9. A melhor festa de aniversário

Fez muito sucesso aqui em casa comemorar o aniversário dos filhos com os amigos mais queridos, sem superprodução, sem lembrancinhas e sem aqueles milhões de produtos descartáveis .

Alex e Julieta, meus filhos gêmeos, são experts em aniversários. Se os buffets e os animadores infantis tivessem programas de milhagem, provavelmente eles receberiam um daqueles cartões dourados. Outro dia, conversávamos sobre o assunto quando perguntei qual foi a melhor festa que eles tiveram. Ambos escolheram a mais recente, de sete anos. Está certo que, na memória das crianças, os acontecimentos próximos tendem a ser recordados com mais emoção. Mesmo assim, fiquei agradavelmente surpresa com a resposta. A última comemoração, além de bastante ecológica, foi bem econômica.

Na verdade, aconteceram dois eventos, pois pela primeira vez eles escolheram comemorar separadamente. Alex quis convidar apenas o grupo de meninos da classe para jogar futebol numa quadra alugada perto de casa, um lugar bem simples. Era junho, fazia frio e garoava. Pegamos a garotada na escola de micro-ônibus e lá fomos nós junto com o aparato: bolo, doces, salgados, jogos de tabuleiro (que temos em casa) e várias toalhas para secar os garotos e evitar devolvê-los gripados às famílias. Meninos dessa idade em geral amam jogar futebol e foi só o que fizeram durante três horas e meia seguidas. Reclamaram até de ter que para e cantar parabéns. Assim que se ouviu o “bum” do “rá-tim-bum”, aliás, já estavam todos de volta ao campo.

A festa da Julieta foi em casa e em sociedade com a Ludmila, uma colega da classe que faz anos na mesma semana. Eu e a Cris, mãe dela, nos associamos no planejamento e rachamos as poucas despesas (bolo, brigadeiros, salgadinhos, sucos, refrigerantes, papéis, canetinhas coloridas e tintas). No Dia D, a dupla de mães foi a pé buscar a classe que o micro-ônibus já aguardava na porta da escola. A decoração consistiu em alguns balões e uma sala livre de móveis e tapetes para deixar o espaço livre. As crianças se esbaldaram com correrias no quintal, se divertiram com os brinquedos e jogos do acervo familiar e também com a oficina de arte com sucatas. O grande momento da noite foi a contação de histórias, performada pela Luciana, tia da Ludmila, que é atriz professora de artes. Depois que os convidados foram embora, as crianças nos ajudaram a dar um jeito na bagunça. Uma das fotos do evento mostra, inclusive, as meninas varrendo o chão.

Toda essa simplicidade parece um tanto exótica nos dias de hoje. Mas fez sucesso. Acredito que o fato de os adultos da família terem se empenhado bastante na organização e no relacionamento com a garotada tenha sido importante. E quer saber de uma coisa? A gente também se divertiu.

8. Somente o necessário

Compras demais, objetos demais e importância demais para os gadgets eletrônicos estão desviando a atenção daquilo que realmente vale a pena: aproveitar a convivência com as pessoas de quem a gente gosta.

No mês passado, fui comemorar o aniversário de uma amiga solteira num bar com música ao vivo. Na autêntica balada (programa raro para mim hoje em dia) o que mais chamou a atenção foi a quantidade de gente se fotografando com o celular em pose de contorcionista. Um minuto dançando, clic. Chegou alguém, clic. Beijo no namorado, clic. Hora do bolo, clic. Começou o show, clic. O pessoal na mesa, clic. Voltei para casa pensando no destino de tantas imagens digitais. Trocas de e-mail? O Orkut? O esquecimento completo? Para o meu gosto, a noite teve muita parafernália eletrônica e pouco olho no olho.

Numa bela tarde, fui visitar outra amiga, que está esperando o primeiro filho. Ela fez questão de mostrar o quarto do bebê, as roupinhas, os brinquedos, a babá eletrônica, os bichinhos de pelúcia, os presentes que já chegaram, o berço, a coleção de sapatinhos etc, etc. Tudo tão lindo e de bom gosto que os outros assuntos simplesmente não vingavam. Uma pena. Seria interessante discutir os sentimentos que rolam quando a gente está grávida. Já passei por isso e gosto de trazer à tona lembranças e trocar experiências. Já os tais sapatinhos – que talvez nem sejam usados – se tornarão inúteis quando os primeiros meses de vida do bebê, exaustivos e maravilhosos, passarem. E aí ficarão vagando pelo mundo durante décadas (ou séculos, se tiverem plástico na composição). Perto da grandeza daquele momento na vida da mulher e da criança, a importância dos equipamentos chiques é praticamente nula. Mas os objetos estavam no centro das atenções enquanto conversávamos.

Nós três – minha filha de sete anos, sua colega e eu – almoçávamos num dia qualquer. A convidada estava entusiasmadíssima com sua coleção de mochilas de uma marca cara e muito apreciada pelas crianças. Entusiasmada não: quase histérica! Falava alto sobre como tinha sido a recente incursão ao shopping para adquirir mais uma. Dava pulinhos de alegria ao enumerar as cores, os modelos, os brindes. A comida esfriava e minha filha já estava começando a se sentir por baixo, já que ela tem “só” uma peça da tal grife. Decidi conversar com elas sobre o fato de ser muito bom possuir algo bacana. No entanto, como isso está longe de ser a essência da vida, melhor não idolatrar as coisas.  

Agora o papo era com mães de adolescentes. Uma delas contou que o único lugar onde seus filhos podem passear livremente é o shopping. Com medo de deixá-los em lugares públicos por causa da criminalidade, sua saída foi incentivar programas completos por ali: cinema, lanche, compras, salão de beleza. Então o grupo todo começou a falar de lojas, liquidações e temas afins.

Já se sabe que não será possível alcançar a sustentabilidade com o nível atual de consumo. Teremos então que rever nossos hábitos, nossas palavras e nossos pensamentos. Inevitavelmente, isso significará abandonar excessos e tomar para si “somente o necessário”, lema do urso Baloo, amigo do Mogli. Aliás, esse clássico é uma ótima dica de filme para alugar e ver com as crianças, sentindo o encanto de uma vida menos aparelhada.

7. Vida plastificada

As sacolas plásticas talvez sejam a maior praga do nosso tempo. Tímidas iniciativas de reduzir o seu uso estão por aí mas, se continuarmos no ritmo atual, vamos acarpetar o Brasil de plásticos.

Nunca me passou pela cabeça que algum dia sentiria falta das aulas de química orgânica que cabulei no colegial. Mas foi exatamente o que aconteceu quando resolvi pesquisar na internet por que as sacolinhas plásticas se tornaram inimigas do meio ambiente. Cavando entre expressões como “cadeias de carbono” e “petro-polímeros”, descobri que o primeiro plástico sintético foi patenteado em 1855 pelo inglês Alexander Parkes. E logo soube que provavelmente as obras de Mr. Parkes ainda devem estar inteirinhas por aí, já que o prazo estimado para que esse tipo de material se desfaça é de no mínimo 200 anos. Alguns sites chegam a falar em vestígios que duram mais de mil anos. A minha dúvida é: como eles sabem isso, já que, desde a invenção da tal coisa, ainda não se passaram nem dois séculos?

A triste realidade é que não só os diamantes são eternos e as sacolas plásticas protagonizam um verdadeiro filme de terror:

  • Calcula-se que entre 500 milhões e um trilhão delas são fabricadas todos os anos no mundo;
  • Menos de 1% dos sacos é reciclado, por uma simples questão matemática: uma tonelada do produto é vendida por cerca de 32 dólares e, para reciclar a mesma quantidade, o custo é centenas de vezes maior;
  • Os oceanos já estão contaminados com cerca de 46 mil sacos plásticos por milha quadrada, responsáveis pela morte por asfixia de grande quantidade de animais marinhos.

Se eu já tinha alergia aos tais saquinhos, esse banho de informação me deixou à beira do pânico. Há mais de 10 anos costumo recusar sacos plásticos em lojas. No supermercado, pego as frutas uma a uma e levo para pesar sem embrulhar. Depois as compras viajam até a despensa em velhas sacolas de lona.

Só que os saquinhos estão vencendo a guerra e continuam brotando em todos os cantos. Praticamente tudo o que entra em casa vem compulsoriamente plastificado. Jornais, revistas, pão de forma, presentes de aniversário e até os vegetais da cesta orgânica! Nenhum deles é jogado fora sem antes ser utilizado. Os grandes embalam a sucata destinada ao caminhão da coleta seletiva. Os pequenos viram lixo de banheiro ou guardam peças dos brinquedos das crianças. Com eles recolho o cocô do meu cão, Nino. Também forneço saquinhos para passeadores de cachorro fazerem o mesmo por seus clientes. E o estoque nunca acaba…

Sinceramente, não sei o que acontecerá se a invasão das sacolinhas não for contida. O governo de Bangladesh, depois de enchentes devastadoras devido ao entupimento da rede de esgotos por sacos plásticos, decidiu bani-los. Na China, a distribuição gratuita de sacolinhas pelo comércio já foi proibida, assim como na cidade de São Francisco. A Irlanda criou um imposto sobre essa praga e seu consumo caiu 90%.

E nós, o que estamos esperando para fazer alguma coisa e evitar que nossos filhos recebam de herança um mundo forrado de sacolas plásticas?

6. Livros para devorar

Michael Pollan é o cara. Vale muito a pena ler “O Dilema do Onívoro” e “Em Defesa da Comida”, que ele escreveu para mostrar o que o conteúdo do nosso prato tem a ver com o futuro do planeta.

Toda vez que eu abro a geladeira, escolho um prato no restaurante ou faço a lista de supermercado, estou me intrometendo no que acontece em lugares muito distantes do meu bairro. Nunca fui a Mossoró, no Rio Grande do Norte, mas é por minha causa que lá se plantam melões e mangas. Também ainda não conheço o Chile, mas suas fazendas de salmão foram criadas para atender à minha vontade de comer sushi. O pessoal do Mato Grosso trabalha duro, muitas vezes derrubando floresta, para aumentar as pastagens dos bifes que sirvo para meus filhos.

Pensar na produção de alimentos em escala industrial me deixa bem angustiada. Não gosto de imaginar aviões despejando agrotóxicos, campos de confinamento de gado e aves, montanhas de dejetos, doses maciças de antibióticos e hormônios sendo aplicados nos animais e colheitadeiras gigantes arranhando a terra. Se lembrar disso tudo a cada garfada, perco o apetite. Outro dia, conversando com amigas, ensaiei um comentário a esse respeito quando uma delas disse: “Sobre essas coisas é melhor não pensar”. E o assunto morreu na minha boca. Mas não saiu da cabeça.

Sempre me interessei em saber de onde vem o que coloco no prato. Por isso, O Dilema do Onívoro e em Defesa da Comida, dois ótimos livros do jornalista norte-americano Michael Pollan, foram para mim uma verdadeira viagem no tempo e no espaço. Da pré-história à época das vitaminas sintéticas. Das plantações de milho astecas à granjas de frango que virarão nuggets no jantar das crianças.

Meu amigo Pollan passa longe do estilo sombrio e ameaçador de muitos ativistas ambientais. Ele usa o melhor da objetividade da cultura americana para criar, com o bom humor possível, um amplo painel sobre os avanços científicos, as mudanças sociais e ambientais que foram necessários para alimentar a humanidade a partir da revolução industrial. Em O Dilema do Onívoro, MP investiga com brilhantismo o DNA do brekfast, lunch e dinner dos americanos. E, como nosso cardápio hoje em dia tem muito mais hambúrguer e cookies do que couve refogada e pamonha, muito do que ele retrata se aplica também à realidade brasileira. Pollan — que trabalhou alguns dias numa fazenda alternativa, caçou javali e até comprou um bezerro para fornecer carne ao McDonalds — tem muita história saborosa para contar. Já Em Defesa da Comida é um manifesto contra a neurose de contabilizar calorias e acreditar em modismos pseudocientíficos. Ele propõe buscar nas antigas tradições culturais e nos alimentos in natura a solução para ter mais saúde e deixar um planeta em melhor forma para nossos filhos. Esses livros, na verdade, invadem o território da filosofia, pois defendem o ponto de vista de que os problemas ecológicos atuais são consequência de desprezarmos o caráter sagrado dos alimentos. Vale a pena conferir.

PS – Felizmente, dá para usufruir de alimentos com maior qualidade ambiental, nutricional e ética se a gente se dispuser a estudar o tema e garimpar bons fornecedores. Mas isso é assunto para outra conversa…

5. Por que uma super-power-over-festa?

Os excessos das festas infantis passam para as crianças a mensagem de que comemorar é consumir loucamente, cultivar o desperdício e comer coisas péssimas para a saúde.

O aniversário dos filhos é uma ocasião gloriosa. Todo ano me emociono – duplamente, porque tenho gêmeos — ao perceber que mais uma etapa se foi. Aqueles ex-bebezinhos tão indefesos agora não só lêem, escrevem e fazem contas, como viajam sozinhos para o acampamento nas férias. Assim vai ser para sempre, imagino. Por isso, entendo per-fei-ta-men-te todos os delírios na hora de planejar o ritual de comemoração infantil. Os pais estão sob o efeito de fortes emoções e têm vontade de contratar um espetáculo da Broadway, montar uma sucursal da Disneyworld no jardim e da Incrível Fábrica de Chocolate de Willy Wonka na sala.

Não há coisa melhor do que celebrar a vida e eu mesma já caí na tentação de adicionar uns toques de megalomania ao “Parabéns a você”. Mas, hoje em dia, após ter acumulado algumas milhares de horas de vôo em buffets infantis & eventos do gênero, fiquei mais sóbria. Antes de transformar em realidade uma super-power-over-megablaster-festa, respiro fundo. E lembro de alguns excessos em eventos alheios que seria melhor não ter presenciado. Por exemplo, um animador ajoelhado no chão carregando nos ombros a aniversariante de oito anos, que estava usando uma coroa. Grupinhos de crianças de cinco anos, superexcitadas, desrespeitando monitores inexperientes que não conseguiam colocar limites. Brigadeiros sendo pisoteados. Guerra de batatas fritas. Música inadequada em volume altíssimo. Buffet tão atulhado de brinquedos eletrônicos que a molecada não conseguia correr e brincar. Comida demais, qualidade inexistente. Desperdício geral e irrestrito de tudo. E o que dizer do constrangimento no final de uma balada dessas ao perceber que o presente entregue era bem menos valioso do que a lembrancinha recebida?

Por causa do efeito estufa, hoje em dia existem empresas que estimam o impacto ecológico de eventos e propõem compensações na forma do plantio de árvores. Fico imaginando que, se fosse para calcular o que uma festa de arromba versão infantil representa em termos de consumo de recursos ambientais, levaríamos um susto. Especialmente porque superprodução não é sinônimo de diversão. Quanto menor a criança, aliás, mais difícil curtir tanta coisa e tantas pessoas ao mesmo tempo.

Cá entre nós, não precisa muito para o filho da gente se esbaldar no dia do aniversário. É só juntar a turma dos amigos mais queridos, arranjar um espaço que dê para brincar de pega-pega e esconde-esconde e quem sabe inventar uma gincana. Dependendo da idade, envolver as crianças na organização já se transforma numa experiência inesquecível para elas. Em vez de contratar monitores, pai e mãe podem interagir com a garotada e propor brincadeiras, uma manifestação de carinho que os pequenos percebem e adoram. Em vez da tranqueirada gordurosa, que tal colocar na mesa umas comidinhas simples, de preferência caseiras e orgânicas? E, para terminar, as melhores lembrancinhas são as que ficam na memória.

4. PETs de estimação

Parei de comprar água mineral. Agora só ando por aí com uma garrafinha PET na bolsa, que toda hora abasteço no filtro de casa.

Cheguei correndo ao cinema, como sempre atrasada. Fazia calor e a sede apertou. Para escapar do gosto clorado que jorra dos bebedouros, tive que encarar a fila da pipoca e adquirir água mineral embalada em plástico PET. Porém, naquele dia, parece que todos tinham resolvido vivenciar suas dúvidas existenciais na escolha entre diversas opções de salgadinho e refrigerante. Grande, enorme ou jumbo? Com ou sem manteiga? Light, zero, diet ou normal? Cartão de débito, crédito, dinheiro ou cheque? Tentando não ficar impaciente enquanto esperava, comecei a pensar nas conseqüências de um ato tão banal como comprar uns goles de água.

Eu estava perdendo o início do filme por um motivo bobo. E teria que gastar dinheiro com algo que, em casa, sai praticamente de graça. Até aí, tudo quase bem. Só que a natureza levaria séculos para decompor a tal garrafinha e isso me deixou angustiada. Lembrei daquelas imagens deprimentes que circulam na internet: montanhas de lixo plástico acumulado nos rios, em lixões, no mar, por toda parte, sufocando animais, estragando a paisagem e disseminando doenças. Um panorama sombrio para o qual eu estava prestes a contribuir. Então resolvi simplesmente não jogar a garrafinha fora. Guardei na bolsa, levei para casa, fiz um refil com água do filtro e passei a andar com meu ela por aí.

Aquela foi a primeira das minhas PETs (ou Potes Eternamente a Tiracolo) de estimação, pois agora evito ao máximo mandá-las para o lixo, mesmo quando reciclável. Viraram minhas mascotes. O líquido que as crianças levam no lanche da escola, por exemplo, vai embalado nas garrafinhas PET, que são de graça, indestrutíveis, superpráticas e nunca vazaram. Guardo em casa uma garrafona de cinco litros para levar nas viagens da família, acompanhada por mais três de 1,5 litro. Elas fazem check-in conosco nos hotéis e aliviam a demanda por água do frigobar. Muquirana como sou, descobri que dá para economizar uma grana com esse método ecológico, sem falar no conforto de refrescar a garganta em pleno congestionamento e não perder tempo sempre que dá sede no meio da rua. Mas a verdadeira vantagem é diminuir pelo menos um pouco o rastro de lixo que a gente vai deixar no planeta de herança para os filhos e netos.

Um destino melhor do que os lixões, sem dúvida, é a reciclagem. Essa alternativa, no entanto, está longe de ser uma solução mágica, pois transportar, limpar e transformar o material consome muitos recursos do meio ambiente. E haja coleta seletiva para tanto plástico! Depois do episódio “sede aguda no cinema”, pesquisei os dados mais recentes divulgados pela ABIPET (Associação Brasileira da Indústria do PET). Assim fiquei sabendo que em 2006 foram lançadas no mercado brasileiro 378 mil toneladas de PET e apenas 51% retornou para reciclagem. Ou seja, uma cordilheira de quase 200 mil toneladas ficou por aí, sujando o país. Na Europa, a preocupação com esse assunto chegou a tal ponto que grupos de consumidores estão reivindicando que os restaurantes parem de vender água mineral e forneçam aos clientes água potável na velha e boa jarra de vidro. Que tal a gente lançar essa idéia por aqui?

3. De volta às origens

Cuidar da minha horta em casa me coloca em contato com a natureza e a história da minha família.

Meu pai é filho de colonos, como eram chamados, no início do século passado, os imigrantes que vinham para o Brasil cultivar terras alheias até juntar um dinheirinho e poder comprar o próprio sítio. Trabalhou na roça até os 20 anos, quando se mudou para São Paulo. Meus bisavós maternos eram produtores de café que precisaram incendiar toda a colheita em 1930 porque a bolsa de Nova York tinha quebrado, o mundo entrava em recessão e não havia mais compradores.

Eu nasci e cresci no asfalto, sem nenhum interesse pela vida rural. Mas as preocupações ecológicas me fizeram querer saber de onde vêm os alimentos lá de casa. Há um pouco mais de 10 anos, estava em um grande supermercado fazendo compras quando, pela primeira vez, encontrei vegetais com a palavra “orgânico” no rótulo. Fui correndo para casa e consegui achar, em letras minúsculas, o telefone do produtor. Liguei para lá e atendeu o Joop (pronuncia-se Iôp), um senhor holandês, um dos agricultores orgânicos pioneiros no Brasil, que não entendeu nada da minha empolgação e achou que eu era maluca. Na ocasião, o Sítio A Boa Terra estava começando um sistema de assinatura semanal de cestas orgânicas. Achei o assunto fascinante e escrevi a respeito na revista onde trabalhava. A reportagem teve alguma repercussão e, por isso, alguns meses depois, eu e meu marido (nossos filhos ainda não tinham nascido) recebemos um convite para visitá-los. Ficamos amigos do Joop – que, incrivelmente, tem grande semelhança física com meu pai – e da Tini, mulher dele. Por todos esses anos, mantemos contato e acompanho semanalmente as notícias do Sítio e da agricultura ecológica por meio de um ótimo informativo que chega junto com os produtos (dá para acessar pela internet: www.aboaterra.com.br/artigos). No ano passado, levamos o Alex e a Julieta, nossos gêmeos de sete anos, para conhecer o lugar onde nasce nossa comida. Foi uma experiência maravilhosa.

Joop e Tini, os incríveis agricultores pré-pós-modernos com quem tenho o privilégio de encontrar de vez em quando, me inspiraram a planejar uma horta na casa que acabamos de construir e para onde mudamos há algumas semanas. Ney, nosso jardineiro, plantou várias mudas de espécies comestíveis e meu pai outro dia criou um berçário de alfaces e rúculas que já estão brotando. Agora dedico alguns minutos todo dia para regar a lavoura doméstica. Minha filha adora colher tomates-cereja para a salada e juntas costumamos tomar chá de folhas de hortelã tiradas na hora do canteiro. Já dá para consumir também manjericão, couve, orégano, cebolinha, salsinha e alface. Os pés de mamão e jaboticada ainda são minúsculos, mas um dia se transformarão em árvores. O pé de mexerica foi presente da Lúcia, minha amiga há quase 30 anos. E lembro dela todos os dias quando vou regá-lo.

A vida de micro-fazendeira mal começou e ainda me sinto analfabeta nos assuntos da terra. Mas com certeza já estou mais perto das minhas raízes. Outro dia, no meio de uma reunião de trabalho em que discutíamos ações de marketing e outras realidades virtuais, olhei em volta da mesa e pensei nas origens de todas as pessoas ali reunidas. Há três gerações, éramos todos camponeses.

2. Encaixotando tudo

Na hora da mudança percebi quanta coisa inútil a gente junta. E decidi controlar com muito mais rigor o que vai entrar em casa daqui para frente, especialmente a tralha infantil.

Exatamente agora, minha vida está toda encaixotada e etiquetada. Amanhã nós cinco mudaremos de casa: eu, meu marido, o Alex e a Julieta (nossos filhos gêmeos de sete anos) e o Nino, fox paulistinha, caçula da família. Nas últimas semanas, dediquei muitas horas a organizar tudo o que possuímos. E os pensamentos foram bem mais longe do que a minúscula distância de dois quarteirões que separam o novo lar do antigo.

Engraçado como a memória da gente é feita de uma substância bem leve, etérea. Fechando esse ciclo, penso em meus filhos, que chegaram a essa casa com dois anos, ainda tropeçando pelo gramado, e partem alfabetizados não só em leitura e escrita como também em videogame, computador e programação de TV a cabo. Lembro vagamente dos aniversários, do primeiro dia de aula no maternal, das viagens, do lanche “tranqueira” semanal depois da escola. Os detalhes de cada acontecimento vão se apagando aos poucos e sobram na mente cenas cada vez mais esfumaçadas, parecidas com sonhos. Já os rastros materiais das experiências infantis são duros, pesados, volumosos e numerosos.

Na hora de preparar as caixas de papelão é que me dei conta de quantos brindes de lanchonete fast-food, lembranças de festa infantil e brinquedos dos mais variados tipos fomos juntando. Percebi que passei os últimos anos ora procurando desesperadamente ora tropeçando em peças de quebra-cabeças perdidas, dados fora de lugar, blocos de montar desgarrados, cartas de jogos exiladas de seus pares, bolinhas, bichinhos de plástico, de borracha e de pelúcia espalhados por todo o nosso habitat… Coisas bonitinhas e dadas com carinho, mas que, pelo número excessivo, tornaram a missão de organizar os pertences dos filhos algo penoso. Sem falar que não é possível para uma criança brincar com tantas coisas. No final dessa semana de balanço doméstico, tranco a porta da frente e vou para a casa nova com muitos pontos de interrogação na cabeça.

Será que meus filhos imaginam que, assim como os próprios brinquedos, os recursos do mundo são incontáveis, infinitos, estão muito além da nossa capacidade de usufruir?

Como evitar que as coisas que compramos com nosso dinheiro suado (ou que as pessoas que gostam da gente usaram o próprio dinheiro suado para comprar) se transformem em pilhas de tralha?

O que fazer no final de cada festa de aniversário, quando cada um deles tem dezenas de pacotes para abrir? Mandar metade direto para a caridade sem dar bola para o protesto dos aniversariantes? Fazer doação dos brinquedos velhos e ficar só com os novos? Mas qual criança, pobre ou rica, merece receber de presente boneca desgrenhada e riscada ou carrinho faltando uma roda? A saída é limpar um a um e levar tudo para o conserto antes de doar? E onde arranjo tempo para isso? Se eu jogar o que sobra no lixo, o que faço com a minha consciência? Não posso esconder de mim mesma o fato de que milhões de crianças nesse mundo nunca tiveram um brinquedo sequer.

Será que, daqui a uns 100 anos, quando a filha da filha da filha da Julieta estiver tropeçando em bonecos pela casa, o plástico com que são feitos todos os brinquedos que acabo de encaixotar ainda estará por aí, poluindo o meio ambiente?

Por tudo isso, a comemoração do Dia das Crianças esse ano lá em casa vai ser tomar um picolé e brincar de cabra-cega na praça. E vamos nos divertir muito.

1. Pensamentos no varal

Além de ser ruim para o meio ambiente, essa história de comprar roupa demais e descartar as peças facilmente é pouco ética.

Até a semana passada eu me achava razoavelmente ecológica e não muito consumista. Aí fiz uma arrumação no armário e descobri que possuo:

  • 110 peças para meu próprio hemisfério norte (incluindo camisas de trabalho, blusas de manga longa, de alcinha, de festa, de ficar em casa e as camisetas fuleiras para fazer esporte);
  • 29 calças;
  • 6 saias e 1 vestido;
  • 17 bermudas;
  • 45 sapatos;
  • 24 malhas de lã e 6 blazers (que odeio usar);
  • 25 bolsas, mochilas & cia.

Apenas um corpo e 258 peças de roupas. Isso sem contabilizar as que se encontravam na longa jornada que vai do cesto de roupa suja ao armário novamente. Lembra da frase mais famosa do Pequeno Príncipe (“Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”)? Pois é exatamente assim que me sinto em relação a essa montanha de tecido, couro, borracha e metal. Fui eu que escolhi, paguei, levei para casa, uso, mando lavar e, às vezes, ajustar. Na hora da despedida, ainda tenho que encontrar um fim digno para algo que compartilhou minha intimidade por um bom tempo. Uma amiga, prática, sugeriu: “Para quê se preocupar com isso? É só doar as roupas”. Acontece que tenho um certo pudor de passar para outro ser humano itens que, como já disse, são íntimos. Sentimento compartilhado muitas vezes com quem recebe a doação. As pessoas de menor poder aquisitivo também preferem o ritual do consumo (mesmo que seja na barraca do camelô em frente ao terminal de ônibus) ao do reaproveitamento. Imagino que, comparando vestido que compraram por R$ 15 ao cocktail dress de grife que a madame passa em frente para liberar o cabide e ir de novo à compras, o primeiro ganha de mil a zero.

Há algum tempo, me enchi de constrangimento ao encontrar no lixo da minha casa todas as roupas que tinha acabado de doar para a faxineira nova. E outro dia, andando na rua, encontrei uma família de pedintes perto de um farol ao lado de uma pilha de roupas pisoteadas. Eram camisas sociais de executivo, uniformes de escola particular e mais diversos itens que não condiziam com o estilo skatista do pessoal, que, aliás, tinha um senso estético bem apurado.  Deduzi que as doações recém-recebidas não agradaram e iam ficar por ali mesmo. Até minha prática amiga concordou, pois faz trabalho social numa favela e cansa de ver cenas semelhantes. Foi quando um arrepio percorreu minha espinha e lembrei de uma reportagem que li logo após o tsunami. Era sobre as organizações humanitárias internacionais que pediam às pessoas do “primeiro mundo” que parassem de enviar roupas para os países asiáticos afetados pela tragédia. Argumentavam que — além das vítimas estarem precisando mesmo de água, alimentos e remédios — aquelas roupas eram totalmente inadequadas à cultura da região.

Então é isso: a nossa “bondade” em doar roupas para os mais necessitados muitas vezes não passa de uma maneira de dar vazão aos desejos consumistas com menos culpa. Hoje em dia prefiro as doações de roupas de crianças e adultos entre amigos, como uma forma de aproximação e de compartilhar histórias, do que esses atos beneficentes.

Pensar nisso tudo está me deixando longe de lojas, vitrines e até de anúncios de roupa. Já as revistas de moda eu adoro e leio cada vez mais. Tenho percebido, inclusive, que quanto mais me informo sobre o assunto, menos vontade tenho de ir às compras. Aos 42 anos, tenho um closet que parece uma espécie de brechó particular, reunindo meus itens preferidos dos últimos 15 anos pelo menos. Todos eles testados e aprovados em relação às formas e proporções do meu corpo. Assim, para garimpar um new look é só estar por dentro das tendências da estação, que, por sinal, são sempre mais ou menos as mesmas: 60’s, 70’s, 80’s, dark, punk, floral (argh!), esporte (oba!), militar, listas, estampas de animal, futurismo e mais uma meia dúzia de termos.

A calça skinny, por exemplo, ressurgiu faz um tempinho. Aí levei dois jeans retos à costureira, que os transmutou na última moda com maestria. Saí de lá com calças justas, bem parecidas com as que eu usava na adolescência. Aliás, lembro que a gente se orgulhava de ter aquele jeans supervelho e naturalmente desbotado por centenas de lavagens. Quando a tal calça rasgava de tanto uso, era uma vitória, mas nesse momento as mães começavam a perseguição implacável, geralmente culminando com o seqüestro da tão querida companheira de aventuras, sem possibilidade de resgate. Na minha casa, algumas vezes a falecida ressuscitava na forma de tapetinho de cozinha patchwork. Não consigo pensar em nada mais sustentável, para usar uma palavra da moda. Só que, antigamente, isso era apenas o jeito classe média de economizar dinheiro…

Muitas das tais tendências de moda que vêm e vão eu ignoro completamente porque nada têm a ver comigo. Mas em outras pessoas posso achar bonito. Apenas uma delas me causa mal-estar só de ver: a das roupas com cara de velhas. Como vivemos na sociedade do hiperconsumo e da hipervelocidade, ninguém mais tem perseverança para usar as próprias roupas até que adquiram aquele charmoso estilo “pano gasto”. Então a indústria da moda resolve isso para nós colocando operários e máquinas para desgastar os tecidos com fricção e ácidos de modo que cheguem aos consumidores um tanto puídos e manchados. Mais de uma vez já saí de lojas descoladas com um nó na garganta depois tocar uma peça assim. Lembrei de todas as gerações de seres humanos, com fartos exemplos na literatura, que tinham apenas uma ou duas roupas para vestir e que, sendo trabalhadores braçais, se esforçavam para preservá-las ao máximo porque tinham vergonha de serem vistos usando peças esfoladas.

Por falar em vergonha, o que dizer das 258 peças de roupa que moram no meu guarda-roupas?