135. Dossiê Crise da Água

Enquanto os reservatórios do país estão em níveis baixíssimos, os governantes fazem seus cálculos politiqueiros em cima da tragédia anunciada e a mídia apresenta uma cobertura que deixa a desejar, aprofundando apenas nas fofocas dos bastidores do poder. A sociedade ainda não acordou para debater as causas do problema e as atitudes necessárias para sobreviver enquanto as chuvas não voltam. Esse post reúne opiniões de especialistas e outros artigos sobre o tema que me inspiraram a criar a imagem ao lado .

O futuro relator das Nações Unidas para o Direito à Água e ao Saneamento Básico é o mineiro Léo Heller. E ele avisa: “Nio curto prazo nada pode ser feito pela seca do Sudeste”. http://www.ecodebate.com.br/2014/11/26/no-curto-prazo-nada-pode-ser-feito-pela-seca-no-sudeste-afirma-futuro-relator-da-onu-para-o-direito-a-agua/

Apresentado internacionalmente em 31/3,  o Relatório sobre Impactos, Adaptação e Vulnerabilidades às Mudanças Climáticas do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) aponta que as mudanças climáticas já observadas e as projetadas para as Américas do Sul e Central colocarão em risco a segurança hídrica das regiões e terão impactos diretos no abastecimento doméstico e industrial e em setores fortemente dependentes de água, como o de geração de energia hidrelétrica e a agricultura. http://www.ecodebate.com.br/2014/04/10/mudancas-climaticas-poem-em-risco-seguranca-hidrica-na-america-do-sul/

 Philip Fearnside, climatologista norte-americano, mora  em Manaus e recebeu, ao lado de outros cientistas do IPCC, o  Nobel da Paz em 2007. De acordo com ele, as inundações na região Norte e a seca no Sudeste estão interconectadas. Trechos da reportagem feita por Leão Serva para a revista Serafina de abril de 2014: “Na Amazônia, ainda nos anos 1980, Fearnside escreveu que se nada fosse feito, a floresta como sistema climático iria desaparecer em 50 anos. Passaram-se 25, o desmatamento continuou e vários fenômenos associados também. O principal deles é a redução da umidade naquela área, porque o desmatamento faz com que a água das chuvas não seja retida. Outra consequência do desmatamento é que a água das chuvas escorre diretamente para a calha dos rios, provocando enchentes maiores. Uma terceira consequência do desmatamento em grande escala da região, que Fearnside detalhou em 2004, mostra que menos água da Amazônia seria transportada pelos ventos para o Sudeste durante a temporada de chuvas, o que reduziria a água das chuvas de verão nos reservatórios de São Paulo.” http://www1.folha.uol.com.br/serafina/2014/03/1431548-para-ganhador-de-premio-nobel-cheias-no-norte-e-secas-no-sudeste-estao-conectadas.shtml . Portal Ecodebate traz mais dados sobre desmatamento nas bacias hidrográficas http://www.ecodebate.com.br/2014/05/16/desmatamento-nas-bacias-hidrograficas-agravou-crise-da-agua-em-sp/

Marc Dourojeanni, professor emérito da Universidade Agrária de Lima (Peru) e ex-chefe da Divisão Ambiental do Banco Interamericano de Desenvolvimento, relaciona as inundações da Amazônia e a seca que virána Região Norte ao desmatamento nos Andes: “Ao eliminarem-se as florestas a água das chuvas escorre livremente, arrastando o solo em volumes cada vez maiores. Isto é tanto mais violento quanto maior seja a inclinação da pendente. A função de esponja se perde completamente e a água desce. Por isso as enchentes são seguidas de secas. A agricultura e a pecuária não ajudam em nada. Em geral aceleram muito a erosão.” http://www.oeco.org.br/marc-dourojeanni/28103-teimosia-antiga-e-as-enchentes-na-amazonia

Altair Sales Barbosa, professor da PUC-Goiás e um dos maiores especialistas do mundo sobre o cerrado declara que o bioma está praticamente extinto e com isso lá se vão as nascentes das grandes bacias hidrográficas do Sudeste. http://www.jornalopcao.com.br/entrevistas/o-cerrado-esta-extinto-e-isso-leva-ao-fim-dos-rios-e-dos-reservatorios-de-agua-16970/

Julio Cerqueira Cesar, professor aposentado de Hidráulica e Saneamento da Escola Politécnica da USP, explica o que a Sabesp deveria ter feito para garantir o abastecimento da população e por que não fez: “Em 1990/1995, eles já deveriam começar as obras de  novos mananciais. E poderiam fazer sem correrias, sem superfaturamento, e ir atendendo as necessidades da população”… “Na década de 1990, a Sabesp aderiu ao modelo neoliberal e passou a buscar o lucro a qualquer custo, independentemente dos direitos fundamentais do homem. Demitiu os engenheiros sanitaristas e advogados e economistas assumiram o comando. A Sabesp deixou de considerar o saneamento básico como problema de saúde pública. E passou a encará-lo como um negócio qualquer, se transformando num balcão de negócios.”… “Nós chegamos agora num ponto que vamos ter de suportar essa estiagem até começar a chover de novo. São seis meses de racionamento violento. O Cantareira representa metade da água de São Paulo. Não tem outro jeito, a não ser racionar.” http://www.viomundo.com.br/denuncias/julio-cerqueira-cesar-alckmin-e-sabesp-ja-estao-fazendo-racionamento-de-agua-ha-mais-de-2-meses-ele-e-dirigido-aos-pobres.html

Marussia Whately, urbanista e especialista em recursos hídricos, analisa os conflitos de interesse na Sabesp e também não vê solução em curto prazo. “Ainda é cedo para afirmar se a seca irá se prolongar em 2014 ou nos anos posteriores, então a curto prazo não resta outra alternativa a não ser a adoção de medidas drásticas para reduzir consumo: racionamento. A médio prazo, as medidas de redução de consumo devem continuar, somadas a medidas de conservação de água e sistemas de prevenção e gerenciamento de eventos climáticos extremos como esse.” http://raquelrolnik.wordpress.com/2014/04/14/a-crise-da-agua-em-sao-paulo/

Osvaldo Ferreira Valente, engenheiro floresta especialista em hidrologia, fala sobre riscos e oportunidades do pagamento por serviços ambientais na proteção de nascentes e como a agricultura pode colaborar para a melhor gestão de água. De acordo com ele, é preciso que as lavouras incorporem terraços, caixas ou cisternas de infiltração, barraginhas e plantios em nível. http://www.ecodebate.com.br/2014/04/30/uti-ambiental-a-agua-e-a-realidade-nua-e-crua-artigo-de-osvaldo-ferreira-valente/

Publicada pelo Centro de Estudos de Sustentabilidade da Fundação Getúlio Vargas (GVces), a Revista Página 22 (edição de maio de 2014) aborda o tema da página 14 a 35. Versão em PDF aqui, com ótima entrevista de José Machado, ex-prefeito de Piracicaba, ex-deputado federal e relator da Lei das Águas (9.433/97) e ex-presidente da Associação Nacional de Águas. http://www.pagina22.com.br/wp-content/uploads/2014/04/Pagina22_Ed84.pdf

A água do subsolo paulistano já contribui com 10m3 por segundo para o abastecimento da cidade. Mas esse recurso também está sendo mal gerido, com 60% de poços ilegais e a prática comum de edificações que avançam no subsolo e bombeiam incessantemente a água limpa do lençol freático para o esgoto. http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2014/05/1459709-pocos-podem-ajudar-na-crise-da-agua-dizem-especialistas.shtml

Água vai virar commodity? É o que discute Stela Goldenstein, diretora executiva da Associação Águas Claras do Rio Pinheiros, nesse artigo publicado pelo jornal Valor Econômico em 22/4/2014. http://www.cliptvnews.com.br/mma/amplia.php?id_noticia=51275

De Piracaia (SP), a jornalista Giuliana Capello conta como a criação de gado e as plantações de eucalipto estão detonando o armazenamento de água nas represas da região, que integram o Sistema Cantareira http://planetasustentavel.abril.com.br/blog/gaiatos-e-gaianos/a-seca-o-sistema-e-o-suco-de-eucalipto/

Nascido e criado na região do tal Sistema Cantareira, o jornalista Leandro Beguoci relaciona o aumento da mancha urbana nos municípios de Caieiras, Mairiporã, Piracaia, Joanópolis, Nazaré Paulista, Franco da Rocha e Vargem ao colapso das represas. E os condomínios e casas de veraneio têm sua parcela de culpa pelo problema. http://gizmodo.uol.com.br/giz-explica-agua-sistema-cantareira/

As nascentes do Paraíba do Sul, aquele rio que virou motivo de briga entre os governos de São Paulo e Rio de Janeiro, também estão ameaçadas. http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2014/03/1431569-agua-esta-diminuindo-na-nascente-do-rio-paraiba-do-sul-dizem-vizinhos.shtml

Para piorar, no que se refere à energia a situação é para lá de complicada. Especialistas sugerem o início de um racionamento brando já. Veja o que diz Roberto Schäffer, professor de Planejamento Energético da Coppe/UFRJ: “O Brasil está entrando numa zona perigosa. O país quer passar uma impressão internacional de que está tudo bem, mas depois do Mundial devem vir medidas mais duras.” http://www.ecodebate.com.br/2014/04/04/brasil-deveria-iniciar-racionamento-de-energia-desde-ja-defendem-especialistas/comment-page-1/#co.mment-32151

Soluções para ao menos amenizar esse enorme problema existem e não são complicadas demais. Um exemplo vem de Nova York, onde a prefeitura  paga a fazendeiros que vivem distantes da cidade pela preservação das nascentes. E São Paulo tem uma lei boa quase secreta, mas que não “pegou” por enquanto: http://www.akatu.org.br/Temas/Agua/Posts/lei-para-uso-da-agua-sao-paulo.  Começam a ser desenhadas políticas públicas que remuneram proprietários rurais que mantém a a floresta de pé em volta das nascentes e proibem práticas ambientalmente danosas em regiões de mananciais. Mas isso só vai acontecer se a opinião pública acordar. http://g1.globo.com/jornal-hoje/noticia/2013/03/nova-york-cuida-dos-mananciais-que-abastecem-cidade-e-seus-turistas.html

Se continuarmos na inércia e não der sorte de cair do céu um montão de água nos próximos meses, viveremos ao vivo as emoções de um filme catástrofe, como contou o professor Antônio Carlos Zuffo (chefe do Departamento de Recursos Hídricos da Unicamp) ao jornalista David Shalom: “A situação é realmente grave e não envolve apenas os riscos de ausência do recurso para uso doméstico. Segundo Zuffo, antes de a população ficar sem água devem ser suspensas as outorgas para seu uso aos agricultores da Reserva da Biosfera do Cinturão Verde de São Paulo, que abrange 73 municípios em torno da capital, e às indústrias. A consequência disso seria um desabastecimento de certos produtos, como hortaliças, e demissões em massa de funcionários. A bola de neve prossegue: com o desemprego aumenta a violência; sem água, instituições de ensino e centros de compras fecham as portas; logo, a falta de higiene também faz surgirem as doenças.” http://outraspalavras.net/outrasmidias/capa-outras-midias/crise-de-agua-sp-reservatorios-podem-secar-em-outubro/

TRRIIIMMMM!

Tá com preguiça de ver esse monte de links? Então acesse apenas esse e em 6 minutos saiba o que é preciso saber sobre o assunto: https://www.youtube.com/watch?v=RsUD8CTDdAw&feature=youtu.be

 

 

131. Bem-vindo à Permacultura!

Essa palavra esquisita significa Cultura da Permanência, ou seja, o oposto da insustentabilidade. A permacultura traz muita esperança de conseguirmos fazer uma transição para a sociedade sustentável de forma suave e feliz. Venha!

Explicação mais detalhada sobre como surgiu e o que propõe a permacultura aqui: http://conectarcomunicacao.com.br/blog/99-um-2012-permacultural-para-voc/.

Há alguns meses estou envolvida na organização do Curso de Introdução à Permacultura Urbana da Subprefeitura de Pinheiros. Mal começou e já está se tornando um aglutinador de pessoas em prol de um jeito de viver mais harmônico e um catalizador de iniciativas transformadoras.

Como funciona? Todo mundo pode participar, todos são professores e alunos ao mesmo tempo, teoria e prática estão totalmente integradas.

Quer participar?

130. 20 motivos para incentivar a agricultura urbana

Horta do Ciclista (Av. Paulista entre Bela Cintra e Consolação)

Esse post é de 2013 e chamava “18 motivos…”. Descobri mais dois:
19º – Valorizar quem traz consigo saberes desprezados pela sociedade de consumo, como a ciência e a arte de cultivar alimentos para subsistência. Essa turma — que inclui muitos idosxs, pobres, mulheres e analfabetxs das letras — é que está nos alfabetizando na lida com as plantas comestíveis.
20º – Reconstruir pontes entre as pessoas. Nesse momento de opiniões polarizadas e conflitos ideológicos, a agricultura urbana nos faz lembrar que todos nos alimentamos, que todos estamos ligados à terra e somos irmãos perante a natureza.

Daqui para frente vem o texto original…

Típico da nossa sociedade compartimentada, o viaduto é uma solução pontual e ineficiente para apenas um problema. Custa muito, em geral não resolve o congestionamento, mas consegue aniquilar a qualidade de qualquer espaço urbano. Uma horta comunitária em uma praça ou uma horta para comercialização nas zonas mais afastadas do centro representa o oposto: solução quase grátis, prazerosa e sistêmica para um montão de problemas. Senhores governantes: por que investir tanto em viadutos e tão pouco em agricultura urbana?

Quando comecei a plantar comida na cidade só estava pensando no primeiro objetivo dessa lista. Aos poucos, fui descobrindo todos os outros.  

BENEFÍCIOS AMBIENTAIS

 1 Menos pressão sobre os recursos naturais – Cada pé de alface produzido no quintal ou na horta da esquina dispensa espaço no campo, transporte e embalagem. Na verdade, no caso da hortaliça-símbolo da salada, até o método de colheita muda: você só retira da planta as folhas que vai consumir naquele momento e ela continua produzindo por mais alguns meses. É urgente que as populações urbanas reduzam a demanda sobre os recursos naturais, pois as cidades hoje ocupam 2% da superfície terrestre mas consomem 75% dos recursos.

2 Combate às ilhas de calor –  Áreas pavimentadas irradiam 50% a mais de calor do que superfícies com vegetação. Em São Paulo, a geógrafa Magda Lombardo constatou que a temperatura pode variar até 12 graus entre um bairro e outro. Não por acaso, a Serra da Cantareira e a região de Parelheiros são as mais frescas da cidade: é onde a vegetação se concentra.

3 Permeabilização do solo – Enchentes e enxurradas violentas são em parte resultado do excesso de pavimentação na cidade. E simples jardins de grama, onde o solo fica compactado, não absorvem tanta água quanto canteiros fofinhos das hortas.

4 Umidificação do ar  – As plantas contribuem para reter água no solo e manter a umidade atmosférica em dias sem chuva.

5  Refúgio de biodiversidade – Nas hortas comunitárias recuperamos espécies comestíveis que se tornaram raras (como caruru, ora-pro-nobis, bertalha), plantamos variedades crioulas (as plantas “vira-lata” que têm maior variedade genética e por isso são mais resistentes às condições climáticas adversas) e atraímos uma rica microfauna, especialmente polinizadores como abelhas de diversas espécies, que estão em risco de extinção provavelmente pelo uso de agrotóxicos nas zonas rurais. Sou voluntária da Horta do Ciclista e testemunha de que as borboletas, joaninhas e abelhas aparecem em plena  Avenida Paulista quando plantamos flores e hortaliças.

6 Redução da produção de lixo – Os alimentos produzidos localmente não só dispensam embalagens (que correspondem à maior parte do lixo seco produzido) como absorvem  grande quantidade de resíduo orgânico na fabricação de adubo e até materiais de difícil descarte como restos de madeira, que são usados na delimitação de canteiros.

7 Adaptação às mudanças climáticas – A emissão descontrolada de gases do efeito estufa está tornando o clima mais instável e imprevisível, o que é péssimo para a produção de alimentos. A agricultura urbana tem sido considerada uma importante alternativa para a segurança alimentar e existem estudos indicando que cerca de 40% dos alimentos podem ser produzidos dentro das cidades.  Para saber mais veja  http://conectarcomunicacao.com.br/blog/96-comida-de-amanh/

BENEFÍCIOS URBANÍSTICOS

8 Conservação de espaços públicos – Para explicar vou contar uma historinha: em 12 de outubro de 2012, quando fizemos o primeiro mutirão na Horta do Ciclista (http://pt.wikiversity.org/wiki/Horta_do_Ciclista) encontramos no local muito lixo, cacos de vidro e até fezes e seringa usada. A partir do momento que começamos  a cuidar daquele canteiro, a população passou a respeitar. Não houve depredação nem mesmo durante as grandes festas e manifestações que têm acontecido na Avenida Paulista.

9 Redução da criminalidade – Uma horta necessita de cuidados diários e se torna um local muito visitado. Famílias com crianças pequenas gostam de freqüentá-las, assim como  velhinhos, grupos de estudantes e um monte de gente bem intencionada em busca de uma canto pacífico na urbe. O clima comunitário naturalmente afasta quem está pretendendo cometer atos ilícitos. No Brasil ainda não há estimativas sobre isso, mas nos Estados Unidos vários estudos já foram feitos, alguns deles citados nesse artigo http://www.motherjones.com/media/2012/07/chicago-food-desert-urban-farming.

10 Vida local  – Um dos problemas das grandes cidades, particularmente de São Paulo, é o excesso de deslocamentos numa malha viária sobrecarregada. A agricultura — seja ela praticada como forma de lazer, trabalho comunitário ou profissão — fixa as pessoas no território diminuindo a demanda por transporte.

11 Contenção da mancha urbana – Se há incentivo para a produção agrícola nas franjas das cidades e a atividade se combina com turismo rural, diminui a pressão para desmatar e lotear.  Mas esse benefício a população e os agricultores não conseguem manter sem o apoio do poder público.

BENEFÍCIOS SOCIAIS E PESSOAIS

12 Renascimento da vida comunitária – As hortas promovem a integração entre pessoas de diferentes idades, origens e estilos de vida. Assim como os cachorros, são mediadores sociais muito eficientes. Não falta assunto quando há tanta coisa a admirar, tanta tarefa a compartilhar, tanta dica e receita a trocar.

13 Lazer gratuito – Plantar custa praticamente nada. É divertido, um bom pretexto para juntar os amigos e fazer um lanche comunitário e ainda dá para levar umas verduras para casa sem pagar.

14 Mais saúde – Agricultura é exercício e cada pessoa regula a intensidade. Do tai-chi-chuan contemplativo de joaninhas ao aero-power-enxadão, tem ginástica para todos os gostos. Além disso, mexer com a terra é terapia preventiva e curativa de depressão, ansiedade, adicção, sedentarismo, obesidade, entre outros problemas, sobretudo mentais. E nesse item tem até pesquisa brasileira para comprovar. A autora é Silvana Ribeiro, da Faculdade de Saúde Pública da USP: http://www5.usp.br/29818/agricultura-urbana-agroecologica-auxilia-promocao-da-saude-revela-pesquida-da-fsp/. Tem também o documentário “Saindo da Caixinha”. Sim, cuidar de uma horta pode substituir medicamentos psiquiátricos barra-pesada. https://www.youtube.com/watch?v=brrrX8biFJE.

 15 Educação ambiental na prática – Ver de perto o desenvolvimento das plantas, da germinação à decomposição, é muito melhor e mais eficaz do que aprender sobre os ciclos da natureza numa sala de aula ou num livro. Além de uma universidade viva de botânica, as hortas são excelentes locais para estudar o ciclo da água e a microfauna, entre muitos outros temas.

16 Educação nutricional – Como na TV não passa anúncio de brócolis e abobrinha e o “estilo de vida moderno” afastou muitas famílias dos alimentos na forma natural, existem crianças hoje em dia nunca viram um pimentão ou uma cenoura. Para ter uma ideia dos riscos da alimentação industrializada para as próximas gerações, sugiro assistir o documentário Muito Além do Peso (http://www.muitoalemdopeso.com.br/). Para ver como a agricultura urbana pode inverter esse jogo, sugiro ler American Grown (de Michelle Obama) e Edible Schoolyard (de Alice Waters). Ou simplesmente dar uma voltinha na horta comunitária mais perto de você.

17 Promoção da segurança alimentar – Nossos antepassados sabiam conseguir comida sem ter que comprar. Praticamente toda a humanidade era composta de camponeses. Esses conhecimentos foram sendo desprezados nas últimas décadas e, diante da  perspectiva de crise econômica e ambiental, reavivá-los pode ser muito útil. Se você não gosta de conversa apocalíptica, favor voltar ao item anterior: segurança alimentar não é só ter o que comer, é também saber escolher os alimentos corretamente.

18 Integração agricultor/consumidor – Quem planta comida, mesmo que seja em três vasos no quintal, se torna curioso a respeito da origem dos alimentos que consome. E se sente irmanado aos agricultores: quer saber mais, tem vontade de visitar e apoiar os produtores, busca alimentos  cultivados de forma mais justa e sem uso de fertilizantes químicos e agrotóxicos. Junto com as hortas urbanas que surgem nos bairros de classe média de São Paulo estão nascendo muitas conexões e até amizades com agricultores próximos da metrópole. Um ciclo virtuoso e nutritivo de cuidados mútuos.

PARA SABER MAIS

  • A cidadezinha de Tordmorden, na Inglaterra, ficou famosa porque tem hortas comunitárias em todos os cantos, até na delegacia e no cemitério. O pessoal de lá registrou dicas para quem quer replicar a experiência.
    http://www.shareable.net/blog/10-steps-toward-an-incredible-edible-town
    1) Comece com o que vc tem e não com o que vc não tem;
    2) Não faça um plano estratégico;
    3) Não espere por permissão;
    4) Simplifique;
    5) Deixe a existência da horta divulgar o movimento e provocar diálogos;
    6) Faça conexões;
    7) Comece agora, pensando duas gerações adiante;
    8 ) Redescubra talentos esquecidos;
    9) Reconecte pequenas empresas e artesãos com os consumidores;
    10) Redesenhe sua cidade.
  • Aqui no Brasil, nós, do grupo Hortelões Urbanos (https://www.facebook.com/groups/horteloes/), fizemos esse
    ROTEIRO COLABORATIVO PARA UMA HORTA COMUNITÁRIA
    1) Encontre um espaço disponível;
    2) Procure parceiros;
    3)Converse com os vizinhos;
    4) Vá com a turma visitar as hortas comunitárias que já existem;
    5) Junte os voluntários para desenhar e planejar a horta que será construída;
    6) Consiga sementes, mudas, composto orgânico, enxadas, pazinhas de jardinagem, folhas secas, material para delimitar os canteiros e fazer plaquinhas;
    7) Realize o primeiro mutirão;
    8 ) Monte uma escala de trabalho para regas e manutenção;
    9) Crie uma forma de contato para outras pessoas se comunicarem com o pessoal da horta (blog, e-mail, grupo no Facebook, o que preferirem);
    10) Celebre a abundância e a solidariedade.

99. Permacultura: o que é isso?

A permacultura propõe viver sem esgotar os recursos naturais. E tudo começa na sua casa, colocando a mão na massa.

Nossa civilização devora a natureza numa velocidade superior ao seu ritmo de reposição, produz lixo, contamina o ar, a água e o solo. Óbvio que será impossível continuar assim por muito tempo. A permacultura visa o oposto: criar uma sociedade capaz de se manter infinitamente sem esgotar os recursos necessários à sobrevivência humana.

Parece utópico? Sem dúvida, mas é minha utopia preferida.

Mistura de ciências, tecnologias e filosofias de vida, a permacultura é recente. O termo foi inventado pelos australianos Bill Mollison e David Holmgren em1974 apartir da contração de “permanent” e “agriculture”. Tratava-se, a princípio, de uma série de práticas ecológicas de plantio. Logo o conceito passou a englobar bioconstrução, produção local de energia, manejo de água e aspectos comportamentais, tornando-se “cultura da permanência”.

No mundo todo, a comunidade de permacultores está crescendo. Já somos milhares de seres humanos por aí em diferentes estágios do processo individualizado e/ou comunitário de descobrir como viver seguindo esses quatro princípios:

1 – Cuidado com o planeta

2 – Cuidado com as pessoas

3 – Partilha dos excedentes (inclusive conhecimentos)

4 – Limite ao consumo

No dia-a-dia, temos a troca de experiências com os colegas, cursos, leituras e alguns parâmetros a nos guiar. Reaproveitamento máximo de materiais, evitando produzir lixo, é um deles. Lidar criativamente com as condições oferecidas, transformando problemas em soluções, é outro. Também tentamos imitar a natureza, fechar ciclos produtivos, diversificar e tornar locais as fontes de recursos, cooperar em vez de competir e integrar em vez de fragmentar.

Se essa história de permacultura está parecendo muito teórica, coloque logo a mão na massa que fica fácil entender. Você pode plantar uma pequena horta, transformar sucatas em utensílios, fazer reforminhas em casa, captar água da chuva, cozinhar, lavar ou costurar. O que importa é consumir menos e criar mais, da maneira que for melhor para você. Como diz o permacultor Claudio Spinola, da Morada da Floresta: “Se não é divertido, não é sustentável”.

Indicações:

– A página wiki do Curso de Introdução à Permacultura Urbana da Subprefeitura de Pinheiros (lá tem muuuito material de referência) http://pt.wikiversity.org/wiki/Introdu%C3%A7%C3%A3o_%C3%A0_Permacultura_Urbana

– O documentário “Utopia no Quintal” sobre permacultura urbana (e paulistana). Realizado por Daniela Catelli, Natalia Belucci, Fernando Moura e Billy Jow, tem 25 minutos. A entrevistada fotofóbica que franze a testa sou eu. Aí vai o link: http://vimeo.com/33174098.

– Pesquisar, além da palavra permacultura, ecovilas, PDC (sigla em inglês para Curso de Design em Permacultura) e SAF (Sistemas Agroflorestais).

96. A comida de amanhã

Vale a pena conhecer o Estado do Mundo 2011, relatório bianual do WWI,  que dessa vez coloca uma lupa nos desafios de alimentar os 7 bilhões de seres humanos.

O World Watch Institute (WWI), fundado em 1974, é o primeiro e mais importante instituto independente de pesquisas sobre questões ambientais do planeta. Anualmente, publica o relatório “Estado do Mundo”, que se torna imediatamente obra de referência. A versão 2011, com o título “Inovações que Nutrem o Planeta”, faz uma radiografia da situação mundial da agricultura, com foco em segurança alimentar e combate à fome.

São 209 páginas de texto e mais 60 de notas bibliográficas produzidas por dezenas de pesquisadores e traduzidas para 30 idiomas. Graças ao Instituto Akatu e vários patrocinadores, há uma versão em português que pode ser baixada aqui http://www.akatu.org.br/Content/Akatu/Arquivos/file/Publicacoes/EstadodoMundo2011_portugues.pdf. Só não adianta procurar nas livrarias, pois o livro está disponível apenas em PDF para economizar recursos naturais.

Nas últimas semanas estive mergulhada nessa leitura e veja o que garimpei:

Sobre a escassez de alimentos
“Dentro de um a dois anos, a maioria dos agricultores africanos que produzem para subsistência própria e usam fertilizante químico precisarão desistir desse insumo, o que ocasionará uma queda sem igual na produtividade, na ordem de 30% a 50%.” (pág. 68)

“Existe crescente escassez de água e as estimativas apontam para uma demanda superior à oferta: calcula-se que, dentro de 20 anos, o abastecimento de água será adequado para atender apenas 60% da população mundial.” (pág. 191)

“A perspectiva a longo prazo é assustadora. A partir do momento em que os recursos naturais registrem queda acentuada (em fertilidade do solo, pesca, florestas, combustíveis fósseis, por exemplo), a economia e o nível de emprego começarão a ser afetados pelo declínio na produção, pelos preços de energia e pelo aumento das emissões. Outras consequências possíveis dessa estratégia são migração em massa resultante da escassez de recursos como água, por exemplo, aceleração das mudanças climáticas e aumento considerável nos índices de extinção de recursos.” (pág. 192)

“Estamos hoje no limiar de um colapso das funções de ecossistemas vitais que sustentam as pessoas e o planeta. Ao mesmo tempo, estamos assistindo a níveis intoleráveis de pobreza, em que cerca de 1 bilhão de pessoas passam fome diariamente.” (pág 197)

“A apreciação mais detalhada da agricultura global até o momento, a Avaliação Internacional do Conhecimento, Ciência e Tecnologia Agrícolas para o Desenvolvimento (IAASTD), conduzida pela ONU, fez isso e mais ainda. Redigido por mais de 400 cientistas e profissionais da área de desenvolvimento de mais de 80 países, e endossado por 58 governos, o relatório concluiu que ‘Fazer os negócios do jeito de sempre não é uma opção’. A avaliação constatou que as tecnologias e práticas agroindustriais, bem como os programas políticos, econômicos e institucionais que as respaldam, conseguiram, em alguns momentos, aumentar a produtividade agrícola, mas cobrando um preço altíssimo em termos de saúde pública, meio ambiente, equidade social, igualdade entre os sexos e dos próprios fundamentos da segurança alimentar.” (pág. 198)

Sobre agronegócio de larga escala
“Durante décadas, com o intuito de sustentar a renda familiar em vista dos retornos líquidos cada vez mais baixos por área cultivada, os fazendeiros norte-americanos simplesmente expandiram a área de suas plantações. Inúmeros fazendeiros na América Latina seguiram essa prática, montando operações que ocupam dezenas de milhares de hectares e fazendo um uso combinado de soja resistente a herbicida e sistemas de plantio direto. Embora altamente produtivas em termos de renda agrícola por hora de trabalho investido, essas fazendas fazem muito pouco para incrementar o bem-estar econômico dos despossuídos que vivem na área da lavoura. A renda gerada, assim como o produto da lavoura, escoa para fora da região.” (pág. 197)

Sobre biodiversidade na agricultura
“Um papel vital da diversidade genética é manter uma ‘caixa de ferramentas’ própria que possa ser utilizada para combater diversas ameaças à lavoura. Mesmo assim, no século 20, perdeu-se 75% da diversidade genética das culturas agrícolas, e atualmente, apenas cerca de 150 espécies de plantas são cultivadas em maior escala, das quais apenas 3 fornecem perto de 60% das calorias derivadas de plantas.” (pág. 83)

Sobre hortas na cidade
“Estima-se que 800 milhões de pessoas em todo o mundo se dedicam à agricultura urbana, produzindo de 15% a 20% de todo o alimento. Desses agricultores urbanos, 200 milhões produzem alimentos para vender nos mercados e empregam 150 milhões de pessoas. Calcula-se que, até 2020, entre 35 e 40 milhões de africanos que vivem nas cidades dependerão da agricultura urbana para suprir suas necessidades alimentares. Isso poderia fornecer a algumas pessoas até 40% da ingestão diária recomendada de calorias e 30% das necessidades proteicas.” (pág. 125)

“O cultivo de alimentos em cidades tem algumas vantagens em relação à agricultura rural, como proximidade dos mercados, baixo custo do transporte e redução de perdas pós-colheita, graças ao menor tempo entre as colheitas. Em períodos de turbulência ou instabilidade, a agricultura urbana sempre mantém as pessoas alimentadas quando o fornecimento de alimentos do campo é interrompido.” (pág. 126)

“Reconhecendo ‘a dura realidade de que fome, insegurança alimentar e desnutrição são questões prementes de saúde, até mesmo em uma cidade rica e vibrante como São Francisco’, na Califórnia, em julho de 2009 o prefeito Gavin Newsom pediu que todas as secretarias municipais realizassem uma auditoria das terras sob sua jurisdição para criar uma lista de terras adequadas à lavoura. Essa medida fez parte da primeira política alimentar implementada no âmbito de toda uma cidade e se baseou, em parte, nas recomendações da San Francisco Urban-Rural Roundtable, um grupo de pessoas interessadas, tanto da área rural como da área urbana, que se reuniram durante nove meses.” (pág. 129)

Sobre hortas escolares
“No Quênia, 12 hortas escolares são administradas em colaboração com a Slow Food Convivia e a Rede Agroecológica na África (NECOFA). Uma dessas hortas, no distrito de Molo, em Elburgon, foi eleita pelo Ministério da Agricultura do Quênia a melhor horta escolar do país. Os produtos cultivados pelos alunos são usados nas merendas escolares e o excedente é disponibilizado às famílias. O programa pedagógico une a horticultura com outras matérias e as plantas são usadas no ensino de matemática (medição do crescimento das plantas), biologia (observação dos ciclos de vida), língua (documentação do desenvolvimento da horta), história (escolha de alimentos tradicionais), arte (exploração das cores, formas e desenho das plantas) e nutrição (preparo de pratos baseados em produtos frescos). As escolas organizam viagens e intercâmbios culturais e, além disso, alunos de comunidades étnicas diferentes se encontram para compartilhar suas experiências e juntos comerem o alimento produzido nas hortas escolares.” (pág. 89)

Sobre o desperdício de comida
“O desperdício é hoje um infeliz e desnecessário corolário da profusão da oferta de alimentos nos países ricos. Jogar fora hortifrútis cosmeticamente ‘imperfeitos’, descartar no mar peixe comestível, desconsiderar casca de pão em fábricas de sanduíche, abastecer em excesso os supermercados e comprar ou cozinhar comida demais em casa são exemplos da negligência perdulária em relação aos alimentos.” (pág. 112)

Sobre democracia alimentar
O funcionamento pleno de uma democracia alimentar requer a educação alimentar de seus integrantes, ou seja, as pessoas precisam não apenas compreender as origens do alimento que consomem, mas também o contexto social, político e cultural de quem o produz e de todos os envolvidos na sua distribuição. (pág. 199)

Se você chegou até aqui, não perca a ótima entrevista com Lester Brown, fundador do Instituto, publicada em 23/10/2011 pelo Estadão: http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,nos-limites-da-terra,789243,0.htm

Para ter acesso a toda a biblioteca digital do WWI, em português: http://www.wwiuma.org.br/sobre.html#.

Xeretei o relatório anterior (2009/2010) e fui fisgada novamente. O título é “Transformando Culturas/Do Consumismo à Sustentabilidade” e meus olhos grudaram nas informações que apareciam na tela. Ou seja, lá vou eu, que ainda prefiro os livros em papel, passar mais um montão de horas na frente da tela do computador, mastigando páginas em PDF (não tenho Kindle ou IPad e nem pretendo ter por enquanto).

85. A próxima revolução industrial

E se todo resíduo se tornasse alimento biológico ou tecnológico? E se deixássemos de usar substâncias tóxicas na fabricação de produtos? Mais do que possível, iniciar a extinção do lixo e dos contaminantes é urgentemente necessário.

O arquiteto norte-americano William McDonough e o químico alemão Michael Braungart (ecologistas desde sempre e hoje cinqüentões) apresentaram seu primeiro projeto em parceria durante a Eco 92. O documento “Hannover Principles” estabeleceu diretrizes de sustentabilidade que continuam muito atuais para as áreas de design e arquitetura (http://en.wikipedia.org/wiki/Hannover_Principles). Entre elas estava a proposta de abolir o lixo. Não reduzir ou reciclar os dejetos, mas acabar de vez com esse conceito.

A ideia deu origem ao livro “Cradle to Cradle: Remaking the way we make things” (Do Berço ao Berço: repensando a maneira como produzimos as coisas). Lançado em 2002, até hoje não tem edição brasileira, algo inexplicável, pois a obra se tornou uma das bíblias do ambientalismo. Depois de ler cada página e perceber meus horizontes mentais se expandindo, resolvi resumir e compartilhar o que eles dizem.

Mc Donough e Braungart começam desfilando os horrores da cadeia produtiva industrial que se baseia na extração de matérias primas da natureza (seja petróleo, metal, minério, planta ou bicho). Geralmente isso ocorre de forma brutal, deixando um rastro de poluição e devastação. E eles não nos deixam esquecer que a maioria das reservas desses insumos caminha para o esgotamento.

Depois os autores nos fazem perceber como é rápido o instante em que desfrutamos dos produtos adquiridos com tanto sacrifício para o meio ambiente. Pense na garrafinha de água mineral, na caixinha de suco, na embalagem dos lápis de cor que em um segundo se tornam sucata. E mesmo aquilo que parece durar bastante em nossas mãos (como sapatos e equipamentos eletrônicos) tem uso por apenas um ínfimo fragmento dos séculos que passarão enquanto se decompõe. Pense na carcaça do computador e no brinquedinho de pilha degradando lentamente no aterro e vazando no ar, solo, lençóis freáticos e cursos d’água substâncias tóxicas como cádmio, mercúrio, chumbo & cia.  

Enquanto isso, o esgoto vai recebendo cargas de antibióticos, hormônios e outros remédios expelidos não só pelas pessoas como também pelos bichos criados em fazendas para fornecer carne, leite e ovos. Acrescente os produtos químicos barra pesada usados pelas indústrias e na limpeza doméstica e está explicado por que esses efluentes se tornam a cada dia mais ameaçadores para a saúde pública.

Voltando ao lixo industrializado, a dupla do Cradle (pronuncia-se “creidol”) desvenda uma série de problemas ligados à forma como a reciclagem é feita atualmente. Eles avisam que os materiais geralmente entram num processo de “downcycling” (deterioração de valor) e muita energia e emissão de gases é necessária para o transporte e transformação da sucata. No caso dos plásticos, por exemplo, diferentes tipos se misturam em piscinas de produtos altamente corrosivos gerando um híbrido de baixa qualidade, num processo que também solta contaminantes. Já o aço puríssimo com o qual são feitas algumas peças dos carros acabam se mesclando a outros metais menos nobres e pigmentos das tintas também gerando poluição e o que sai dali não é mais confiável para colocarem automóveis. Ao projetar um item de consumo, ninguém ainda prioriza o ciclo virtuoso de reutilização, reciclagem limpa e ganho de valor nos processos (upcycling). Tanto a indústria como a esmagadora maioria dos cidadãos prefere o baixo custo imediato e a pseudopraticidade dos descartáveis.

O que fazer então?

Imitar a natureza, onde nada se perde e tudo se transforma. McD+Braun propõem que cada resíduo seja transformado em alimento biológico ou tecnológico. Com os orgânicos (incluindo excrementos), o caminho é a compostagem para gerar adubo. Ou seja, esse material não deveria nunca ir parar nos lixões. Para o restante, as empresas devem redesenhar todo o ciclo de produção prevendo que 100% do que sobra ao final do consumo se torne novamente matéria prima (esse é o sentido da expressão “do berço ao berço”). Pelo caminho, é preciso encontrar substitutos para as substâncias tóxicas que hoje fazem parte dos processos industriais e também da agropecuária sejam aposentadas.

Parece difícil e talvez não seja possível imediatamente, mas isso precisa começar a ser feito. De acordo com os autores, diminuir o lixo em X% ou usar Y% menos veneno é apenas caminhar para o desastre em velocidade um pouco menor.

Para quem pretende aprofundar os conhecimentos ecológicos e está disposto a fazer do desenvolvimento sustentável uma realidade, recomendo três livros que mudaram a maneira como a humanidade vê sua relação com a natureza e os problemas sociais e de saúde:

1)    Silent Spring (Primavera Silenciosa), de Rachel Carson/1962 http://conectarcomunicacao.com.br/blog/14-rainha-da-primavera/

2)    Small is Beautiful: Economics as if people matered (O pequeno é bonito: economia como se as pessoas importassem), de E. F. Schumacher/1973 http://conectarcomunicacao.com.br/blog/49-beleza-pequeno/

3)    Cradle to Cradle: Remaking the way we make things (Do Berço ao Berço: repensando a maneira como produzimos as coisas), de William McDonough e Michael Braungart/2002

Infelizmente, nossas livrarias não oferecem no momento a edição em português de nenhum deles. Também em inglês, a ótima apresentação de Mc Donough no TED: http://www.youtube.com/watch?v=IoRjz8iTVoo

79. Será que vai faltar comida?

Nuvens negras aparecem no horizonte da agricultura mundial. 

A agricultura de larga escala baseada em fertilizantes artificiais e agrotóxicos causa contaminação de pessoas e ambientes, concentra recursos tecnológicos, explora e exclui trabalhadores, provocando o êxodo rural. Como a fertilidade da terra diminui a partir do momento em que se entra no sistema químico, cada vez mais adubos e agrotóxicos são necessários. Os custos vão crescendo e o empreendedor do campo fica na mão das multinacionais do setor. Vem daí a onda global de falência dos pequenos fazendeiros, tanto no Brasil quanto na Índia, no México e em todos os países onde não existem subsídios fortes para deixar a paisagem cheia de fazendas bonitinhas, como é o caso da Europa Ocidental.

E o que você, que mora na cidade e já está cheio de problemas próprios, tem a ver com esses dramas do campo? Para não estender muito a explicação, vou ignorar as questões éticas e o consumo consciente, OK? Então, pensando apenas em nossos umbigos urbanos, a coisa complica porque o sistema agrícola que se disseminou após a Revolução Verde da segunda metade do século XX começa a dar sinais de esgotamento. E isso coloca em risco a segurança alimentar de toda a humanidade.

Dizem os especialistas que ainda há tempo para reverter a situação e iniciar uma transição mais ou menos suave para outro modelo de produção agrícola. Este seria orgânico, descentralizado, diversificado, baseado na manutenção e enriquecimento da fertilidade do solo a partir de técnicas que unem os conhecimentos científicos atuais aos métodos ancestrais de cultivo.  

Se quiser ficar por dentro do assunto, siga esses links:

71. Os professores da USP e as usinas nucleares

Vem da Cidade Universitária o Movimento Antiusinas Nucleares. E eu adoraria ouvir as explicações dos doutores sobre os prós e os contras de cada alternativa energética.

Fiquei sabendo que um grupo de professores renomados da USP está articulando o Movimento Antiusinas Nucleares. Terça-feira (26/4) houve uma reunião na sede da ADUSP (Associação dos Docentes da USP). A iniciativa partiu de Ecléa Bosi, Alfredo Bosi e Chico Whitaker. Eles querem esclarecer a opinião pública e influenciar decisões governamentais. Propõem, inclusive, a realização de um plebiscito nacional sobre o assunto.

Não fico confortável com a existência de centrais nucleares, sobretudo depois de ler segunda-feira no Estadão a matéria “Chernobyl será perigosa por milhares de anos”  (http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20110425/not_imp710271,0.php). Por isso acho ótimo a academia usar seu conhecimento e senso crítico em favor da coletividade, desfazendo a cortina de fumaça que políticos e corporações constroem ao redor desse tema e de tantos outros.

Só que não basta dizer não à energia nuclear. Está em pauta, na verdade, toda a matriz energética do país, pois, se desistirem das usinas, os governantes vão apelar para outra solução, talvez ainda pior. O crescimento econômico (em bases nada sustentáveis como está ocorrendo hoje) demanda grande aumento na geração de energia. Como opções, construir mais hidrelétricas, investir mais em termelétricas, fazer usinas nucleares, queimar mais petróleo, produzir mais biocombustíveis. Nenhuma dessas alternativas se salva em termos ambientais e sociais, já que…

  • A sede por biocombustíveis está transformando o Brasil num árido canavial e desmontando aos poucos o sistema agrícola em escala humana, o que representa um enorme risco em termos de segurança alimentar;
  • Queimar o petróleo do pré-sal vai sair caro e complicar as mudanças climáticas;
  • A usina de Belo Monte, pelo que tenho acompanhado na imprensa, será uma tragédia ecológica, mas representa um ótimo negócio para as empreiteiras e para os políticos que buscam financiamento de campanhas;
  • As termelétricas tiram energia de combustível, gás ou carvão. Além de contribuir para o aquecimento global, essa opção perpetua as carvoarias que, como se sabe, são sinônimo de escravidão e desmatamento.

É viável reduzir a demanda energética substituindo o atual padrão de produção e consumo por um modelo de desenvolvimento mais sustentável?

É possível conseguir energia limpa (solar e eólica) em larga escala?

Dá para construir hidrelétricas sem destruir tanto?

Gostaria muito de ouvir as explicações dos professores da USP. Não é justo que apenas químicos, físicos e engenheiros entendam exatamente as consequências das opções que hoje estão sendo tomadas por governo, estatais e grandes grupos empresariais privados. Essa é uma questão essencialmente humana! Afeta cada um de nós e vai afetar mais ainda os nossos filhos e netos. Quero saber não apenas o que as ciências exatas têm a declarar como também as implicações econômicas, biológicas, sociológicas, históricas, geográficas, filosóficas e psicológicas desse imbroglio. E vou ficar bem feliz se essa conversa chegar às escolas, praias e botequins.

Reproduzo abaixo o documento elaborado pelos professores da USP.


CINCO RAZÕES PARA DIZER NÃO ÀS USINAS NUCLEARES

Razões ambientais
1.  Não há risco zero em nenhum tipo de usina nuclear: portanto a questão da usina nuclear é, antes de tudo, de natureza ética. Acidentes naturais, falhas técnicas, falhas humanas podem ocorrer, como já ocorreram nos Estados Unidos, na União Soviética, no Japão, nações que dispõem de alta tecnologia. Em Three Mile Island (1979) houve derretimento do reator. Em Chernobyl,1986, houve explosão do reator. Em Fukushima, acidentes naturais. Causas diferentes e todas imprevisíveis. Os responsáveis pela construção das usinas sempre afirmam que a segurança das centrais nucleares é perfeita, mas o fato é que não puderam nem podem evitar acidentes deste ou daquele tipo. Cuidado com os lobbies nucleares!
2.  Não se pode garantir por milhares de anos a segurança dos depósitos de rejeitos provenientes dos reatores. O lixo atômico sobreviverá muito tempo depois que a usina for desativada.
3.  Os efeitos cancerígenos das radiações são de conhecimento geral.

Razões sociais
4.  No caso de Angra, não há condições de retirada imediata da população, caso se verifiquem acidentes que obriguem à evacuação imediata da zona contaminada.

Razões econômicas
5.  O alto custo que importa a continuação do programa de construção de usinas nucleares (aproximadamente 8 bilhões de dólares cada uma) não compensa o uso que se fará da energia, que corresponderá a apenas 3 por cento do total das modalidades energéticas em operação no Brasil.

Movimento Anti Usina Nuclear

65. Comunidades hippies 3.0

Triste com o drama do Japão, comecei a pensar em Transition Towns e Ecovilas.

Está difícil encontrar outro assunto que não seja o trio terremoto/tsunami/vazamento nuclear que compõe a catástrofe japonesa. Ainda que o mau comportamento ecológico da humanidade nada tenha a ver com o deslocamento das placas tectônicas, a forma atual de organização da sociedade agrava muito suas consequências. 

Justamente nos momentos trágicos é que as metrópoles, a globalização, a fartura de energia, a alta dependência de meios de transporte e a centralização da produção de alimentos mostram seu lado negro. Se nossos antepassados não tinham um décimo do conforto de que desfrutamos hoje, pelo menos estavam bem mais protegidos contra os desastres mundiais. No mundo rural de antigamente, a comida crescia ou pastava do lado de casa. Para cozinhar e aquecer, bastava cortar lenha. Com as próprias mãos, pequenos grupos conseguiam viver de forma quase independente do resto do mundo. Se acontecia um desastre ali, a vida aqui continuava normal.

Testemunhar pela imprensa o colapso do abastecimento e o drama da contaminação radioativa me fez pensar nas Transitions Towns ou Cidades em Transição (http://www.transitionnetwork.org/) e nas Ecovilas (http://pt.wikipedia.org/wiki/Ecovila ). Esses movimentos são uma espécie de versão 3.0 das comunidades hippies, só que nada lisérgicas e muito eficientes. Descubro na internet e em conversas com amigos alternativos que tem bastante gente pelo mundo desistindo da sociedade de consumo. São pessoas que mudam para minicidades sustentáveis, onde se cultiva alimentos, as casas são projetadas para não causar impactos na natureza, a energia vem de fontes locais renováveis e o lixo está em extinção. No Brasil, o movimento das Cidades em Transição (http://transitionbrasil.ning.com/ ) tem adeptos de Alphaville à Vila Brasilândia, de Boiçucanga a João Pessoa. A idéia é interessante e os links acima merecem ser visitados com calma.  

 

49. A beleza do que é pequeno

O livro que marcou a história do movimento ambientalista me inspira a procurar aconchego longe da megalomania humana.

Acabo de ler “Small is beautiful: a study of economics as if people mattered”, de E. F. Schumacher. Estou um tanto atrasada, pois foi publicado em 1973 (rs). Mas não importa, pois a mensagem está cada vez mais atual. Schumacher, aliás, forma uma ótima dupla com Rachel Carson, autora de “A primavera silenciosa” (de 1962, que só li recentemente – http://conectarcomunicacao.com.br/blog/14-rainha-da-primavera/  ). Esses dois livros são as obras mais importantes da história do movimento ambientalista.

Schumacher nasceu na Alemanha em 1911. Nos anos 30 fugiu de seu país porque não queria viver sob o nazismo. Mudou-se para a Inglaterra e logo começou a trabalhar com o tod0-poderoso economista John Maynard Keynes no governo britânico. Na década de 50 recebeu a missão de ir à Birmânia impulsionar o capitalismo local. Ali ele percebeu que, embora do ponto de vista ocidental aquela fosse uma naçãozinha subdesenvolvida, não havia a desigualdade e os problemas sociais com os quais se deparava na Europa. Começou a escrever então sobre o que batizou de “economia budista”. E suas principais conferências foram reunidas em forma de livro, o “Small is beautiful”.

Não pretendo nem conseguiria resumir tudo o que está nas 259 páginas que acabo de percorrer. É pura análise sociológica e macroeconômica misturada com doses cavalares de filosofia e amor pela natureza. Cheguei a esse livro por causa do meu interesse em algum dia fazer um curso no Schumacher College, na Inglaterra (http://www.schumachercollege.org.uk/ ). Pois é: em homenagem ao nosso amigo Schummy foi criado um dos melhores centros de estudos de sustentabilidade do mundo. Pelo que já xeretei, os cursos não são muito acadêmicos, focam muito o lema “think global, act local” e reúnem pessoas das mais variadas origens e formações.

Ainda estou assimilando as propostas do Schumacher sobre como descentralizar a produção, oferecer ocupação digna a todas as pessoas, priorizar o bem-estar humano e a preservação da natureza, humanizar a tecnologia, diminuir as distâncias entre ricos e pobres, valorizar os saberes tradicionais e outras ideias muito relevantes.

Mas só o título do livro já me traz conforto. Ando preferindo as pequenas empresas, os pequenos restaurantes, os predinhos e as lojinhas, as ruas calmas, carregar por aí poucas coisas, cozinhar pequenas porções, escrever textos curtos e ter conversas em voz baixa. Talvez as pequenas e delicadas ações sejam as mais revolucionárias.