendo, além de couves quase no ponto de ir para a feijoada e muitas ervas culinárias crescidas e saudáveis. Nesse encontro especial demarcamos os canteiros, plantamos novidades (como feijão), fizemos pic-nic e aproveitamos a integração com o pessoal da Parada Veg, do Slow food, do Pedal Verde, do Bike Anjo e um monte de gente independente, livre, leve e feliz que apareceu lá para mexer na terra.

O pessoal sempre pergunta: não rola depredação? Não, não rola. A horta está sendo tratada com todo carinho por nós, cidadãos dessa cidade e desse planeta. Plantar comida no canteiro central de uma das principais avenidas dessa metrópole louca é utopia? É loucura? Não, já é realidade e isso é só o começo.

Yes, we can viver uma vida diferente e mais feliz.

(Fotos de Fernanda Danelon)

Para saber mais sobre a Horta do Ciclista: http://pt.wikiversity.org/wiki/Horta_do_Ciclista 

116. As roças de São Paulo

Plantar comida no quintal já é muito bom. Participar de uma horta coletiva em espaço público, simplesmente maravilhoso.

Desde que iniciei minha horta doméstica, há quatro anos, trabalhar a terra coletivamente em plena cidade de São Paulo virou um sonho. Eu duvidava um pouco que fosse possível e não esperava que acontecesse tão cedo. Mas já virou realidade!

Desde julho tenho o privilégio de fazer parte do grupo de voluntários da Horta das Corujas, na Vila Madalena. Está sendo uma experiência incrível, não só de aprendizado sobre plantio, mas principalmente de convivência humana. Nem é preciso mencionar os imensos problemas da metrópole, muito conhecidos por todos, mesmo por quem nunca pisou na pauliceia. Então a princípio o projeto foi visto com certa desconfiança. O terreno é contaminado? A água da nascente (que usamos para regar) está suja? As pessoas vão destruir os canteiros? Não, não e não! A prefeitura deixa? Vai aparecer alguém para ajudar no serviço pesado? Sim e sim! 

Quando eu ainda não plantava, trabalho braçal na roça me parecia algo penoso e desagradável. Não fazia ideia de que pegar na enxada podia fazer tão bem para o corpo, a alma e os relacionamentos. Sequer imaginava que a labuta na terra era tão fértil para o companheirismo e a reconexão com a natureza e o ciclo da vida. E que uma horta é um ímã de gente do bem. Mais detalhes não preciso contar porque nosso blog (www.hortadascorujas.wordpress.com) registra toda a história, desde o comecinho. Basta ler de baixo para cima.

Horta na Paulista?  Em plena avenida mais famosa da megalópole acaba de nascer a Horta do Ciclista. Fica na rotatória entre a Rua Bela Cintra e a Rua da Consolação, um espaço que os ciclistas adotaram como ponto de encontro. Ali não sou das voluntárias mais ativas, apenas participo dos mutirões de plantio em finais de semana. Algumas pessoas que trabalham na região estão se organizando para cuidar da horta no dia-a-dia e o esquema, 100% livre e 50% anárquico, funciona! Tudo na base da camaradagem e da ajuda mútua. Basta um balde (emprestado do prédio em frente) e um pouco de água para manter as plantas vivas até o próximo encontro de trabalho intensivo. Qualquer pessoa pode participar. As dicas estão nessa página wiki: https://pt.wikiversity.org/wiki/Horta_do_Ciclista.  

De novo, a desconfiança inicial foi grande. “Naquele lugar passa tanta gente, o pessoal não vai arrancar e pisotear?”, ouvimos mais de uma vez.  A resposta até agora é não. Os paulistanos estão respeitando esses projetos e, ao que parece, a cidade está preparada para muitas outras hortas coletivas. Que venham elas!

Para quem se interessa por cultivo de alimentos na cidade, mesmo que seja na varanda do apartamento, recomendo o grupo Hortelões Urbanos no Facebook (https://www.facebook.com/groups/170958626306460/).

113. Em vez de reclamar, vamos melhorar São Paulo?

Se existem mil motivos para falar mal de São Paulo, também há infinitos jeitos de dar uma contribuição para a cidade ficar melhor. Superfeliz por estar acompanhando diversas iniciativas que pretendem tornar a metrópole um lugar melhor para viver, vou compartilhar algumas delas, torcendo para que ganhem força e mais apoiadores.

 

  • Duas hortas comunitárias estão nascendo na cidade, ambas ligadas ao movimento dos Hortelões Urbanos. A primeira fica na Praça das Corujas (Vila Madalena) e já está na fase de plantio. Fizemos um blog para contar como anda o projeto www.hortadascorujas.wordpress.com e estamos recebendo voluntários de braços abertos. Os mutirões acontecem nos finais de semana. Os próximos serão em 19/8 (domingo) e 25/8 (sábado) a partir das 9h. A outra, ainda em fase de planejamento, será instalada no Centro Cultural São Paulo (Metrô Vergueiro) e também busca voluntários. Se quiser participar, mande uma mensagem para mim ou comente esse post que coloco você em contato com quem está fazendo o projeto.

 

  • Semana passada participei do Seminário “Compostagem na Cidade de São Paulo: Gestão Adequada dos Resíduos Orgânicos”. Foi na Câmara dos Vereadores, um momento histórico que marcou o início das atividades da Comissão Pró-Viabilização da Compostagem na Cidade de São Paulo. Esse grupo, integrado por representantes do poder público e da sociedade civil, está buscando maneiras de tornar a compostagem uma política pública, reduzindo muito a geração de lixo e ainda produzindo adubo orgânico de alta qualidade dentro da metrópole. Para saber mais:  http://www.moradadafloresta.org.br/artigos/compostagem-na-cidade-de-sao-paulo/618-propostas-pro-compostagem-na-cidade-de-sao-paulo

 

 

  • No sábado dia 25/8 darei o curso Hortas na Metrópole, no Quintal dos Orgânicos (Rua Fradique Coutinho, 1416, Vila Madalena). Vou falar sobre as melhores espécies de vegetais para começar o plantio doméstico, como escolher o local onde os vasos e/ou canteiros ficarão, como preparar a terra e os cuidados necessários para as plantas crescerem fortes e saudáveis. Custa R$ 60 e as inscrições podem ser feitas pelo e-mail claudia@conectar.com.br.

107. Como encontrei minha tribo

Fazer parte dos Hortelões Urbanos (grupo do Facebook de pessoas que plantam comida na cidade) mudou minha vida. Estou superfeliz porque no domingo que vem (22/4) vamos fazer um pic-nic no Parque da Luz para trocar sementes, mudas e ideias. O encontro é aberto, gratuito e você está convidado!

Em fevereiro do ano passado, minha amiga Fernanda Salles colocou um recadinho no Facebook: “Agricultura urbana, aqui vou eu!”. Era o convite para uma oficina da Hubescola (www.hubescola.com.br) em que a jornalista Tatiana Achcar contaria suas andanças pelo mundo atrás de hortas em cidades.

Eu já plantava comida no quintal de casa há quase três anos, totalmente sozinha. Fui ao curso, encontrei minha tribo e fiquei amiga da Tati, que no dia seguinte criou um grupo de discussão por e-mail chamado Hortelões Urbanos, para que os participantes pudessem manter contato e trocar ideias sobre suas microlavouras. Conheci na mesma noite a Susana Prizendt, com quem embarquei em aventuras agroecológicas que desenbocaram na Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida (www.contraosagrotoxicos.org).

Meses depois, Tati me convidou para fazermos juntas uma oficina na Hubescola seguinte, marcada para julho de 2011. Juntando minha vivência doméstica às experiências internacionais da parceira, o resultado foi um encontro delicioso em que cerca de 40 pessoas mergulharam em sonhos e projetos para deixar a cidade mais verde e nutritiva. Decidimos então criar no Facebook o grupo Hortelões Urbanos (https://www.facebook.com/groups/170958626306460/).

Cada um foi convidando seus amigos verdes e hoje já são mais de 600 hortelões conectados e a movimentação diária na página é grande . Por ali rolam informações sobre cultivo, fotos orgulhosas de nossos canteiros, dicas para produzir adubo em casa, combater pragas, usar na cozinha as colheitas e muito mais. Qualquer pessoa pode participar (basta ir na página e solicitar a entrada) e qualquer participante pode trazer adesões.

No próximo domingo finalmente vamos nos encontrar ao vivo. O Encontro dos Hortelões Urbanos/7º Pic-Nic de Trocas de Mudas e Sementes acontecerá no Parque da Luz, das 10h às 14h (para quem não sabe, fica no centro de São Paulo, do lado da Estação Luz do metrô e CPTM). Teremos uma mesa para o lanche comunitário e outra para a troca de sementes e mudas. Na organização, Tati Achcar, Juliana Gatti, Daniela Cuevas e eu. Ju e Dani, que são veteranas nessa atividade (realizaram os seis pic-nics anteriores no parque) acolheram a ideia de agregar os Hortelões com o maior carinho. Para saber mais: http://the-hub.com.br/hubloja/produto.php?id=42

Na noite de 25/4 (quarta-feira), Tati e eu vamos fazer mais uma oficina: No campo, no quintal e no prato: revolução dos alimentos para um mundo melhor. A atividade também faz parte da programação da Hubescola de Outono e pretende gerar reflexões sobre a origem da nossa comida e inspirar mudanças de atitude para melhorar a saúde pessoal e planetária a partir de escolhas alimentares. Informações e inscrições: http://the-hub.com.br/hubloja/produto.php?id=53

A Hubescola de Outono já começou, com muitas oportunidades para expandir horizontes na vida e no trabalho. Dá uma olhada na programação completa: http://www.the-hub.com.br/hubescola/programacao

PS – Hortelão é um homem que cuida de uma horta. Eu posso ser chamada de hortelã e adoro! Aliás, tenho bastante hortelã plantada aqui e vivo fazendo chá e suco com ela.