114. Menos carros e mais gente nas ruas

Em 21 e 22 de setembro (sexta e sábado) venha passar o dia em plena Avenida Paulista, curtindo um monte de atrações gratuitas engajadas/porém bacanérrimas. Acredito muito que cidades com menos automóveis são melhores para as pessoas e vale a pena brigar para chegar lá! 

No período de 16 a 22 de setembro milhares de locais pelo mundo terão eventos que chamam a atenção para a importância das cidades oferecerem transporte público decente e se tornarem mais amigáveis para pedestres e ciclistas. Já contei nesse blog como surgiu o Dia Mundial Sem Carro/Semana da Mobilidade e minhas experiências em anos anteriores. Se quiser saber mais, é só digitar “Dia Mundial Sem Carro” na ferramenta de busca aí na caixinha da direita que vão aparecer links para vários posts.

Em São Paulo, a programação 2012 está bem bacana e em breve será divulgada com mais detalhes. Dessa vez, junto com um monte de cidadãos e organizações que trabalham voluntariamente pela causa, mergulhei de cabeça no DMSC. Estou ajudando a organizar a Vaga Viva do dia 21 de setembro, sexta-feira. Trata-se de ocupar o espaço de três vagas de estacionamento durante o dia todo para sentir como seria ter as ruas de volta para nós, seres humanos. A prefeitura de São Paulo deu uma força, permitindo nosso “occupy” e estaremos na Rua Padre João Manoel, em frente ao Conjunto Nacional.

Resolvemos então fazer uma sala de estar no meio do mato em plena Avenida Paulista. Emprestamos tapetes, pufes, banquinhos, mesa e um monte de plantas e passaremos o dia batendo papo, jogando cartas, tomando um cafezinho, distribuindo mudas de árvores, recebendo amigos, estudantes e desconhecidos. É só chegar, sentar e ficar à vontade.

Essas são as atividades especiais (100% gratuitas) já agendadas:

  • 8h às 12h – CAFÉ NA FAIXA. Para sentir o conforto de atravessar a rua numa faixa de pedestres especial a ainda ganhar cafezinho de graça!
  • 10h às 11h – OFICINA DE COMPOSTAGEM com Claudio Spínola, da Morada da Floresta, que ensinará a transformar resíduos orgânicos em adubo com a utilização do sistema de minhocário
  • 12h às 13h30 – BATE-PAPO RIOS E RUAS com Luiz de Campos Jr e José Bueno. Uma conversa sobre as centenas de riachos e córregos de São Paulo que estão ocultos sob o asfalto e a importância deles na cidade onde vivemos. Em seguida, no Conjunto Nacional (próximo à entrada principal, na Paulista) haverá a montagem de um quebra-cabeças gigante (3m X 3m) que é o mapa da cidade mostrando só os rios, sem as ruas. Os participantes identificarão no quebra-cabeças os locais onde vivem e trabalham e conhecerão os córregos próximos. 
  • 13h30 – SHOW DO TRIO SINHÁ FLOR! O grupo de forró formado por Cimara Fróis, Talita Del Collado e Carol Bahiense vai animar a galera.
  • 15h– OFICINA HORTA URBANA + PROSA AGROECOLÓGICA. O pessoal da Casa Jaya, do Grupo Hortelões Urbanos e da Campanha Permamente Contra os Agrotóxicos e pela Vida vai mostrar como se monta uma horta orgânica em pequenos espaços.Até as 18 h estaremos lá. É só aparecer! E vou contando as novidades pelo Facebook (https://www.facebook.com/events/480518755306554/).

O dia seguinte, sábado, é a data real do Dia Mundial Sem Carro. Vai acontecer um eventaço na Praça do Ciclista: Praia na Paulista/Ocupe seu lugar ao sol no espaço público. https://www.facebook.com/events/418220194901104/

Se você, como eu, é um dos milhões de motoristas de São Paulo, aproveite a data para deixar o carro descansando na garagem e apareça a pé, de bike, ônibus ou metrô!

113. Em vez de reclamar, vamos melhorar São Paulo?

Se existem mil motivos para falar mal de São Paulo, também há infinitos jeitos de dar uma contribuição para a cidade ficar melhor. Superfeliz por estar acompanhando diversas iniciativas que pretendem tornar a metrópole um lugar melhor para viver, vou compartilhar algumas delas, torcendo para que ganhem força e mais apoiadores.

 

  • Duas hortas comunitárias estão nascendo na cidade, ambas ligadas ao movimento dos Hortelões Urbanos. A primeira fica na Praça das Corujas (Vila Madalena) e já está na fase de plantio. Fizemos um blog para contar como anda o projeto www.hortadascorujas.wordpress.com e estamos recebendo voluntários de braços abertos. Os mutirões acontecem nos finais de semana. Os próximos serão em 19/8 (domingo) e 25/8 (sábado) a partir das 9h. A outra, ainda em fase de planejamento, será instalada no Centro Cultural São Paulo (Metrô Vergueiro) e também busca voluntários. Se quiser participar, mande uma mensagem para mim ou comente esse post que coloco você em contato com quem está fazendo o projeto.

 

  • Semana passada participei do Seminário “Compostagem na Cidade de São Paulo: Gestão Adequada dos Resíduos Orgânicos”. Foi na Câmara dos Vereadores, um momento histórico que marcou o início das atividades da Comissão Pró-Viabilização da Compostagem na Cidade de São Paulo. Esse grupo, integrado por representantes do poder público e da sociedade civil, está buscando maneiras de tornar a compostagem uma política pública, reduzindo muito a geração de lixo e ainda produzindo adubo orgânico de alta qualidade dentro da metrópole. Para saber mais:  http://www.moradadafloresta.org.br/artigos/compostagem-na-cidade-de-sao-paulo/618-propostas-pro-compostagem-na-cidade-de-sao-paulo

 

 

  • No sábado dia 25/8 darei o curso Hortas na Metrópole, no Quintal dos Orgânicos (Rua Fradique Coutinho, 1416, Vila Madalena). Vou falar sobre as melhores espécies de vegetais para começar o plantio doméstico, como escolher o local onde os vasos e/ou canteiros ficarão, como preparar a terra e os cuidados necessários para as plantas crescerem fortes e saudáveis. Custa R$ 60 e as inscrições podem ser feitas pelo e-mail claudia@conectar.com.br.

112. Minhocologia Avançada

Meus erros e acertos até conseguir cuidar direitinho das minhocas que transformam o lixo orgânico da minha casa em adubo.

Tenho minhocário desde 2009 e é para lá que vão as sobras da cozinha. O modelo básico, que consiste em três caixas retangulares de 60X40X20 cm, cabe em qualquer apartamento. E existem kits menores. Graças às minhocas, diminuímos muito a produção doméstica de lixo e fabricamos o húmus que aduba a horta. Elas devoram quase todo resíduo orgânico, inclusive guardanapos de papel (sem tinta), mas não podem receber alimentos de origem animal, muito gordurosos, salgados, limão, alho, cebola. O que já foi cozido e outros cítricos, apenas em quantidades mínimas.

Embora simples, o manejo do minhocário requer uma certa prática e por isso muita gente desiste. Como tempo, fui percebendo que é uma atividade parecida com cozinhar, em que tudo tem o ponto e a proporção certos. A mistura não pode ficar muito úmida nem muito seca. Os restos “apodrecíveis” precisam ficar embaixo de uma grossa camada de matéria morta (serragem grossa é a melhor opção – e lá vou eu buscar doação em serralherias).  E o ar precisa entrar, pois se o ambiente se tornar anaeróbio a mistura literalmente azeda.

Já errei bastante. No começo as minhocas quase desapareceram por excesso de matéria seca. Depois exagerei nos úmidos e ficou cheiro ruim. Até hoje, basta não cobrir direito para encher de mosquinhas de fruta. O pior foi a invasão de umas lesmas rastejantes que eu achei nojentas até descobrir num vídeo que se tratava da Black Soldier Fly (http://www.google.com.br/search?q=black+soldier+fly&hl=pt-BR&prmd=imvns&tbm=isch&tbo=u&source=univ&sa=X&ei=sF4YUNS2LJG60AGd9YC4Bg&ved=0CFUQsAQ&biw=1024&bih=641). Não são infectantes, mas deixam o composto fedido para caramba e um dia tive que jogar tudo em cima de um plástico para recolher uma por uma e acertar a mistura. Retirei mais de um quilo de lesmas, fiquei com um pouco de ânsia e vivi uma das experiências mais desafiadoras da minha vida. Mais tarde descobri que o sacrifício era desnecessário: bastaria acrescentar mais serragem e trazer um pouco de húmus de outra caixa que as lesmas desapareceriam com o tempo.

Aos poucos fui acertando a mão. A dica salvadora foi sempre deixar 2 cmde húmus no fundo ao iniciar uma nova caixa, assim as minhocas têm onde se refugiar caso haja algum desequilíbrio momentâneo no ambiente. Dizem que o ideal é encher cada recipiente em dois meses, assim dá tempo da decomposição ser total. Só que em casa completo uma caixa em dez dias, pois o volume de resíduos é grande. A solução foi “recompostar”, ou seja, usar no lugar da serragem pura o conteúdo das outras caixas enquanto os resíduos ainda não foram totalmente transformados naquela terrinha úmida e fofa que caracteriza o húmus. Isso aumentou muito a população de minhocas das caixas. E elas parecem muito felizes!

A princípio, a ideia de ter minhocas em casa e enfrentar o processo de decomposição dos resíduos orgânicos provoca uma certa aversão nos urbanóides. Comigo também foi assim. Mas rapidamente me acostumei com o minhocário e transformar lixo em adubo passou a ser uma rotina muito prazerosa. Não tenho nojo nenhum em mexer nas caixas e estou à disposição para ajudar quem está entrando para a turma da minhoca.

Algumas orientações preciosas pesquei nesse vídeo ótimo do permacultor e minhocólogo Claudio Spínola, da Morada da Floresta: http://www.youtube.com/watch?v=RITfvR3NyFw. Ele ensina até a fazer o próprio minhocário em casa.

Ótimo artigo com informações científicas sobre minhocas e agricultura aqui: http://estagiositiodosherdeiros.blogspot.com.br/2014/05/a-minhoca-na-agricultura.html?spref=fb

107. Como encontrei minha tribo

Fazer parte dos Hortelões Urbanos (grupo do Facebook de pessoas que plantam comida na cidade) mudou minha vida. Estou superfeliz porque no domingo que vem (22/4) vamos fazer um pic-nic no Parque da Luz para trocar sementes, mudas e ideias. O encontro é aberto, gratuito e você está convidado!

Em fevereiro do ano passado, minha amiga Fernanda Salles colocou um recadinho no Facebook: “Agricultura urbana, aqui vou eu!”. Era o convite para uma oficina da Hubescola (www.hubescola.com.br) em que a jornalista Tatiana Achcar contaria suas andanças pelo mundo atrás de hortas em cidades.

Eu já plantava comida no quintal de casa há quase três anos, totalmente sozinha. Fui ao curso, encontrei minha tribo e fiquei amiga da Tati, que no dia seguinte criou um grupo de discussão por e-mail chamado Hortelões Urbanos, para que os participantes pudessem manter contato e trocar ideias sobre suas microlavouras. Conheci na mesma noite a Susana Prizendt, com quem embarquei em aventuras agroecológicas que desenbocaram na Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida (www.contraosagrotoxicos.org).

Meses depois, Tati me convidou para fazermos juntas uma oficina na Hubescola seguinte, marcada para julho de 2011. Juntando minha vivência doméstica às experiências internacionais da parceira, o resultado foi um encontro delicioso em que cerca de 40 pessoas mergulharam em sonhos e projetos para deixar a cidade mais verde e nutritiva. Decidimos então criar no Facebook o grupo Hortelões Urbanos (https://www.facebook.com/groups/170958626306460/).

Cada um foi convidando seus amigos verdes e hoje já são mais de 600 hortelões conectados e a movimentação diária na página é grande . Por ali rolam informações sobre cultivo, fotos orgulhosas de nossos canteiros, dicas para produzir adubo em casa, combater pragas, usar na cozinha as colheitas e muito mais. Qualquer pessoa pode participar (basta ir na página e solicitar a entrada) e qualquer participante pode trazer adesões.

No próximo domingo finalmente vamos nos encontrar ao vivo. O Encontro dos Hortelões Urbanos/7º Pic-Nic de Trocas de Mudas e Sementes acontecerá no Parque da Luz, das 10h às 14h (para quem não sabe, fica no centro de São Paulo, do lado da Estação Luz do metrô e CPTM). Teremos uma mesa para o lanche comunitário e outra para a troca de sementes e mudas. Na organização, Tati Achcar, Juliana Gatti, Daniela Cuevas e eu. Ju e Dani, que são veteranas nessa atividade (realizaram os seis pic-nics anteriores no parque) acolheram a ideia de agregar os Hortelões com o maior carinho. Para saber mais: http://the-hub.com.br/hubloja/produto.php?id=42

Na noite de 25/4 (quarta-feira), Tati e eu vamos fazer mais uma oficina: No campo, no quintal e no prato: revolução dos alimentos para um mundo melhor. A atividade também faz parte da programação da Hubescola de Outono e pretende gerar reflexões sobre a origem da nossa comida e inspirar mudanças de atitude para melhorar a saúde pessoal e planetária a partir de escolhas alimentares. Informações e inscrições: http://the-hub.com.br/hubloja/produto.php?id=53

A Hubescola de Outono já começou, com muitas oportunidades para expandir horizontes na vida e no trabalho. Dá uma olhada na programação completa: http://www.the-hub.com.br/hubescola/programacao

PS – Hortelão é um homem que cuida de uma horta. Eu posso ser chamada de hortelã e adoro! Aliás, tenho bastante hortelã plantada aqui e vivo fazendo chá e suco com ela.

99. Permacultura: o que é isso?

A permacultura propõe viver sem esgotar os recursos naturais. E tudo começa na sua casa, colocando a mão na massa.

Nossa civilização devora a natureza numa velocidade superior ao seu ritmo de reposição, produz lixo, contamina o ar, a água e o solo. Óbvio que será impossível continuar assim por muito tempo. A permacultura visa o oposto: criar uma sociedade capaz de se manter infinitamente sem esgotar os recursos necessários à sobrevivência humana.

Parece utópico? Sem dúvida, mas é minha utopia preferida.

Mistura de ciências, tecnologias e filosofias de vida, a permacultura é recente. O termo foi inventado pelos australianos Bill Mollison e David Holmgren em1974 apartir da contração de “permanent” e “agriculture”. Tratava-se, a princípio, de uma série de práticas ecológicas de plantio. Logo o conceito passou a englobar bioconstrução, produção local de energia, manejo de água e aspectos comportamentais, tornando-se “cultura da permanência”.

No mundo todo, a comunidade de permacultores está crescendo. Já somos milhares de seres humanos por aí em diferentes estágios do processo individualizado e/ou comunitário de descobrir como viver seguindo esses quatro princípios:

1 – Cuidado com o planeta

2 – Cuidado com as pessoas

3 – Partilha dos excedentes (inclusive conhecimentos)

4 – Limite ao consumo

No dia-a-dia, temos a troca de experiências com os colegas, cursos, leituras e alguns parâmetros a nos guiar. Reaproveitamento máximo de materiais, evitando produzir lixo, é um deles. Lidar criativamente com as condições oferecidas, transformando problemas em soluções, é outro. Também tentamos imitar a natureza, fechar ciclos produtivos, diversificar e tornar locais as fontes de recursos, cooperar em vez de competir e integrar em vez de fragmentar.

Se essa história de permacultura está parecendo muito teórica, coloque logo a mão na massa que fica fácil entender. Você pode plantar uma pequena horta, transformar sucatas em utensílios, fazer reforminhas em casa, captar água da chuva, cozinhar, lavar ou costurar. O que importa é consumir menos e criar mais, da maneira que for melhor para você. Como diz o permacultor Claudio Spinola, da Morada da Floresta: “Se não é divertido, não é sustentável”.

Indicações:

– A página wiki do Curso de Introdução à Permacultura Urbana da Subprefeitura de Pinheiros (lá tem muuuito material de referência) http://pt.wikiversity.org/wiki/Introdu%C3%A7%C3%A3o_%C3%A0_Permacultura_Urbana

– O documentário “Utopia no Quintal” sobre permacultura urbana (e paulistana). Realizado por Daniela Catelli, Natalia Belucci, Fernando Moura e Billy Jow, tem 25 minutos. A entrevistada fotofóbica que franze a testa sou eu. Aí vai o link: http://vimeo.com/33174098.

– Pesquisar, além da palavra permacultura, ecovilas, PDC (sigla em inglês para Curso de Design em Permacultura) e SAF (Sistemas Agroflorestais).

89. DMSC, the day after

Acordo com a alma leve após deixar o carro estacionado por um dia, vou olhar as notícias e logo fico entediada. A maioria dos veículos de informação, além de adotar o sarcasmo, requentou a notícia dos anos anteriores. E tome infinitas variações da manchete “No Dia Mundial Sem Carro, a cidade teve congestionamentos”.

Não existem mais pauteiros? Se eles ainda sobrevivem, por que não interditam o repeteco ad infinitum das mesmas bobeiras em cada efeméride do calendário? A próxima – prepare-se – é o Dia das Crianças. Quantas vezes teremos que ver lojas de brinquedos abarrotadas e personagens declarando “Estou aqui para comprar a Barbie X e o carrinho Y para meus filhos (ou sobrinhos ou netos)”. E, é bom lembrar, este será apenas o aquecimento para o grande evento midiático chamado Natal, com seu show de matérias clichê.

É tão difícil assim fazer uma reportagem de fôlego sobre o movimento da sociedade civil que busca devolver à pessoas os espaços públicos que os automóveis surrupiaram? Alô, pessoal das redações: se aqui a mobilização engatinha (mas ganha cada vez mais adeptos e manifestações criativas), sua força política nos países ricos é bem maior. Também fico embasbacada com as conversas que ouço por aí. Comentário frequente: “Esse DMSC não funciona mesmo”. Em seguida, o cidadão entra no possante e sai acelerando. Curiosamente, muitos dos que agem assim voam para a Europa ou para Nova York nas férias e voltam maravilhados porque lá usaram transporte público, caminharam nas ruas e puderam tomar café na calçada sem tanta fumaça em volta.

Ontem, indo a pé com uma amiga e nossos cachorros buscar minha filha na escola, levei uma bronca de uma senhora porque estava pisando na grama da calçada dela. Respondi que o lugar deixado para passagem era insuficiente (tinha no máximo 40 cm de largura). Ela continuou me repreendendo e avisou que deveríamos caminhar em fila indiana para preservar sua grama. Ou seja, esse negócio de passear pela rua conversando está abolido! Fui me informar sobre o assunto e agora respondo com o respaldo da lei: “Minha senhora, a largura mínima determinada por lei para o pedestre é 1,20m”.

87. Vamos ao passeio público?

É a hora e a vez de quem sonha com ruas melhores para as pessoas. O Dia Mundial Sem Carro acontece em 22/9, próxima quinta-feira. No sábado, um encontro/passeata bem divertido na Paulista.

Chegou a Semana da Mobilidade, que começou16/9 (sexta feira) e vai até sábado, dia 24. O movimento brasileiro é inspirado pela “European Mobility Week”, que está em sua décima edição e tem atualmente quase 2 mil cidades participantes. A história vem de 1999, quando a União Europeia criou a campanha “In Town Without My Car” . No ano seguinte, o evento se tornou o Dia Mundial sem Carro (World Carfree Day) que, por sua vez, deu origem à “World Carefree Network” (http://www.worldcarfree.net/).

Tudo isso existe para repensar o modelo atual de urbanismo, que transfigurou as cidades em favor dos carros. Ou seja, o objetivo é tornar os espaços públicos mais agradáveis para a convivência humana, com transporte coletivo de qualidade, mais proteção e infra para quem quer andar a pé ou de bike.

Aqui, na maior cidade do país, quem organiza a Semana da Mobilidade é o Movimento Nossa São Paulo. Estive na Câmara Municipal assistindo ao evento de abertura, que focou em melhorias para pedestres e ciclistas. Os debatedores foram Assuncion Blanco (integrante do Nossa São Paulo), João Ribas e Sérgio Faria (ativistas pró-inclusão de portadores de deficiência), Carlos Aranha, da ONG Associação dos Ciclistas Urbanos de São Paulo (www.ciclocidade.org) e Patricia Gejer, representante do Movimento Chega de Acidentes (www.chegadeacidentes.com.br). A descrição completa do encontro está em http://www.nossasaopaulo.org.br/portal/node/16910.

Embora na platéia houvesse apenas cerca de 50 cidadãos, fiquei impressionada com o alto nível do debate e a representatividade do grupo. Quase todos estavam ali em nome de associações que estão se articulando para tornar São Paulo um lugar melhor para todos. Todos mesmo, o que significa  incluir idosos, crianças e portadores de deficiência. Curiosamente, as adaptações que tornam as ruas acessíveis para os mais frágeis são justamente as que todos os chamados “normais” também precisam para estar no espaço público confortavelmente. Parece óbvio, mas está longe de ser.

Mesmo após ouvir tanto sobre os enormes problemas de locomoção em Sampa, saí otimista por várias razões, incluindo o fato da discussão ter chegado ao Salão Nobre por Poder Legislativo municipal, o que já tem muito valor simbólico. Há até um motivo pessoal: consegui deixar o carro em casa e fazer o trajeto Alto de Pinheiros/Centro num esquema bike+metrô+caminhada, algo impossível até pouco tempo atrás.

Então prepare-se que nos próximos dias o assunto estará em pauta, com a agitação no auge quinta-feira, o Dia Mundial Sem Carro ( já combinei com a filhota que voltaremos a pé da escola). No sábado, dia 24, acontecerá a Passeata pelo Plano de Mobilidade de São Paulo. A concentração será às 15h no vão livre do MASP e mais detalhes estão no Facebook: http://www.facebook.com/#!/event.php?eid=256140657741343. Olha só o clima do convite: “A Secretaria de Transportes da cidade de São Paulo tem R$15 milhões previstos no orçamento desse ano para fazer um plano de mobilidade e ainda não começou! Venha com a gente retomar a cidade. Ela é nossa. Saia da sua bolha e traga bolhas de sabão. Caminhar é preciso!”

Vamos?

83. Desacelere mesmo

Embalados pela velocidade, jovens matam jovens na madrugada de São Paulo. E eu penso que está na hora de aposentar o culto ao automóvel.

Volto ao assunto carro mais cedo do que gostaria porque ele não me sai da cabeça. Dias atrás, relatei o encontro “Cidades, bicicletas e o futuro da mobilidade”  (veja embaixo do post da horta) que apontou alguns caminhos para deixar a metrópole mais acolhedora para as bicicletas e os pedestres. Agora o noticiário foi tomado pela consternação devido à morte dos jovens Vitor Gurman e Carolina Cintra Santos, atropelados por carrões na madrugada paulistana.

De um lado, uma turma alega preconceito por parte de quem culpa o Porsche e o Land Rover pelas fatalidades. Como se a inveja pela situação financeira privilegiada dos atropeladores estivesse comprometendo o justo julgamento dos casos. Do outro, há quem torça para que as penas para Gabriella Guerrero Pereira e Marcelo Malvio Alvez de Lima (os atropeladores) sejam as mais severas possíveis.

Eu só espero que o momento traga sobretudo reflexão. Fico intrigada com o fato de vítimas e acusados terem perfis tão semelhantes. Mesma faixa etária, mesma situação social. Como ninguém é 100% bom ou mau, acho complicado tentar transformar uns em anjos e outros em demônios. Quem perdeu a vida (e também seus familiares e amigos justamente revoltados) provavelmente, como eu, já teve atitudes imprudentes no trânsito. E quem atropelou — assim como seus familiares, amigos e eu — também poderia ter perdido a vida num acidente de trânsito. Dito isso, afirmo que tenho enorme empatia por Vitor Gurman, que não cheguei a conhecer. Pelo que li nos jornais, ele estava abandonando o carro em prol das caminhadas e voltava para casa poeticamente a pé depois de uma festa.

Ambas as notícias provocaram colisões de ideias na minha mente e novas atitudes no meu cotidiano, que compartilho agora:

  •   Dirigir devagar – A atitude mais efetiva e imediata que podemos tomar para evitar acidentes é essa. Eu já comecei e tenho me sentido zen.    
  •  Praticar a tecnodiversidade nas ruas – Quanto mais variarmos os meios de transporte, melhor. Para muitas pessoas (entre as quais me incluo), abandonar de vez o carro ainda não é possível. Mas vale a pena incluir no cotidiano trajetos percorridos de ônibus, metrô, bicicleta e a pé. Um motorista que também é pedestre e ciclista tende a respeitá-los mais.
  • Ter carro não é tudo. A marca do carro não importa – Ao contrário do que afirma a publicidade, ninguém se torna melhor ou mais importante porque dirige um carrão importado. Como diz o sociólogo Eduardo Vasconcellos, precisamos combater a ideia predominante em nossa sociedade de que “quem não tem carro não tem valor”. (http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20110724/not_imp749125,0.php
  • Tanques de guerra e carros de corrida são inadequados para as ruas e estradas – Os monstrengos do tipo SUV oprimem e atrapalham a visão dos demais. O Porsche, que vai de zero a 100km/h em 5 segundos, é um míssil difícil de controlar. Blindagens contribuem para a sensação de invulnerabilidade. Todas as opções anteriores tendem a nos fazer esquecer que nem sempre a violência está lá fora na forma de um bandido. Nosso comportamento e nosso equipamento no trânsito também podem ser muito violentos.
  • As propagandas de carro cada vez me revoltam mais – Outro dia, o anúncio de um novo veículo mostrava uma mulher e sugeria que o dirigir o tal carro era como “estar de salto alto” no trânsito. Subliminarmente, respondia à insegurança feminina em relação à violência das ruas com a promessa de um carro mais robusto. Ou seja, numa batida o impacto maior ficaria para o outro. Não lembro a marca e, se alguém achar o anúncio, por favor me envie o link para eu reproduzir aqui.
  • Educar para proteger a vida e escapar do culto ao automóvel – A combinação álcool + velocidade é mortífera e não adianta esperar o filho fazer 18 anos para ter essa conversa. Desde muito cedo as crianças vão incorporando o código de valores da família e do grupo social a que pertencem e não é à toa que, hoje em dia, muitos adolescentes acreditam que o ápice de sua existência iniciará quando finalmente chegarem ao volante. Essa mentalidade precisa ser questionada desde a primeira infância. 

Vem aí 22 de setembro, o Dia Mundial Sem Carro (http://diamundialsemcarro.ning.com/).Vamos desligar os motores?

81. Pedalar mais, acelerar menos

bicicleta-cidade[1]Paulistanos se encontram com David Byrne (ex-astro do rock internacional) sonhando em tornar a cidade mais acolhedora para pessoas e bicicletas, deixando de lado a ditadura do carro. E o Brooklin ganha a  primeira ciclorrota de São Paulo.

Eu já gostava das músicas do David Byrne (líder da banda Talking Heads, que fez muito sucesso nos anos 80). Mas virei fã mesmo quando li o ótimo “Diários de Bicicleta” e descobri que ele se reinventou como cicloativista e escritor. Pois não é que o ex-roqueiro idealizou o fórum “Cidades, bicicletas e o futuro da mobilidade”? A estréia aconteceu em 12/7 em São Paulo e vem aí a turnê pela América Latina (Buenos Aires, Santiago, Quito, Lima, Bogotá, Cidade do México e Guadalajara).

Seus companheiros na versão paulistana do evento foram o veterano cicloativista Arturo Alcorta (www.escoladebicicleta.com.br), o Secretário de Transportes do Município de São Paulo, Marcelo Branco, e o sociólogo Eduardo Vasconcellos, conselheiro da ANTP (Associação Nacional de Transportes Públicos). Até agora as palavras deles ricocheteiam na minha cabeça e aqui vai um resumo didático das apresentações:

David Byrne mostrou com imagens como o carro exterminou progressivamente o convívio humano nas ruas em boa parte das grandes cidades do mundo. Nada ocorreu por acaso, ele demonstrou, uma vez que no início do século XX urbanistas começaram a planejar “cidades do futuro” com subúrbios isolados, avenidas larguíssimas, complexos de viadutos monstruosos e torres de apartamentos gigantescas. O ápice desse modelo é Los Angeles, onde 70% do espaço urbano pertence aos carros, não existem pedestres e lançaram até um nostálgico shopping na forma de rua artificial. Depois desse show de horror, Byrne comentou o modelo europeu de cidades menos motorizadas e o renascimento do transporte a pé e por bicicletas em NY.

Arturo Alcorta chamou a atenção para a ligeira vaia que o Secretário de Transportes levou ao entrar. “Não sejamos bipolares: se motoristas e ciclistas virarem inimigos e não houver debate democrático, estamos perdidos!”. Ele explicou por que aposta no modelo da convivência entre carros e bicicletas e na mobilização dos cidadãos para a defesa do uso do espaço público pelas pessoas.

Marcelo Branco, chefe da CET e do SPTRans, sabia que estava em território inimigo e pretendia propagandear a ciclofaixa de lazer (o circuito de bicicletas dos domingos) e a ciclorrota do Brooklin (percurso de 15km inaugurado em 20/7/2011 http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/946080-brooklin-na-zona-sul-estreia-hoje-a-1-ciclorrota-de-sao-paulo.shtml). Percebeu o teor do debate e decidiu fazer um discurso franco e de improviso explicando que o CET foi criado para privilegiar automóveis e que não é fácil mudar mentalidades de um dia para o outro. Disse ainda que a velocidade máxima dos carros em diversos pontos da cidade será reduzida, visando proteger ciclistas e pedestres. Terminou aplaudido e, na manhã seguinte, eu fiquei com vergonha de ser jornalista, pois a cobertura da Folha, além de rarefeita, tentou fazer intriga dizendo que ele teria falado mal do CET.

Eduardo Vasconcellos, uma surpresa, foi o grande destaque da noite. Apresentou uma visão histórica do desenvolvimento das cidades e do sistema de transporte do país a partir dos anos 30. De acordo com ele, desprezar as opções coletivas e incentivar a população a se motorizar foi um bem-sucedido projeto político de nossos antigos a atuais governantes. (Concordo com ele e acrescento que esse modelo agora tem o apoio da maior parte da população e o político que realmente quiser virar o jogo se arrisca a perder votos. Fabio Feldman que o diga). Ele conclamou a galera a se munir de informações para evidenciar o constrangimento ético de quem defende a prioridade para esse meio de transporte individualista, poluidor e detonador de espaços públicos. O auditório, lotado, agradeceu a aula aplaudindo loucamente.

Como dica prática, a que mais me marcou foi dirigir devagar. Não é fácil, pois vivo atrasada, mas realmente me propus essa meta. Trata-se da melhor atitude imediata que podemos adotar se quisermos deixar a cidade mais acolhedora para as pessoas. Essencial também é não bitolar no carro. Vale a pena sair do piloto automático e, a cada deslocamento, ver as alternativas. Ir de metrô, ônibus, pé2 ou bike é mais confortável e divertido em grande parte dos trajetos. 

Trilha sonora do post: Psychokiller http://www.youtube.com/watch?v=l5zFsy9VIdM

Mais sobre carros em:
http://conectarcomunicacao.com.br/blog/42-cigarro-sculo-xxi/
http://conectarcomunicacao.com.br/blog/43-meu-dia-quase-sem-carro/
http://conectarcomunicacao.com.br/blog/44-uma-paixo-cafageste/

65. Comunidades hippies 3.0

Triste com o drama do Japão, comecei a pensar em Transition Towns e Ecovilas.

Está difícil encontrar outro assunto que não seja o trio terremoto/tsunami/vazamento nuclear que compõe a catástrofe japonesa. Ainda que o mau comportamento ecológico da humanidade nada tenha a ver com o deslocamento das placas tectônicas, a forma atual de organização da sociedade agrava muito suas consequências. 

Justamente nos momentos trágicos é que as metrópoles, a globalização, a fartura de energia, a alta dependência de meios de transporte e a centralização da produção de alimentos mostram seu lado negro. Se nossos antepassados não tinham um décimo do conforto de que desfrutamos hoje, pelo menos estavam bem mais protegidos contra os desastres mundiais. No mundo rural de antigamente, a comida crescia ou pastava do lado de casa. Para cozinhar e aquecer, bastava cortar lenha. Com as próprias mãos, pequenos grupos conseguiam viver de forma quase independente do resto do mundo. Se acontecia um desastre ali, a vida aqui continuava normal.

Testemunhar pela imprensa o colapso do abastecimento e o drama da contaminação radioativa me fez pensar nas Transitions Towns ou Cidades em Transição (http://www.transitionnetwork.org/) e nas Ecovilas (http://pt.wikipedia.org/wiki/Ecovila ). Esses movimentos são uma espécie de versão 3.0 das comunidades hippies, só que nada lisérgicas e muito eficientes. Descubro na internet e em conversas com amigos alternativos que tem bastante gente pelo mundo desistindo da sociedade de consumo. São pessoas que mudam para minicidades sustentáveis, onde se cultiva alimentos, as casas são projetadas para não causar impactos na natureza, a energia vem de fontes locais renováveis e o lixo está em extinção. No Brasil, o movimento das Cidades em Transição (http://transitionbrasil.ning.com/ ) tem adeptos de Alphaville à Vila Brasilândia, de Boiçucanga a João Pessoa. A idéia é interessante e os links acima merecem ser visitados com calma.