152. Governantes: plantar e cuidar das árvores urbanas deve ser prioridade

Por Tiana Moreira, Claudia Visoni e Thais Mauad*

É uma questão de saúde pública e de fazer uma melhor gestão dos recursos financeiros, como os diversos estudos relacionados abaixo comprovam. Os governantes devem priorizar não só o plantio e manutenção das áreas verdes nas cidades como também a disseminação desses conhecimentos para combater os atos de vandalismo e maus tratos que a população tem infringido às árvores. O gestor público que tomar essas providências com certeza será reconhecido por sua contribuição à saúde e ao bem-estar da população, além de economizar muito dinheiro público.


Poluição atmosférica mata
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 80 % da população mundial esta exposta à poluição do ar (1), sendo que na maioria dos grandes centros urbanos brasileiros a presença de poluentes no ar ultrapassa os limites estabelecidos pela própria OMS (2). Sem contabilizar as perdas afetivas, que são inestimáveis, o Banco Mundial calcula em US$4,9 bilhões/ano o custo das mortes relacionadas a poluentes do ar no Brasil (3).

Em São Paulo, as mortes prematuras relacionadas à poluição atmosférica alcançam 4 mil pessoas/ano (3). E centenas de milhares de pessoas — sobretudo idosos, bebês e gestantes — sofrem de agravamento das condições respiratórias devido à poluição. Vale lembrar que 73% da poluição atmosférica de São Paulo é proveniente de veículos automotores (4).

As árvores são nosso único filtro para a poluição do ar
Um estudo americano demonstrou que as árvores urbanas americanas removeram 17,4 milhões de toneladas de poluentes/ano gerando uma economia de 6,8 bilhões de dólares/ano no setor de saúde (5). Já outra pesquisa inglesa demonstrou que apenas uma árvore na calçada em frente a um imóvel é capaz de remover cerca de 50% do material particulado (poeira) em seu interior (6).

Árvores melhoram a saúde mental, evitam partos precoces e aumentam a longevidade
Estudo realizado em quatro cidades europeias demonstra que quanto maior o tempo visitando áreas verdes, melhor a autoavaliação do estado de saúde dos pacientes psiquiátricos, independentemente dos contextos culturais e climáticos (7). Pesquisa realizada na Pensilvânia (EUA) indica que morar a até 1250 m, ou seja, 10 a 15 minutos de caminhada de áreas verdes é um fator significativo para reduzir os partos precoces e o baixo peso ao nascer (8). Em Tóquio, um estudo identificou que idosos que moravam próximos a áreas verdes tiveram um aumento da longevidade (9).

Árvores ajudam a combater enchentes, criminalidade, manter construções e valorizam imóveis
As áreas verdes urbanas reduzem o escoamento superficial da água diminuindo assim os riscos de enchentes (10).

A arborização tem efeito até mesmo na área da segurança urbana. Estudo feito na cidade de Baltimore (EUA) relacionou um aumento de 10 % nas copas das árvores a uma redução de 12 % na criminalidade (11).

A sombra das árvores alivia o calor na superfície do asfalto e edificações, ampliando a vida útil dos pavimentos e outros materiais construtivos, reduzindo em até 58 % os custos de recuperação e manutenção do asfalto (12). A vegetação também diminui a temperatura dos ambientes internos, reduzindo a necessidade do uso de ar condicionado, o que leva a economia de eletricidade (13). Barreiras verdes reduzem ainda os níveis de ruído (14). Em climas tropicais como o nosso, as árvores ajudam a aumentar o conforto urbano e reduzir as ilhas de calor.

Propriedades localizadas em ruas e bairros verdes são mais valorizadas de acordo com uma pesquisa feita em Portland (EUA). As casas à venda em ruas arborizadas foram comercializadas por 7130 dólares a mais em média que as casas em ruas não arborizadas, além de o negócio ter sido realizado duas vezes mais rápido (15).

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* Tiana Moreira é engenheira agrônoma, paisagista, mestre, doutora e pós-doutoranda na Faculdade de Medicina da USP.
Claudia Visoni é jornalista, ambientalista, agricultora urbana e conselheira do CADES Pinheiros.
Thais Mauad é Professora Associada da Faculdade de Medicina da USP, doutora em patologia, ambientalista e conselheira do CADES Pinheiros. Coordenadora do Grupo de Estudos em Agricultura Urbana do Instituto de Estudos Avançados da USP.

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ESTUDOS CITADOS NESSE TEXTO

(1)OMS, 2016, Ambientairpollution: A global assessmentofexposureandburdenofdisease. (http://apps.who.int/iris/bitstream/10665/250141/1/9789241511353-eng.pdf?ua=1)

(2)DE MIRANDA, Regina Maura et al. Urban air pollution: a representative survey of PM2. 5 mass concentrations in six Brazilian cities. Air quality, atmosphere&health, v. 5, n. 1, p. 63-77, 2012.

(3) Banco Mundial, 2016 – “World Bank; Institute for Health Metrics and Evaluation. 2016. The Cost of Air Pollution : Strengthening the Economic Case for Action. World Bank, Washington, DC. © World Bank. https://openknowledge.worldbank.org/handle/10986/25013.

(4)MOREIRA, Tiana Carla Lopes et al. Intra-urban biomonitoring: Source apportionment using tree barks to identify air pollution sources. Environment international, v. 91, p. 271-275, 2016.

(5)  NOWAK, David J. et al. Tree and forest effects on air quality and human health in the United States. Environmental Pollution, v. 193, p. 119-129, 2014.(5) Maheret al., 2013

(6) MAHER, Barbara A. et al. Impact of roadside tree lines on indoor concentrations of traffic-derived particulate matter. Environmental science & technology, v. 47, n. 23, p. 13737-13744, 2013.

(7) VAN DEN BERG, Magdalena et al. Visiting green space is associated with mental health and vitality: A cross-sectional study in four europeancities.Health& place, v. 38, p. 8-15, 2016.

(8) CASEY, Joan A. et al. Greenness and Birth Outcomes in a Range of Pennsylvania Communities. International journal of environmental research and public health, v. 13, n. 3, p. 311, 2016.

(9) TAKANO, Takehito; NAKAMURA, Keiko; WATANABE, Masafumi. Urban residential environments and senior citizens’ longevity in megacity areas: the importance of walkable green spaces. Journal of epidemiology and community health, v. 56, n. 12, p. 913-918, 2002.

(10) XIAO, Qingfu et al. Rainfall interception by Sacramento’s urban forest. Journal of Arboriculture, v. 24, p. 235-244, 1998.

(11) TROY, Austin; GROVE, J. Morgan; O’NEIL-DUNNE, Jarlath. The relationship between tree canopy and crime rates across an urban–rural gradient in the greater Baltimore region. Landscape and Urban Planning, v. 106, n. 3, p. 262-270, 2012.

(12)MCPHERSON, E. Gregory; MUCHNICK, Jules. Effects of street tree shade on asphalt concrete pavement performance. 2005.

(13) MCPHERSON, E. Gregory; SIMPSON, James R. Potential energy savings in buildings by an urban tree planting programme in California. Urban Forestry & Urban Greening, v. 2, n. 2, p. 73-86, 2003.

(14) NOWAK, David J.; DWYER, John F. Understanding the benefits and costs of urban forest ecosystems. In: Urban and community forestry in the northeast. Springer Netherlands, 2007. p. 25-46.

(15)DONOVAN, Geoffrey H.; BUTRY, David T. Trees in the city: Valuing street trees in Portland, Oregon. Landscape and Urban Planning, v. 94, n. 2, p. 77-83, 2010.

147. 7 sugestões para o ativismo coletivo dar certo

Montagem de canteiro na Horta das Corujas. foto de Pops Lopes

Já faz uns anos que participo de vários coletivos e tenho vivido experiências incríveis de liberdade, fraternidade e igualdade.

Também percebo que não é fácil mudar o jeito de fazer as coisas e a inércia às vezes carrega a gente para a egotrip, a vontade de mandar e outros vícios da sociedade competitiva.

Essa apresentação minimalista eu fiz para apresentar no curso de permacultura da Casa da Cidade e resolvi colocar na roda, pois pode ser útil para outras pessoas.

http://pt.slideshare.net/claudiavisoni/ativismo-coletivo 

Vamuquivamu mudar o mundo!

145. Procura-se conselheiro do meio ambiente

Há dois anos sou conselheira do meio ambiente na subprefeitura de Pinheiros. O mandato está acabando, aprendi muito e vou tentar me reeleger. Precisamos de mais candidatos e as inscrições terminam em 30 de junho.

Na gestão atual, que se iniciou em 2013, fui a terceira mais votada, tendo recebido a enorme quantidade de… 26 votos. Por aí já dá para ter uma ideia de que o CADES é quase secreto na cidade. Além de pouco conhecido e nada divulgado, não é deliberativo (apenas consultivo) e não tem atribuições muito claras. Ou seja, tudo montado para se tornar mais uma instância inútil e irrelevante pendurada na burocracia governamental.

Só que as coisas podem ser diferentes. E nos últimos dois anos têm sido! Desde que me tornei conselheira, juntei forças com as colegas Madalena Buzzo, Joana Canedo e Thais Mauad num Grupo de Trabalho de Arborização e Agricultura Urbana ativíssimo que, entre outras mil coisas, organizou cursos para a comunidade e treinamentos para as equipes de manutenção de áreas verdes da prefeitura. Também por meio do CADES e de permacultores voluntários conseguimos realizar em 2014 um curso de introdução à permacultura urbana que foi sensacional (https://pt.wikiversity.org/wiki/Introdu%C3%A7%C3%A3o_%C3%A0_Permacultura_Urbana).

Então fica o convite para quem quiser entrar nesse barco tentar tornar a cidade mais verde e mais sustentável. Mesmo que eu não consiga me reeleger, estarei pronta para prosseguir nos grupos de trabalho (sim, esses grupos são abertos e não precisa ser conselheiro para participar).

Só tem uma coisa: se você resolver se candidatar achando que alguém vai querer ouvir seus conselhos sobre como a cidade deveria ser, esquece. O chamado é para colocar a mão na massa e esquentar os neurônios tentando encontrar maneiras de quebrar a inércia desse modelo insustentável em que a gente vive. A subprefeitura e seus funcionários têm sido bem parceiros, mas eles estão atolados de demandas e para as nossas atividades acontecerem somos nós que temos que suar a camisa.

Informações básicas

  • Os conselhos de meio ambiente das subprefeituras são compostos por oito cidadãos eleitos por voto direto, com mandato de dois anos, e oito representantes de diversos órgãos da prefeitura.
  • Nem sempre essas cotas são preenchidas, já que nem a sociedade nem a municipalidade dão muita bola para o CADES. Aliás, alguns CADES estão atualmente desativados.
  • Qualquer pessoa pode assistir às reuniões mensais que em Pinheiros acontecem na segunda quarta-feira das 17h às 19h (Endereço: Av. Nações Unidas, 7123 – Alto de Pinheiros, ao lado da estação Pinheiros do Metrô/CPTM. Só que a de julho não vai acontecer). A comunidade pode (e deve) levar pedidos e sugestões ao conselho que sejam relacionados às questões ambientais da cidade.
  • Os conselheiros não recebem remuneração ou privilégio de espécie alguma. A obrigação básica é comparecer às reuniões mensais.

A eleição de Pinheiros – Será em 26 de julho, domingo, na Praça de Atendimento da Subprefeitura Pinheiros ( Av. Nações Unidas, 7123, térreo) das 10h às 16h. Para votar é preciso ter mais de 16 anos e levar o documento de identidade e um comprovante de que mora ou trabalha na região.

Para se candidatar é preciso ter mais de 18 anos e fazer a inscrição até 30 de junho (terça-feira). Documentos necessários: cópia da identidade, comprovante de que mora ou trabalha na região, uma foto e uma carta formalizando o pedido de candidatura.

Para saber mais

136. Manifesto a favor do ar, da água e do verde de SP

A maior cidade do Brasil vive uma situação-limite em relação aos recursos ambientais. A crise da água é o problema mais evidente no momento, mas também existem crises do ar, do verde e dos resíduos, entre outras, que igualmente podem evoluir para o colapso. O Plano Diretor Estratégico que está sendo apresentado traz (ou mantém) várias conquistas, talvez ainda tímidas, das quais não podemos de forma alguma abrir mão.

Algumas delas:

– O conceito de Zona Especial de Proteção Ambiental (ZEPAM) e Área de Proteção Ambiental (APA) e, sobretudo, sua disseminação. E é muito importante que planícies aluviais e áreas de nascentes se tornem automaticamente ZEPAM;

– Estabelecimento da Zona Rural ao sul do município. A região de Parelheiros precisa oferecer à cidade água limpa, vegetação densa e de grande porte que amenize os problemas climáticos (regulação do clima local e sequestro de carbono), alimentos orgânicos e turismo ecológico. E não há como cumprir essa missão essencial se lá for instalado um novo aeroporto;

– Pagamento por serviços ambientais para aqueles que mantiverem nascentes e remanescentes florestais. Vale lembrar que foi por meio desse tipo de política pública que Nova York conseguiu escapar de uma crise de abastecimento de água;

– Criação de novos parques e de uma política de arborização efetiva;

– Programa de Recuperação Ambiental de Fundos de Vale;

– Avaliação de impacto das novas edificações nas águas superficiais e subterrâneas da cidade;

– Atenção ao desafio dos resíduos sólidos, focando primeiramente na não geração de lixo. São Paulo tem força para pressionar a indústria a repensar suas cadeias produtivas visando a minimização de resíduos. São Paulo tem força para implantar uma ampla política de compostagem dos resíduos orgânicos, que hoje representam mais de 50% do volume enviados aos aterros sanitários.

Muitas vezes as demandas ambientais são vencidas por interesses econômicos imediatistas que visam um suposto desenvolvimento econômico cujas riquezas em geral são repartidas entre poucos. Por isso é importante lembrar um provérbio indígena:

“Quando a última árvore tiver caído,
…quando o último rio tiver secado,
…quando o último peixe for pescado,
…nós vamos entender que dinheiro não se come.

PARA ASSINAR A PETIÇÃO ONLINE, QUE SERÁ ENTREGUE AOS 55 VEREADORES DE SÃO PAULO, CLIQUE AQUI:  https://www.change.org/pt-BR/peti%C3%A7%C3%B5es/vereadores-de-s%C3%A3o-paulo-aprovem-e-ampliem-as-conquistas-ambientais-do-plano-diretor-de-s%C3%A3o-paulo

135. Dossiê Crise da Água

Enquanto os reservatórios do país estão em níveis baixíssimos, os governantes fazem seus cálculos politiqueiros em cima da tragédia anunciada e a mídia apresenta uma cobertura que deixa a desejar, aprofundando apenas nas fofocas dos bastidores do poder. A sociedade ainda não acordou para debater as causas do problema e as atitudes necessárias para sobreviver enquanto as chuvas não voltam. Esse post reúne opiniões de especialistas e outros artigos sobre o tema que me inspiraram a criar a imagem ao lado .

O futuro relator das Nações Unidas para o Direito à Água e ao Saneamento Básico é o mineiro Léo Heller. E ele avisa: “Nio curto prazo nada pode ser feito pela seca do Sudeste”. http://www.ecodebate.com.br/2014/11/26/no-curto-prazo-nada-pode-ser-feito-pela-seca-no-sudeste-afirma-futuro-relator-da-onu-para-o-direito-a-agua/

Apresentado internacionalmente em 31/3,  o Relatório sobre Impactos, Adaptação e Vulnerabilidades às Mudanças Climáticas do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) aponta que as mudanças climáticas já observadas e as projetadas para as Américas do Sul e Central colocarão em risco a segurança hídrica das regiões e terão impactos diretos no abastecimento doméstico e industrial e em setores fortemente dependentes de água, como o de geração de energia hidrelétrica e a agricultura. http://www.ecodebate.com.br/2014/04/10/mudancas-climaticas-poem-em-risco-seguranca-hidrica-na-america-do-sul/

 Philip Fearnside, climatologista norte-americano, mora  em Manaus e recebeu, ao lado de outros cientistas do IPCC, o  Nobel da Paz em 2007. De acordo com ele, as inundações na região Norte e a seca no Sudeste estão interconectadas. Trechos da reportagem feita por Leão Serva para a revista Serafina de abril de 2014: “Na Amazônia, ainda nos anos 1980, Fearnside escreveu que se nada fosse feito, a floresta como sistema climático iria desaparecer em 50 anos. Passaram-se 25, o desmatamento continuou e vários fenômenos associados também. O principal deles é a redução da umidade naquela área, porque o desmatamento faz com que a água das chuvas não seja retida. Outra consequência do desmatamento é que a água das chuvas escorre diretamente para a calha dos rios, provocando enchentes maiores. Uma terceira consequência do desmatamento em grande escala da região, que Fearnside detalhou em 2004, mostra que menos água da Amazônia seria transportada pelos ventos para o Sudeste durante a temporada de chuvas, o que reduziria a água das chuvas de verão nos reservatórios de São Paulo.” http://www1.folha.uol.com.br/serafina/2014/03/1431548-para-ganhador-de-premio-nobel-cheias-no-norte-e-secas-no-sudeste-estao-conectadas.shtml . Portal Ecodebate traz mais dados sobre desmatamento nas bacias hidrográficas http://www.ecodebate.com.br/2014/05/16/desmatamento-nas-bacias-hidrograficas-agravou-crise-da-agua-em-sp/

Marc Dourojeanni, professor emérito da Universidade Agrária de Lima (Peru) e ex-chefe da Divisão Ambiental do Banco Interamericano de Desenvolvimento, relaciona as inundações da Amazônia e a seca que virána Região Norte ao desmatamento nos Andes: “Ao eliminarem-se as florestas a água das chuvas escorre livremente, arrastando o solo em volumes cada vez maiores. Isto é tanto mais violento quanto maior seja a inclinação da pendente. A função de esponja se perde completamente e a água desce. Por isso as enchentes são seguidas de secas. A agricultura e a pecuária não ajudam em nada. Em geral aceleram muito a erosão.” http://www.oeco.org.br/marc-dourojeanni/28103-teimosia-antiga-e-as-enchentes-na-amazonia

Altair Sales Barbosa, professor da PUC-Goiás e um dos maiores especialistas do mundo sobre o cerrado declara que o bioma está praticamente extinto e com isso lá se vão as nascentes das grandes bacias hidrográficas do Sudeste. http://www.jornalopcao.com.br/entrevistas/o-cerrado-esta-extinto-e-isso-leva-ao-fim-dos-rios-e-dos-reservatorios-de-agua-16970/

Julio Cerqueira Cesar, professor aposentado de Hidráulica e Saneamento da Escola Politécnica da USP, explica o que a Sabesp deveria ter feito para garantir o abastecimento da população e por que não fez: “Em 1990/1995, eles já deveriam começar as obras de  novos mananciais. E poderiam fazer sem correrias, sem superfaturamento, e ir atendendo as necessidades da população”… “Na década de 1990, a Sabesp aderiu ao modelo neoliberal e passou a buscar o lucro a qualquer custo, independentemente dos direitos fundamentais do homem. Demitiu os engenheiros sanitaristas e advogados e economistas assumiram o comando. A Sabesp deixou de considerar o saneamento básico como problema de saúde pública. E passou a encará-lo como um negócio qualquer, se transformando num balcão de negócios.”… “Nós chegamos agora num ponto que vamos ter de suportar essa estiagem até começar a chover de novo. São seis meses de racionamento violento. O Cantareira representa metade da água de São Paulo. Não tem outro jeito, a não ser racionar.” http://www.viomundo.com.br/denuncias/julio-cerqueira-cesar-alckmin-e-sabesp-ja-estao-fazendo-racionamento-de-agua-ha-mais-de-2-meses-ele-e-dirigido-aos-pobres.html

Marussia Whately, urbanista e especialista em recursos hídricos, analisa os conflitos de interesse na Sabesp e também não vê solução em curto prazo. “Ainda é cedo para afirmar se a seca irá se prolongar em 2014 ou nos anos posteriores, então a curto prazo não resta outra alternativa a não ser a adoção de medidas drásticas para reduzir consumo: racionamento. A médio prazo, as medidas de redução de consumo devem continuar, somadas a medidas de conservação de água e sistemas de prevenção e gerenciamento de eventos climáticos extremos como esse.” http://raquelrolnik.wordpress.com/2014/04/14/a-crise-da-agua-em-sao-paulo/

Osvaldo Ferreira Valente, engenheiro floresta especialista em hidrologia, fala sobre riscos e oportunidades do pagamento por serviços ambientais na proteção de nascentes e como a agricultura pode colaborar para a melhor gestão de água. De acordo com ele, é preciso que as lavouras incorporem terraços, caixas ou cisternas de infiltração, barraginhas e plantios em nível. http://www.ecodebate.com.br/2014/04/30/uti-ambiental-a-agua-e-a-realidade-nua-e-crua-artigo-de-osvaldo-ferreira-valente/

Publicada pelo Centro de Estudos de Sustentabilidade da Fundação Getúlio Vargas (GVces), a Revista Página 22 (edição de maio de 2014) aborda o tema da página 14 a 35. Versão em PDF aqui, com ótima entrevista de José Machado, ex-prefeito de Piracicaba, ex-deputado federal e relator da Lei das Águas (9.433/97) e ex-presidente da Associação Nacional de Águas. http://www.pagina22.com.br/wp-content/uploads/2014/04/Pagina22_Ed84.pdf

A água do subsolo paulistano já contribui com 10m3 por segundo para o abastecimento da cidade. Mas esse recurso também está sendo mal gerido, com 60% de poços ilegais e a prática comum de edificações que avançam no subsolo e bombeiam incessantemente a água limpa do lençol freático para o esgoto. http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2014/05/1459709-pocos-podem-ajudar-na-crise-da-agua-dizem-especialistas.shtml

Água vai virar commodity? É o que discute Stela Goldenstein, diretora executiva da Associação Águas Claras do Rio Pinheiros, nesse artigo publicado pelo jornal Valor Econômico em 22/4/2014. http://www.cliptvnews.com.br/mma/amplia.php?id_noticia=51275

De Piracaia (SP), a jornalista Giuliana Capello conta como a criação de gado e as plantações de eucalipto estão detonando o armazenamento de água nas represas da região, que integram o Sistema Cantareira http://planetasustentavel.abril.com.br/blog/gaiatos-e-gaianos/a-seca-o-sistema-e-o-suco-de-eucalipto/

Nascido e criado na região do tal Sistema Cantareira, o jornalista Leandro Beguoci relaciona o aumento da mancha urbana nos municípios de Caieiras, Mairiporã, Piracaia, Joanópolis, Nazaré Paulista, Franco da Rocha e Vargem ao colapso das represas. E os condomínios e casas de veraneio têm sua parcela de culpa pelo problema. http://gizmodo.uol.com.br/giz-explica-agua-sistema-cantareira/

As nascentes do Paraíba do Sul, aquele rio que virou motivo de briga entre os governos de São Paulo e Rio de Janeiro, também estão ameaçadas. http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2014/03/1431569-agua-esta-diminuindo-na-nascente-do-rio-paraiba-do-sul-dizem-vizinhos.shtml

Para piorar, no que se refere à energia a situação é para lá de complicada. Especialistas sugerem o início de um racionamento brando já. Veja o que diz Roberto Schäffer, professor de Planejamento Energético da Coppe/UFRJ: “O Brasil está entrando numa zona perigosa. O país quer passar uma impressão internacional de que está tudo bem, mas depois do Mundial devem vir medidas mais duras.” http://www.ecodebate.com.br/2014/04/04/brasil-deveria-iniciar-racionamento-de-energia-desde-ja-defendem-especialistas/comment-page-1/#co.mment-32151

Soluções para ao menos amenizar esse enorme problema existem e não são complicadas demais. Um exemplo vem de Nova York, onde a prefeitura  paga a fazendeiros que vivem distantes da cidade pela preservação das nascentes. E São Paulo tem uma lei boa quase secreta, mas que não “pegou” por enquanto: http://www.akatu.org.br/Temas/Agua/Posts/lei-para-uso-da-agua-sao-paulo.  Começam a ser desenhadas políticas públicas que remuneram proprietários rurais que mantém a a floresta de pé em volta das nascentes e proibem práticas ambientalmente danosas em regiões de mananciais. Mas isso só vai acontecer se a opinião pública acordar. http://g1.globo.com/jornal-hoje/noticia/2013/03/nova-york-cuida-dos-mananciais-que-abastecem-cidade-e-seus-turistas.html

Se continuarmos na inércia e não der sorte de cair do céu um montão de água nos próximos meses, viveremos ao vivo as emoções de um filme catástrofe, como contou o professor Antônio Carlos Zuffo (chefe do Departamento de Recursos Hídricos da Unicamp) ao jornalista David Shalom: “A situação é realmente grave e não envolve apenas os riscos de ausência do recurso para uso doméstico. Segundo Zuffo, antes de a população ficar sem água devem ser suspensas as outorgas para seu uso aos agricultores da Reserva da Biosfera do Cinturão Verde de São Paulo, que abrange 73 municípios em torno da capital, e às indústrias. A consequência disso seria um desabastecimento de certos produtos, como hortaliças, e demissões em massa de funcionários. A bola de neve prossegue: com o desemprego aumenta a violência; sem água, instituições de ensino e centros de compras fecham as portas; logo, a falta de higiene também faz surgirem as doenças.” http://outraspalavras.net/outrasmidias/capa-outras-midias/crise-de-agua-sp-reservatorios-podem-secar-em-outubro/

TRRIIIMMMM!

Tá com preguiça de ver esse monte de links? Então acesse apenas esse e em 6 minutos saiba o que é preciso saber sobre o assunto: https://www.youtube.com/watch?v=RsUD8CTDdAw&feature=youtu.be

 

 

130. 20 motivos para incentivar a agricultura urbana

Horta do Ciclista (Av. Paulista entre Bela Cintra e Consolação)

Esse post é de 2013 e chamava “18 motivos…”. Descobri mais dois:
19º – Valorizar quem traz consigo saberes desprezados pela sociedade de consumo, como a ciência e a arte de cultivar alimentos para subsistência. Essa turma — que inclui muitos idosxs, pobres, mulheres e analfabetxs das letras — é que está nos alfabetizando na lida com as plantas comestíveis.
20º – Reconstruir pontes entre as pessoas. Nesse momento de opiniões polarizadas e conflitos ideológicos, a agricultura urbana nos faz lembrar que todos nos alimentamos, que todos estamos ligados à terra e somos irmãos perante a natureza.

Daqui para frente vem o texto original…

Típico da nossa sociedade compartimentada, o viaduto é uma solução pontual e ineficiente para apenas um problema. Custa muito, em geral não resolve o congestionamento, mas consegue aniquilar a qualidade de qualquer espaço urbano. Uma horta comunitária em uma praça ou uma horta para comercialização nas zonas mais afastadas do centro representa o oposto: solução quase grátis, prazerosa e sistêmica para um montão de problemas. Senhores governantes: por que investir tanto em viadutos e tão pouco em agricultura urbana?

Quando comecei a plantar comida na cidade só estava pensando no primeiro objetivo dessa lista. Aos poucos, fui descobrindo todos os outros.  

BENEFÍCIOS AMBIENTAIS

 1 Menos pressão sobre os recursos naturais – Cada pé de alface produzido no quintal ou na horta da esquina dispensa espaço no campo, transporte e embalagem. Na verdade, no caso da hortaliça-símbolo da salada, até o método de colheita muda: você só retira da planta as folhas que vai consumir naquele momento e ela continua produzindo por mais alguns meses. É urgente que as populações urbanas reduzam a demanda sobre os recursos naturais, pois as cidades hoje ocupam 2% da superfície terrestre mas consomem 75% dos recursos.

2 Combate às ilhas de calor –  Áreas pavimentadas irradiam 50% a mais de calor do que superfícies com vegetação. Em São Paulo, a geógrafa Magda Lombardo constatou que a temperatura pode variar até 12 graus entre um bairro e outro. Não por acaso, a Serra da Cantareira e a região de Parelheiros são as mais frescas da cidade: é onde a vegetação se concentra.

3 Permeabilização do solo – Enchentes e enxurradas violentas são em parte resultado do excesso de pavimentação na cidade. E simples jardins de grama, onde o solo fica compactado, não absorvem tanta água quanto canteiros fofinhos das hortas.

4 Umidificação do ar  – As plantas contribuem para reter água no solo e manter a umidade atmosférica em dias sem chuva.

5  Refúgio de biodiversidade – Nas hortas comunitárias recuperamos espécies comestíveis que se tornaram raras (como caruru, ora-pro-nobis, bertalha), plantamos variedades crioulas (as plantas “vira-lata” que têm maior variedade genética e por isso são mais resistentes às condições climáticas adversas) e atraímos uma rica microfauna, especialmente polinizadores como abelhas de diversas espécies, que estão em risco de extinção provavelmente pelo uso de agrotóxicos nas zonas rurais. Sou voluntária da Horta do Ciclista e testemunha de que as borboletas, joaninhas e abelhas aparecem em plena  Avenida Paulista quando plantamos flores e hortaliças.

6 Redução da produção de lixo – Os alimentos produzidos localmente não só dispensam embalagens (que correspondem à maior parte do lixo seco produzido) como absorvem  grande quantidade de resíduo orgânico na fabricação de adubo e até materiais de difícil descarte como restos de madeira, que são usados na delimitação de canteiros.

7 Adaptação às mudanças climáticas – A emissão descontrolada de gases do efeito estufa está tornando o clima mais instável e imprevisível, o que é péssimo para a produção de alimentos. A agricultura urbana tem sido considerada uma importante alternativa para a segurança alimentar e existem estudos indicando que cerca de 40% dos alimentos podem ser produzidos dentro das cidades.  Para saber mais veja  http://conectarcomunicacao.com.br/blog/96-comida-de-amanh/

BENEFÍCIOS URBANÍSTICOS

8 Conservação de espaços públicos – Para explicar vou contar uma historinha: em 12 de outubro de 2012, quando fizemos o primeiro mutirão na Horta do Ciclista (http://pt.wikiversity.org/wiki/Horta_do_Ciclista) encontramos no local muito lixo, cacos de vidro e até fezes e seringa usada. A partir do momento que começamos  a cuidar daquele canteiro, a população passou a respeitar. Não houve depredação nem mesmo durante as grandes festas e manifestações que têm acontecido na Avenida Paulista.

9 Redução da criminalidade – Uma horta necessita de cuidados diários e se torna um local muito visitado. Famílias com crianças pequenas gostam de freqüentá-las, assim como  velhinhos, grupos de estudantes e um monte de gente bem intencionada em busca de uma canto pacífico na urbe. O clima comunitário naturalmente afasta quem está pretendendo cometer atos ilícitos. No Brasil ainda não há estimativas sobre isso, mas nos Estados Unidos vários estudos já foram feitos, alguns deles citados nesse artigo http://www.motherjones.com/media/2012/07/chicago-food-desert-urban-farming.

10 Vida local  – Um dos problemas das grandes cidades, particularmente de São Paulo, é o excesso de deslocamentos numa malha viária sobrecarregada. A agricultura — seja ela praticada como forma de lazer, trabalho comunitário ou profissão — fixa as pessoas no território diminuindo a demanda por transporte.

11 Contenção da mancha urbana – Se há incentivo para a produção agrícola nas franjas das cidades e a atividade se combina com turismo rural, diminui a pressão para desmatar e lotear.  Mas esse benefício a população e os agricultores não conseguem manter sem o apoio do poder público.

BENEFÍCIOS SOCIAIS E PESSOAIS

12 Renascimento da vida comunitária – As hortas promovem a integração entre pessoas de diferentes idades, origens e estilos de vida. Assim como os cachorros, são mediadores sociais muito eficientes. Não falta assunto quando há tanta coisa a admirar, tanta tarefa a compartilhar, tanta dica e receita a trocar.

13 Lazer gratuito – Plantar custa praticamente nada. É divertido, um bom pretexto para juntar os amigos e fazer um lanche comunitário e ainda dá para levar umas verduras para casa sem pagar.

14 Mais saúde – Agricultura é exercício e cada pessoa regula a intensidade. Do tai-chi-chuan contemplativo de joaninhas ao aero-power-enxadão, tem ginástica para todos os gostos. Além disso, mexer com a terra é terapia preventiva e curativa de depressão, ansiedade, adicção, sedentarismo, obesidade, entre outros problemas, sobretudo mentais. E nesse item tem até pesquisa brasileira para comprovar. A autora é Silvana Ribeiro, da Faculdade de Saúde Pública da USP: http://www5.usp.br/29818/agricultura-urbana-agroecologica-auxilia-promocao-da-saude-revela-pesquida-da-fsp/. Tem também o documentário “Saindo da Caixinha”. Sim, cuidar de uma horta pode substituir medicamentos psiquiátricos barra-pesada. https://www.youtube.com/watch?v=brrrX8biFJE.

 15 Educação ambiental na prática – Ver de perto o desenvolvimento das plantas, da germinação à decomposição, é muito melhor e mais eficaz do que aprender sobre os ciclos da natureza numa sala de aula ou num livro. Além de uma universidade viva de botânica, as hortas são excelentes locais para estudar o ciclo da água e a microfauna, entre muitos outros temas.

16 Educação nutricional – Como na TV não passa anúncio de brócolis e abobrinha e o “estilo de vida moderno” afastou muitas famílias dos alimentos na forma natural, existem crianças hoje em dia nunca viram um pimentão ou uma cenoura. Para ter uma ideia dos riscos da alimentação industrializada para as próximas gerações, sugiro assistir o documentário Muito Além do Peso (http://www.muitoalemdopeso.com.br/). Para ver como a agricultura urbana pode inverter esse jogo, sugiro ler American Grown (de Michelle Obama) e Edible Schoolyard (de Alice Waters). Ou simplesmente dar uma voltinha na horta comunitária mais perto de você.

17 Promoção da segurança alimentar – Nossos antepassados sabiam conseguir comida sem ter que comprar. Praticamente toda a humanidade era composta de camponeses. Esses conhecimentos foram sendo desprezados nas últimas décadas e, diante da  perspectiva de crise econômica e ambiental, reavivá-los pode ser muito útil. Se você não gosta de conversa apocalíptica, favor voltar ao item anterior: segurança alimentar não é só ter o que comer, é também saber escolher os alimentos corretamente.

18 Integração agricultor/consumidor – Quem planta comida, mesmo que seja em três vasos no quintal, se torna curioso a respeito da origem dos alimentos que consome. E se sente irmanado aos agricultores: quer saber mais, tem vontade de visitar e apoiar os produtores, busca alimentos  cultivados de forma mais justa e sem uso de fertilizantes químicos e agrotóxicos. Junto com as hortas urbanas que surgem nos bairros de classe média de São Paulo estão nascendo muitas conexões e até amizades com agricultores próximos da metrópole. Um ciclo virtuoso e nutritivo de cuidados mútuos.

PARA SABER MAIS

  • A cidadezinha de Tordmorden, na Inglaterra, ficou famosa porque tem hortas comunitárias em todos os cantos, até na delegacia e no cemitério. O pessoal de lá registrou dicas para quem quer replicar a experiência.
    http://www.shareable.net/blog/10-steps-toward-an-incredible-edible-town
    1) Comece com o que vc tem e não com o que vc não tem;
    2) Não faça um plano estratégico;
    3) Não espere por permissão;
    4) Simplifique;
    5) Deixe a existência da horta divulgar o movimento e provocar diálogos;
    6) Faça conexões;
    7) Comece agora, pensando duas gerações adiante;
    8 ) Redescubra talentos esquecidos;
    9) Reconecte pequenas empresas e artesãos com os consumidores;
    10) Redesenhe sua cidade.
  • Aqui no Brasil, nós, do grupo Hortelões Urbanos (https://www.facebook.com/groups/horteloes/), fizemos esse
    ROTEIRO COLABORATIVO PARA UMA HORTA COMUNITÁRIA
    1) Encontre um espaço disponível;
    2) Procure parceiros;
    3)Converse com os vizinhos;
    4) Vá com a turma visitar as hortas comunitárias que já existem;
    5) Junte os voluntários para desenhar e planejar a horta que será construída;
    6) Consiga sementes, mudas, composto orgânico, enxadas, pazinhas de jardinagem, folhas secas, material para delimitar os canteiros e fazer plaquinhas;
    7) Realize o primeiro mutirão;
    8 ) Monte uma escala de trabalho para regas e manutenção;
    9) Crie uma forma de contato para outras pessoas se comunicarem com o pessoal da horta (blog, e-mail, grupo no Facebook, o que preferirem);
    10) Celebre a abundância e a solidariedade.

118. Que tal ser um conselheiro do meio ambiente?

Sabia que existem conselhos de meio ambiente em todas as subprefeituras da cidade de São Paulo? E que esses conselhos são compostos por cidadãos eleitos por voto direto, com mandato de dois anos? E que qualquer pessoa pode assistir às reuniões mensais dos conselhos? E que qualquer pessoa pode se candidatar a conselheiro? E que o nome oficial disso é Conselho Municipal do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, mas todo mundo conhece pela sigla CADES?

Até 2011, eu não sabia nada disso. Mas, quando descobri que existe um órgão legítimo de participação popular para assuntos ligados ao meio ambiente em minha cidade, resolvi acompanhar de perto. E passei a frequentar as reuniões mensais do Cades Pinheiros (região onde moro). No começo, foi estranho entrar no prédio da subprefeitura, sem conhecer ninguém. Mas o incrível é que não estranharam a minha presença. E logo percebi que o absurdo era uma pessoa como eu (que se diz interessada em ecologia e soluções locais) ter demorado tanto a encontrar o Cades.

Bom, como ainda existem por aí muitos outros paulistanos dispostos a tornar a cidade mais verde e mais sustentável que ainda não conhecem o Cades, resolvi espalhar a notícia. Então, o objetivo desse post é avisar quando serão as próximas eleições dos Cades regionais (das subprefeituras), o que precisa fazer para votar e para se candidatar. Existe também o Cades Municipal, que se debruça sobre os desafios ambientais de toda a cidade. Ainda não o conheço e, quando descobrir como funciona, pode deixar que aviso.

Minha amiga Madalena Buzzo, que é conselheira do Cades Pinheiros explica a importância desse órgão: “Participando do Cades comecei a entender como é possível trabalhar em parceria com o poder público para tornar a cidade melhor e como a atuação popular pode ser mais efetiva”. E então, vamos lá?

Datas das eleições – Como os conselhos foram criados em épocas diferentes, o vencimento dos mandatos varia de subprefeitura para subprefeitura. No final do post, a lista com os meses em que ocorrerão as próximas eleições. Para saber as datas específicas é preciso entrar em contato com cada subprefeitura.

Para votar – É preciso ter mais de 16 anos e comparecer à subprefeitura no dia da eleição com o documento de identidade e um comprovante de que mora ou trabalha na região.

Para se candidatar – É preciso ter mais de 18 anos e, até um mês antes da data da eleição, apresentar na subprefeitura o documento de identidade, o comprovante de que mora ou trabalha na região, uma foto e uma carta formalizando o pedido de candidatura. Recomenda-se entrar em contato antes para confirmar essas orientações, que podem variar um pouco de uma subprefeitura para outra.

Para saber mais – Dê uma olhada na Lei 14887-2009 (artigos 29 e de 51 a 55), que regulamentam os Cades. (http://www.leismunicipais.com.br/legislacao-de-sao-paulo/709780/lei-14887-2009-sao-paulo-sp.html)

É trabalho voluntário! – Os conselheiros não recebem remuneração ou privilégio de espécie alguma. A obrigação básica é comparecer às reuniões mensais, que são agendadas de acordo com a disponibilidade comum do grupo.

E as outras cidades? De acordo com Rute Rute Cremonini de Melo, que atua na prefeitura de São Paulo coordenando o CADES Municipal e acompanhando as atividades do Cades regionais, a existência desses conselhos de cidadãos é um dos pré-requisitos para a participação no Sisnama (Sistema Nacional de Meio Ambiente) do Ministério do Meio Ambiente. Por esse motivo, muitos outros municípios devem contar com órgãos semelhantes. Mais de 2 mil cidades brasileiras têm Secretaria do Meio Ambiente e é lá que podem ser encontradas as informações.

 

CALENDÁRIO DE ELEIÇÕES DO CADES

Região Centro-Oeste

Butantã: Fevereiro/2013

Ipiranga: Fevereiro/2013

Sé: Março/2013

Pinheiros: Abril/2013

Lapa: Julho/2013

Vila Mariana: Agosto/2013

Mooca: Agosto/2013

Região Leste

Guaianases: Janeiro/2013

Itaim Paulista: Fevereiro/2013

São Miguel Paulista: Março/2013

Penha: Julho/2013

Aricanduva: Agosto/2013

Itaquera: Maio/2014

Vila Prudente: Maio/2014

São Mateus: Junho/2014

Ermelino Matarazzo: Setembro/2014

Cidade Tiradentes: Dezembro/2014

Região Sul

M’Boi Mirim: Fevereiro/2013

Cidade Ademar: Fevereiro/2013

Campo Limpo: Junho/2014

Jabaquara: Agosto/2014

Santo Amaro: Novembro/2014

Região Norte

Vila Maria: Fevereiro/2013

Casa Verde: Junho/2013

Jaçanã: Setembro/2013

Santana: Outubro/2013

Perus: Dezembro/2013

Pirituba: Março/2014

Freguesia/Brasilândia: Junho/2014

112. Minhocologia Avançada

Meus erros e acertos até conseguir cuidar direitinho das minhocas que transformam o lixo orgânico da minha casa em adubo.

Tenho minhocário desde 2009 e é para lá que vão as sobras da cozinha. O modelo básico, que consiste em três caixas retangulares de 60X40X20 cm, cabe em qualquer apartamento. E existem kits menores. Graças às minhocas, diminuímos muito a produção doméstica de lixo e fabricamos o húmus que aduba a horta. Elas devoram quase todo resíduo orgânico, inclusive guardanapos de papel (sem tinta), mas não podem receber alimentos de origem animal, muito gordurosos, salgados, limão, alho, cebola. O que já foi cozido e outros cítricos, apenas em quantidades mínimas.

Embora simples, o manejo do minhocário requer uma certa prática e por isso muita gente desiste. Como tempo, fui percebendo que é uma atividade parecida com cozinhar, em que tudo tem o ponto e a proporção certos. A mistura não pode ficar muito úmida nem muito seca. Os restos “apodrecíveis” precisam ficar embaixo de uma grossa camada de matéria morta (serragem grossa é a melhor opção – e lá vou eu buscar doação em serralherias).  E o ar precisa entrar, pois se o ambiente se tornar anaeróbio a mistura literalmente azeda.

Já errei bastante. No começo as minhocas quase desapareceram por excesso de matéria seca. Depois exagerei nos úmidos e ficou cheiro ruim. Até hoje, basta não cobrir direito para encher de mosquinhas de fruta. O pior foi a invasão de umas lesmas rastejantes que eu achei nojentas até descobrir num vídeo que se tratava da Black Soldier Fly (http://www.google.com.br/search?q=black+soldier+fly&hl=pt-BR&prmd=imvns&tbm=isch&tbo=u&source=univ&sa=X&ei=sF4YUNS2LJG60AGd9YC4Bg&ved=0CFUQsAQ&biw=1024&bih=641). Não são infectantes, mas deixam o composto fedido para caramba e um dia tive que jogar tudo em cima de um plástico para recolher uma por uma e acertar a mistura. Retirei mais de um quilo de lesmas, fiquei com um pouco de ânsia e vivi uma das experiências mais desafiadoras da minha vida. Mais tarde descobri que o sacrifício era desnecessário: bastaria acrescentar mais serragem e trazer um pouco de húmus de outra caixa que as lesmas desapareceriam com o tempo.

Aos poucos fui acertando a mão. A dica salvadora foi sempre deixar 2 cmde húmus no fundo ao iniciar uma nova caixa, assim as minhocas têm onde se refugiar caso haja algum desequilíbrio momentâneo no ambiente. Dizem que o ideal é encher cada recipiente em dois meses, assim dá tempo da decomposição ser total. Só que em casa completo uma caixa em dez dias, pois o volume de resíduos é grande. A solução foi “recompostar”, ou seja, usar no lugar da serragem pura o conteúdo das outras caixas enquanto os resíduos ainda não foram totalmente transformados naquela terrinha úmida e fofa que caracteriza o húmus. Isso aumentou muito a população de minhocas das caixas. E elas parecem muito felizes!

A princípio, a ideia de ter minhocas em casa e enfrentar o processo de decomposição dos resíduos orgânicos provoca uma certa aversão nos urbanóides. Comigo também foi assim. Mas rapidamente me acostumei com o minhocário e transformar lixo em adubo passou a ser uma rotina muito prazerosa. Não tenho nojo nenhum em mexer nas caixas e estou à disposição para ajudar quem está entrando para a turma da minhoca.

Algumas orientações preciosas pesquei nesse vídeo ótimo do permacultor e minhocólogo Claudio Spínola, da Morada da Floresta: http://www.youtube.com/watch?v=RITfvR3NyFw. Ele ensina até a fazer o próprio minhocário em casa.

Ótimo artigo com informações científicas sobre minhocas e agricultura aqui: http://estagiositiodosherdeiros.blogspot.com.br/2014/05/a-minhoca-na-agricultura.html?spref=fb

110. Os saquinhos de supermercado e a Rio+20

Se quase ninguém está disposto a sair da zona de conforto, como faremos as mudanças de estilo de vida necessárias para criar uma sociedade sustentável?

Imagine que você está num bote com alguns amigos passeando no mar. De repente, começa a entrar água. Dentro do bote, um par de remos, um balde bem grande e vários copinhos. Dois dos tripulantes são fortes e sarados. Os demais têm físico frágil. Os fracotes se reúnem para reclamar que os fortões deveriam remar e tirar a água do barco, mas não querem ajudar. E os fortões se recusam a fazer o trabalho sozinhos. Todos naufragam.

Essa historinha absurda me vem à cabeça toda vez que ouço pessoas bradarem contra a resolução que eliminou as sacolinhas plásticas gratuitas dos supermercados e comemorarem sua volta.

Claro que existem problemas ambientais muito mais graves do que os saquinhos plásticos. Também têm certa razão os que acusam os supermercados de aproveitar a onda das sacolas retornáveis para obter vantagens financeiras. Já falei sobre isso nesse blog e recebi uma chuva de reclamações, que provavelmente virão novamente depois do capenga enredo de naufrágio que inventei. Só menciono as particularidades saquinho-plásticas porque o assunto aqui é sair da zona de conforto.

A insustentabilidade do sistema em que vivemos não é novidade. Infelizmente, o bom andamento da política e da economia por enquanto são aferidos pelo consumo crescente que não poderá se manter por muito mais tempo, pois só temos à disposição esse planeta finito e já superexplorado. Então as circunstâncias nos convidam a iniciar mudanças de hábitos. Quanto antes começarmos, menos traumáticas serão. Levar a sacola para o supermercado é apenas um ínfimo exemplo de como reduzir impactos ambientais. Comer menos carne, usar menos carro, comprar menos, reutilizar mais, abandonar a agricultura à base de agrotóxicos, economizar água e energia das mais diversas formas são outros desafios que estão batendo à porta.

Vem aí a Rio+20 e a torcida do contra já está organizada. Muitos a consideram inútil, já que países e empresas e não se mostram dispostos a rever seus modos de agir na intensidade necessária para frear as mudanças climáticas, a desertificação, o desmatamento, a extinção de espécies e a contaminação do meio ambiente. Embora com mínimas expectativas de ver surgir uma revolução sustentável no evento, discordo. Acho que o evento vale a pena sobretudo por causa do encontro paralelo e extraoficial, a Cúpula dos Povos.

Estive na Rio 92 como jornalista e a experiência foi maravilhosa (veja aqui: http://conectarcomunicacao.com.br/blog/106-eu-fui-na-rio-92/). Ao longo dos anos fiquei sabendo de dúzias de livros, projetos e movimentos que nasceram no Fórum Global (assim se chamou o encontro alternativo daquela vez) e ajudam cada vez mais gente a viver bem preservando o meio ambiente e reduzindo a desigualdade social. São essas iniciativas que me enchem de esperança. E não é preciso ir à Cidade Maravilhosa para entrar na onda.

Para terminar, um conto de fadas do nosso tempo:

“Era uma vez uma floresta em chamas. Os animais se reuniram numa clareira para reclamar e apenas o beija-flor não compareceu ao triste encontro. Em vez disso, voava freneticamente para lá e para cá. Sem entender o que estava acontecendo, o elefante perguntou:

— O que faz você aí, pequeno beija-flor?

— Estou tentando apagar o fogo. Vou até o rio, encho meu bico de água, despejo nas labaredas e volto ao rio para pegar mais água.

Todos os animais riram muito. E o rei leão disse:

— Você não se enxerga, beija-flor? Com esse bico minúsculo não vai conseguir apagar coisa nenhuma.

Mas o beija-flor já estava longe, apressado, pois tinha muito trabalho a fazer.”

PS – O indiano Jadav Payeng faz parte da turma dos beija-flores. Durante 30 anos ele plantou sozinho e com as próprias mãos uma floresta que hoje tem 550 hectares e abriga até grandes mamíferos em risco de extinção como tigres e rinocerontes. Olha só que beleza: http://planetativo.com/2010/2012/04/o-homem-que-plantou-uma-floresta-sozinho/

106. Eu fui na Rio 92

Ainda guardo a credencial de jornalista que há 20 anos usei no maior evento sobre desenvolvimento sustentável já realizado. Agum dia vou mostrar aos netos.

Como editora da Revista Capricho, em 1992 escrevia para adolescentes sobre namoro, estudo, amizade, menstruação, dramas existenciais e… ecologia! Quando soube que iria acontecer a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, vulga Eco 92 (na época era assim que todo mundo no Brasil chamava o evento), pedi credenciamento e convenci a chefa Mônica Figueiredo a me deixar ir. Maravilhosa, além de me esquecer lá 15 dias, ela ainda deu o sinal verde para a Ciça Lessa embarcar comigo. Considerando que o foco da revista era outro e a expedição das duas jornalistas rendeu apenas três páginas de cobertura e mais algumas pautas para edições futuras, pode-se ter uma ideia de como a verba das redações tinha mais folga e havia mais tempo para investir em reportagem décadas atrás. Mas isso é outro assunto…

Bom, chegando ao Rio nos juntamos à tribo multitudo que ali se reuniu querendo construir um futuro melhor para todas as formas de vida. Pessoas de todas as cores e idades provenientes de cada canto da Terra. Na verdade, o que aconteceu em junho de 1992 não foi um só evento, mas dois bem distintos.

As delegações oficiais se instalaram no Riocentro, em Jacarepaguá. Do Earth Summit (apelido internacional do encontro) saiu a Declaração do Rio, a Convenção das Mudanças Climáticas, a Convenção da Biodiversidade e a Agenda 21. Todos documentos de altíssima importância que os governos vêem enrolando para não cumprir há exatas duas décadas. Em 13 de junho de 1992, 114 Chefes de Estado almoçaram juntos e posaram para fotografias. Até então, nunca tantos reis, ditadores, primeiros ministros e presidentes tinham se encontrado e não sei se a marca foi batida posteriormente. O Centro de Convenções carioca se tornou território da ONU, com clima solene e cardumes de engravatados. O gabinete do então Presidente Collor transferiu-se de Brasília para um cercadinho de paredes de fórmica, com a tradicional fila de políticos na porta. Eu e a Ciça achamos aquele lugar chato, muito chato.

Já no Aterro do Flamengo nos sentimos em casa. Era ali o Fórum Global (precursor do Fórum Social), uma enorme feira/quermesse com barraquinhas das mais variadas ONGs e grandes tendas brancas onde aconteciam simpósios. Figurino comum: camiseta + bermuda + mochila + sandália de couro ou bota de caminhada + garrafinha d’água retornável. Passávamos nossos dias andando para lá e para cá, vendo as coisas mais loucas e mais maravilhosas. Lembro de um casal canadense fazendo o almoço num fogão de energia solar. De arquitetos japoneses apresentando a maquete da “cidade ecológica” composta por apenas um altíssimo prédio onde 1 milhão de pessoas viveriam e trabalhariamem plena Floresta Amazônica, sem nunca precisar descer ao térreo. De jogar com estudantes de várias nações uma espécie de War da Sustentabilidade cujo mapa ocupava uns 100m2. De ir à praia do Flamengo esperar a chegada de um veleiro com jovens de várias partes do mundo. De conversar um tempão com uma menina da África que me presenteou com o “sino da paz”, hoje perdido em algum canto da minha casa.

Para mim o momento mais emocionante foi encontrar Jacques Cousteau. No espaço do Fórum carros eram proibidos, mas o velho mergulhador já não conseguia caminhar muito. Chegou no único automóvel a passar por ali, bem devagarinho. A ecomultidão ia abrindo passagem e aplaudindo. Nós, que estávamos dentro da tenda esperando a palestra, percebíamos a aproximação pelo barulho das palmas. Quando Jacques entrou, todos se levantaram e aplaudiram por mais um bom tempo. Emocionadíssimo, ele não conseguiu dizer quase nada. Lembro perfeitamente do início do discurso, num inglês vagaroso e carregado de erres franceses: “My frrrriends frrrom alll overrr the worrrld, continuem fazendo o que vocês estão fazendo. Eu não sou um bom ecologista porque viajo muito de avião e os aviões consomem muito combustível…”

Como meu pai é pescador e apaixonado pelo mar, os documentários de Cousteau talvez tenham sido o meu primeiro contato com a ecologia. Jacques, que morreu 5 anos e 1 mês depois da Rio 92, naquele momento estava passando o bastão. E eu me senti parte da longa linhagem de seres humanos envolvidos com a causa da defesa da vida.

Ter participado da Rio 92 não me transformou em ambientalista. Ao contrário, só fui parar lá porque já estava muito ligada no tema. Mas valeu muito. Numa época sem Facebook, era praticamente impossível encontrar pessoas de outras partes do mundo com as mesmas afinidades. Voltei com mais vontade ainda de descobrir maneiras de viver bem causando menos impacto no meio ambiente. Uma transição que ainda está acontecendo e continuará enquanto eu estiver aqui nesse planeta.

Estou acompanhando as notícias sobre a preparação da Rio + 20 e da Cúpula dos Povos (http://cupuladospovos.org.br/; http://kakawera.blogspot.com.br/2012/04/cupula-dos-povos.html?spref=fb), que acontecerá justamente no Aterro do Flamengo. Há inclusive um comitê paulista ativíssimo (http://riomais20sp.wordpress.com/). Já não tenho 26 anos e confesso que a ideia de ir ao Rio de Janeiro em junho me dá uma certa preguiça. Porém, até lá tudo pode acontecer, não é?