28. Cidade das bicicletas

Pedalando minha bike enferrujada, sonho com um mundo em que os carros desapareceram.

Tenho observado cada vez mais ciclistas nas ruas de São Paulo. Nos domingos de manhã, quando saio para pedalar com o Nino, meu fox paulistinha maluco, as bicicletas já ganham dos carros na Pedroso de Moraes. Mesmo durante a semana, na hora do rush, muita gente desafia a violência do trânsito paulistano nesse veículo superfrágil. São homens, mulheres, adolescentes, jovens adultos e – o que mais me chama a atenção – muitos quarentões e cinquentões usando a bike como meio de transporte.

Essa coragem me falta. Morro de medo de ser atropelada por um carro e, por isso, fico aqui pelo bairro. Como meu cão precisa de exercícios intensos, ando de bicicleta todos os dias pelas ruas ao redor de casa. Também vou de bike ao clube e à fisioterapia, que ficam bem perto. Meu próximo objetivo é a integração bicicleta-metrô. Dá para ir da minha casa até a estação Faria Lima da linha amarela pela ciclovia, o que é um luxo. Assim que sobrar um tempinho, sairei pedalando, deixarei a bicicleta estacionada no Largo da Batata, pegarei o trem, em alguns minutos, chegarei à Avenida Paulista.  

Estou longe de ser uma ciclista high tech. Tenho uma bike toda enferrujada, sem marchas nem freio (é preciso travar as rodas no pedal). Mas não a troco pela Ferrari das bicicletas de jeito nenhum. Além de ser superconfortável com seu guidom alto e o banco enorme e bem acolchoado, me identifico com seu estilo hippie-velho. Foi comprada por US$ 50 em 1998, nos Estados Unidos. Eu estava lá participando de um congresso e, em vez de alugar um carro para percorrer todos os dias o trajeto de 3 km entre o hotel e o centro de convenções, decidi adquirir o veículo.

Para driblar o pavor do atropelamento, evito ruas movimentadas, fico atenta aos ruídos e uso em cima da roupa um colete de treinamento verde fosforescente que o time de basquete me doou. Assim, os motoristas são obrigados a me enxergar.  

Comecei a ler “Diários de Bicicleta”, de David Byrne (sim, aquele do Talking Heads), estou adorando e recomendo. Ele usa a bike como meio de transporte em Nova York desde os anos 80 e tem um modelo dobrável que leva em suas viagens pelo mundo. No livro, são imperdíveis as descrições de cenários urbanos e as reflexões sobre como o automóvel destruiu os espaços de convivência entre as pessoas. 

Trilha sonora desse post: Nothing But Flowers, de David Byrne (www.youtube.com/watch?v=PEV-pPf3Fu4) – A música fala da era pós-industrial, em que os viadutos, shoppings e fábricas já não existem e as plantas retomaram a superfície do planeta.