112. Minhocologia Avançada

Meus erros e acertos até conseguir cuidar direitinho das minhocas que transformam o lixo orgânico da minha casa em adubo.

Tenho minhocário desde 2009 e é para lá que vão as sobras da cozinha. O modelo básico, que consiste em três caixas retangulares de 60X40X20 cm, cabe em qualquer apartamento. E existem kits menores. Graças às minhocas, diminuímos muito a produção doméstica de lixo e fabricamos o húmus que aduba a horta. Elas devoram quase todo resíduo orgânico, inclusive guardanapos de papel (sem tinta), mas não podem receber alimentos de origem animal, muito gordurosos, salgados, limão, alho, cebola. O que já foi cozido e outros cítricos, apenas em quantidades mínimas.

Embora simples, o manejo do minhocário requer uma certa prática e por isso muita gente desiste. Como tempo, fui percebendo que é uma atividade parecida com cozinhar, em que tudo tem o ponto e a proporção certos. A mistura não pode ficar muito úmida nem muito seca. Os restos “apodrecíveis” precisam ficar embaixo de uma grossa camada de matéria morta (serragem grossa é a melhor opção – e lá vou eu buscar doação em serralherias).  E o ar precisa entrar, pois se o ambiente se tornar anaeróbio a mistura literalmente azeda.

Já errei bastante. No começo as minhocas quase desapareceram por excesso de matéria seca. Depois exagerei nos úmidos e ficou cheiro ruim. Até hoje, basta não cobrir direito para encher de mosquinhas de fruta. O pior foi a invasão de umas lesmas rastejantes que eu achei nojentas até descobrir num vídeo que se tratava da Black Soldier Fly (http://www.google.com.br/search?q=black+soldier+fly&hl=pt-BR&prmd=imvns&tbm=isch&tbo=u&source=univ&sa=X&ei=sF4YUNS2LJG60AGd9YC4Bg&ved=0CFUQsAQ&biw=1024&bih=641). Não são infectantes, mas deixam o composto fedido para caramba e um dia tive que jogar tudo em cima de um plástico para recolher uma por uma e acertar a mistura. Retirei mais de um quilo de lesmas, fiquei com um pouco de ânsia e vivi uma das experiências mais desafiadoras da minha vida. Mais tarde descobri que o sacrifício era desnecessário: bastaria acrescentar mais serragem e trazer um pouco de húmus de outra caixa que as lesmas desapareceriam com o tempo.

Aos poucos fui acertando a mão. A dica salvadora foi sempre deixar 2 cmde húmus no fundo ao iniciar uma nova caixa, assim as minhocas têm onde se refugiar caso haja algum desequilíbrio momentâneo no ambiente. Dizem que o ideal é encher cada recipiente em dois meses, assim dá tempo da decomposição ser total. Só que em casa completo uma caixa em dez dias, pois o volume de resíduos é grande. A solução foi “recompostar”, ou seja, usar no lugar da serragem pura o conteúdo das outras caixas enquanto os resíduos ainda não foram totalmente transformados naquela terrinha úmida e fofa que caracteriza o húmus. Isso aumentou muito a população de minhocas das caixas. E elas parecem muito felizes!

A princípio, a ideia de ter minhocas em casa e enfrentar o processo de decomposição dos resíduos orgânicos provoca uma certa aversão nos urbanóides. Comigo também foi assim. Mas rapidamente me acostumei com o minhocário e transformar lixo em adubo passou a ser uma rotina muito prazerosa. Não tenho nojo nenhum em mexer nas caixas e estou à disposição para ajudar quem está entrando para a turma da minhoca.

Algumas orientações preciosas pesquei nesse vídeo ótimo do permacultor e minhocólogo Claudio Spínola, da Morada da Floresta: http://www.youtube.com/watch?v=RITfvR3NyFw. Ele ensina até a fazer o próprio minhocário em casa.

Ótimo artigo com informações científicas sobre minhocas e agricultura aqui: http://estagiositiodosherdeiros.blogspot.com.br/2014/05/a-minhoca-na-agricultura.html?spref=fb

85. A próxima revolução industrial

E se todo resíduo se tornasse alimento biológico ou tecnológico? E se deixássemos de usar substâncias tóxicas na fabricação de produtos? Mais do que possível, iniciar a extinção do lixo e dos contaminantes é urgentemente necessário.

O arquiteto norte-americano William McDonough e o químico alemão Michael Braungart (ecologistas desde sempre e hoje cinqüentões) apresentaram seu primeiro projeto em parceria durante a Eco 92. O documento “Hannover Principles” estabeleceu diretrizes de sustentabilidade que continuam muito atuais para as áreas de design e arquitetura (http://en.wikipedia.org/wiki/Hannover_Principles). Entre elas estava a proposta de abolir o lixo. Não reduzir ou reciclar os dejetos, mas acabar de vez com esse conceito.

A ideia deu origem ao livro “Cradle to Cradle: Remaking the way we make things” (Do Berço ao Berço: repensando a maneira como produzimos as coisas). Lançado em 2002, até hoje não tem edição brasileira, algo inexplicável, pois a obra se tornou uma das bíblias do ambientalismo. Depois de ler cada página e perceber meus horizontes mentais se expandindo, resolvi resumir e compartilhar o que eles dizem.

Mc Donough e Braungart começam desfilando os horrores da cadeia produtiva industrial que se baseia na extração de matérias primas da natureza (seja petróleo, metal, minério, planta ou bicho). Geralmente isso ocorre de forma brutal, deixando um rastro de poluição e devastação. E eles não nos deixam esquecer que a maioria das reservas desses insumos caminha para o esgotamento.

Depois os autores nos fazem perceber como é rápido o instante em que desfrutamos dos produtos adquiridos com tanto sacrifício para o meio ambiente. Pense na garrafinha de água mineral, na caixinha de suco, na embalagem dos lápis de cor que em um segundo se tornam sucata. E mesmo aquilo que parece durar bastante em nossas mãos (como sapatos e equipamentos eletrônicos) tem uso por apenas um ínfimo fragmento dos séculos que passarão enquanto se decompõe. Pense na carcaça do computador e no brinquedinho de pilha degradando lentamente no aterro e vazando no ar, solo, lençóis freáticos e cursos d’água substâncias tóxicas como cádmio, mercúrio, chumbo & cia.  

Enquanto isso, o esgoto vai recebendo cargas de antibióticos, hormônios e outros remédios expelidos não só pelas pessoas como também pelos bichos criados em fazendas para fornecer carne, leite e ovos. Acrescente os produtos químicos barra pesada usados pelas indústrias e na limpeza doméstica e está explicado por que esses efluentes se tornam a cada dia mais ameaçadores para a saúde pública.

Voltando ao lixo industrializado, a dupla do Cradle (pronuncia-se “creidol”) desvenda uma série de problemas ligados à forma como a reciclagem é feita atualmente. Eles avisam que os materiais geralmente entram num processo de “downcycling” (deterioração de valor) e muita energia e emissão de gases é necessária para o transporte e transformação da sucata. No caso dos plásticos, por exemplo, diferentes tipos se misturam em piscinas de produtos altamente corrosivos gerando um híbrido de baixa qualidade, num processo que também solta contaminantes. Já o aço puríssimo com o qual são feitas algumas peças dos carros acabam se mesclando a outros metais menos nobres e pigmentos das tintas também gerando poluição e o que sai dali não é mais confiável para colocarem automóveis. Ao projetar um item de consumo, ninguém ainda prioriza o ciclo virtuoso de reutilização, reciclagem limpa e ganho de valor nos processos (upcycling). Tanto a indústria como a esmagadora maioria dos cidadãos prefere o baixo custo imediato e a pseudopraticidade dos descartáveis.

O que fazer então?

Imitar a natureza, onde nada se perde e tudo se transforma. McD+Braun propõem que cada resíduo seja transformado em alimento biológico ou tecnológico. Com os orgânicos (incluindo excrementos), o caminho é a compostagem para gerar adubo. Ou seja, esse material não deveria nunca ir parar nos lixões. Para o restante, as empresas devem redesenhar todo o ciclo de produção prevendo que 100% do que sobra ao final do consumo se torne novamente matéria prima (esse é o sentido da expressão “do berço ao berço”). Pelo caminho, é preciso encontrar substitutos para as substâncias tóxicas que hoje fazem parte dos processos industriais e também da agropecuária sejam aposentadas.

Parece difícil e talvez não seja possível imediatamente, mas isso precisa começar a ser feito. De acordo com os autores, diminuir o lixo em X% ou usar Y% menos veneno é apenas caminhar para o desastre em velocidade um pouco menor.

Para quem pretende aprofundar os conhecimentos ecológicos e está disposto a fazer do desenvolvimento sustentável uma realidade, recomendo três livros que mudaram a maneira como a humanidade vê sua relação com a natureza e os problemas sociais e de saúde:

1)    Silent Spring (Primavera Silenciosa), de Rachel Carson/1962 http://conectarcomunicacao.com.br/blog/14-rainha-da-primavera/

2)    Small is Beautiful: Economics as if people matered (O pequeno é bonito: economia como se as pessoas importassem), de E. F. Schumacher/1973 http://conectarcomunicacao.com.br/blog/49-beleza-pequeno/

3)    Cradle to Cradle: Remaking the way we make things (Do Berço ao Berço: repensando a maneira como produzimos as coisas), de William McDonough e Michael Braungart/2002

Infelizmente, nossas livrarias não oferecem no momento a edição em português de nenhum deles. Também em inglês, a ótima apresentação de Mc Donough no TED: http://www.youtube.com/watch?v=IoRjz8iTVoo

75. O sabão sustentável da Sílvia

Vai aí a receita para fazer sabão em casa com óleo de cozinha usado e uma boa conversa sobre o passado das nossas famílias.

Fiquei sabendo que a mãe de uma criança que estuda no mesmo colégio que os meus filhos recolhe na vizinhança o óleo de cozinha usado para fazer sabão em casa. Depois devolve o produto para as pessoas que doaram a matéria prima com uma mensagem de agradecimento e incentivo a continuar evitando a contaminação do meio ambiente. Demais, né? Quis ver isso de perto, claro. Então me candidatei a ajudar na fabricação e lá fui eu.

Silvia Carui é administradora de empresas, durante muito tempo dirigiu um instituto de pesquisas e está prestes a fundar uma empresa de comércio exterior. Inconformada com o desperdício e o grande estrago que o óleo descartado incorretamente provoca, experimentou várias receitas de sabão artesanal e, durante a entressafra na carreira, virou expert no assunto.

Quando perguntei como surgiu essa história de fabricar sabão, ela disse que cresceu no interior e lá a atividade, que até hoje faz parte da rotina da mãe dela, ainda é comum. Por uma incrível coincidência, Silvia, que é descendente de italianos como eu, nasceu em Penápolis, assim como meu pai. Então é mais do que provável que nossas avós tenham se conhecido.

Pegamos um quilo de soda cáustica e jogamos num balde de plástico. Despejamos em cima um litro de água fervente (sai um vapor tóxico, então é preciso se afastar nessa hora). Fiquei mexendo com um cabo de vassoura e Silvia brincou que aquilo parecia um caldeirão de bruxa. Conversa vai, conversa vem, percebi como o mundo mudou rápido. Nossas avós tinham galinheiro e horta no quintal, costuravam as próprias roupas, faziam pão e quase nunca compravam nada pronto. Lixo era algo que não existia, pois tudo se reaproveitava.

Depois que a soda estava dissolvida na água, pegamos os 5 litros de óleo usado, que estava dentro de garrafas PET, e pusemos na mistura, com o líquido passando antes pelo coador. Mais mexe-mexe, adicionamos 200 ml de amaciante de roupas e, para terminar, colocamos a pasta resultante numa bandeja de plástico. Ficou uma camada de cerca de 4 cm. Silvia guardou o preparado no armário e me disse que dali uma semana estaria branco e durinho, pronto cortar e usar.

Achei fácil e uma delícia fazer sabão. Na internet, descobri que a receita original, com mais de 5.000 de idade, consistia simplesmente em misturar cinzas com gordura animal. As fábricas surgiram há menos de três séculos. Ou seja, foram 4.700 mexendo o caldeirão no quintal, assim como Silvia e eu fizemos na varanda do moderníssimo apartamento dela.

Ganhei de presente umas barras que já estavam prontas e tenho usado para lavar louça. O produto é ótimo! Limpa superbem, não agride a pele e não tem aquele cheiro enjoado dos detergentes.

PS – Nunca jogue fora o óleo usado, pois um litro polui 1 milhão de litros de água. Se não quiser reciclar você mesmo, guarde e leve a um posto de coleta. Muitos supermercados recebem esse resíduo e pontos de entrega em todo o país estão listados aqui: http://revistacrescer.globo.com/Revista/Crescer/0,,EMI86068-17334,00.html

SABÃO DA SÍLVIA

INGREDIENTES
5 litros de óleo de cozinha usado e coado
1 kg de soda cáustica em pó ou escamas
1 litro de água fervente
200 ml de amaciante
10 gotas de essência para perfumar (opcional)

COMO FAZER
Coloque a soda num balde resistente e em seguida a água fervente. Cuidado com o vapor tóxico! Mexa bem até a soda dissolver. Acrescente o óleo e continue mexendo. Junte o amaciante e a essência (se quiser). Despeje a mistura numa assadeira de plástico ou metal e deixe esfriar. Espere uma semana, corte em pedaços e pode usar. Dura cerca de dois anos.

52. Para onde mando meu lixo?

A coleta seletiva oficial é péssima. Os catadores recebem tão pouco pela tonelada da sucata que não vale a pena carregar os resíduos. Fui conversar com especialistas para saber por que tanta coisa está dando errado na reciclagem. 

Por vários anos, periodicamente eu enchia o carro com materiais recicláveis para levar a um ponto de coleta. Nos primórdios, só a USP recebia, depois passei a enviar ao Pão de Açúcar, pioneiro entre os supermercados nesse terreno. Até que apareceu a coleta seletiva na porta de casa e me senti livre dessa obrigação. Mas eu estava enganada. Em São Paulo, caminhões inteiros com sucata que a população organizou e limpou vão direto para o lixão, seja porque as poucas cooperativas que a prefeitura cadastrou não dão conta ou porque o próprio caminhão compactou e misturou tudo, inviabilizando a separação (para saber mais detalhes: http://conectarcomunicacao.com.br/blog/20-reciclando-problemas/) .

Então decidi arranjar outro destino para o meu lixo. Caixinhas de papelão, embalagens plásticas, tampinhas, rolhas, palitos de sorvete e outros objetos simpáticos vão para a oficina de artes da escola das crianças. Já transformei potes, cestinho de bicicleta enferrujado, galão de água e até mochila em vaso para as plantas da horta (http://conectarcomunicacao.com.br/blog/50-plantei-pimento-na-mochila/) .  Doei um lote de embalagens vazias de sorvete e requeijão para a Gislene e diversos vidros transparentes para a Elza. Conheci virtualmente ambas no grupo São Paulo Freecycle (http://conectarcomunicacao.com.br/blog/41-encontro-na-metrpole/) . Jornais velhos viraram cama para os cachorros abandonados do centro de adoção da loja Cobasi. Mesmo assim, sobraram garrafas, latas e embalagens plásticas. Comecei a guardar essas coisas no escritório e abordei alguns catadores que circulam pelo bairro perguntando se eles não queriam o material. A resposta foi não, pois o preço das sucatas anda muito baixo e não vale a pena carregar. Pesquisando no site do Cempre (Compromisso Empresarial para a Reciclagem – http://www.cempre.org.br/serv_mercado.php), descobri que eles têm razão, pois a indústria paga por tonelada apenas R$ 380 pelo papelão, R$ 150 pelas embalagens longa vida, de R$ 80 a R$ 120 pelo vidro. O valor de 1.000 quilos de alumínio é R$ 2.300, mas são necessárias quase 70 mil latas para chegar lá.     

Aí entrei em contato com o Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis para saber como enviar de verdade os resíduos para a reciclagem. A orientação é a seguinte: leve você mesmo o material a uma Cooperativa de Catadores (para saber onde ficam: 11/3399-3475, secretariasp@mncr.org.br, http://www.mncr.org.br/ ) ou a um Ecoponto da Prefeitura (http://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/servicos/limpurb/ecopontos/index.php?p=4626) ou aos postos de coleta dos supermercados.

Angustiada pelo engodo da reciclagem oficial, pela baixa remuneração dos catadores e pelas notícias que chegam a toda hora alertando para a saturação dos aterros, procurei duas especialistas no assunto. Veja o que elas dizem…

Elisabeth Grimberg, coordenadora do Instituto Polis (http://www.polis.org.br/): “Em São Paulo a coleta seletiva teve início em 2001, tendo sido criadas 15 cooperativas conveniadas com poder público. Porém, de 2004 até hoje, apenas duas novas unidades de triagem operadas por cooperativas de catadores foram acrescidas ao programa que se mantém com 1% de recuperação de resíduos, o que revela a deficiência do sistema e o baixo empenho da prefeitura em ampliá-lo. As associações de catadores é que merecem crédito pelas 2.500 toneladas de resíduo que são encaminhadas diariamente para a reciclagem pelos cerca de 20 mil catadores que atuam na cidade.”

Araci Martins Musolino, coordenadora do Instituto Gea (http://www.institutogea.org.br/):  “É necessário que os cidadãos, as empresas e as prefeituras se esforcem para melhorar a coleta seletiva. Mesmo assim, a prioridade deve ser reduzir o consumo e reutilizar o que já possuímos. A reciclagem não pode ser a primeira opção, pois o planeta não tem condições de sustentar o atual padrão de consumo da humanidade mesmo se fosse possível reciclar 100% dos resíduos.”

21. Mais vale reduzir e reutilizar

Nem tudo dá para reciclar. Nem sempre vale a pena reciclar. Para não nos afogarmos no tsunami do lixo, vai ser preciso consumir menos.

Os problemas da reciclagem (sobretudo na cidade de São Paulo, onde moro) são muitos. Por aqui, a coleta seletiva não alcança todos os bairros e muitas vezes os caminhões especiais que deveriam levar os materiais para a reciclagem acabam despejando tudo no aterro comum. Isso sem falar que diversos itens reciCLÁVEIS nunca são reciCLADOS porque não vale a pena comercialmente, já que é muito mais fácil e barato produzir do zero. E, quando tudo dá certo, produtos químicos agressivos e muita energia são utilizados para transformar sucata em produto novamente.

Para escaparmos do tsunami do lixo, governos e empresas precisarão se comprometer de verdade com a faxina do planeta. O Brasil deu um passo importante em março, quando foi aprovado pela Câmara dos Deputados o Projeto de Lei 203/91, que institui a Política Nacional de Resíduos Sólidos.  

Mas ninguém deve esperar pela lei para começar a deixar menos lixo no mundo. Precisamos desde já repensar os hábitos de consumo de acordo com o velho lema dos ambientalistas: Reduzir, Reutilizar e Reciclar. Não por acaso, as palavras aparecem nessa ordem.

Em primeiro lugar, vem a ideia de reduzir. Ela implica em questionar antes de consumir, ou seja, livrar-se do impulso consumista para avaliar se realmente aquilo que está sendo adquirido terá uso. Vale respirar fundo, dar uma volta, pedir palpite. Só coloque a mão no cartão de crédito depois de pensar muito. É um hábito precioso (além de econômico), que vale a pena transmitir para os filhos.

OK, você comprou. Então está na hora de usar e abusar o máximo possível. Chegou a vez do reutilizar. Repetir, reformar e receber doação de roupa é o máximo do ecochic. Assim como nunca jogar comida fora. Reformar móvel, usar materiais alternativos na decoração e trocar objetos entre amigos são comportamentos nota dez em termos de sustentabilidade, ética e bom gosto. Cada folha de papel merece ser preenchida dos dois lados. Os clipes têm vida útil infinita (costumo juntar os que chegam às minhas mãos e depois devolvo em saquinhos para a contadora). Restinhos de batom no fundo do tubo podem ser aplicados com pincel. Potes de cosméticos e bisnagas de creme dental podem ser cortados para raspar o conteúdo até o fim. Embalagens vazias são ótimas para brincar de arte com as crianças. Roupas velhas viram retalhos em colchas de patchwork.

Só depois de reduzir suas posses ao realmente necessário, usar intensamente o que possui, dar um fim criativo às sucatas e acabar de vez com as sobras é que dá para pensar no terceiro R (reciclar). Aí catadores, caminhões e indústrias entram em cena. Mas, quando se trata de material orgânico, existe uma maneira muito mais nobre de reciclar: a compostagem. Você mesmo pode transformar os talos e cascas de vegetais e as podas do jardim em adubo para as plantas. Se mora em apartamento, a saída é ter um minhocário. Aqui em casa existe a composteira e o viveiro de minhocas. Meus filhos e os amigos deles gostam de espiar e ficam fascinados por presenciar a decomposição e o reinício do ciclo da vida. Afinal, desde o big-bang os átomos passeiam pelo universo nas mais variadas composições.

20. Reciclando problemas

Sabia que muitas vezes o caminhão da coleta seletiva de lixo leva para o aterro comum toda a sucata que você limpou e separou?

A coleta seletiva de lixo está em quase toda parte hoje em dia. Escolas, clubes, hotéis e locais públicos ostentam os vários recipientes coloridos para papel, plástico, metal, vidro e resíduo orgânico. Alguns supermercados recebem a sucata e, aos poucos, ampliam-se as rotas dos caminhões de lixo escalados para recolher os recicláveis. Os cidadãos ecologicamente conscientes se esforçam para separar e limpar embalagens & cia, enviando corretamente para a rede de coleta, que inclui também as cooperativas de catadores.

Lendo o parágrafo acima parece que está tudo resolvido em relação ao lixo, não é? Mas tenho colecionado reportagens sobre o assunto e descobri que, infelizmente, a realidade da reciclagem é bem mais suja do que parece, pelo menos na capital paulista, onde moro. Se quiser mergulhar no assunto, pesquise as edições de O Estado de São Paulo em 13/2/2009 e 15/05/2010, Veja São Paulo em 5/8/2010, Folha de São Paulo em 27/1/2010 e Revista da Folha em 28/2/2010.

Para começar, estamos transformando em lixo aquilo que deveria repor a fertilidade da terra. Explico: 60% do lixo doméstico gerado em São Paulo é orgânico (incluindo podas do jardim) e poderia se transformar em adubo, caso fosse para a compostagem. Só que não existem composteiras públicas e não há incentivo algum para as pessoas fazerem a compostagem em suas casas ou condomínios. Muita gente, aliás, nem sabe o que é isso. Então esse material organicamente valioso vai para o aterro, onde se mistura a todo tipo de detrito, incluindo resíduos tóxicos.

Já a eficiência da coleta seletiva oficial deixa muito a desejar. Aqui, na maior cidade do país, o sistema recolhe 140 toneladas diárias de sucata. Só que pelo menos 35% disso é desperdiçado e acaba indo para o aterro. O pessoal que trabalha nos centros de triagem das cooperativas tem que desprezar as sucatas em mau estado e as que não encontram comprador, como muitas vezes ocorre, por exemplo, com as embalagens plásticas do tipo que é utilizado em cosméticos, o isopor e os papéis metalizados. Pior ainda é quando o caminhão “seletivo” está muito cheio e compactado, o que complica a separação de materiais. Aí a equipe da limpeza pública simplesmente muda o caminho e despeja no lixão todo o conteúdo da caçamba.

Mesmo os itens mais fáceis de vender (como papel, latas de alumínio e garrafas PET) tiveram o preço reduzido nos últimos anos devido à crise econômica mundial. Muitos catadores abandonaram a atividade por não conseguirem mais se sustentar e existem até prédios que estão desistindo de promover a reciclagem.

No final, apenas 1,1% de todo o lixo de São Paulo acaba sendo reciclado. O resto morre no aterro. E isso é outro problemão, pois no mundo inteiro há cada vez menos espaço para colocar os detritos. Se continuarmos assim, um dia nossa civilização será soterrada pelo tsunami do lixo. Mas nós podemos evitar o apocalipse da sujeira e já existem muitas soluções bacanas para deixarmos um mundo mais limpo para os nossos filhos.