125. Vida louca, vida linda

Parece que toda a diversidade humana resolveu visitar a solitária jardineira que cuidava de uma horta na Avenida Paulista em plena terça-feira à tarde.  

Por causa do post anterior, teve gente perguntando se eu ia fechar o blog ou estava com algum problema sério. Nada disso. É que as manifestações de junho trouxeram tanta cacofonia de opiniões que resolvi ficar quieta um pouco.

Para falar a verdade, ultimamente tenho me dedicado mais à agricultura do que à escrita. Descobri que, empunhando a enxada, a gente aprecia o mundo de outra forma, assim como provoca reações diferentes. Sobretudo se a roça em questão fica no canteiro central da Avenida Paulista entre a Consolação e a Bela Cintra: a Praça do Ciclista. Ali, ponto dos mais muvucados na megalópole insana, existe uma horta comunitária desde 12 de outubro de 2012. Trata-se do frágil jardim comestível que, no entanto, já sobreviveu ao Réveillon, à Parada Gay, à guerra entre manifestantes e polícia nos momentos mais tensos dos protestos de junho e a muitos outros encontros de multidões reivindicadoras e anárquicas. Além de cotidianamente servir de abrigo noturno para moradores de rua. Pois bem, a horta nunca foi pisoteada. E a praça ficou muito mais limpa depois que ela chegou.

Um pequeno grupo de voluntários, do qual faço parte, se reveza na manutenção diária. E no primeiro domingo do mês a partir do meio dia acontecem os mutirões, onde nos encontramos para dar um trato mais caprichado na microlavoura e confraternizar.

Hoje, 16 de julho de 2013, uma terça feira qualquer e quase milagrosamente calma, foi a minha vez de cuidar da Horta do Ciclista (http://pt.wikiversity.org/wiki/Horta_do_Ciclista).  Ver a cara das pessoas quando a gente atravessa a Paulista carregando esterco e enxada já vale o programa. Mas o melhor veio depois. Na chegada conversei com uma mineira sorridente que nunca tinha ouvido falar em horta comunitária e ficou maravilhada porque qualquer um pode colher. E pode mesmo! Os manjericões, por exemplo, estão lindos e precisando de uma poda radical. Isso significa que a matéria prima para um belo pesto está ali esperando o cozinheiro aparecer. Vc se habilita?

Enquanto adubava os canteiros, skatistas arrepiavam no cimento. Aí passou um ciclista com máscara antipoluição perguntando se pode plantar cannabis (expliquei que não, pois pode dar rolo e inviabilizar todo o projeto). Mãe e filha sentaram na mureta em clima de contemplação e a três metros dali se acomodou um casal meio punk aos amassos. Quando eles foram embora apareceram duas meninas para fumar cannabis e ofereceram. Agradeci a gentileza, mas declinei alegando estar no serviço. Depois veio um cara oferecendo muda de ora-pro-nobis (recusei porque a planta fica muito grande e é espinhuda demais para uma horta tão pequena). Então ele respondeu que volta lá alguma hora para plantar um lance parecido com malva que não guardei o nome. Uma velhinha investigou várias plantas com cara de conhecedora de horticultura, mas se mandou sem conversa.

Fui até o estacionamento em frente preparar a rega. Essa horta, aliás, só existe graças à boa vontade dos manobristas, que armazenam nosso equipamento em seu minúsculo banheiro (dois baldes, um regador e uma enxada) e ainda liberam a água. Ao destrancar a torneira, a caixa do estacionamento explicou que os noias vão lá toda hora pedir para tomar banho de esguicho. Enquanto isso, a delegação de jovens de Milão que vieram ao Brasil encontrar o Papa Francisco passou cantando e com bandeiras imensas da Itália. Ao mesmo tempo, uma manifestação de um monte de gente vestida de branco (depois descobri que eram médicos querendo garantir a reserva de mercado) fechava a Rua da Consolação.

Luciano Santos, advogado que tem escritório em frente e é um dos principais guardiões da horta, adentrou portando terno e gravata para a gente trocar uma ideia sobre como lidar com as lagartas do maracujá. Sim, em breve teremos borboletas nativas! Atravessei a rua umas 10 vezes carregando água, reguei tudo e missão cumprida. De carro na Paulista vi pelo retrovisor um grupinho PMs circundando uma motociclista acidentada cinco metros atrás. Ela levantou e sacudiu a poeira (ufa, nada grave).

Só mesmo a necessidade de carregar sacos e sacos de adubo me convence a ir dirigindo para a avenida mais famosa da cidade.  E enquanto aguentava o trânsito na volta, só conseguia pensar na loucura e maravilha que é o mundo. Não fiz foto porque sou uma das únicas pessoas desse universo que não anda por aí com máquina e não consegue tirar foto com o celular. A que ilustra o post é dessa horta mágica, alguns meses atrás.

122. A Revolução da Comida chegou!

Food Revolution Day, o “feriado” que o cozinheiro inglês Jamie Oliver inventou, é nessa sexta-feira, 17 de maio. Veja como e por que é importante participar do movimento.  

Pai de quatro e prestes a completar 38 anos, Jamie continua com jeito e energia de garoto. Mas é bom levar a sério o que diz: “Nossas crianças estão crescendo obesas e desnutridas por causa do consumo de alimentos processados e esta será a primeira geração em muito tempo a viver menos do que os próprios pais. É hora de mudar. Precisamos de uma revolução alimentar”.

Pois a tal revolução ganhou o nome de Food Revolution Day, um dia de mobilização mundial em prol dos alimentos saudáveis e do ato singelo de cozinhar (de acordo com ele, uma das coisas mais importantes a aprender na vida). O primeiro FRD aconteceu em 19 de maio do ano passado, um sábado, reunindo mais de mil eventos em 664 cidades espalhadas por 62 países do mundo. A Revolução da Comida 2013 foi marcada para 17 de maio, sexta-feira, mas as atividades organizadas espontaneamente aqui no Brasil acabaram extrapolando a data e agora teremos todo um final de semana dedicado ao tema.

Jamie Oliver é disléxico e teve muitos problemas de aprendizagem. Cresceu na pequena Clavering, ajudando os pais no pub da família. Com 16 anos foi estudar culinária. Em 1997 era aprendiz na cozinha do badalado River Café, em Londres, quando apareceu por lá uma equipe de filmagem. Jamie fez tanto sucesso no documentário que rapidamente ganhou um programa próprio e virou celebridade televisiva. Decidiu usar sua fama em prol de uma boa causa: melhorar a alimentação sobretudo das crianças. Horrorizado com o universo do  junk food , ele foi à luta contra a propaganda intensiva, os brindes irresistíveis, a aparência artificialmente ultracolorida, as embalagens pop, as texturas crocantes à base de gordura trans e sabores ressaltados por aditivos químicos dos produtos alimentícios.  Sua fundação (http://www.jamieoliver.com/foundation/)  empurrou o  governo britânico a mudar alguns parâmetros culinários para os colégios, obrigando-os a:

• ensinar conceitos básicos sobre nutrição, dieta e confecção dos alimentos, para que os alunos façam escolhas acertadas ao longo da vida;

• incluir frutas e hortaliças frescas no menu diário;

• substituir doces por pão, refrigerantes por água e batatas fritas por amêndoas e outros frutos secos;

• limitar as quantidades disponíveis de sal, ketchup e maionese;

• oferecer no máximo de duas porções de alimentos fritos por semana.

A programação do Food Revolution Day 2013 de São Paulo, Rio de Janeiro e Novo Hamburgo você encontra nesses links:
http://alimentopuro.synthasite.com/food-revolution-day.php
http://www.youtube.com/watch?v=wN9aFdgxHW0

Mais do que bem-vinda, a Revolução da Comida é urgente em nosso país. Quem ainda duvida precisa dar uma olhada no documentário Muito Além do Peso (http://www.muitoalemdopeso.com.br/).

Quer assinar a petição online internacional de apoio ao movimento? Vai lá: http://www.jamieoliver.com/us/foundation/jamies-food-revolution/sign-petition

E  fica o convite para assistir o próprio Jamie explicando por que criou o Food Revolution Day ( http://www.youtube.com/watch?v=zA83ASHriAM).

Por mim, esse dia seria um feriado mundial diferente. Todos faríamos nossas atividades cotidianas comuns, mas com o desafio de cozinhar com as refeições com as próprias mãos, usando apenas  ingredientes frescos, saudáveis e, se possível, orgânicos.

110. Os saquinhos de supermercado e a Rio+20

Se quase ninguém está disposto a sair da zona de conforto, como faremos as mudanças de estilo de vida necessárias para criar uma sociedade sustentável?

Imagine que você está num bote com alguns amigos passeando no mar. De repente, começa a entrar água. Dentro do bote, um par de remos, um balde bem grande e vários copinhos. Dois dos tripulantes são fortes e sarados. Os demais têm físico frágil. Os fracotes se reúnem para reclamar que os fortões deveriam remar e tirar a água do barco, mas não querem ajudar. E os fortões se recusam a fazer o trabalho sozinhos. Todos naufragam.

Essa historinha absurda me vem à cabeça toda vez que ouço pessoas bradarem contra a resolução que eliminou as sacolinhas plásticas gratuitas dos supermercados e comemorarem sua volta.

Claro que existem problemas ambientais muito mais graves do que os saquinhos plásticos. Também têm certa razão os que acusam os supermercados de aproveitar a onda das sacolas retornáveis para obter vantagens financeiras. Já falei sobre isso nesse blog e recebi uma chuva de reclamações, que provavelmente virão novamente depois do capenga enredo de naufrágio que inventei. Só menciono as particularidades saquinho-plásticas porque o assunto aqui é sair da zona de conforto.

A insustentabilidade do sistema em que vivemos não é novidade. Infelizmente, o bom andamento da política e da economia por enquanto são aferidos pelo consumo crescente que não poderá se manter por muito mais tempo, pois só temos à disposição esse planeta finito e já superexplorado. Então as circunstâncias nos convidam a iniciar mudanças de hábitos. Quanto antes começarmos, menos traumáticas serão. Levar a sacola para o supermercado é apenas um ínfimo exemplo de como reduzir impactos ambientais. Comer menos carne, usar menos carro, comprar menos, reutilizar mais, abandonar a agricultura à base de agrotóxicos, economizar água e energia das mais diversas formas são outros desafios que estão batendo à porta.

Vem aí a Rio+20 e a torcida do contra já está organizada. Muitos a consideram inútil, já que países e empresas e não se mostram dispostos a rever seus modos de agir na intensidade necessária para frear as mudanças climáticas, a desertificação, o desmatamento, a extinção de espécies e a contaminação do meio ambiente. Embora com mínimas expectativas de ver surgir uma revolução sustentável no evento, discordo. Acho que o evento vale a pena sobretudo por causa do encontro paralelo e extraoficial, a Cúpula dos Povos.

Estive na Rio 92 como jornalista e a experiência foi maravilhosa (veja aqui: http://conectarcomunicacao.com.br/blog/106-eu-fui-na-rio-92/). Ao longo dos anos fiquei sabendo de dúzias de livros, projetos e movimentos que nasceram no Fórum Global (assim se chamou o encontro alternativo daquela vez) e ajudam cada vez mais gente a viver bem preservando o meio ambiente e reduzindo a desigualdade social. São essas iniciativas que me enchem de esperança. E não é preciso ir à Cidade Maravilhosa para entrar na onda.

Para terminar, um conto de fadas do nosso tempo:

“Era uma vez uma floresta em chamas. Os animais se reuniram numa clareira para reclamar e apenas o beija-flor não compareceu ao triste encontro. Em vez disso, voava freneticamente para lá e para cá. Sem entender o que estava acontecendo, o elefante perguntou:

— O que faz você aí, pequeno beija-flor?

— Estou tentando apagar o fogo. Vou até o rio, encho meu bico de água, despejo nas labaredas e volto ao rio para pegar mais água.

Todos os animais riram muito. E o rei leão disse:

— Você não se enxerga, beija-flor? Com esse bico minúsculo não vai conseguir apagar coisa nenhuma.

Mas o beija-flor já estava longe, apressado, pois tinha muito trabalho a fazer.”

PS – O indiano Jadav Payeng faz parte da turma dos beija-flores. Durante 30 anos ele plantou sozinho e com as próprias mãos uma floresta que hoje tem 550 hectares e abriga até grandes mamíferos em risco de extinção como tigres e rinocerontes. Olha só que beleza: http://planetativo.com/2010/2012/04/o-homem-que-plantou-uma-floresta-sozinho/

100. Isso é férias?

Falta de preparo para lidar com a chuva causa tragédias. Esgoto polui praias. Superlotação atrapalha passeios. Por essas e outras, guardei a mala e agora quero aproveitar muito o verão sem sair da metrópole.

Nas últimas semanas viajei duas vezes, por poucos dias e sem percorrer grandes distâncias. Enquanto estive longe de casa, assisti ao vivo, pela TV e nos jornais os dramas do verão. Pavorosas notícias sobre inundações, deslizamentos, soterramentos e acidentes de automóvel. Melancólicos informes sobre a poluição em diversas praias do litoral paulista, com a CETESB sugerindo aos cidadãos ficar longe do mar nesses locais (relatórios atualizados em http://www.cetesb.sp.gov.br/qualidade-da-praia). Fiquei pensando nas pessoas (em especial as crianças) que tanto sonharam com mergulhos nas ondas e agora correm o risco de adoecer. Isso sem falar nos congestionamentos em estradas, na lotação absurda dos aeroportos e das atrações turísticas. Subir no Cristo Redentor pode demorar até 8 horas e famílias inteiras atolam nas filas dos brinquedos da Disneyworld. Ouvi dizer que os outlets da Flórida estão abarrotados, mas da turma enjaulada nas lojas não tenho pena. Larguem as compras e vão passear! Até mesmo os bistrozinhos descolados parisienses andam servindo comida congelada, relata a cronista chique Danuza Leão (http://www1.folha.uol.com.br/colunas/danuzaleao/1031334-paris.shtml).

Já ouvi pessoas que repudiam a democratização do turismo fazerem comentários do tipo “O aeroporto está parecendo uma rodoviária”. Não concordo com essa postura. Seria ótimo se todos os 7 bilhões de seres humanos pudessem veranear em praias desertas e conhecer as grandes maravilhas do planeta. No entanto, não há como fazer de forma sustentável o deslocamento de multidões ávidas por consumo e experiências inesquecíveis. O turismo está entre os muitos comportamentos sociais que caducaram diante da situação atual da humanidade no planeta. Aliás, o próprio conceito de férias como válvula de escape para um cotidiano massacrante já demonstra o grau de desequilíbrio em que vivemos.

Mesmo sabendo que opiniões assim fazem com que nós, os ecochatos, tenhamos conquistado a fama de estraga-prazeres, está difícil ficar quieta diante de tanta confusão. Quero ser feliz todos os meses do ano e todos os dias da semana, sem muita distinção entre o que é trabalho e o que é lazer, o que é estudo e o que é diversão.

Vou aproveitar o que resta da temporada passeando nos parques e praças de São Paulo, encontrando os amigos com calma, indo ao cinema, ouvindo música, lendo, cozinhando e, é claro, cuidando das plantas. Oba!

99. Permacultura: o que é isso?

A permacultura propõe viver sem esgotar os recursos naturais. E tudo começa na sua casa, colocando a mão na massa.

Nossa civilização devora a natureza numa velocidade superior ao seu ritmo de reposição, produz lixo, contamina o ar, a água e o solo. Óbvio que será impossível continuar assim por muito tempo. A permacultura visa o oposto: criar uma sociedade capaz de se manter infinitamente sem esgotar os recursos necessários à sobrevivência humana.

Parece utópico? Sem dúvida, mas é minha utopia preferida.

Mistura de ciências, tecnologias e filosofias de vida, a permacultura é recente. O termo foi inventado pelos australianos Bill Mollison e David Holmgren em1974 apartir da contração de “permanent” e “agriculture”. Tratava-se, a princípio, de uma série de práticas ecológicas de plantio. Logo o conceito passou a englobar bioconstrução, produção local de energia, manejo de água e aspectos comportamentais, tornando-se “cultura da permanência”.

No mundo todo, a comunidade de permacultores está crescendo. Já somos milhares de seres humanos por aí em diferentes estágios do processo individualizado e/ou comunitário de descobrir como viver seguindo esses quatro princípios:

1 – Cuidado com o planeta

2 – Cuidado com as pessoas

3 – Partilha dos excedentes (inclusive conhecimentos)

4 – Limite ao consumo

No dia-a-dia, temos a troca de experiências com os colegas, cursos, leituras e alguns parâmetros a nos guiar. Reaproveitamento máximo de materiais, evitando produzir lixo, é um deles. Lidar criativamente com as condições oferecidas, transformando problemas em soluções, é outro. Também tentamos imitar a natureza, fechar ciclos produtivos, diversificar e tornar locais as fontes de recursos, cooperar em vez de competir e integrar em vez de fragmentar.

Se essa história de permacultura está parecendo muito teórica, coloque logo a mão na massa que fica fácil entender. Você pode plantar uma pequena horta, transformar sucatas em utensílios, fazer reforminhas em casa, captar água da chuva, cozinhar, lavar ou costurar. O que importa é consumir menos e criar mais, da maneira que for melhor para você. Como diz o permacultor Claudio Spinola, da Morada da Floresta: “Se não é divertido, não é sustentável”.

Indicações:

– A página wiki do Curso de Introdução à Permacultura Urbana da Subprefeitura de Pinheiros (lá tem muuuito material de referência) http://pt.wikiversity.org/wiki/Introdu%C3%A7%C3%A3o_%C3%A0_Permacultura_Urbana

– O documentário “Utopia no Quintal” sobre permacultura urbana (e paulistana). Realizado por Daniela Catelli, Natalia Belucci, Fernando Moura e Billy Jow, tem 25 minutos. A entrevistada fotofóbica que franze a testa sou eu. Aí vai o link: http://vimeo.com/33174098.

– Pesquisar, além da palavra permacultura, ecovilas, PDC (sigla em inglês para Curso de Design em Permacultura) e SAF (Sistemas Agroflorestais).

95. Occupy serviços públicos

Ótimo atendimento no Posto de Saúde de Pinheiros me anima a jogar fora o preconceito e pesquisar melhor o que o Estado oferece antes de apelar para opções privadas.

Preparando um vaso de sucata, ontem esfaqueei minha mão direita. O corte foi pequeno, mas profundo. Como tudo na cena do crime estava sujo de terra, achei melhor tomar o reforço da vacina antitetânica, há muito tempo vencida.

Procurei o Posto de Saúde de Pinheiros que fica perto de casa. Chegando lá, encontrei instalações simples e limpinhas. Atendimento rápido, sensato e eficiente. Bastou apresentar um documento e responder algumas perguntas sobre meu histórico de imunização. Em 10 minutos, saí de vacinada sem gastar um centavo. E ainda deu tempo para uma conversa sobre como é bom consumir verduras fresquinhas produzidas em casa.

Consciente de que os problemas de saúde pública do Brasil são gigantescos e o sistema tem milhões de falhas, dou nota dez para minha experiência de hoje com o SUS. E fiquei interessada em usar mais os serviços públicos.

Pesquisando na internet (http://www.cidadao.sp.gov.br/servico.php?serv=2825), descobri que no Centro de Saúde/Pinheiros tem um monte de especialidades, incluindo psicologia, oftalmologia, fono, fisio e homeopatia. Ainda não preciso de óculos para ler, mas a idade não perdoa e daqui a pouco a presbiopia me pega. Já sei onde vou.

Aproveito para explicar meu sumiço desse blog nos últimos dias. Estou estudando as 269 páginas do relatório Estado do Mundo 2011, que nesse ano trata de tendências mundiais da agricultura com foco em segurança alimentar e combate à fome. É publicado pelo renomadíssimo World Watch Institute (http://www.worldwatch.org/) e foi traduzido para o português pelo Instituto Akatu. Se quiser embarcar na aventura, o livro está disponível em PDF: http://www.akatu.org.br/Content/Akatu/Arquivos/file/Publicacoes/EstadodoMundo2011_portugues.pdf. Na semana que vem conto minhas descobertas.

72. Quero só um abraço

lion_hug-206x300Para que mesmo existe Dia das Mães, dos Pais, dos Namorados, das Crianças, da Secretária? Adoro meus filhos, mas dispenso os presentes. Prefiro receber “só” carinho. E sem data marcada.

Preocupada com o impacto ambiental do consumo, tento simplificar a vida e possuir menos objetos. Ainda acumulando mais coisas do que gostaria, acredito que “doar para os pobres” nem sempre é a solução (http://conectarcomunicacao.com.br/blog/1-pensamentos-varal/).  Por isso virei adepta do minimalismo e dispenso presentes de Natal, aniversário e Dia das Mães. Em vez de ganhar algo porque chegou o momento X do calendário, prefiro os presentes espontâneos de surpresa em dias comuns e acompanhados pela frase “Isso tem tudo a ver com você”. Meus favoritos são objetos ou roupas que pertenceram à pessoa que está ofertando. Ou então mudas de plantas para minha horta. Amo também guloseimas especiais, vinhos e livros emprestados para ler e comentar depois com a pessoa.    

Sobretudo perto de datas comemorativas, fujo de Shopping Centers, pois eles ficam ainda mais lotados e visualmente poluídos. Só que ser “do contra” não é fácil. Às vezes me sinto meio clandestina, pois escondo esse tipo de opinião para não estragar prazeres alheios. Curioso como os antigos tabus de comportamento social e sexual se foram, mas o preconceito contra os que questionam a sociedade de consumo é bem forte, a começar por apelidos como “ecochato” e “ecoxiita”.

Celebrações como Dia das Mães, dos Pais, dos Namorados, das Crianças e da Secretária não existiam até algumas décadas atrás. A maioria delas foi criada ou popularizada por marqueteiros para incentivar compras. Já eu acharia bem mais interessante se nessas datas os rituais não se resumissem a consumir e cultuar individualidades. Juro que seria a primeira a me engajar nos festejos caso reaprendêssemos a reverenciar as energias da infância, da velhice, do amor, do masculino e do feminino que existem na natureza e dentro de todos cada um. 

Voltando ao tema das compras, deixo registrado que nós, adeptos da simplicidade voluntária, não acumulamos frustrações nem desconhecemos o glamour. Comigo, aliás, aconteceu justamente o inverso. Ao decidir ter apenas o necessário, fiquei muito mais criteriosa e interessada apenas em investir no que vale a pena. Cada aquisição é planejada e curtida gota a gota. Aprecio bons restaurantes, ingredientes culinários de excelente procedência e, nas poucas vezes em que adquiro roupas novas, escolho as melhores griffes.

Meus filhos já sabem que não precisam me dar presentes. Se nesse Dia das Mães fizerem lembrancinhas artísticas para me homenagear (como já ocorreu), vou adorar. Mas aqui em casa isso não virou tradição, muito menos obrigação. De modo que, se no “meu dia” vierem me agarrar de mãos vazias, a alegria será enorme. E se esquecerem a data e mesmo assim passarmos momentos de grande afeto, aí sim é que eu ficarei totalmente realizada.

70. Páscoa sem ovo kitsch e sem coelho

Overdose de guloseimas com qualidade duvidosa e animais abandonados nada têm a ver com o verdadeiro sentido dessa festa, que surgiu a partir de rituais agrícolas muito antigos.

Lendo o Estadão me deparei com a notícia Coelhinhos da Páscoa acabam abandonados http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20110417/not_imp707275,0.php  e soube que algumas pessoas acham divertido dar de presente um coelho vivo a uma criança nessa época. Imaginam o animal como um brinquedo qualquer e não levam em conta o quanto é complicado trazer mais um membro para a família. Assim, muitos desses bichinhos são simplesmente jogados fora e almas caridosas de ONGS como a norte-americana  House Rabbit Society   http://www.rabbit.org/ e a brasileira  Adote um orelhudo  http://www.adoteumorelhudo.com  se esfalfam para recolher e encaminhar os abandonados.

Tenho certeza que eu e você não faríamos essa crueldade, mas o fato revela até onde o consumismo pode nos levar. Antigamente, as festas religiosas tinham significado em si. O que valia era o rito, a reflexão, o sentimento religioso que une a comunidade. Hoje em dia, o templo foi transferido para o Shopping Center. Quando é Páscoa ou Natal, mesmo quem se diz religioso exagera nas compras e são poucos os que aparecem na igreja. A intenção pode ser boa, mas o resultado não: muito lixo produzido, muito dinheiro gasto à toa e, no caso da Páscoa, muita guloseima ruim incentivando maus hábitos alimentares desde a infância.

Veja bem, eu AMO chocolate, mas em outro formato e situação. Troco quantidade por qualidade e prefiro degustar em doses pequenas aquelas marcas justificadamente bem caras. Mantenho o consumo estável ao longo do tempo e não vejo motivo para me entupir de doce só porque é Páscoa. Aliás, a vontade até diminui, pois só de ver os ovos de chocolate das grandes indústrias tenho vontade de comer outras coisas. Feitos com ingredientes inferiores, eles têm embalagem demais e até o formato é péssimo (logo depois de aberto, o produto vira uma maçaroca de papel enrolado em cacos marrons). As versões infantis são piores ainda, com seus personagens licenciados, embalagens kitsch e brinquedos vagabundos dos quais a criança enjoa em dois minutos. Aliás, o Projeto Criança e Consumo, do Instituto Alana, registra que o Código de Defesa do Consumidor proíbe a venda casada de produtos infantis (no caso, ovo + brinquedo). Veja lá: http://www.consumismoeinfancia.com/2011/04/18/ovos-de-pascoa-e-brinquedos-o-que-estamos-comemorando/ .

Antes de ser herdada pelos cristãos, essa festa muito antiga era – e continua sendo — um feriado judaico bem interessante. Para celebrar o fim da escravidão no Egito, até hoje os judeus se reúnem em família para o Sêder, um jantar cerimonial, onde cada alimento tem um significado simbólico. Ou seja, um rito que é a antítese do fast-food. Já tive o privilégio de participar de alguns Sêders e guardo ótimas lembranças.

Num tempo anterior ao judaísmo, as sociedades agrícolas mais antigas já faziam comemorações nessa época do ano. Na Europa, a Páscoa marca o fim do inverno, período em que é impossível plantar e a fome está sempre à espreita. Com a horta em casa, percebo que por aqui também a data acontece num momento especial para a agricultura, mas pelo motivo inverso, já que no verão o excesso de calor e umidade prejudica o cultivo.

Então, a essência da Páscoa é renascimento, início de um novo ciclo de fertilidade. Seria muito bom se reaprendêssemos a expressar sentimentos de outras formas, sem adquirir objetos. Deveríamos festejá-la respeitando e agradecendo a natureza em vez de abandonar bichos e consumir demais.

53. Casas com alma

Passeando com o mouse, descobri lugares que dão vontade de entrar, tirar os sapatos e passar a madrugada filosofando e tomando vinho na mesa da cozinha. Decoração ecológica é algo que vem de dentro.

Revistas de decoração sempre me deixam um pouco aflita. Olho aqueles ambientes tipo castelo de Versailles com assepsia de hospital e sinto um vazio no peito. Fico imaginando uma madame que exige do pelotão de empregadas limpeza e organização absolutas. Penso nela gritando com os filhos para não jogarem bola ou comerem pipoca na sala. E no marido se refugiando em algum canto que possa chamar de seu, caso tenha essa sorte. O que mais me deixa invocada é a ausência de objetos que contem a história das pessoas que vivem ali. É um tal de lustre francês e poltrona de designer holandês, sem chance para as coisinhas cafonas que a gente junta pela vida. E onde estão os badulaques que denunciam origens étnicas e o passado quase nunca aristocrático da família?

Por isso, foi uma delícia descobrir dois blogs repletos de imagens da casas e apartamentos que lavam a alma. Um deles é gringo: www.theselby.com, feito pelo fotógrafo e ilustrador norte-americano Todd Selby. O outro, de um legítimo habitante do Copan, edifício-ícone do centrão de São Paulo. O endereço http://quartoesala.etc.br/ foi criado pelo designer, fotógrafo e cenógrafo Gabriel Valdivieso.

Ontem passei um bom tempo xeretando a morada da galera que esses dois jovens escolheram para colocar na rede. A sessão voyerismo valeu a pena. São lugares que dão vontade de entrar, tirar os sapatos e passar a madrugada filosofando e tomando vinho na mesa da cozinha. Como é reconfortante um ambiente com móveis baratos ou reaproveitados, cadeiras velhas e fora de moda, livros supermanuseados, coleções bobas, LPs, cartazes de filmes que marcaram o mundo, brinquedos preferidos de infâncias longíquas na estante e fotos na parede. Está na cara que crianças, animais de estimação, gente com dor de cotovelo e meio maluca é bem-vinda. E quem prepara a comida e lava a louça são os donos da casa. Um pouco de bagunça sempre vai bem para temperar a vida!

No “quarto&sala” achei até uma oficina mecânica com papel de parede de florzinha (http://quartoesala.etc.br/2010/07/06/oficina-mecanica-do-garcia-ltda/) e uma casa pataxó, de taipa, onde a pobreza não roubou a dignidade (http://quartoesala.etc.br/2010/10/29/casa-pataxo/). E continuei em frente, a espiar jardins meio selvagens, resquícios de idolatrias adolescentes, confusão dos potes no banheiro e azulejos loucamente desenhados com canetinha.

Decorar a casa pode ser barato, pode ser ecológico, pode elevar o espírito da gente.

46. As coisas têm conserto

Será que o hábito de jogar fora tudo o que quebra contribui para desistirmos de restaurar nós mesmos e os nossos relacionamentos?

Sou nada mística, mas acredito que a realidade do mundo externo tem ressonância no mundo interno. Quando deixamos de consertar nossas roupas, objetos e equipamentos do cotidiano, tenho a impressão de que algumas coisas dentro de nós permanecem quebradas. 

Hoje em dia, os produtos são fabricados para durar pouco. E para não ter conserto. Assim, o consumidor satisfaz seus impulsos consumistas voltando à loja para comprar novamente, as empresas lucram e os lixões transbordam.

Queremos possuir o que há de novo, perfeito e moderno. Queremos ser sempre jovens, saudáveis e antenados. Mas a vida não funciona assim. Envelhecemos, adoecemos, remoemos dores do passado. Somos carentes, bobos, cometemos erros e magoamos pessoas.

Gostaríamos de jogar fora sentimentos incômodos e pegar na prateleira sensações incríveis — o que às vezes fazemos recorrendo a certos aditivos. No entanto, até essa mágica tem um lado escuro. Assim como as marés vêm e vão, a euforia artificial cobra seu preço.

Relacionamentos humanos duradouros são como aquele vaso quebrado que a gente cola com Superbonder e a trinca fica aparecendo. Não dá para compartilhar a vida com alguém sem passar por momentos difíceis. Também nosso corpo, depois de uma certa idade, precisa de remendos para seguir em frente. Mesmo que a saúde esteja ótima, no mínimo uma articulação dói aqui, outra ali e o estômago já não aceita esse ou aquele tempero. Temos que negociar diariamente os termos da existência com o próprio organismo e a medicina, comemorando os períodos de muita disposição e aceitando os momentos que pedem repouso.   

Embora com pouca habilidade, procuro sempre consertar as coisas ou procurar alguém que saiba fazer isso. Nem sempre dá certo. Mas continuar tentando alimenta minha esperança de que seja possível recuperar o que estragou e alcançar o equilíbrio na imperfeição.

Videozinho bacana
O filósofo Alain de Bolton fala sobre sucesso:  http://www.ted.com:80/talks/lang/eng/alain_de_botton_a_kinder_gentler_philosophy_of_success.html