43. Meu dia quase sem carro

Hoje é o Dia Mundial sem Carro e, mesmo tendo fama de ecoxiita, não conseguirei passar 24 horas longe do volante.

Fomos levar as crianças para a escola a pé. Da porta da nossa casa ao colégio foram 25 minutos. Para os adultos e o cachorro que acompanhavam a dupla de estudantes, a caminhada levou quase uma hora por causa do percurso duplicado. No caminho, ruas vazias de pedestres e muitos carros transitando. Felizmente, esse bairro residencial é bastante arborizado, caso contrário estaríamos literalmente fritos.

São Paulo ainda não dá muita bola para o Dia Mundial sem Carro, o que é uma pena. Enquanto caminhava, fiquei imaginando como a cidade seria mais acolhedora se víssemos todos os estudantes (não apenas os mais pobres) fazendo seus percursos diários a pé ou de ônibus. A neurose da segurança aliada ao excesso de motorização tirou as crianças e os adolescentes de classe média do convívio urbano. A cidade perdeu vida e as novas gerações tiveram seus horizontes encaixotados.

Propositalmente, deixei de agendar compromissos externos e fiquei trabalhando em casa (um esquema desses é privilégio de 0.000001% da população paulistana, estou sabendo). Assim seria mais fácil passar 24 horas longe do volante, eu pensava. Mas o plano não deu certo: irei de carro buscar meus filhos na escola, pois no esquema de rodízio hoje é meu dia de transportar outras crianças. E nem daria para usar transporte público, já que preciso trazê-los rápido para casa e logo em seguida sair de novo.  O programa vale a pena: às 19h vou assistir a uma mesa redonda imperdível sobre lixo eletrônico na Escola Vera Cruz. Pois é, nem a ecochata aqui consegue viver um dia sem carro…

42. O cigarro do século XXI

22 de setembro (4ª feira) é o Dia Mundial Sem Carro. Que tal uma caminhada na rua para refletir sobre nossa dependência dos automóveis?

Não sei de quem é a frase “O carro é o cigarro do século XXI”, mas achei genial. Realmente, há uns 100 anos fumar era uma atitude sexy, que tinha a ver com sucesso, inteligência, liberdade, masculinidade e, posteriormente, liberação feminina. O recado subconsciente das baforadas era “sou dono do meu nariz, uma pessoa bem resolvida”. 

Qualquer semelhança entre a linguagem e os símbolos utilizados na publicidade da era de ouro do tabagismo com as propagandas de automóveis hoje em dia não é mera coincidência. Eu acredito nisso e não estou sozinha. Nos meus arquivos, tenho uma reportagem do jornal O Estado de São Paulo, que noticia, em 29/5/2008, o projeto de restrição à publicidade de automóveis na União Européia. A proibição valeria, entre outras coisas, para conceitos como “prazer de dirigir”. De lá para cá, não consegui mais rastrear o assunto e fiquei sem saber se está valendo. (Andréia, minha querida amiga que está fazendo pós em Londres: vc tem alguma informação a esse respeito?)

Foi na Europa que surgiu o Dia Mundial Sem Carro. Desde 2000, um movimento chamado World Carfree Network (www.worldcarfree.net) promove em todo o mundo ações para valorizar opções coletivas ou alternativas de transporte urbano (ônibus, metrô, andar a pé ou de bicicleta). No ano passado, mas de 1.000 cidades em 40 países participaram, incluindo o Brasil.

É claro veremos na mídia quase todo mundo tripudiando em cima da data. Alguns políticos posarão para foto apertadinhos no ônibus (os mesmos que não investem em transporte público) enquanto as ruas estarão congestionadas como sempre. Nas edições passadas do Dia Mundial Sem Carro, o clima das conversas era de ceticismo. Ouvi várias vezes comentários do tipo “Tá vendo como isso não funciona? He, he, he!”. Nessas horas não consigo responder, mas fico pensando: claro que não funciona, só os poucos “eco-xiitas” levam a sério…

Sinceramente, não entendo qual é a graça em torcer contra essa iniciativa. Aqui em São Paulo vivemos um final de inverno desértico e poluído por duas razões: falta de árvore e excesso de carro na rua. Os pronto-socorros ficaram lotados de pessoas com problemas respiratórios e a indústria automobilística acha que a média de um automóvel para cada sete pessoas no Brasil ainda é muito baixa (http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mercado/me1409201005.htm) . O objetivo desse pessoal é chegar a 2 carros por habitante, como nos Estados Unidos.  

Com dois filhos para levar a inúmeras atividades, eu infelizmente não consigo (ou não tento o suficiente) viver sem automóvel. Mas pretendo fazer um modesto ritual anticarro na quarta, como no ano passado. Em 2009, meus filhos e eu comemoramos a data voltando da escola a pé. São cerca de 2 km. A ideia foi minha e as crianças, obviamente, reclamaram bastante no começo. Mas os resmungos aos poucos foram dando lugar a uma conversa interessante sobre o dia-a-dia das pessoas que não têm carro e sobre os outros meios de transporte que existem. No meio do caminho, paramos na padaria para um lanche. Foi um passeio maravilhoso.

28. Cidade das bicicletas

Pedalando minha bike enferrujada, sonho com um mundo em que os carros desapareceram.

Tenho observado cada vez mais ciclistas nas ruas de São Paulo. Nos domingos de manhã, quando saio para pedalar com o Nino, meu fox paulistinha maluco, as bicicletas já ganham dos carros na Pedroso de Moraes. Mesmo durante a semana, na hora do rush, muita gente desafia a violência do trânsito paulistano nesse veículo superfrágil. São homens, mulheres, adolescentes, jovens adultos e – o que mais me chama a atenção – muitos quarentões e cinquentões usando a bike como meio de transporte.

Essa coragem me falta. Morro de medo de ser atropelada por um carro e, por isso, fico aqui pelo bairro. Como meu cão precisa de exercícios intensos, ando de bicicleta todos os dias pelas ruas ao redor de casa. Também vou de bike ao clube e à fisioterapia, que ficam bem perto. Meu próximo objetivo é a integração bicicleta-metrô. Dá para ir da minha casa até a estação Faria Lima da linha amarela pela ciclovia, o que é um luxo. Assim que sobrar um tempinho, sairei pedalando, deixarei a bicicleta estacionada no Largo da Batata, pegarei o trem, em alguns minutos, chegarei à Avenida Paulista.  

Estou longe de ser uma ciclista high tech. Tenho uma bike toda enferrujada, sem marchas nem freio (é preciso travar as rodas no pedal). Mas não a troco pela Ferrari das bicicletas de jeito nenhum. Além de ser superconfortável com seu guidom alto e o banco enorme e bem acolchoado, me identifico com seu estilo hippie-velho. Foi comprada por US$ 50 em 1998, nos Estados Unidos. Eu estava lá participando de um congresso e, em vez de alugar um carro para percorrer todos os dias o trajeto de 3 km entre o hotel e o centro de convenções, decidi adquirir o veículo.

Para driblar o pavor do atropelamento, evito ruas movimentadas, fico atenta aos ruídos e uso em cima da roupa um colete de treinamento verde fosforescente que o time de basquete me doou. Assim, os motoristas são obrigados a me enxergar.  

Comecei a ler “Diários de Bicicleta”, de David Byrne (sim, aquele do Talking Heads), estou adorando e recomendo. Ele usa a bike como meio de transporte em Nova York desde os anos 80 e tem um modelo dobrável que leva em suas viagens pelo mundo. No livro, são imperdíveis as descrições de cenários urbanos e as reflexões sobre como o automóvel destruiu os espaços de convivência entre as pessoas. 

Trilha sonora desse post: Nothing But Flowers, de David Byrne (www.youtube.com/watch?v=PEV-pPf3Fu4) – A música fala da era pós-industrial, em que os viadutos, shoppings e fábricas já não existem e as plantas retomaram a superfície do planeta.