128. Cidade em Movimento

Uma pesquisa e opiniões de especialistas mostram uma revolução em curso no mundo dos transportes paulistanos. Ao que parece, a Carrocracia está com os dias contados.

Abaixo um resumo (com meus comentários) da pesquisa sobre mobilidade em São Paulo que a Rede Nossa São Paulo encomendou ao Ibope e foi divulgada em 16/09/2013 . Dados completos aqui: https://www.facebook.com/events/606105722766287/

  • Os paulistanos que usam automóvel diariamente (ou quase diariamente) para se locomover são apenas 27%. E basta uma olhada para os espaços públicos para constatar que a paisagem foi totalmente dominada por essa minoria (da qual ainda faço parte).
  • Contando deslocamento por deslocamento, o meio de transporte mais comum é a caminhada (54%) seguida por ônibus (24%), carro (14%), metrô (12%), lotação (9%), trem (8%), moto (3%) e bicicleta (2%).
  • Cerca de 50% das residências paulistanas contam com carro na garagem. Entre as famílias motorizadas, 80% possui apenas um veículo. 17% dois. Os multiveiculares são apenas 3%.
  • 47% dos paulistanos gasta entre 1 e 2 horas por dia para ir e voltar de sua atividade principal. A média chega a espantosos 2h15 se forem computados todos os deslocamentos.
  • Evangelina Vormittag, do Instituto Saúde e Sustentabilidade, lembrou que o modelo rodoviarista é o principal problema ambiental e de saúde de São Paulo. Além da poluição atmosférica (que mata mais do que cigarro por aqui), contribui para ilhas de calor, contaminação do solo, colisões e atropelamentos, sedentarismo forçado e poluição sonora. Para quem se interessa pelo assunto, um evento inteirinho sobre isso na próxima segunda-feira às 18h, na Câmara Municipal. (Inscrições aqui: http://viradadamobilidade.wordpress.com/programacao/palestras/inscricao-mobilidade-urbana-e-qualidade/)

A melhor notícia: o Império do Automóvel está com os dias contados.

  • 79% dos motorizados deixariam o carro em casa se tivessem uma boa alternativa de transporte público. Quanto a isso, tenho observado algo curioso: muitas pessoas que dizem essa frase nunca experimentam fazer seus trajetos cotidianos de ônibus ou metrô. Obviamente, a qualidade geral desse serviço é ruim na cidade. Mas existem horários e percursos muito bem servidos por transporte público e falo isso por experiência própria.
  • 93% são a favor da ampliação das faixas exclusivas de ônibus (86% entre os usuários freqüentes de automóvel). De acordo com Jilmar Tatto, Secretário Municipal dos Transportes, é para lá que vamos. Ele disse: “São Paulo tem hoje 120km de faixas exclusivas para ônibus e pretendemos implantar mais 150 km até 2016. O ideal seria chegar em 460km”. Analisando a fala completa do secretário,  percebi que, tecnicamente, transporte de larga escala seria atribuição do metrô, mas é quase impossível São Paulo chegar perto de Paris, que tem uma estação quase em cada esquina na região central. Vamos quebrar o galho com ônibus mesmo.  E os planos imediatos da prefeitura incluem uma reforma do sistema e até mesmo ações ousadas como um concurso para criação de aplicativos que ajudem o usuário a saber em tempo real quando chegam e para onde vão os ônibus que passam no ponto onde ele está .
  • 56% são favoráveis à proibição total de estacionar no centro expandido, 49% aprovariam o aumento do rodízio para 2 dias na semana e 45% aceitariam de bom grado um imposto sobre os combustíveis para financiar o transporte público.

Podemos comemorar o fato de que boa parte dos paulistanos pretende dar sua contribuição individual em prol de uma melhoria coletiva, não é? Mas a mudança de cultural ainda precisa avançar muito.

“Não dá para pensar em mobilidade sem pensar em habitação”, afirmou Maurício Lopes, promotor do Ministério Público. De acordo com ele, para reduzir a necessidade de deslocamento mais empregos são necessários na periferia e mais habitações populares no centro. Por outro lado, estou acompanhando algumas discussões do Plano Diretor em que associações de moradores de bairros residenciais resistem ao adensamento em torno de eixos de transporte proposto pela prefeitura. Concordo que o tema é polêmico e que as alterações nas normas de uso do solo precisam ser muito cuidadosas. Mas não dá para querer preservar a todo custo quarteirões canadenses em meio a um padrão africano de urbanização. Teremos que negociar, repensar, buscar a melhoria da cidade para todos, o que significa inclusive diminuir a desigualdade territorial.

“Uso bastante transporte público e cada vez mais eu acho de mau gosto sair de casa de carro. Compre seu carro, mas no dia-a-dia deixe na garagem. Melhor usar só no final de semana, para viajar ou em casos especiais”. Quem falou isso foi o próprio Jilmar Tatto.

Estamos ou não num mundo novo? Nem tanto… Enquanto escrevia sobre poluição, ilhas de calor e mudanças culturais, minha vizinha veio pedir que eu derrube uma árvore que está em meu terreno para que as folhas não caiam na casa dela.

Não resisto a acrescentar esse mapa de caminhadas feito pelo pessoal do Sampa a Pé. Vamos nessa, ocupar as ruas sem motores!


114. Menos carros e mais gente nas ruas

Em 21 e 22 de setembro (sexta e sábado) venha passar o dia em plena Avenida Paulista, curtindo um monte de atrações gratuitas engajadas/porém bacanérrimas. Acredito muito que cidades com menos automóveis são melhores para as pessoas e vale a pena brigar para chegar lá! 

No período de 16 a 22 de setembro milhares de locais pelo mundo terão eventos que chamam a atenção para a importância das cidades oferecerem transporte público decente e se tornarem mais amigáveis para pedestres e ciclistas. Já contei nesse blog como surgiu o Dia Mundial Sem Carro/Semana da Mobilidade e minhas experiências em anos anteriores. Se quiser saber mais, é só digitar “Dia Mundial Sem Carro” na ferramenta de busca aí na caixinha da direita que vão aparecer links para vários posts.

Em São Paulo, a programação 2012 está bem bacana e em breve será divulgada com mais detalhes. Dessa vez, junto com um monte de cidadãos e organizações que trabalham voluntariamente pela causa, mergulhei de cabeça no DMSC. Estou ajudando a organizar a Vaga Viva do dia 21 de setembro, sexta-feira. Trata-se de ocupar o espaço de três vagas de estacionamento durante o dia todo para sentir como seria ter as ruas de volta para nós, seres humanos. A prefeitura de São Paulo deu uma força, permitindo nosso “occupy” e estaremos na Rua Padre João Manoel, em frente ao Conjunto Nacional.

Resolvemos então fazer uma sala de estar no meio do mato em plena Avenida Paulista. Emprestamos tapetes, pufes, banquinhos, mesa e um monte de plantas e passaremos o dia batendo papo, jogando cartas, tomando um cafezinho, distribuindo mudas de árvores, recebendo amigos, estudantes e desconhecidos. É só chegar, sentar e ficar à vontade.

Essas são as atividades especiais (100% gratuitas) já agendadas:

  • 8h às 12h – CAFÉ NA FAIXA. Para sentir o conforto de atravessar a rua numa faixa de pedestres especial a ainda ganhar cafezinho de graça!
  • 10h às 11h – OFICINA DE COMPOSTAGEM com Claudio Spínola, da Morada da Floresta, que ensinará a transformar resíduos orgânicos em adubo com a utilização do sistema de minhocário
  • 12h às 13h30 – BATE-PAPO RIOS E RUAS com Luiz de Campos Jr e José Bueno. Uma conversa sobre as centenas de riachos e córregos de São Paulo que estão ocultos sob o asfalto e a importância deles na cidade onde vivemos. Em seguida, no Conjunto Nacional (próximo à entrada principal, na Paulista) haverá a montagem de um quebra-cabeças gigante (3m X 3m) que é o mapa da cidade mostrando só os rios, sem as ruas. Os participantes identificarão no quebra-cabeças os locais onde vivem e trabalham e conhecerão os córregos próximos. 
  • 13h30 – SHOW DO TRIO SINHÁ FLOR! O grupo de forró formado por Cimara Fróis, Talita Del Collado e Carol Bahiense vai animar a galera.
  • 15h– OFICINA HORTA URBANA + PROSA AGROECOLÓGICA. O pessoal da Casa Jaya, do Grupo Hortelões Urbanos e da Campanha Permamente Contra os Agrotóxicos e pela Vida vai mostrar como se monta uma horta orgânica em pequenos espaços.Até as 18 h estaremos lá. É só aparecer! E vou contando as novidades pelo Facebook (https://www.facebook.com/events/480518755306554/).

O dia seguinte, sábado, é a data real do Dia Mundial Sem Carro. Vai acontecer um eventaço na Praça do Ciclista: Praia na Paulista/Ocupe seu lugar ao sol no espaço público. https://www.facebook.com/events/418220194901104/

Se você, como eu, é um dos milhões de motoristas de São Paulo, aproveite a data para deixar o carro descansando na garagem e apareça a pé, de bike, ônibus ou metrô!

89. DMSC, the day after

Acordo com a alma leve após deixar o carro estacionado por um dia, vou olhar as notícias e logo fico entediada. A maioria dos veículos de informação, além de adotar o sarcasmo, requentou a notícia dos anos anteriores. E tome infinitas variações da manchete “No Dia Mundial Sem Carro, a cidade teve congestionamentos”.

Não existem mais pauteiros? Se eles ainda sobrevivem, por que não interditam o repeteco ad infinitum das mesmas bobeiras em cada efeméride do calendário? A próxima – prepare-se – é o Dia das Crianças. Quantas vezes teremos que ver lojas de brinquedos abarrotadas e personagens declarando “Estou aqui para comprar a Barbie X e o carrinho Y para meus filhos (ou sobrinhos ou netos)”. E, é bom lembrar, este será apenas o aquecimento para o grande evento midiático chamado Natal, com seu show de matérias clichê.

É tão difícil assim fazer uma reportagem de fôlego sobre o movimento da sociedade civil que busca devolver à pessoas os espaços públicos que os automóveis surrupiaram? Alô, pessoal das redações: se aqui a mobilização engatinha (mas ganha cada vez mais adeptos e manifestações criativas), sua força política nos países ricos é bem maior. Também fico embasbacada com as conversas que ouço por aí. Comentário frequente: “Esse DMSC não funciona mesmo”. Em seguida, o cidadão entra no possante e sai acelerando. Curiosamente, muitos dos que agem assim voam para a Europa ou para Nova York nas férias e voltam maravilhados porque lá usaram transporte público, caminharam nas ruas e puderam tomar café na calçada sem tanta fumaça em volta.

Ontem, indo a pé com uma amiga e nossos cachorros buscar minha filha na escola, levei uma bronca de uma senhora porque estava pisando na grama da calçada dela. Respondi que o lugar deixado para passagem era insuficiente (tinha no máximo 40 cm de largura). Ela continuou me repreendendo e avisou que deveríamos caminhar em fila indiana para preservar sua grama. Ou seja, esse negócio de passear pela rua conversando está abolido! Fui me informar sobre o assunto e agora respondo com o respaldo da lei: “Minha senhora, a largura mínima determinada por lei para o pedestre é 1,20m”.

87. Vamos ao passeio público?

É a hora e a vez de quem sonha com ruas melhores para as pessoas. O Dia Mundial Sem Carro acontece em 22/9, próxima quinta-feira. No sábado, um encontro/passeata bem divertido na Paulista.

Chegou a Semana da Mobilidade, que começou16/9 (sexta feira) e vai até sábado, dia 24. O movimento brasileiro é inspirado pela “European Mobility Week”, que está em sua décima edição e tem atualmente quase 2 mil cidades participantes. A história vem de 1999, quando a União Europeia criou a campanha “In Town Without My Car” . No ano seguinte, o evento se tornou o Dia Mundial sem Carro (World Carfree Day) que, por sua vez, deu origem à “World Carefree Network” (http://www.worldcarfree.net/).

Tudo isso existe para repensar o modelo atual de urbanismo, que transfigurou as cidades em favor dos carros. Ou seja, o objetivo é tornar os espaços públicos mais agradáveis para a convivência humana, com transporte coletivo de qualidade, mais proteção e infra para quem quer andar a pé ou de bike.

Aqui, na maior cidade do país, quem organiza a Semana da Mobilidade é o Movimento Nossa São Paulo. Estive na Câmara Municipal assistindo ao evento de abertura, que focou em melhorias para pedestres e ciclistas. Os debatedores foram Assuncion Blanco (integrante do Nossa São Paulo), João Ribas e Sérgio Faria (ativistas pró-inclusão de portadores de deficiência), Carlos Aranha, da ONG Associação dos Ciclistas Urbanos de São Paulo (www.ciclocidade.org) e Patricia Gejer, representante do Movimento Chega de Acidentes (www.chegadeacidentes.com.br). A descrição completa do encontro está em http://www.nossasaopaulo.org.br/portal/node/16910.

Embora na platéia houvesse apenas cerca de 50 cidadãos, fiquei impressionada com o alto nível do debate e a representatividade do grupo. Quase todos estavam ali em nome de associações que estão se articulando para tornar São Paulo um lugar melhor para todos. Todos mesmo, o que significa  incluir idosos, crianças e portadores de deficiência. Curiosamente, as adaptações que tornam as ruas acessíveis para os mais frágeis são justamente as que todos os chamados “normais” também precisam para estar no espaço público confortavelmente. Parece óbvio, mas está longe de ser.

Mesmo após ouvir tanto sobre os enormes problemas de locomoção em Sampa, saí otimista por várias razões, incluindo o fato da discussão ter chegado ao Salão Nobre por Poder Legislativo municipal, o que já tem muito valor simbólico. Há até um motivo pessoal: consegui deixar o carro em casa e fazer o trajeto Alto de Pinheiros/Centro num esquema bike+metrô+caminhada, algo impossível até pouco tempo atrás.

Então prepare-se que nos próximos dias o assunto estará em pauta, com a agitação no auge quinta-feira, o Dia Mundial Sem Carro ( já combinei com a filhota que voltaremos a pé da escola). No sábado, dia 24, acontecerá a Passeata pelo Plano de Mobilidade de São Paulo. A concentração será às 15h no vão livre do MASP e mais detalhes estão no Facebook: http://www.facebook.com/#!/event.php?eid=256140657741343. Olha só o clima do convite: “A Secretaria de Transportes da cidade de São Paulo tem R$15 milhões previstos no orçamento desse ano para fazer um plano de mobilidade e ainda não começou! Venha com a gente retomar a cidade. Ela é nossa. Saia da sua bolha e traga bolhas de sabão. Caminhar é preciso!”

Vamos?

83. Desacelere mesmo

Embalados pela velocidade, jovens matam jovens na madrugada de São Paulo. E eu penso que está na hora de aposentar o culto ao automóvel.

Volto ao assunto carro mais cedo do que gostaria porque ele não me sai da cabeça. Dias atrás, relatei o encontro “Cidades, bicicletas e o futuro da mobilidade”  (veja embaixo do post da horta) que apontou alguns caminhos para deixar a metrópole mais acolhedora para as bicicletas e os pedestres. Agora o noticiário foi tomado pela consternação devido à morte dos jovens Vitor Gurman e Carolina Cintra Santos, atropelados por carrões na madrugada paulistana.

De um lado, uma turma alega preconceito por parte de quem culpa o Porsche e o Land Rover pelas fatalidades. Como se a inveja pela situação financeira privilegiada dos atropeladores estivesse comprometendo o justo julgamento dos casos. Do outro, há quem torça para que as penas para Gabriella Guerrero Pereira e Marcelo Malvio Alvez de Lima (os atropeladores) sejam as mais severas possíveis.

Eu só espero que o momento traga sobretudo reflexão. Fico intrigada com o fato de vítimas e acusados terem perfis tão semelhantes. Mesma faixa etária, mesma situação social. Como ninguém é 100% bom ou mau, acho complicado tentar transformar uns em anjos e outros em demônios. Quem perdeu a vida (e também seus familiares e amigos justamente revoltados) provavelmente, como eu, já teve atitudes imprudentes no trânsito. E quem atropelou — assim como seus familiares, amigos e eu — também poderia ter perdido a vida num acidente de trânsito. Dito isso, afirmo que tenho enorme empatia por Vitor Gurman, que não cheguei a conhecer. Pelo que li nos jornais, ele estava abandonando o carro em prol das caminhadas e voltava para casa poeticamente a pé depois de uma festa.

Ambas as notícias provocaram colisões de ideias na minha mente e novas atitudes no meu cotidiano, que compartilho agora:

  •   Dirigir devagar – A atitude mais efetiva e imediata que podemos tomar para evitar acidentes é essa. Eu já comecei e tenho me sentido zen.    
  •  Praticar a tecnodiversidade nas ruas – Quanto mais variarmos os meios de transporte, melhor. Para muitas pessoas (entre as quais me incluo), abandonar de vez o carro ainda não é possível. Mas vale a pena incluir no cotidiano trajetos percorridos de ônibus, metrô, bicicleta e a pé. Um motorista que também é pedestre e ciclista tende a respeitá-los mais.
  • Ter carro não é tudo. A marca do carro não importa – Ao contrário do que afirma a publicidade, ninguém se torna melhor ou mais importante porque dirige um carrão importado. Como diz o sociólogo Eduardo Vasconcellos, precisamos combater a ideia predominante em nossa sociedade de que “quem não tem carro não tem valor”. (http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20110724/not_imp749125,0.php
  • Tanques de guerra e carros de corrida são inadequados para as ruas e estradas – Os monstrengos do tipo SUV oprimem e atrapalham a visão dos demais. O Porsche, que vai de zero a 100km/h em 5 segundos, é um míssil difícil de controlar. Blindagens contribuem para a sensação de invulnerabilidade. Todas as opções anteriores tendem a nos fazer esquecer que nem sempre a violência está lá fora na forma de um bandido. Nosso comportamento e nosso equipamento no trânsito também podem ser muito violentos.
  • As propagandas de carro cada vez me revoltam mais – Outro dia, o anúncio de um novo veículo mostrava uma mulher e sugeria que o dirigir o tal carro era como “estar de salto alto” no trânsito. Subliminarmente, respondia à insegurança feminina em relação à violência das ruas com a promessa de um carro mais robusto. Ou seja, numa batida o impacto maior ficaria para o outro. Não lembro a marca e, se alguém achar o anúncio, por favor me envie o link para eu reproduzir aqui.
  • Educar para proteger a vida e escapar do culto ao automóvel – A combinação álcool + velocidade é mortífera e não adianta esperar o filho fazer 18 anos para ter essa conversa. Desde muito cedo as crianças vão incorporando o código de valores da família e do grupo social a que pertencem e não é à toa que, hoje em dia, muitos adolescentes acreditam que o ápice de sua existência iniciará quando finalmente chegarem ao volante. Essa mentalidade precisa ser questionada desde a primeira infância. 

Vem aí 22 de setembro, o Dia Mundial Sem Carro (http://diamundialsemcarro.ning.com/).Vamos desligar os motores?

44. Uma paixão cafageste

No day-after Sem Carro, penso que não é coisa boa o tão aclamado amor pelos automóveis que dizem ser característica dos brasileiros.

Nunca antes nesse país tanta gente dedicou tanta energia e tanto dinheiro para ostentar um automóvel. Boa parte do orçamento doméstico da classe emergente está sendo investida em prestação de carro, combustível, estacionamento, IPVA e multa. Nem tenho a pretensão de criticar, já que há 25 anos ando por aí motorizada.

O que me incomoda mesmo são as afirmações de a paixão por carro é uma característica natural do povo brasileiro. Para mim, trata-se do resultado de uma supereficiente campanha mercadológica. Durante as últimas seis décadas, megaempresas (de olho em altos lucros) se uniram a sucessivos governos (de olho em altos impostos) para encher o país de carros. E conseguiram!

Se quisermos entender por que hoje temos ruas congestionadas, estradas assassinas e um ex-sindicalista do ABC na presidência, devemos olhar o que aconteceu lá atrás. Tudo começou nos anos 50, quando Juscelino Kubitschek teve a ideia de tornar a indústria automobilística o motor do progresso do país.

Meus pais são da época em que se viajava de trem e nas cidades do interior onde moravam o transporte era a pé ou de charrete. Não me parece que os carros fizeram falta em sua infância e juventude. Mas aí o governo resolveu arrancar as vias férreas, sabotar o transporte coletivo e dificultar ao máximo a vida dos pedestres. Hoje, todo mundo prefere andar de carro, inclusive Seu Mario e Dona Wanda.

Pelo menos por enquanto, eu preciso do automóvel. Não me empolgo com novos modelos nem acredito em expressar minha personalidade por meio do veículo que dirijo. Se bem que, naturalmente, isso acaba acontecendo… Tenho uma Zafira 2005 (carro de mãe) de estilo involuntariamente ecológico. Como a garagem de casa é descoberta, a máquina vestiu-se de folhas e cocô de passarinho.

Hoje é o day after do Dia Mundial Sem Carro. Como esperado, a mídia constatou que os níveis de congestionamento não se abalam um centímetro com a iniciativa. Mas coisinhas pitorescas aconteceram e a metrópole ficou um pouco mais humana. Uma turma foi passear a cavalo na Avenida Paulista. Grupos de ciclistas ocuparam as ruas. Jornalistas de O Estado de São Paulo tiveram que se virar para chegar ao trabalho sem seus veículos. Políticos fizeram demagogia passeando de ônibus. E o SOS Mata Atlântica lançou a divertidíssima campanha “Vá de galinha” (http://vadegalinha.org.br/).

Juro que agora chega de falar de carro. Semana que vem espero trazer algum assunto mais perfumado.

Como diria meu amigo Flávio: feliz primavera para você!

42. O cigarro do século XXI

22 de setembro (4ª feira) é o Dia Mundial Sem Carro. Que tal uma caminhada na rua para refletir sobre nossa dependência dos automóveis?

Não sei de quem é a frase “O carro é o cigarro do século XXI”, mas achei genial. Realmente, há uns 100 anos fumar era uma atitude sexy, que tinha a ver com sucesso, inteligência, liberdade, masculinidade e, posteriormente, liberação feminina. O recado subconsciente das baforadas era “sou dono do meu nariz, uma pessoa bem resolvida”. 

Qualquer semelhança entre a linguagem e os símbolos utilizados na publicidade da era de ouro do tabagismo com as propagandas de automóveis hoje em dia não é mera coincidência. Eu acredito nisso e não estou sozinha. Nos meus arquivos, tenho uma reportagem do jornal O Estado de São Paulo, que noticia, em 29/5/2008, o projeto de restrição à publicidade de automóveis na União Européia. A proibição valeria, entre outras coisas, para conceitos como “prazer de dirigir”. De lá para cá, não consegui mais rastrear o assunto e fiquei sem saber se está valendo. (Andréia, minha querida amiga que está fazendo pós em Londres: vc tem alguma informação a esse respeito?)

Foi na Europa que surgiu o Dia Mundial Sem Carro. Desde 2000, um movimento chamado World Carfree Network (www.worldcarfree.net) promove em todo o mundo ações para valorizar opções coletivas ou alternativas de transporte urbano (ônibus, metrô, andar a pé ou de bicicleta). No ano passado, mas de 1.000 cidades em 40 países participaram, incluindo o Brasil.

É claro veremos na mídia quase todo mundo tripudiando em cima da data. Alguns políticos posarão para foto apertadinhos no ônibus (os mesmos que não investem em transporte público) enquanto as ruas estarão congestionadas como sempre. Nas edições passadas do Dia Mundial Sem Carro, o clima das conversas era de ceticismo. Ouvi várias vezes comentários do tipo “Tá vendo como isso não funciona? He, he, he!”. Nessas horas não consigo responder, mas fico pensando: claro que não funciona, só os poucos “eco-xiitas” levam a sério…

Sinceramente, não entendo qual é a graça em torcer contra essa iniciativa. Aqui em São Paulo vivemos um final de inverno desértico e poluído por duas razões: falta de árvore e excesso de carro na rua. Os pronto-socorros ficaram lotados de pessoas com problemas respiratórios e a indústria automobilística acha que a média de um automóvel para cada sete pessoas no Brasil ainda é muito baixa (http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mercado/me1409201005.htm) . O objetivo desse pessoal é chegar a 2 carros por habitante, como nos Estados Unidos.  

Com dois filhos para levar a inúmeras atividades, eu infelizmente não consigo (ou não tento o suficiente) viver sem automóvel. Mas pretendo fazer um modesto ritual anticarro na quarta, como no ano passado. Em 2009, meus filhos e eu comemoramos a data voltando da escola a pé. São cerca de 2 km. A ideia foi minha e as crianças, obviamente, reclamaram bastante no começo. Mas os resmungos aos poucos foram dando lugar a uma conversa interessante sobre o dia-a-dia das pessoas que não têm carro e sobre os outros meios de transporte que existem. No meio do caminho, paramos na padaria para um lanche. Foi um passeio maravilhoso.