39. Plantar. Cozinhar. Lavar. Costurar.

Homens, mulheres, adolescentes e crianças ganham muito quando colocam a mão na massa e encaram as tarefas domésticas.

A propaganda tenta nos convencer a comprar produtos práticos. Em marquetês, praticidade significa adquirir algo industrializado e pré-pronto em vez de colocar a mão na massa. A vantagem embutida nesse tipo de oferta é ganhar tempo. Mas ganhar tempo para quê? Para assistir mais anúncios na televisão? Para adicionar mais amigos virtuais ao Facebook? Para ir ao shopping fazer compras?

É uma pena que o feminismo tenha deixado como efeito colateral a aversão ao mundo doméstico. Obviamente, o fim (ou melhor, o abrandamento) do patriarcado melhorou o ocidente. As notícias que chegam dos países árabes, da África e da China, imensos territórios onde as mulheres ainda passam por suplícios, não deixam sombra de dúvida. Nas últimas décadas, porém, passaram a ser malvistas tarefas como preparar uma refeição, arrumar os armários, pregar botões e lavar a louça.

Na minha opinião, homens, mulheres, adolescentes e crianças saem perdendo quando evitam os trabalhinhos humildes. São coisas deliciosas de fazer e que têm efeitos terapêuticos poderosos. Quando limpo (sem produtos tóxicos) e organizo a casa, faço faxina nos pensamentos e sentimentos. O almoço que preparo no fim de semana com os vegetais fresquinhos e orgânicos aqui do quintal é mil vezes melhor do que as gororobas congeladas servidas pela indústria alimentícia. Melhor até do que a comida delivery da lanchonete bacaninha. Melhor até do que enfrentar um restaurante lotado. Todo o processo de cozinhar e colocar a mesa em família nutre a alma e tempera os vínculos entre nós. Quando temos convidados, a alegria fica maior ainda.  

Passo longas horas diárias pesquisando e escrevendo diante da tela do computador. Para recarregar as baterias, preciso cuidar da horta e passear com o Nino (meu cão), entre outros serviços braçais. Ontem mesmo, acompanhei minha filha Julieta numa atividade. Como sempre, levei um livro. No caso, uma obra-cabeça. Felizmente, tinha comigo agulha e linha e pude consertar a mochila, que estava arrebentando. Li um capítulo e depois fiquei meditando sobre ele enquanto costurava. O tempo voou e saí de lá muito mais disposta do que quando apenas leio.

As crianças de hoje já nasceram numa sociedade acelerada, hiperconectada e viciada em altas doses de diversão. Canais infantis transmitem 24 horas. Filmes 3D são lançados toda semana, assim como novas versões de games e gadgets. Meus filhos gostariam de preencher todos os minutos do dia e da noite com distrações eletrônicas, mas a gente coloca limites. Para eles, o vácuo de atividades, popular tédio, é difícil de encarar. E contribuições mínimas com as tarefas domésticas demandam grande esforço.

Aos poucos, eu gostaria de ensinar ao Alex e à Julieta como é bom plantar, cozinhar, lavar e costurar. Quero que eles saibam que nada cai do céu, como acontece no Playstation. Por enquanto, já está valendo a pena insistir em colocá-los em contato com a realidade mais simples e básica da vida. Lavar o carro, por exemplo, se tornou uma das brincadeiras preferidas do meu filho. Como o calor voltou, vamos fazer isso no próximo sábado (utilizando a menor quantidade possível de água).

OBS 1 – O livro que cito no quarto parágrafo é Small is Beautiful – Economics as If People Mattered, de Ernst Schumacher, economista alemão que viveu na Inglaterra. Trata-se de uma das principais obras do movimento ambientalista e estou adorando. O título já diz muito…