128. Cidade em Movimento

Uma pesquisa e opiniões de especialistas mostram uma revolução em curso no mundo dos transportes paulistanos. Ao que parece, a Carrocracia está com os dias contados.

Abaixo um resumo (com meus comentários) da pesquisa sobre mobilidade em São Paulo que a Rede Nossa São Paulo encomendou ao Ibope e foi divulgada em 16/09/2013 . Dados completos aqui: https://www.facebook.com/events/606105722766287/

  • Os paulistanos que usam automóvel diariamente (ou quase diariamente) para se locomover são apenas 27%. E basta uma olhada para os espaços públicos para constatar que a paisagem foi totalmente dominada por essa minoria (da qual ainda faço parte).
  • Contando deslocamento por deslocamento, o meio de transporte mais comum é a caminhada (54%) seguida por ônibus (24%), carro (14%), metrô (12%), lotação (9%), trem (8%), moto (3%) e bicicleta (2%).
  • Cerca de 50% das residências paulistanas contam com carro na garagem. Entre as famílias motorizadas, 80% possui apenas um veículo. 17% dois. Os multiveiculares são apenas 3%.
  • 47% dos paulistanos gasta entre 1 e 2 horas por dia para ir e voltar de sua atividade principal. A média chega a espantosos 2h15 se forem computados todos os deslocamentos.
  • Evangelina Vormittag, do Instituto Saúde e Sustentabilidade, lembrou que o modelo rodoviarista é o principal problema ambiental e de saúde de São Paulo. Além da poluição atmosférica (que mata mais do que cigarro por aqui), contribui para ilhas de calor, contaminação do solo, colisões e atropelamentos, sedentarismo forçado e poluição sonora. Para quem se interessa pelo assunto, um evento inteirinho sobre isso na próxima segunda-feira às 18h, na Câmara Municipal. (Inscrições aqui: http://viradadamobilidade.wordpress.com/programacao/palestras/inscricao-mobilidade-urbana-e-qualidade/)

A melhor notícia: o Império do Automóvel está com os dias contados.

  • 79% dos motorizados deixariam o carro em casa se tivessem uma boa alternativa de transporte público. Quanto a isso, tenho observado algo curioso: muitas pessoas que dizem essa frase nunca experimentam fazer seus trajetos cotidianos de ônibus ou metrô. Obviamente, a qualidade geral desse serviço é ruim na cidade. Mas existem horários e percursos muito bem servidos por transporte público e falo isso por experiência própria.
  • 93% são a favor da ampliação das faixas exclusivas de ônibus (86% entre os usuários freqüentes de automóvel). De acordo com Jilmar Tatto, Secretário Municipal dos Transportes, é para lá que vamos. Ele disse: “São Paulo tem hoje 120km de faixas exclusivas para ônibus e pretendemos implantar mais 150 km até 2016. O ideal seria chegar em 460km”. Analisando a fala completa do secretário,  percebi que, tecnicamente, transporte de larga escala seria atribuição do metrô, mas é quase impossível São Paulo chegar perto de Paris, que tem uma estação quase em cada esquina na região central. Vamos quebrar o galho com ônibus mesmo.  E os planos imediatos da prefeitura incluem uma reforma do sistema e até mesmo ações ousadas como um concurso para criação de aplicativos que ajudem o usuário a saber em tempo real quando chegam e para onde vão os ônibus que passam no ponto onde ele está .
  • 56% são favoráveis à proibição total de estacionar no centro expandido, 49% aprovariam o aumento do rodízio para 2 dias na semana e 45% aceitariam de bom grado um imposto sobre os combustíveis para financiar o transporte público.

Podemos comemorar o fato de que boa parte dos paulistanos pretende dar sua contribuição individual em prol de uma melhoria coletiva, não é? Mas a mudança de cultural ainda precisa avançar muito.

“Não dá para pensar em mobilidade sem pensar em habitação”, afirmou Maurício Lopes, promotor do Ministério Público. De acordo com ele, para reduzir a necessidade de deslocamento mais empregos são necessários na periferia e mais habitações populares no centro. Por outro lado, estou acompanhando algumas discussões do Plano Diretor em que associações de moradores de bairros residenciais resistem ao adensamento em torno de eixos de transporte proposto pela prefeitura. Concordo que o tema é polêmico e que as alterações nas normas de uso do solo precisam ser muito cuidadosas. Mas não dá para querer preservar a todo custo quarteirões canadenses em meio a um padrão africano de urbanização. Teremos que negociar, repensar, buscar a melhoria da cidade para todos, o que significa inclusive diminuir a desigualdade territorial.

“Uso bastante transporte público e cada vez mais eu acho de mau gosto sair de casa de carro. Compre seu carro, mas no dia-a-dia deixe na garagem. Melhor usar só no final de semana, para viajar ou em casos especiais”. Quem falou isso foi o próprio Jilmar Tatto.

Estamos ou não num mundo novo? Nem tanto… Enquanto escrevia sobre poluição, ilhas de calor e mudanças culturais, minha vizinha veio pedir que eu derrube uma árvore que está em meu terreno para que as folhas não caiam na casa dela.

Não resisto a acrescentar esse mapa de caminhadas feito pelo pessoal do Sampa a Pé. Vamos nessa, ocupar as ruas sem motores!


124. Uma pausa para a revolução

Há bastante tempo eu vejo tudo fora de lugar. As prioridades dos governantes, as regras do mercado de trabalho, o consumismo, o ensino, a medicina, a obsolescência programada, o desperdício, a publicidade, o artificialismo, o sistema agroalimentar e a opção preferencial pelos automóveis, só para citar alguns dos absurdos cotidianos.

Acho que comecei a plantar por causa disso. Diante de problemas tão gigantescos, conseguir colher um pimentão sem agrotóxico no quintal e ajudar outras pessoas a produzir pelo menos uma pequena parte de sua própria comida me dá muito alento. Quero fazer parte das mudanças, mas prefiro a transição à ruptura. Sou a favor da metamorfose gradual, porém radical, dos rumos da nossa civilização.

Diante dos fatos das últimas semanas, percebo de forma cada vez mais evidente o colapso das estruturas atuais. E uma nova sociedade surgindo em meio ao caos.

Para dar passagem à polifonia do mundo e também à necessidade de reflexão e de ação da autora, esse blog silencia por enquanto. Será um curto período sabático (algumas semaninhas apenas), em que já estou me dedicando a germinar diversos novos projetos.

Nos 123 posts anteriores, que ficam à disposição, procurei registrar os sinais de transformação que já se anunciavam e alinhavar informações que podem ser úteis para quem pretende caminhar pela vida com simplicidade, em cooperação mútua e com respeito por todas as formas de vida.

Até breve!

121. Comida de verdade, tempo e lugar

Vamos respeitar a safra dos alimentos, dar preferência àqueles que foram produzidos na região e cozinhar com ingredientes frescos (se possível, orgânicos)?

Décadas atrás, deixamos de ver o almoço crescer, ciscar e pastar no quintal ou num sítio a poucos quilômetros de casa. Pouco a pouco, fomos esquecendo que a comida nasce da terra e passamos a achar que seu berço é aquela embalagem de isopor, plástico ou metal na gôndola do supermercado. Daí a desconsiderar totalmente que os alimentos têm safra foi um pulo.

Mas comida de verdade* continua com tempo certo de aparecer. E de desaparecer. Se conseguirmos reaprender isso, comeremos melhor e deixaremos de pressionar a agroindústria para fazer malabarismos que só prejudicam nossa saúde e a saúde do planeta. Isso porque forçar uma planta a dar frutos fora da época em geral significa usar mais adubos químicos, mais agrotóxicos, abrir mão de parte do sabor e dos nutrientes. Ou então implica em consumir algo produzido do outro lado do mundo e que veio até nós jogando muita fumaça na atmosfera, além, é claro, do desperdício aumentar exponencialmente com tantas milhas a percorrer entre o campo e a mesa.

Intuitivamente ainda temos uma noção da época de cada alimento. Abacaxi e manga são frutas de verão. Morango e tangerina, de inverno. Puxando pela memória e conversando com os mais velhos dá para redescobrir a sazonalidade (para facilitar, no blog da Nadia Cozzi tem a lista dos alimentos de outono: http://alimentopuro.blogspot.com.br/2013/04/frutas-e-hortalicas-de-outono-em-todo-o.html).

Então fica o convite para desprezar as embalagens coloridas dos milhares de produtos alimentícios industrializados feitos basicamente de açúcar, sal, farinha, gordura ruim, leite de má qualidade e carnes idem, soja e milho transgênicos. Em vez disso, que tal cozinhar com ingredientes orgânicos da safra? De preferência vindos de perto, o mais perto possível. Quem sabe da horta no quintal ou na esquina…

Com esse cenário ecogastronômico perfeito na cabeça, dia 14/3 entrei no supermercado Pão de Açúcar da Praça Panamericana, zona oeste de São Paulo. (Antes de continuar a história, uma explicação: evito os supermercados encomendando orgânicos que são entregues em casa. Mas nem tudo consigo desse modo, então de vez em quando lá vou eu empurrar o carrinho nos corredores cheios de tranqueira). Bom, naquele dia específico chamou minha atenção um monte de camarão fresco na barraca do peixe, em pleno período do defeso do camarão nas regiões Sul e Sudeste do país. Esse tal defeso é a resposta do setor pesqueiro à Instrução Normativa 189/2008 do Ibama que proíbe a captura do crustáceo de 1º de março a 31 de maio para que a espécie possa se reproduzir (http://www.ibama.gov.br/publicadas/comeca-hoje-defeso-do-camarao-no-sul-e-sudeste).

Resolvi falar sobre o defeso com o atendente dos pescados e ele disse que os camarões dali eram de cativeiro então estavam liberados. Pedi para ver a documentação. “Está lá em cima no escritório e demora para pegar” foi a resposta. Como tinha pressa (estou sempre com pressa), fui embora. Liguei para o SAC da empresa, que informou o assunto ser da alçada do gerente da loja, mas forneceu um número de protocolo (6538942) e a promessa de entrar em contato novamente. O que não ocorreu. Passaram-se duas semanas. Fui na loja outra vez e falei com a gerente que disse que a empresa enviou um comunicado interno esclarecendo sobre o defeso e falando que os camarões são de cativeiro blá-blá-blá. Pedi para ver o documento. Ela pegou meu cartão e disse que ia retornar. Uns 10 dias depois recebi um e-mail com um anexo explicando que o camarão cinza vendido naquela loja provem de fazendas de cultivo na costa do Piauí. No entanto, a loja estava vendendo mais tipos de camarão fresco, descritos como “rosa”, “grande” e outros nomes. Questionei e a funcionária não sabia o que responder. Disse que ia se informar e retornaria. Estou esperando até agora…

De qualquer modo, toda essa história de fazendas marinhas é questionável do ponto de vista socioambiental e o movimento Slow Food vem fazendo um trabalho bacana de levantar a cortina que esconde os bastidores nada apetitosos desses empreendimentos http://www.slowfoodbrasil.com/slowfish/peixe-limpo/bem-cultivado. E, no mínimo, é bem estranho ter camarão fresco vindo do Piauí num supermercado de São Paulo. Deve chegar de avião, o que já aumenta muito sua pegada de carbono.

Acho que o defeso do camarão, assim como a época da safra das frutas, verduras e legumes deveriam ser anunciados com  cartazes gritantes em todos os mercados, feiras e restaurantes. “Não estamos vendendo camarão fresco porque está na época do defeso”. “Teremos figo novamente apenas em agosto. Aproveite as tangerinas”. “Lichia? Só perto do Natal”.  “Mês que vem começa a safra da couve-flor”.  Já pensou?

* PS – Comida de verdade são aquelas coisas vivas, sem logotipo, que apodrecem a têm nomes simples como abacate, brócolis, cogumelo, ovo e rabanete.  O resto é produto alimentício ou, como diz um amigo, antialimento.

117. Tem horta na Paulista!

Sabe onde é isso? Av. Paulista quase esquina da Consolação.

Sabe o que é isso? O quarto mutirão da Horta Comunitária da Praça do Ciclista (um pedacinho de terra que começamos a cultivar em 12 de outubro). Em 2/12/2012 já deu para colher manjericão e ver tomatinhos aparecendo, além de couves quase no ponto de ir para a feijoada e muitas ervas culinárias crescidas e saudáveis. Nesse encontro especial demarcamos os canteiros, plantamos novidades (como feijão), fizemos pic-nic e aproveitamos a integração com o pessoal da Parada Veg, do Slow food, do Pedal Verde, do Bike Anjo e um monte de gente independente, livre, leve e feliz que apareceu lá para mexer na terra.

O pessoal sempre pergunta: não rola depredação? Não, não rola. A horta está sendo tratada com todo carinho por nós, cidadãos dessa cidade e desse planeta. Plantar comida no canteiro central de uma das principais avenidas dessa metrópole louca é utopia? É loucura? Não, já é realidade e isso é só o começo.

Yes, we can viver uma vida diferente e mais feliz.

(Fotos de Fernanda Danelon)

Para saber mais sobre a Horta do Ciclista: http://pt.wikiversity.org/wiki/Horta_do_Ciclista 

114. Menos carros e mais gente nas ruas

Em 21 e 22 de setembro (sexta e sábado) venha passar o dia em plena Avenida Paulista, curtindo um monte de atrações gratuitas engajadas/porém bacanérrimas. Acredito muito que cidades com menos automóveis são melhores para as pessoas e vale a pena brigar para chegar lá! 

No período de 16 a 22 de setembro milhares de locais pelo mundo terão eventos que chamam a atenção para a importância das cidades oferecerem transporte público decente e se tornarem mais amigáveis para pedestres e ciclistas. Já contei nesse blog como surgiu o Dia Mundial Sem Carro/Semana da Mobilidade e minhas experiências em anos anteriores. Se quiser saber mais, é só digitar “Dia Mundial Sem Carro” na ferramenta de busca aí na caixinha da direita que vão aparecer links para vários posts.

Em São Paulo, a programação 2012 está bem bacana e em breve será divulgada com mais detalhes. Dessa vez, junto com um monte de cidadãos e organizações que trabalham voluntariamente pela causa, mergulhei de cabeça no DMSC. Estou ajudando a organizar a Vaga Viva do dia 21 de setembro, sexta-feira. Trata-se de ocupar o espaço de três vagas de estacionamento durante o dia todo para sentir como seria ter as ruas de volta para nós, seres humanos. A prefeitura de São Paulo deu uma força, permitindo nosso “occupy” e estaremos na Rua Padre João Manoel, em frente ao Conjunto Nacional.

Resolvemos então fazer uma sala de estar no meio do mato em plena Avenida Paulista. Emprestamos tapetes, pufes, banquinhos, mesa e um monte de plantas e passaremos o dia batendo papo, jogando cartas, tomando um cafezinho, distribuindo mudas de árvores, recebendo amigos, estudantes e desconhecidos. É só chegar, sentar e ficar à vontade.

Essas são as atividades especiais (100% gratuitas) já agendadas:

  • 8h às 12h – CAFÉ NA FAIXA. Para sentir o conforto de atravessar a rua numa faixa de pedestres especial a ainda ganhar cafezinho de graça!
  • 10h às 11h – OFICINA DE COMPOSTAGEM com Claudio Spínola, da Morada da Floresta, que ensinará a transformar resíduos orgânicos em adubo com a utilização do sistema de minhocário
  • 12h às 13h30 – BATE-PAPO RIOS E RUAS com Luiz de Campos Jr e José Bueno. Uma conversa sobre as centenas de riachos e córregos de São Paulo que estão ocultos sob o asfalto e a importância deles na cidade onde vivemos. Em seguida, no Conjunto Nacional (próximo à entrada principal, na Paulista) haverá a montagem de um quebra-cabeças gigante (3m X 3m) que é o mapa da cidade mostrando só os rios, sem as ruas. Os participantes identificarão no quebra-cabeças os locais onde vivem e trabalham e conhecerão os córregos próximos. 
  • 13h30 – SHOW DO TRIO SINHÁ FLOR! O grupo de forró formado por Cimara Fróis, Talita Del Collado e Carol Bahiense vai animar a galera.
  • 15h– OFICINA HORTA URBANA + PROSA AGROECOLÓGICA. O pessoal da Casa Jaya, do Grupo Hortelões Urbanos e da Campanha Permamente Contra os Agrotóxicos e pela Vida vai mostrar como se monta uma horta orgânica em pequenos espaços.Até as 18 h estaremos lá. É só aparecer! E vou contando as novidades pelo Facebook (https://www.facebook.com/events/480518755306554/).

O dia seguinte, sábado, é a data real do Dia Mundial Sem Carro. Vai acontecer um eventaço na Praça do Ciclista: Praia na Paulista/Ocupe seu lugar ao sol no espaço público. https://www.facebook.com/events/418220194901104/

Se você, como eu, é um dos milhões de motoristas de São Paulo, aproveite a data para deixar o carro descansando na garagem e apareça a pé, de bike, ônibus ou metrô!

112. Minhocologia Avançada

Meus erros e acertos até conseguir cuidar direitinho das minhocas que transformam o lixo orgânico da minha casa em adubo.

Tenho minhocário desde 2009 e é para lá que vão as sobras da cozinha. O modelo básico, que consiste em três caixas retangulares de 60X40X20 cm, cabe em qualquer apartamento. E existem kits menores. Graças às minhocas, diminuímos muito a produção doméstica de lixo e fabricamos o húmus que aduba a horta. Elas devoram quase todo resíduo orgânico, inclusive guardanapos de papel (sem tinta), mas não podem receber alimentos de origem animal, muito gordurosos, salgados, limão, alho, cebola. O que já foi cozido e outros cítricos, apenas em quantidades mínimas.

Embora simples, o manejo do minhocário requer uma certa prática e por isso muita gente desiste. Como tempo, fui percebendo que é uma atividade parecida com cozinhar, em que tudo tem o ponto e a proporção certos. A mistura não pode ficar muito úmida nem muito seca. Os restos “apodrecíveis” precisam ficar embaixo de uma grossa camada de matéria morta (serragem grossa é a melhor opção – e lá vou eu buscar doação em serralherias).  E o ar precisa entrar, pois se o ambiente se tornar anaeróbio a mistura literalmente azeda.

Já errei bastante. No começo as minhocas quase desapareceram por excesso de matéria seca. Depois exagerei nos úmidos e ficou cheiro ruim. Até hoje, basta não cobrir direito para encher de mosquinhas de fruta. O pior foi a invasão de umas lesmas rastejantes que eu achei nojentas até descobrir num vídeo que se tratava da Black Soldier Fly (http://www.google.com.br/search?q=black+soldier+fly&hl=pt-BR&prmd=imvns&tbm=isch&tbo=u&source=univ&sa=X&ei=sF4YUNS2LJG60AGd9YC4Bg&ved=0CFUQsAQ&biw=1024&bih=641). Não são infectantes, mas deixam o composto fedido para caramba e um dia tive que jogar tudo em cima de um plástico para recolher uma por uma e acertar a mistura. Retirei mais de um quilo de lesmas, fiquei com um pouco de ânsia e vivi uma das experiências mais desafiadoras da minha vida. Mais tarde descobri que o sacrifício era desnecessário: bastaria acrescentar mais serragem e trazer um pouco de húmus de outra caixa que as lesmas desapareceriam com o tempo.

Aos poucos fui acertando a mão. A dica salvadora foi sempre deixar 2 cmde húmus no fundo ao iniciar uma nova caixa, assim as minhocas têm onde se refugiar caso haja algum desequilíbrio momentâneo no ambiente. Dizem que o ideal é encher cada recipiente em dois meses, assim dá tempo da decomposição ser total. Só que em casa completo uma caixa em dez dias, pois o volume de resíduos é grande. A solução foi “recompostar”, ou seja, usar no lugar da serragem pura o conteúdo das outras caixas enquanto os resíduos ainda não foram totalmente transformados naquela terrinha úmida e fofa que caracteriza o húmus. Isso aumentou muito a população de minhocas das caixas. E elas parecem muito felizes!

A princípio, a ideia de ter minhocas em casa e enfrentar o processo de decomposição dos resíduos orgânicos provoca uma certa aversão nos urbanóides. Comigo também foi assim. Mas rapidamente me acostumei com o minhocário e transformar lixo em adubo passou a ser uma rotina muito prazerosa. Não tenho nojo nenhum em mexer nas caixas e estou à disposição para ajudar quem está entrando para a turma da minhoca.

Algumas orientações preciosas pesquei nesse vídeo ótimo do permacultor e minhocólogo Claudio Spínola, da Morada da Floresta: http://www.youtube.com/watch?v=RITfvR3NyFw. Ele ensina até a fazer o próprio minhocário em casa.

Ótimo artigo com informações científicas sobre minhocas e agricultura aqui: http://estagiositiodosherdeiros.blogspot.com.br/2014/05/a-minhoca-na-agricultura.html?spref=fb

111. Tempestade química em copo d’água

Sabesp envia relatório sem uma palavra sobre contaminação química enquanto pesquisador da Unicamp encontra remédios, agrotóxicos e cafeína na água de 16 capitais brasileiras. Tomei uma chuva de informações e vejam o que descobri até agora.

Há dois meses recebi pelo correio o “Relatório Anual de Qualidade da Água – 2011”. Três páginas lotadas de letras miúdas e tabelas cheias de numerinhos. Fui informada que, dos mananciais que abastecem São Paulo, a Guarapiranga está em pior condição. Ganhou a nota “Regular, com presença de esgotos domésticos”. Depois de tratar a água, a Sabesp a avalia em cinco pontos: turbidez, cor, cloro, flúor e coliformes. Quanto aos tais coliformes fecais (nome tão feio quanto seu significado), a água da Guarapiranga chega às residências com níveis por volta de 700 enquanto na melhor represa – Rio Grande – não passam de 3. Foi tudo o que consegui compreender, pois o relatório é, ao que parece, propositadamente enigmático para leigos.

Quer conferir o relatório da Sabesp com seus próprios olhos? Está aqui: http://site.sabesp.com.br/uploads/file/relatorios_qualidade_agua/Inf_Qualidade_quant_mar2012.pdf.  Quer saber qual manancial abastece a sua casa? É só digitar o CEP em http://www.mananciais.org.br/de-onde-vem-a-agua/.

Bom, se a questão dos coliformes já me incomodou, fiquei pior ainda ao descobrir a pesquisa coordenada pelo Professor Wilson Jardim, da Unicamp. Saiu na capa do Jornal da Unicamp: http://www.unicamp.br/unicamp/ju/527/pot%C3%A1vel-por%C3%A9m-contaminada?goback=%2Egde_148258_member_123438606 . Uma equipe de 25 cientistas avaliou a água ofertada em 16 capitais brasileiras colhendo amostras do cano de entrada das residências. Entre outras substâncias, encontraram vestígios de cafeína, atrazina (herbicida), fenolftaleína (laxante) e triclosan (substância presente em produtos de higiene pessoal). Ou seja, quando um manancial é contaminado por esgotos ou água proveniente de lavouras que recebem agrotóxicos, esses compostos químicos não são 100% eliminados pelo tratamento.

Essa informação não aparece no relatório da Sabesp porque agrotóxicos, remédios e substâncias químicas em geral são contaminantes não legislados. Ou seja, as normas simplesmente os ignoram e ainda não foi estabelecido um limite legal para sua presença na água. Um item que tem preocupado especialmente os pesquisadores é o hormônio feminino proveniente da urina de mulheres que tomam pílula anticoncepcional (mais detalhes aqui: http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,o-impacto-do-filho-evitado-,889291,0.htm).

Com essa preocupação na cabeça, entrei no site da Sabesp e questionei a presença dos “contaminantes emergentes” (esse é o nome técnico). A resposta que recebi: “Prezada Senhora Claudia, em resposta à sua manifestação, informamos que o relatório da Sabesp só apresentou os parâmetros estabelecidos pelo Ministério da Saúde, pois não foi constatado nenhum tipo de contaminação dos mananciais. Como esclarecimento adicional, informamos também que nenhum país controla os produtos mencionados pelo Prof Wilson Jardim, visto que ainda não foi comprovado que estes sejam tóxicos ao ser humano”.

Do alto da minha ignorância em química e biologia, achei a argumentação cientificamente incorreta. Razão nº 1: o fato desses contaminantes comprometerem a vida aquática já seria motivo suficiente para controlá-los. Não só nos alimentamos de peixes & cia como outras espécies são indicadores importantes de riscos para os seres humanos. Não é por isso que remédios e cosméticos são testados em animais? Razão nº 2: Se não há prova de que as substâncias químicas da água da Sabesp são tóxicas aos seres humanos, muito menos evidências existem de que sejam totalmente seguras. Pelo princípio da precaução, atitudes deveriam ser tomadas.

Ao que parece, um dos principais toxicologistas do mundo concorda com a minha opinião. Em 25/6 fui à Cetesb assistir à palestra do norte-americano Tracy Collier, da National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA), que estuda o assunto há 40 anos. Olha só o título: “Impacto na saúde humana e nos ecossistemas dos contaminantes químicos em sistemas aquáticos – avaliação e gerenciamento de riscos”.

Alguns dados interessantes que o Dr. Collier divulgou:
• Depois de casos terríveis de contaminação aquática, há cerca de 50 anos os Estados Unidos endureceram a legislação ambiental das indústrias, que passaram a ter seus efluentes controlados. O maior problema hoje é a contaminação difusa, proveniente de esgoto doméstico, fazendas (não orgânicas) e vias pavimentadas.
• 30.000 diferentes compostos químicos são colocados em todo tipo de produto, de bateria de carro a biscoito de chocolate. Desses, apenas 4% são analisados rotineiramente e cerca de 400 são persistentes (não se desintegram no meio ambiente). 75% nunca tiveram seus efeitos colaterais estudados. Em contato umas com as outras, essas substâncias podem potencializar mutuamente seus efeitos ou formar outras descontroladamente.
• Na costa oeste dos Estados Unidos já são encontrados peixes com bactérias resistentes a antibióticos. Ou seja, tiveram contato com remédios que chegaram até lá pelo esgoto. Além disso, em alguns locais 90% dos peixes têm câncer de fígado.

Recado final do cientista: “Não podemos esperar para ter certeza de que esses contaminantes são prejudiciais. É preciso começar a agir já”.

A turma do deixa-disso ambiental costuma se defender dizendo que os resíduos químicos da água aparecem em quantidades muito pequenas. No entanto, ninguém comenta que esses contaminantes estão por toda parte além da água: no ar, na comida, nos produtos de limpeza, nos cosméticos, nos tecidos, em todos os plásticos e por aí vai. Não se faz as contas incluindo tudo que um ser humano entra em contato e nem a interação entre as substâncias.

Por trás desse cenário de abundância de produtos e escassez de conhecimento temos o fato da ciência também se constituir como um mercado de trabalho, sendo que as empresas (e não os institutos públicos ou independentes) oferecem os melhores salários. Assim, de um lado corporações se empenham em criar novas substâncias e patenteá-las para aumentar seus lucros. Do outro, centros de pesquisa lutam contra a eterna falta de verbas. Está explicado por que 30.000 substâncias pouco conhecidas povoam as gôndolas enquanto raríssimas pesquisas procuram entender se nossa saúde corre risco?

110. Os saquinhos de supermercado e a Rio+20

Se quase ninguém está disposto a sair da zona de conforto, como faremos as mudanças de estilo de vida necessárias para criar uma sociedade sustentável?

Imagine que você está num bote com alguns amigos passeando no mar. De repente, começa a entrar água. Dentro do bote, um par de remos, um balde bem grande e vários copinhos. Dois dos tripulantes são fortes e sarados. Os demais têm físico frágil. Os fracotes se reúnem para reclamar que os fortões deveriam remar e tirar a água do barco, mas não querem ajudar. E os fortões se recusam a fazer o trabalho sozinhos. Todos naufragam.

Essa historinha absurda me vem à cabeça toda vez que ouço pessoas bradarem contra a resolução que eliminou as sacolinhas plásticas gratuitas dos supermercados e comemorarem sua volta.

Claro que existem problemas ambientais muito mais graves do que os saquinhos plásticos. Também têm certa razão os que acusam os supermercados de aproveitar a onda das sacolas retornáveis para obter vantagens financeiras. Já falei sobre isso nesse blog e recebi uma chuva de reclamações, que provavelmente virão novamente depois do capenga enredo de naufrágio que inventei. Só menciono as particularidades saquinho-plásticas porque o assunto aqui é sair da zona de conforto.

A insustentabilidade do sistema em que vivemos não é novidade. Infelizmente, o bom andamento da política e da economia por enquanto são aferidos pelo consumo crescente que não poderá se manter por muito mais tempo, pois só temos à disposição esse planeta finito e já superexplorado. Então as circunstâncias nos convidam a iniciar mudanças de hábitos. Quanto antes começarmos, menos traumáticas serão. Levar a sacola para o supermercado é apenas um ínfimo exemplo de como reduzir impactos ambientais. Comer menos carne, usar menos carro, comprar menos, reutilizar mais, abandonar a agricultura à base de agrotóxicos, economizar água e energia das mais diversas formas são outros desafios que estão batendo à porta.

Vem aí a Rio+20 e a torcida do contra já está organizada. Muitos a consideram inútil, já que países e empresas e não se mostram dispostos a rever seus modos de agir na intensidade necessária para frear as mudanças climáticas, a desertificação, o desmatamento, a extinção de espécies e a contaminação do meio ambiente. Embora com mínimas expectativas de ver surgir uma revolução sustentável no evento, discordo. Acho que o evento vale a pena sobretudo por causa do encontro paralelo e extraoficial, a Cúpula dos Povos.

Estive na Rio 92 como jornalista e a experiência foi maravilhosa (veja aqui: http://conectarcomunicacao.com.br/blog/106-eu-fui-na-rio-92/). Ao longo dos anos fiquei sabendo de dúzias de livros, projetos e movimentos que nasceram no Fórum Global (assim se chamou o encontro alternativo daquela vez) e ajudam cada vez mais gente a viver bem preservando o meio ambiente e reduzindo a desigualdade social. São essas iniciativas que me enchem de esperança. E não é preciso ir à Cidade Maravilhosa para entrar na onda.

Para terminar, um conto de fadas do nosso tempo:

“Era uma vez uma floresta em chamas. Os animais se reuniram numa clareira para reclamar e apenas o beija-flor não compareceu ao triste encontro. Em vez disso, voava freneticamente para lá e para cá. Sem entender o que estava acontecendo, o elefante perguntou:

— O que faz você aí, pequeno beija-flor?

— Estou tentando apagar o fogo. Vou até o rio, encho meu bico de água, despejo nas labaredas e volto ao rio para pegar mais água.

Todos os animais riram muito. E o rei leão disse:

— Você não se enxerga, beija-flor? Com esse bico minúsculo não vai conseguir apagar coisa nenhuma.

Mas o beija-flor já estava longe, apressado, pois tinha muito trabalho a fazer.”

PS – O indiano Jadav Payeng faz parte da turma dos beija-flores. Durante 30 anos ele plantou sozinho e com as próprias mãos uma floresta que hoje tem 550 hectares e abriga até grandes mamíferos em risco de extinção como tigres e rinocerontes. Olha só que beleza: http://planetativo.com/2010/2012/04/o-homem-que-plantou-uma-floresta-sozinho/

108. Domingo no Parque

A turma dos Hortelões Urbanos se reuniu no centro de São Paulo em plena manhã dominical. E minha esperança no poder da amizade para transformar o mundo num lugar melhor cresceu mil pontos.

Finalmente aconteceu o Encontro dos Hortelões Urbanos/Pic-Nic de Trocas de Sementes e Mudas. Mesmo debaixo de garoa, no domingo 22/4 umas 60 pessoas apareceram no Parque da Luz, o mais antigo de São Paulo, ali do lado da histórica estação de trem. Gente de todo tipo, de todas as idades, das mais diferentes trajetórias, mas com algo em comum: a ideia de deixar esse mundo mais verde, de semear árvores, frutas, flores, hortaliças.

Tivemos uma mesa de pic-nic farta com os quitutes que cada um preparou. Na troca de espécies vegetais, apareceram desde singelos chuchus brotando e mudas de roseiras anãs até exóticas orquídeas, raízes de cúrcuma, bombas de sementes, frutas e flores que eu nunca tinha visto. Muito bom poder abraçar várias pessoas que conhecia só pelo Facebook e continuar ao vivo as conversas agroecológicas que acontecem todo dia no grupo Hortelões Urbanos. Melhor ainda a integração com os freqüentadores habituais dos pic-nics que a Juliana Gatti e a Daniela Cuevas vêm organizando há tempos. Que maravilha estar ali com a Tatiana Achcar, parceira querida!

Fizemos muito intercâmbio de plantas e técnicas agrícolas como há milênios nossos ancestrais já faziam. Mas nada seria possível sem as ferramentas da comunicação eletrônica. Que privilégio unir heranças arcaicas com tecnologias supermodernas, temperando a reunião com o mais puro calor humano.

Olha só o vídeo que a Nadia Cozzi fez para registrar o evento: http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=CuN7QWisg_c#!

102. Alimentos para um mundo melhor

Nesse sábado, dia 11 de fevereiro, vou dar um minicurso sobre consumo consciente de alimentos e horta doméstica. Será no Quintal dos Orgânicos (R. Fradique Coutinho, 1416, Vila Madalena) das 9 às 12h e a inscrição custa R$ 80.

Comecei a me interessar por orgânicos e agricultura urbana ao me dar conta de que toda vez que abro a geladeira, escolho um prato no restaurante ou faço a lista de supermercado estou mudando o mundo e minha vida para melhor ou para pior. Então passei a buscar escolhas alimentares que reduzem os impactos negativos na natureza, evitam doenças, promovem a justiça social e são muito mais nutritivas e saborosas. O que venho aprendendo e experimentando ao longo do anos vou compartilhar no curso.

A proposta é pensar globalmente e agir localmente. Na primeira parte, uma rápida explicação sobre os riscos da agricultura à base de agrotóxicos, as diferenças entre a produção orgânica e agroecológica e a importância de apoiar os pequenos produtores locais. Depois, um passeio pela agricultura urbana dos tempos modernos e muitas dicas para produzir alimentos no quintal de casa ou na varanda do apartamento.

Além de ter comida orgânica fresquinha em casa, plantando em casa você reduz o uso de embalagens, as emissões de gases do efeito estufa (não é preciso transportar a produção) e consegue presentear os amigos de uma forma sustentável. Para completar o pacote de vantagens, cuidar da horta é uma deliciosa terapia.

Se quiser participar mande um e-mail para claudia@conectar.com.br com as seguintes informações: Nome / Idade / Profissão / Telefones para contato / Por que essa oficina o interessa?

As vagas são limitadas e quem se inscrever com antecedência recebe como brinde especial produzido pelo Sabor de Fazenda: três mudas de ervas e terra adubada.