153. 13 sugestões para hortas escolares

A boa notícia é que as escolas querem hortas. Só que não é tão fácil assim fazer um projeto relevante. Para tentar ajudar, escrevi esse post. Ainda me considero uma agricultora pouco experiente, mas já dá para compartilhar o que tenho aprendido nos últimos anos sobre cultivo de alimentos e ativismo coletivo.

Bom, esse é um post aberto. Por favor dê sugestões e escreva suas dúvidas que aos poucos vamos completando e aperfeiçoando o roteiro da horta escolar, está bom?

1. Responder 2 perguntas –  Por que fazer uma horta na escola? Como a horta vai se relacionar com as atividades pedagógicas e comunitárias da escola? É legal responder por escrito e coletivamente (todos que participarão do projeto). Reler e atualizar de vez em quando.

2. Começar fazendo – Cuidar de uma horta é que nem cozinhar, andar de bicicleta, ter um cachorro, educar um filho. Estudar e planejar antes ajuda, mas a prática costuma ser bem diferente do que foi imaginado. Então coloque logo a mão na terra e comece pequeno. Alguns vasos ou um metro quadrado de chão já é o suficiente para iniciar. Sem nunca ter plantado nada, a gente não sabe nem fazer as perguntas.

3. Iniciar o aprendizado pelos adultos –Já faz algumas décadas que o hábito de cultivar alimentos no quintal foi abandonado por quase todos. Então temos gerações de adultos que nunca plantaram nada. Alguns até sentem medo e nojo da terra e das minhocas. É importante reconhecer, aceitar e refletir sobre esses sentimentos. E, quem sabe, esperar um pouco para iniciar as atividades com os estudantes. Vale a pena os educadores envolvidos com o projeto investirem tempo e energia em adquirir um pouco de experiência antes de envolver os alunos na atividade. No caso de se perceberem pouco à vontade com a ideia da horta, repensar o projeto e a participação.

4. Definir (e respeitar) os guardiões da horta – Quem vai cuidar da horta no dia-a-dia? Quem vai se preocupar com a falta e o excesso de chuvas, o vento, o granizo e as temperaturas extremas? Quem vai se virar para arranjar os insumos e sair correndo para acudir a horta em caso de necessidade? O diretor da escola? Um ou vários educadores? Outro funcionário? Pais de alunos? Voluntários? A pessoa ou as pessoas que assumirem esse papel merecem reconhecimento e liberdade para trabalhar. Só quem está ali no dia-a-dia com a enxada na mão é que sabe do que a horta precisa e quais são suas potencialidades. Talvez seja alguém não muito graduado na hierarquia da instituição e com pouca escolaridade, mas que traz consigo o principal: amor à terra. Os guardiões da horta devem decidir (debatendo com a direção da escola) o que é o melhor para ela e os rumos a serem tomados. E também as estratégias para manter a horta durante as férias, feriados e finais de semana.

5. Deixar as crianças brincarem – A simples existência da horta na escola já traz muitas oportunidades de reconexão com a natureza. Se as atividades por lá forem excessivamente dirigidas e pouco lúdicas, talvez tenham o efeito inverso do esperado, ou seja, os alunos detestarem a horta. Caso a horta vire um espaço sobretudo para fazer fotos e dar um verniz ecológico para escola, também não é legal. Bom mesmo é deixar o acesso livre para os estudantes poderem brincar e colher livremente. E se a horta virar uma sala de aula ao ar livre, com atividades de matemática, arte, ciências, história, geografia, melhor ainda! A intervenção dos adultos pode ser mínima em alguns momentos, apenas para evitar depredações e desperdício (principalmente nos primeiros tempos, depois não será mais necessário).  Ah, cuidado com o excesso de rega. Regar é uma atividade simples e divertida, mas água em excesso mata muita planta.

Quando a horta vai precisar mesmo ser usada para complementar a merenda e ajudar a garantir a segurança alimentar dos estudantes, sugiro fazer parcerias com agricultores profissionais para viabilizar o cultivo intensivo, sendo que eles podem trocar uma parte da produção pela possibilidade de acessar a terra e os insumos oferecidos pela escola.

6. Quebrar o concreto – A maior parte das escolas (assim como das residências, empresas, hospitais, igrejas, condomínios e ruas) tem cimento demais. Que tal tirar o pavimento da escola onde for possível e trazer de volta o solo, as plantas, os bichinhos? Isso deixará o ambiente mais fresco, menos poluído, menos barulhento. E os estudantes mais calmos, já que o verde reduz o estresse e a correria.

7. Plantar flores, PANCs e receber bem os bichinhos – Se vocês criarem um lindo jardim comestível provavelmente esse vai ser o canto mais agradável e mais amado da escola. Veja bem: a horta não precisa ser apenas um local com canteiros retangulares e hortaliças convencionais. É melhor que não seja, aliás. Plante pensando nos serviços ambientais que ela vai oferecer, como, por exemplo, abrigo de microfauna (incluindo as valiosas abelhas nativas sem ferrão) e reserva de biodiversidade vegetal sobretudo comestível. Por isso vale a pena aprender a identificar, cultivar e deixar nascer sozinhas muitas Plantas Alimentícias Não Convencionais (as PANCs).

8. Observar o que a terra quer produzir – Agricultores iniciantes em geral só querem cultivar alface, tomate, cenoura e outras espécies comuns de supermercado. Mas com o tempo a gente percebe que mais importante ainda é trazer de volta para nossos canteiros e nossas refeições as plantas que já fizeram parte das nossas tradições culinárias, mas hoje são tão raras que ficaram conhecidas como PANCs  (Plantas Alimentícias Não Convencionais ). E tem também alimentos tradicionais que facilitam a vida, pois não exigem muita dedicação: batata doce e mandioca, por exemplo.  Várias PANCs são muito nutritivas e bem fáceis de cultivar. E ao plantar tudo misturado vocês vão perceber quais espécies combinam e que isso ajuda a evitar infestações de bichinhos que alguns consideram pragas (eu não acredito em pragas, só acredito em proliferações que acontecem quando o ambiente não está equilibrado). A melhor maneira de aprender agricultura é assim: plantando e observando. Algumas PANCs: caruru, ora-pro-nobis, almeirão selvagem, bertalha, serralha, capuchinha, taioba, nirá, peixinho.

9. Não desperdiçar matéria orgânica – Fazendo compostagem, não é preciso comprar terra nem adubo, basta enriquecer o solo com matéria orgânica. Toda folha seca e graveto que cai no terreno da escola deve ser devolvido ao solo. E quase todos os resíduos da cozinha podem ser compostados. Aqui tem um guia muito legal sobre o tema, elaborado pela jornalista Raquel Ribeiro: http://www.compostagem.ecophysis.com.br/files/Guia-de-Compostagem-Caseira—Raquel-Ribeiro—2-Edicao—2013.pdf .

10. Ser criterioso com o reaproveitamento de materiais – Fazer uma horta na escola não demanda muito material. Regadores podem ser construídos a partir de embalagens plásticas e bordas de canteiros com sobras de madeira ou telhas. Na minha opinião, no entanto, com exceção dos regadores, convém evitar o plástico. As matérias primas naturais (madeira e pedras) deixam o visual mais bonito e evitam as falsas mensagens ecológicas. Virou mania as escolas pedirem para os alunos levarem embalagens plásticas para reaproveitar (inclusive de bebidas nada saudáveis) e sou contra essa prática, pois estimula o consumo e passa uma impressão – falsa – de que esse reaproveitamento resolve os problemas causados pelo plástico no mundo. Minha experiência com vasos em garrafa pet também foi ruim: são muito pequenos, esquentam demais, não respiram, podem liberar Bisfenol A. Não uso mais de jeito nenhum. Com pneus a situação é ainda mais complicada, pois eles contaminam o solo, de acordo a pesquisa “Reciclagem de granulados de pneus inservíveis em pavimentos de playgrounds: estudos de caso de avaliação de riscos à saúde humana e ao meio ambiente”, da arquiteta Mara Cabral  (infelizmente ainda não publicada). Mas esse post do blog “Hortas orgânicas e alimentação saudável’ traz diversos links internacionais sobre o tema http://sustentaveleorganico.blogspot.com.br/2015/05/bom-dia-pessoal.html.

11. Trocar sementes e mudas – A natureza é abundante e, a partir do momento em que começamos a plantar, passamos a produzir mudas e sementes em nossas hortas. Os agricultores sempre as trocaram entre si e esses momentos são muito intensos em dicas e aprendizados. Existem grupos realizando encontros em torno de mudas em sementes em diversas regiões. Para entrar nesse mundo sugiro participar da comunidade Semear Conhecimentos (https://www.facebook.com/Semearconhecimentos/).

12. Abrir as portas para a comunidade – A horta é um excelente mediador social. Todos têm memórias, experiências e vivências relacionadas à comida que vêm à tona quando estamos lidando com os canteiros. Fazer eventos e convidar pais de alunos e vizinhos para participar das atividades da horta pode dar muito certo. Só cuidado com o excesso de expectativa em relação aos voluntários. Cuidar de horta é maravilhoso, mas dá trabalho e inclui muito serviço pesado. Depender de voluntários para a manutenção nem sempre dá certo. Sobretudo se os voluntários forem vistos apenas como mão de obra e as decisões ficarem por conta de quem não costuma pegar na enxada.

13. Receber lições dos agricultores – Precisa de ajuda? Ninguém melhor para orientar do que o agricultor profissional, aquele que tira seu sustento da terra todos os dias. Convide-os e convide-as (mulheres são maioria na agricultura urbana) para visitar a horta, mas fique atento a alguns detalhes que, se não forem bem cuidados, podem causar desconforto. Para começar, numa escola não pode entrar agrotóxico. Então certifique-se de que o agricultor ou agricultora usa técnicas orgânicas. Lembre também que os agricultores são mal pagos e pouco valorizados em nossa sociedade. Por esse motivo, ele ou ela provavelmente não poderá se dedicar à horta da escola sem receber remuneração. Mas uma aula especial ou uma homenagem serão muito bem-vindas e a horta escolar se beneficiará de dicas preciosas.

PARA SABER MAIS
Livros e manuais incríveis (em português)
A Fuga das Minhocas, de Raquel Ribeiro – Uma história deliciosa que apresenta o assunto compostagem e hortas para as crianças.

Horta Escolar / Uma sala de aula ao ar livre, de Amanda Frugg, Bruno Helvécio, Lucas Ciola e Peter Webb – Bem completo, com orientações, depoimentos e sugestões de atividades para fazer com os estudantes.

Manual para Gestão de Resíduos Orgânicos nas Escolas, lançado pelo ISWA (Internacional Solid Waste Association) em parceria com a ABRELPE (Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública). Link para download aqui:  http://www.abrelpe.org.br/noticias_detalhe.cfm?NoticiasID=2555

Livros/sites incríveis (em inglês)
American Grown, Michelle Obama – Um relato lindamente ilustrado sobre a horta da Casa Branca durante a gestão Obama. A horta, aliás, foi criada como um projeto de combate à obesidade infantil entre os alunos das escolas públicas de Washington.

Edible Schoolyard/A Universal Idea, de Alice Waters – Uma escola pública de má fama em Berkeley, California, floresceu quando a famosa chef aceitou o desafio de mexer na cozinha de lá e quebrar o concreto de uma quadra esportiva pouco usada para criar uma horta. Agora o projeto está em diversos lugares do mundo: http://edibleschoolyard.org/

Incredible! Plant Veg, Grow a Revolution, de Pam Wharhurst e Joanna Dobson – Um relato bem aprofundando da experiência de Todmorden, a cidadezinha inglesa que renasceu (inclusive economicamente) quando as hortas invadiram todos os espaços públicos, inclusive as escolas. No site tem muita informação também: https://www.incredible-edible-todmorden.co.uk/.

PARA TERMINAR
Algumas frases sobre hortas e escolas que já ouvi e não gostei muito…

“Estou ligando para você porque minha diretora quer uma horta”

“Queremos fazer uma horta vertical de garrafa PET”

“Você pode chamar os hortelões urbanos para cuidar da horta na nossa escola?”

“Queremos levar um grupo grande de crianças para trabalhar na sua horta apenas por um dia”

“Vamos fazer uma horta na escola. Arranja para a gente a terra, as mudas e as sementes?”

“Crianças: cuidado! Não mexe aí! Não corre! Fica quieto e escuta! Não põe a mão na terra! Não vá se sujar”

PARA TERMINAR MESMO
Traduzi algumas páginas (129 a 131) do livro Incredible! que dão uma ideia de como mobilizar a escola por meio da horta. Sim, as condições ali são bem melhores do que na maioria das escolas brasileiras. Mesmo assim, vale pela inspiração.

 Como diretora da escola, você pode ter as melhores ideias, mas a menos que exista alguém na equipe fazendo o projeto acontecer, não deslancha”, disse Helen Plaice [diretora da escola de Ensino Médio de Todmorden – Tod High]. “Você gira em falso e não alcança os estudantes”. Então foi feita uma chamada para que alguém aceitasse o posto de Líder de Estudos Vocacionais e o candidato bem sucedido foi o professor de Física, Paul Murray. Deram a ele alguns períodos livres durante a semana para trabalhar no currículo e algum dinheiro extra para remunerar suas novas responsabilidades. Para Helen isso era crucial para alcançar mudanças duradouras.  A nova posição deu a Paul a autoridade para fazer perguntas e pedidos a outros membros da equipe, o que seria impossível para alguém que estivesse trabalhando voluntariamente.

O ponto de mudança para a escola inteira aconteceu no verão quando Paul organizou o “Dia Diferente”, o nome que a escola dá para o dia em que o currículo normal é suspenso e os professores se voluntariam para realizar atividades com os alunos de uma série em particular. Um exemplo típico seria oficinas para desenvolver habilidades de estudo para alunos que se aproximam dos exames nacionais. Mas em vez disso Paul planejava algo muito mais imaginativo e nessa ocasião ele pegou os alunos mais jovens, de 12 e 13 anos, e deu-lhes um dia que não só eles como também os professores iriam lembrar como o dia em que viram as conexões entre comida e aprendizagem sob uma perspectiva completamente diferente.

Primeiro, Paul convidou Sally e Jonathan, os fazendeiros que já estavam fornecendo para Tod High a maior parte de sua carne, a trazer alguns de seus animais para a escola e montaram  uma minifazenda no gramado. Lá estavam os porquinhos e bezerros para providenciar o fator “ahhh” e, apesar de haver muita agricultura na área, foi a primeira vez que alguns alunos tocaram em um animal de fazenda. Então Paul apresentou uma série de atividades para ajudar as crianças e adolescentes a pensar sobre comida de novas maneiras. Aconteceram aulas sobre o ciclo de vida das plantas e como construir um minhocário, havia estudantes calculando os quilômetros rodados por cada tipo de maçã para chegar à sua mesa e suposições sobre qual a porcentagem do preço se devia ao transporte. Então eles estudaram as proporções para produzir smoothies [um tipo de suco mais consistente]: quantos kiwis são necessários para uma determinada quantidade de abacaxis, por exemplo.

Tony [chef local] apareceu com algumas demonstrações culinárias e fez com que os estudantes montassem saladas usando os ingredientes que eles tinham cultivado na escola. No fim do dia os professores estavam  vibrando com ideias para incluir temas sobre alimentação em suas áreas de ensino, exatamente o que Helen esperava que acontecesse quando designou Paul . “A equipe saiu da escola naquele dia vendo o currículo de uma perspectiva diferente”, ela disse. “Acho que se eu tivesse dito simplesmente que era para inserir três atividades relacionadas a comida no planejamento pedagógico até o fim do ano eles teriam pensado ‘o que será que ela bebeu?’”.

Gradualmente o assunto comida começou a entrar em todas as partes do currículo. A escola tem status de especialista em artes visuais e os professores de arte foram os primeiros a aderir, produzindo, entre outras coisas , um livro com as melhores receitas de Tony, lindamente ilustrado pelos alunos. Um estudante que se preparava para a universidade trabalhou com o Incredible Edible para produzir posters que ele poderia apresentar como parte de seu portfólio de design gráfico. Em história, os estudantes aprenderam sobre comida em diferentes épocas e em ciências estudaram a composição dos diferentes alimentos. Em matemática calcularam qual porcentagem de um salário mínimo é gasta com alimentação e então trabalharam com o departamento de Tecnologia Alimentar para comparar o custo e o valor nutricional da comida processada e da comida feita em casa (a comida fresca se mostrou 40% mais barata). Em todas as áreas, o objetivo era enviar mensagens sobre nutrição, higiene, sustentabilidade e ética da produção de alimentos. Para Paul, uma das mais importantes recompensas provenientes dessa abordagem foi que os estudantes não estavam apenas aumentando seus conhecimentos sobre determinados assuntos como também adquirindo habilidades vitais como administração financeira e como fazer escolhas que beneficiem a própria saúde.

144. Em defesa das árvores de São Paulo

Esta carta aberta foi enviada ao Prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, e ao Secretário do Verde e do Meio Ambiente, Wanderley Meira. O texto é resultado do trabalho coletivo do Grupo de Arborização Urbana do Conselho de Meio Ambiente, Desenvolvimento Sustentável e Cultura de Paz da Subprefeitura de Pinheiros, do qual faço parte.

As árvores urbanas oferecem inúmeros benefícios à população, sendo um dos principais atuar como filtro para a poluição do ar. Apenas uma árvore em frente a uma residência pode reduzir em mais de 50% a presença de material particulado nos ambientes internos, protegendo a saúde de seus moradores e até evitando mortes. Além disso, as árvores umidificam o ar, ajudam a combater as ilhas de calor e a evitar enchentes, além de melhorar as condições psicológicas das pessoas. Em Nova York, estimou-se que o decréscimo de material particulado do ar retido pela massa árborea por um ano representaria uma economia da ordem de 60 milhões de dólares em gastos de saúde, principalmente em doenças pulmonares e cardiovasculares – para citar um único exemplo de economia gerada ao município graças à arborização. Isso sem falar nas demais vantagens aos cofres públicos geradas pelos outros serviços que são oferecidos pela arborização urbana.

Só que a maior parte dos paulistanos não sabe disso e vê as árvores apenas como produtoras de “sujeira” (as folhas que caem sobre o solo e os telhados), fontes de danos ao “patrimônio” (devido à quebra de calçadas pelas raízes) e potenciais causadoras de acidentes. Atos de vandalismo são comuns, assim como o enforcamento de árvores, que ocorre quando as raízes são cimentadas, e ferimentos ao caule durante o corte da grama.  Somam-se aos maus tratos infringidos pela população as podas mal executadas, tanto pelas equipes terceirizadas a serviço da prefeitura quanto pela Eletropaulo, e temos um cenário de desastre: muitas árvores com risco de queda e a população querendo se livrar da arborização.

Numa floresta, é muito raro cair uma árvore. Numa cidade onde a manutenção é ruim e os cidadãos não possuem educação ambiental, caem árvores aos montes. Ainda por cima, as pessoas colocam a culpa das quedas nas próprias árvores, pois desconhecem que os fatores já citados e o mau planejamento (plantio de espécies inadequadas ao local) são os grandes responsáveis pelos “acidentes”.

A qualidade do ar é uma questão prioritária de saúde pública em São Paulo e por isso está na hora de virar o jogo em relação às árvores da cidade. Embora o plantio de 900 mil mudas seja a meta número 88 da atual gestão, os números ainda são tímidos (apenas 211 mil mudas plantadas até agora). E os resultados, desoladores: devido à falta de manutenção e fiscalização, a maioria dessas mudas jamais se tornará uma árvore adulta.

Alguns exemplos do que vem ocorrendo na cidade:
– Em algumas regiões os plantios são suspensos durante o período seco (que nos últimos anos se estende por quase todos os meses) porque a prefeitura não consegue sequer disponibilizar água nem mesmo para regar as mudas recém-plantadas.

– Milhares de crimes ambientais (sendo o vandalismo, as podas drásticas, o anelamento e o eforcamento de árvores os mais comuns) não são fiscalizados nem punidos.

– Não existem equipes de manutenção da arborização. O projeto-piloto da prefeitura foi descontinuado. Consequentemente,  as mudas não são acompanhadas, o que na maior parte dos casos resulta em sua morte.

– Não há nenhuma iniciativa de educação ambiental relacionada à arborização urbana em curso. Muitos munícipes recusam o plantio de mudas na calçada em frente ao seu imóvel ou destroem as árvores que forem plantadas pela prefeitura. Sem acompanhamento, fiscalização ou punição.

– As equipes a serviço da prefeitura são hostilizadas pelos munícipes que desconhecem boas práticas de jardinagem, como deixar cobertura morta sobre o solo para evitar o ressecamento e compactação. Julgando serem as folhas secas “sujeira”, não deixam os funcionários completarem o trabalho.

– Não há distribuição, ou sequer divulgação, para as equipes de manutenção de áreas verdes do novo Manual de Arborização Urbana, lançado pela prefeitura em janeiro de 2015. As orientações são desconhecidas pelas empresas que executam os serviços.
– Falta diálogo e cooperação entre a Secretaria do Verde o do Meio Ambiente e as Subprefeituras, com regras nem sempre claras para os munícipes, gerando pouca resolutividade em relação às solicitações de podas e queixas de crimes ambientais contra as árvores.

Tem-se falado na criação de um novo Plano de Arborização para a cidade sem que a atual lei que o prevê (LEI Nº 14.186, DE 4 DE JULHO DE 2006)  sequer seja de conhecimento dos gestores. Corre-se o risco de realizar um longuíssimo processo de criação de regras que serão inúteis, caso o suporte e a capacitação básicos às equipes que estão em campo não ocorra.

Mais do que um plano ambicioso, está faltando real vontade de fazer a arborização urbana da maneira que deve ser feita em São Paulo. A começar pelo óbvio: muda que não recebe água morre em poucos dias.

Atenciosamente,
Claudia Visoni, jornalista, ambientalista e conselheira do meio ambiente na subprefeitura de Pinheiros
Joana Canedo, tradutora e conselheira suplente do meio ambiente na subprefeitura de Pinheiros
Madalena Buzzo, administradora de empresas e conselheira participativa na subprefeitura de Pinheiros
Thais  Mauad, médica e professora da Faculdade de Medicina da USP

122. A Revolução da Comida chegou!

Food Revolution Day, o “feriado” que o cozinheiro inglês Jamie Oliver inventou, é nessa sexta-feira, 17 de maio. Veja como e por que é importante participar do movimento.  

Pai de quatro e prestes a completar 38 anos, Jamie continua com jeito e energia de garoto. Mas é bom levar a sério o que diz: “Nossas crianças estão crescendo obesas e desnutridas por causa do consumo de alimentos processados e esta será a primeira geração em muito tempo a viver menos do que os próprios pais. É hora de mudar. Precisamos de uma revolução alimentar”.

Pois a tal revolução ganhou o nome de Food Revolution Day, um dia de mobilização mundial em prol dos alimentos saudáveis e do ato singelo de cozinhar (de acordo com ele, uma das coisas mais importantes a aprender na vida). O primeiro FRD aconteceu em 19 de maio do ano passado, um sábado, reunindo mais de mil eventos em 664 cidades espalhadas por 62 países do mundo. A Revolução da Comida 2013 foi marcada para 17 de maio, sexta-feira, mas as atividades organizadas espontaneamente aqui no Brasil acabaram extrapolando a data e agora teremos todo um final de semana dedicado ao tema.

Jamie Oliver é disléxico e teve muitos problemas de aprendizagem. Cresceu na pequena Clavering, ajudando os pais no pub da família. Com 16 anos foi estudar culinária. Em 1997 era aprendiz na cozinha do badalado River Café, em Londres, quando apareceu por lá uma equipe de filmagem. Jamie fez tanto sucesso no documentário que rapidamente ganhou um programa próprio e virou celebridade televisiva. Decidiu usar sua fama em prol de uma boa causa: melhorar a alimentação sobretudo das crianças. Horrorizado com o universo do  junk food , ele foi à luta contra a propaganda intensiva, os brindes irresistíveis, a aparência artificialmente ultracolorida, as embalagens pop, as texturas crocantes à base de gordura trans e sabores ressaltados por aditivos químicos dos produtos alimentícios.  Sua fundação (http://www.jamieoliver.com/foundation/)  empurrou o  governo britânico a mudar alguns parâmetros culinários para os colégios, obrigando-os a:

• ensinar conceitos básicos sobre nutrição, dieta e confecção dos alimentos, para que os alunos façam escolhas acertadas ao longo da vida;

• incluir frutas e hortaliças frescas no menu diário;

• substituir doces por pão, refrigerantes por água e batatas fritas por amêndoas e outros frutos secos;

• limitar as quantidades disponíveis de sal, ketchup e maionese;

• oferecer no máximo de duas porções de alimentos fritos por semana.

A programação do Food Revolution Day 2013 de São Paulo, Rio de Janeiro e Novo Hamburgo você encontra nesses links:
http://alimentopuro.synthasite.com/food-revolution-day.php
http://www.youtube.com/watch?v=wN9aFdgxHW0

Mais do que bem-vinda, a Revolução da Comida é urgente em nosso país. Quem ainda duvida precisa dar uma olhada no documentário Muito Além do Peso (http://www.muitoalemdopeso.com.br/).

Quer assinar a petição online internacional de apoio ao movimento? Vai lá: http://www.jamieoliver.com/us/foundation/jamies-food-revolution/sign-petition

E  fica o convite para assistir o próprio Jamie explicando por que criou o Food Revolution Day ( http://www.youtube.com/watch?v=zA83ASHriAM).

Por mim, esse dia seria um feriado mundial diferente. Todos faríamos nossas atividades cotidianas comuns, mas com o desafio de cozinhar com as refeições com as próprias mãos, usando apenas  ingredientes frescos, saudáveis e, se possível, orgânicos.

91. Nerd socioambiental

Nunca duvidei tanto do sistema escolar e, ao mesmo tempo, nunca estudei tanto na vida. Pela internet, em aulas ao vivo e na prática, estou fazendo uma espécie de faculdade de ecologia e agricultura orgânica. E antes da formatura já resolvi virar professora.

“Fulano é um nerd” passou a ser frase comum em casa, pronunciada com um tanto de admiração outro de ironia. Aos 10 anos, meus filhos já adquiriram plena consciência de que alguns são mais adaptados ao aprendizado acadêmico do que outros. Já eu, se por um lado acho muito bacana que existam crianças estudiosas, por outro percebo que cada um aprende de um jeito e as instituições de ensino, além de padronizar, ficaram anacrônicas. O currículo e a didática tradicionais excluem a maior parte dos estudantes, que se entediam ou simplesmente não compreendem o conteúdo exposto daquela forma. A meu ver, pouco adianta os colégios e faculdades lotarem a sala de computadores e inventarem projetos supostamente moderninhos. A escola dos meus sonhos não tem paredes, currículo, provas nem sinal marcando o início e o fim da aula. Minha utopia é o aprendizado pelo desejo irrefreável de desvendar o universo e a si mesmo. Se eu não estivesse vivenciando aqui e agora esse sistema, ia achar impossível.

Nunca estudei tanto na vida com hoje em dia. Nem às vésperas da Fuvest. Desde que criei a horta em casa e inventei esse blog, estou correndo atrás de conhecimentos diversos, sobretudo nas áreas de química e biologia, matérias que odiava na escola. Grudei uma tabela periódica na parede e volta e meia vou lá checar se N é mesmo nitrogênio, P fósforo e K potássio. NPK, como a turma do verde bem sabe, é o nome do adubo químico usado na agricultura convencional (aquela dos agrotóxicos). Fico aqui tentando desvendar a trofobiose, o ciclo do carbono, os interferentes endócrinos e mais uma sopa de siglas. Ao mesmo tempo, tiro do fundo do baú mental os conceitos de latifúndio, oligopólio, as teorias malthusianas e outras lições de sociologia. Junto isso tudo com novidades como obsolescência programada e permacultura e vamos nessa!

Com o Google, o Youtube e o Facebook, alcanço o mundo sem sair do escritório. Começo e termino a jornada CDF diária quando quero e posso me distrair sem nenhum professor dar bronca. Muitas vezes, assisto a um documentário enquanto faço outras coisas, sabendo que, se a atenção dividida me faz perder uns detalhes, posso voltar ao filme quando quiser. Recentemente fiz formação em agricultura orgânica online com o agrônomo Silvio Roberto Penteado (silvio@agrorganica.com.br). Durou vários meses e meus colegas eram fazendeiros de verdade.

Nem só de internet vivem os meus estudos. Também já participei de cursos livres em vários lugares. O próximo será a jornada de permacultura da Casa Jaya (http://www.casajaya.com.br/), onde aprenderei a captar água da chuva com Guilherme Castagna e vou me aperfeiçoar no plantio com o superfera Peter Webb. E o melhor de tudo são as aulas práticas, aqui mesmo no quintal, com a mão na terra!

Mesmo iniciante, percebi que minha trajetória poderia ajudar outras pessoas a iniciarem suas hortas e resolvi oferecer uma oficina (mais detalhes no post anterior). Abaixo relacionei algumas fontes de informação que estou acessando. Se quiser mandar comentários ou sugerir outras, será ótimo, pois trabalho de grupo era o que eu mais gostava no colégio.

DOCUMENTÁRIOS

O Veneno está na Mesa
http://www.youtube.com/watch?v=8RVAgD44AGg �
Documentário do cineasta Silvio Tendler que mostra os terríveis problemas de saúde pública causados no Brasil pelos agrotóxicos. Mais detalhes: http://conectarcomunicacao.com.br/blog/84-veneno-est-na-mesa-socorro/

O Mundo segundo a Monsanto
http://www.youtube.com/watch?v=gkQN5gopWSU
A
diretora francesa Marie-Monique Robin percorre o planeta para explicar os perigos do crescimento exponencial das plantações de transgênicos. Estreou no canal de TV franco-alemão Arte em 2008.

 Food, Inc
http://www.factoryfilmes.net/documentario-food-inc-legendado-download
Os bastidores das indústrias de alimentos, sobretudo de origem animal.

 Dirt, the movie
http://www.youtube.com/watch?v=xh6yzFehi04
Esse eu assisti no Cineclube Crisantempo e só tem o trailer para baixar. Uma aula maravilhosa sobre a fertilidade do solo e os riscos da agricultura química. Pena que não está inteiro, mas vale ver.

 Projeto PANCs: soberania alimentar e biodiversidade palpável
http://coletivocatarse.blogspot.com/2010/04/projeto-pancs-soberania-alimentar-e.html
Registra as oficinas ministradas pelo botânico Valdely Kynupp sobre plantas brasileiras nativas com grande potencial alimentício e de comercialização, mas que costumam ser negligenciadas. 

Curso de Sistemas Agroflorestais
http://www.youtube.com/watch?v=fjITUODqLRo
Para aprender a recuperar e reflorestar áreas degradadas.

Mais filmes: http://conectarcomunicacao.com.br/blog/64-oscar-da-ecologia/

 LIVRO PARA BAIXAR
Agrotóxicos no Brasil
http://aspta.org.br/wp-content/uploads/2011/09/Agrotoxicos-no-Brasil-mobile.pdf �
Novíssimo! Obra de fôlego da agrônoma Flavia Londres. Acaba de ser lançada por iniciativa da Articulação Nacional de Agroecologia (ANA) e da Rede Brasileira de Justiça Ambiental (RBJA).

 LIVROS PARA COMPRAR

Estante Virtual
http://www.estantevirtual.com.br/
O mega-sebo online tem de tudo, até o clássico e maravilhoso “Plantar e Colher”, do inglês John Seymour, fora de catálogo há séculos, que comprei lá.

Livraria Tapioca
http://www.livrariatapioca.net/
Especializada em sustentabilidade e com um catálogo ótimo.

 Via Orgânica
http://www.viaorganica.com.br/
Nesse endereço estão os manuais superpráticos de agricultura orgânica feitos pelo agrônomo Silvio Roberto Penteado.

80. Precisamos de uma Marcha do Orgulho Eco?

Quem se engaja nas causas ambientais está sob constante ameaça de ser chamado de chato ou xiita, além de virar alvo das piadinhas. Vale a pena conferir o que Cacique Seattle (em 1854) e David Suzuki (em 2011) dizem sobre o que é ser ecológico.

Descobri David Suzuki outro dia, quando um amigo postou no Facebook um link para o texto “The Nature of Environmentalism”. Cientista canadense de ascendência japonesa, já recebeu diversos prêmios internacionais, publicou 52 livros, é uma celebridade verde em seu país e estrela de primeira grandeza no circuito universitário, além de dirigir a fundação que tem seu nome.

Descobri Cacique Seattle quando era adolescente. Na parede da lendária sorveteria Rocha (no centrinho da então pequena e pacata São Sebastião, litoral norte de SP) estava uma folha de jornal amarelada com sua famosa carta de 1854 em resposta à oferta do presidente norte-americano Franklin Pierce para compra das terras de seu povo, o Duwamish, localizadas onde hoje é o Estado de Washington, fronteira com o Canadá no extremo oeste.

Suzuki está no topo da carreira acadêmica. Seattle foi um índio que vivia da caça e da coleta. Suzuki escreve em um computador e seus textos imediatamente circulam pelo mundo através da internet. Seattle apenas discursava para seu clã e sua famosa carta foi compilada por testemunhas. Embora cerca de 30 anos tenham se passado, tive a mesma sensação iluminadora ao ler os dois textos, que reproduzo em parte abaixo. 

Cacique Seattle, 1854:
“Somos parte da terra e ela é parte de nós. As flores perfumadas são nossas irmãs; o cervo, o cavalo, a grande águia – são nossos irmãos. As cristas rochosas, os sumos da campina, o calor que emana do corpo de um mustang, e o homem – todos pertencem à mesma família. Os rios são nossos irmãos, eles apagam nossa sede. O vento que deu ao nosso bisavô o seu primeiro sopro de vida, também recebe o seu último suspiro.

A terra não pertence ao homem: é o homem que pertence à terra, disso temos certeza. Tudo está relacionado entre si. Tudo quanto agride a terra, agride os filhos da terra. Não foi o homem quem teceu a trama da vida: ele é meramente um fio da mesma. Tudo o que ele fizer à trama, a si próprio fará.”                                                     
Veja o texto completo e sua história: http://www.ufpa.br/permacultura/carta_cacique.htm

David Suzuki, 2011:
 “Ambientalismo não é uma profissão ou uma ciência; é um jeito de ver seu lugar no mundo. É reconhecer que vivemos num planeta onde tudo, incluindo nós mesmos, está interconectado e é interdepentende de todo o resto.

A água se move do oceano para o ar e para a terra, ao redor do mundo, ligando todas as formas de vida por meio do ciclo hidrológico. Ao inspirar, absorvemos oxigênio proveniente de todas as plantas da terra e do mar, e também tudo o que é expelido de todas chaminés das fábricas e dos veículos. A teia de todas as coisas vivas faz parte dos processos que reabastecem e restauram o ar, a água, o solo e a energia. Nessa maneira de ver o mundo, não somos apenas receptores dos presentes mais vitais da natureza – somos participantes de seus ciclos.

 Tendemos a pensar nos ambientalistas como pessoas preocupadas com a natureza ou uma espécie em extinção ou um ecossistema ameaçado. Ambientalistas são acusados de se preocupar mais com as corujas malhadas ou árvores do que com as pessoas e os empregos. Isso é um absurdo. Vendo um mundo interconectado, nós entendemos que as pessoas estão no coração da crise ecológica global, e que a genuína sustentabilidade significa também lidar com questões de fome e pobreza, desigualdade e injustiça, terrorismo, genocídio, e guerra, porque enquanto essas questões confrontarem a humanidade, a sustentabilidade não será prioritária. 

No nosso mundo interconectado, todos esses temas são parte do caminho insustentável que trilhamos. Se quisermos encontrar soluções, precisamos ver o cenário como um todo.”
Veja o texto completo, em inglês: http://www.themarknews.com/articles/5742-the-nature-of-environmentalism

78. Milho transgênico, quentão e lixo industrializado

As festas juninas se tornaram mais uma ocasião para se entupir de comida ruim e distribuir brindes desnecessários, descartáveis, de péssima qualidade e potencialmente tóxicos.

Há alguns anos, estávamos saindo da quermesse da escola quando duas crianças pobres vieram em nossa direção. Meus filhos tinham nas mãos algumas prendas e na mochila eu guardava tantos outros brindes recém-conquistados por eles. Baixinho, sugeri que doassem um brinquedo para cada um dos meninos que se aproximaram. Recusaram-se e eu respeitei a decisão. Meses depois, ao arrumar os armários, encontrei várias daquelas bugigangas intocadas, ainda na embalagem.  Dessa vez não teve conversa: os badulaques foram diretamente encaminhados para doação.

Chegou de novo o momento em que os colégios organizam as festas juninas e, antes do grande dia, convocam os pais a comprar e entregar as tais prendas. Fico bem desconfortável com isso. Percebo que, em geral, as crianças de classe média possuem brinquedos demais e esse excesso de objetos até dificulta (em vez de facilitar) as brincadeiras. Antigamente, a tradição de presentear os participantes fazia todo o sentido. Afinal, as pessoas viviam no campo, sem acesso a produto algum, incluindo brinquedos. Nesse ambiente espartano imagino que receber um brinde era uma emoção enorme. Já na sociedade hiperconsumista em que vivemos, os festejos típicos da época viraram mais uma ocasião de desperdício e de consumo desenfreado de junk food.

Embora não queiram de verdade o que trazem para casa, percebo que durante o evento as crianças (e até adultos!) tentam acumular o maior número possível de prendas. Não seria melhor aproveitar a pesca, a argola, o rabo do burro e tantas outras atrações apenas por prazer, sem receber nada em troca?

Além da quantidade, há o problema da qualidade. Predominam as tralhas de plástico vagabundas, geralmente fabricadas na China. Esse tipo de produto costuma ter matéria prima inferior e potencialmente tóxica, além de muitas vezes ser fruto de exploração de trabalhadores e esquemas de pirataria e contrabando. Ou seja, uma tragédia socioambiental completa (Mais detalhes em http://conectarcomunicacao.com.br/blog/55-brinquedos-envenenados/).

Eu gostaria que as escolas e os pais transformassem as festas juninas num evento menos consumista. Isso significa valorizar o lado cultural das nossas tradições e não oferecer objetos supérfluos e embalagens descartáveis.

Podíamos aproveitar a ocasião para homenagear nossas raízes gastronômicas proibindo o fast-food, os agrotóxicos e os transgênicos. Já pensou que lindo uma quermesse com quitutes feitos em casa pelos participantes utilizando apenas ingredientes orgânicos da agricultura familiar?

69. Currículo para a vida

Não parece, mas o excesso de trigonometria na escola tem tudo a ver com doenças precoces e pouca atenção ao futuro do planeta. Se você é de exatas, substitua “trigonometria” por “análise sintática” na frase anterior.

Sempre gostei de escola e fui boa aluna (embora um pouco rebelde). Mas, tanto décadas atrás quanto hoje, tudo podia ser muito melhor se os estudantes não fossem obrigados a engolir toneladas de conteúdo sem pé nem cabeça em nome de algo anacrônico chamado vestibular. Ao conversar outro dia com uma adolescente do Ensino Médio, angustiada com a trigonometria, terrores antigos ressuscitaram. Engenheiros que me desculpem, pois isso deve servir para alguma coisa, mas achei crueldade continuarem a apresentar esse assunto exatamente como se fazia no século passado: de forma totalmente descontextualizada e baseada na decoreba. Sobretudo para pessoas com cabeça de humanas, como é o meu caso e também o da minha jovem interlocutora. Para a turma dos números, análise sintática e interpretação de poesias simbolistas (lições que me são úteis até hoje e jamais esqueço) provavelmente causam semelhante desgosto.

Assim que saí da prova da FUVEST, deletei as migalhas de trigonometria que consegui assimilar junto com a maior parte das matérias exatas.  Hoje em dia, não consigo ir muito além da regra de três e das porcentagens. Que ninguém me peça para calcular juros compostos ou resolver equação de segundo grau. Portanto, as horas e horas da minha adolescência em que tentei enfiar nos neurônios fórmulas e cálculos avançados foram apenas inúteis e desagradáveis.

Por outro lado, gostaria de ter aprendido mais sobre plantas, animais, saúde, sustentabilidade, antropologia e psicologia. Gostaria de ter tido aulas de culinária e de como consertar coisas. Um novo mundo da educação precisa ser criado. Felizmente, há sinais de mudança no ar. Em Bali, a Green School (www.greenshoool.org) dá um show ao misturar conteúdos teóricos e vivências práticas necessárias para a construção de uma sociedade sustentável. Outras experiências semelhantes, que personalizam boa parte do currículo, pipocam por aí. Que elas proliferem, pois as crianças e adolescentes de hoje encontrarão um mundo bem complicado para viver. Recursos energéticos e agrícolas mais escassos, mudanças climáticas, superpopulação e poluição são alguns dos problemas que tendem a se agravar.

Em vez de educar para o sucesso — conceito que significa êxito para alguns e fracasso para muitos outros –, nossa sociedade deveria preparar melhor as próximas gerações para cuidar tanto do ecossistema externo quanto do interno. Outro dia li na Folha de São Paulo a seguinte manchete: “Casos de derrame cerebral aumentam entre os jovens” (http://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/883177-casos-de-derrame-cerebral-aumentam-entre-os-jovens.shtml) . A reportagem lista as causas: sedentarismo, estresse, abuso de drogas e álcool, dieta com poucas fibras e verduras e excesso de sal. Por que será que uma parte da juventude tem atitudes tão insalubres ao ponto de entrar no grupo de risco de uma doença grave antigamente restrita aos idosos? Fatores como estar alienado da essência da vida e sob pressão para ser ultracompetitivo não estariam por trás disso?

Fique claro que não estou advogando estender o jardim da infância até o Ensino Médio. Apenas acredito que a família e os educadores deveriam evitar as informações fora de contexto, esquecer esse papo bobo de winners&losers e dar mais valor àquilo que serve para viver melhor tanto no presente quanto no futuro. E aí volto a bater na tecla da sustentabilidade: de nada adiantará estar pronto para vencer na carreira se a situação do planeta ficar muito ruim.

61. Gastei R$ 163,60 com a volta às aulas

Resolvi fazer a contabilidade financeira e ambiental dos materiais escolares dos meus filhos.

Como no ano passado, o grupo de pais ao qual pertenço organizou um esquema de reaproveitamento de material e uniformes escolares. Desde dezembro, coletamos doações de livros didáticos e paradidáticos, uniformes e fichários. Alguns dias antes da volta às aulas montamos a barraca da Troca Solidária em plena escola, ao lado do local onde estavam sendo vendidos os materiais novos para 2011.

Com isso, consegui gastar bem pouco. O valor total da lista seria R$ 250 para cada filho, totalizando R$ 500, sem contar uniformes. Paguei apenas R$ 30. Para economizar esses R$ 470, eles continuaram com os fichários e pastas do ano anterior e até mesmo os cadernos tipo brochura que estavam pela metade passaram de ano (simplesmente retiramos as folhas utilizadas). Uniformes que ficaram pequenos procuraram novos donos na barraca da Troca Solidária, onde retirei gratuitamente as mesmas peças em tamanho maior, doadas por outros alunos.

Estojos foram lavados e cada item examinado. Apontamos lápis, limpamos borrachas, verificamos apontadores e canetinhas coloridas, colocamos grampo nos grampeadores, reforçamos a identificação nas tesouras e voilá! Só precisou comprar 5 novos lápis grafite para cada.

Mochilas iniciaram seu terceiro ano letivo. Como a do Alex estava com o zíper arrebentado, paguei R$ 60 pela colocação de um fecho reforçadíssimo. Caro, né? Também achei, pois tudo conspira para que a gente jogue fora as coisas. A mão de obra dos consertos se tornou rara e enfia a faca. Mesmo assim insisti, pois sou contra a cultura do descartável.

Os estojos de inglês continuaram sua carreira, assim como o estojo de escola do Alex. Julieta sonhava com um maior e lindo, de marca que faz sucesso com os pré-adolescentes. Custou R$ 149, mas não entra na conta porque foi o único presente de Natal que lhe demos.

Até o 6º ano, o colégio das crianças só adota conteúdo didático produzido internamente. Os únicos livros são o dicionário e o atlas, reaproveitados do ano anterior. As apostilas custam cerca de R$ 700 anuais por aluno, cobrados em boletos semestrais que ainda não apareceram por aqui.

Contabilizando tudo, ficou assim:
• 3 cadernos – R$ 30
• 10 lápis pretos – R$ 20 (5 para cada criança, de ótima qualidade, custando R$ 2,00 cada)
• 1 saia-shorts para Educação Física – R$ 20 (modelo novo, ainda não disponível no brechó)
• 4 tubos de cola em bastão – R$ 33,60 (2 para a escola e 2 para o estojo do curso de inglês)
• Conserto de mochila – R$ 60
Total – R$ 163,60

Agora a contabilidade ambiental: tirando as canetinhas que secaram, a produção de lixo foi zero. As apostilas e os desenhos que vêm da escola eu guardo ano após ano. Quando crescerem, meus filhos poderão escolher o que querem como lembrança. E eu garanti um estoque de papel de rascunho até o ano 2050. Quando chegar aos 70 anos de idade quero anotar recados no verso das pinturas que os filhotes fizeram no maternal. Já pensou que luxo?

Nem sempre é fácil convencer as crianças e bancar entre os amigos a reutilização das coisas. O ambiente é consumista e eles às vezes sentem vergonha por não exibir coisas novíssimas e traquitanas Made in China que piscam e apitam. Preciso agir com suavidade, respeitando um ou outro desejo pelo supérfluo. Mas nossa família não abre mão do consumo consciente.

56. Para as crianças, menos consumo e mais natureza

Nesse Natal, em vez de entregar algo feito de plástico potencialmente tóxico, que tal oferecer como presente uma brincadeira perto da natureza? 

Estamos naquele momento febril do ano e comprar parece inevitável. Numa sociedade em que os antigos rituais religiosos foram substituídos pelo consumismo, Natal só é Natal se tiver muitos pacotes de presentes. Especialmente para as crianças.

Meus filhos já têm nove anos e muitas das geringonças complicadas que ganharam no passado estão empoeirando no armário. Como seus companheiros de geração, eles têm fascínio pelo trio TV/videogame/computador. Mas, nos momentos unplugged, preferem brincar com acessórios mais simples, como corda, bola, cartas de baralho, lápis e papel, tampinhas de garrafa e outras sucatas.

De um lado, observo que as crianças de hoje têm brinquedos demais e pouco tempo ou paciência para brincar. Do outro, percebo que são rodeadas por adultos ansiosos por presentear, mas sem disponibilidade para lhes dedicar tempo. No ótimo documentário “Criança, a Alma do Negócio” (http://www.youtube.com/watch?v=rW-ii0Qh9JQ) , de Estela Renner, numa cena a entrevistadora pergunta a um grupinho: “O que vocês preferem: brincar ou comprar?”. A ida ao shopping ganhou a eleição de lavada. Sem dúvida alguma, um empobrecimento da infância já que, dizem os especialistas, é brincando que os pequenos elaboram sentimentos e constroem a si mesmos.     

Sugestão: nesse Natal, em vez de entregar algo feito de plástico potencialmente tóxico, que tal oferecer como presente uma brincadeira perto da natureza? 

A psicanalista Lucia Paiva, amiga de longa data, me apresentou há alguns anos o fascinante universo de Jean Piaget. De acordo esse grande estudioso do desenvolvimento humano, crianças entre dois e seis ou sete anos de idade estão na “fase pré-operatória”. Nessa etapa, a fantasia toma conta e vem daí aquela paixão pelos contos de fada. Realidade e sonho se misturam. Tudo o que existe ganha sentimentos: objetos, lugares e fenômenos naturais. São comuns atitudes como colocar os brinquedos para dormir ou achar que a cadeira se machucou porque caiu. Também há a ideia de que todos os acontecimentos do universo são criação humana. Um exemplo: Sabrina, minha sobrinha, outro dia viu a lua minguante e perguntou quem mordeu o outro pedaço (rs).

Na primeira infância, nada é mais maravilhoso do que descobrir a natureza. Então, quando estiver num eco-momento com uma criança, mostre o meio ambiente que a rodeia. A começar pelos bichos que estão perto ou aparecem nos livros e filmes. Deixe-a sentir a chuva, ouvir vento, assistir ao pôr do sol. Aponte o cume das montanhas, a forma das nuvens, as ondas do mar. Deixe a imaginação de ambos voar e trazer explicações malucas. Não transforme o encontro numa aula: simplesmente divirtam-se!

 A sensibilidade para o fato de que nós e a natureza somos uma coisa só surge a partir de singelas experiências cósmicas. No futuro, esse ser humano será mais receptivo às informações relacionadas à sustentabilidade e mais disposto a participar de ações em favor do meio-ambiente. E é de pessoas assim que a humanidade está precisando.

47. Queridas minhocas

Com um minhocário em casa a gente reduz o lixo e produz adubo natural de ótima qualidade. Não precisa ter nojo, pois as minhocas são lindas, simpáticas e limpinhas.

Em julho de 2009, fui visitar a Bio Brazil Fair (feira de produtos orgânicos e sustentáveis – http://www.biobrazilfair.com.br/2011/codigo/home.asp?resolucao=1024)  e encontrei um stand com minhocários domésticos. Comprei o kit ali na hora e ouvi com atenção as instruções. Levei para o carro três caixas de plástico grandes e um saquinho com um pouco de húmus e uma porção de minhocas.

No dia seguinte empilhei as caixas, instalei as meninas em sua nova casa e comecei a alimentá-las diariamente com talos de vegetais e outros restos da cozinha. No começo, só um pouco. Depois, conforme as novas gerações iam povoando o minhocário, fui aumentando a quantidade.

Se, na minha infância, alguém dissesse que em 2010 eu estaria criando minhocas em casa, daria uma gargalhada. Nasci três anos antes do homem ir à Lua e as crianças daquela época sonhavam em ser astronautas. Víamos Jetsons na TV e achávamos que, quando fôssemos adultos, não seria mais preciso fazer comida, pois nos alimentaríamos com pílulas.

Pois bem, décadas se passaram e aqui estou eu comprando orgânicos, cultivando uma mini-horta, adorando cozinhar e transformando restos de vegetais em adubo. Para isso servem as minhocas. Elas ficam quietinhas em suas caixas comendo aquilo que iria para o lixo. Em algumas semanas, talos, folhas, pó de café usado, pão embolorado, cascas de frutas e de ovos viram puro húmus. Num recipiente separado fica o líquido que escorre: é vitamina da melhor qualidade para diluir em água e borrifar nas plantas! Para o lixo, só vão restos de carne, queijo, comida muito salgada ou gordurosa, cascas de laranja e limão (ácidos demais para as minhocas).

O minhocário é limpíssimo e cabe em qualquer canto (vários amigos que moram em apartamento têm um kit igualzinho). Precisa ficar na sombra. Quando você abre a caixa, dá para ver os vegetais em decomposição e as minhocas passeando por eles, felizes da vida. Tem cheirinho de terra, suave e gostoso.  Para organizar o esquema na cozinha, basta colocar na pia um recipiente para ir recolhendo a refeição das queridas invertebradas ao longo do dia.

Meus filhos e os amigos deles se divertem olhando a movimentação que acontece dentro do minhocário. Outro dia, uma menina quis levar para casa. Arranjei um potinho, furei para arejar e coloquei algumas minhocas enroladas em seu húmus junto com um pouco de comida. Mas tenho a impressão de que a colônia não foi em frente, pois, ao vir buscar, a mãe olhou horrorizada para o brinde. Compreendi a reação dela, pois eu mesma demorei um pouco para acostumar com essa ideia. Hoje em dia, em vez de nojo até sinto saudade da turma quando vou viajar (rs). Falando nisso, elas sobrevivem mais de um mês sem colocar comida nova, por isso as viagens não são problema para iniciar sua criação.

Fica aqui o convite para entrar para a turma da minhoca. Além de reduzir bastante a quantidade de lixo produzida na sua casa e fabricar um adubo de excelente qualidade, você vai ver como é boa a sensação de acompanhar todos os dias o reinício do ciclo da vida.


ONDE COMPRAR E MAIS INFORMAÇÕES SOBRE MINHOCÁRIOS

– Morada da Floresta (São Paulo) – http://www.moradadafloresta.org.br/
Desenvolve também sistemas de compostagem dimensionados para atender às necessidades de condomínios, empresas, escolas, restaurantes, clubes, hotéis e eventos. Recentemente, a Morada da Floresta cuidou de todos os resíduos orgânicos da Adventure Sports Fair. Veja lá: http://colunas.epoca.globo.com:80/viajologia/2010/10/07/show-de-sustentabilidade-na-adventure-sports-fair-em-sao-paulo/

– Composteira Soluções Ecológicas (São Paulo) – http://composteira.blogspot.com/

– Minhocário Urbano Sustentável Caseiro (São Paulo) –http://cadicominhocas.blogspot.com/
Alternativa permacultural (aproveita sucata) e mais econômica. Entregas a combinar em estações do metrô.

– Minhocasa (Brasília) – http://www.minhocasa.com/
Além de produzir minhocários, a empresa dá cursos e atua com projetos socioambientais no Distrito Federal.