104. Verão na horta, chuchu na panela

Nessa época do ano, a umidade e o calor em excesso estressam as plantas e quem cuida delas. Mas, enquanto as espécies estrangeiras sofrem, as nativas crescem bem e frutificam.

Quando está calor demais, se bobear a terra encharca, as folhas murcham e as mudas novinhas morrem queimadas. Sem falar que os pulgões & cia aparecem com mais freqüência. Nos anos anteriores, eu molhava demais, inclusive perto do meio-dia, preocupadíssima em evitar a desidratação. Vendo as coitadinhas retorcidas, corria com o regador para dar um alívio. Aprendi que esse é um erro comum. Quando fiquei prática do manejo do “dedômetro” (enfiar o dedo na terra para testar a consistência e umidade) notei que nem sempre elas murcham por falta d’água. Muitas vezes os vegetais estão apenas se protegendo do excesso de raios solares e da temperatura alta demais. E jogar água nas plantas sob o sol forte só piora o problema, pois isso pode literalmente cozinhar as plantas. Hoje prefiro nem aparecer na horta no meio do dia quando a temperatura está acima dos 30ºC, assim não fico nervosa.

Para evitar o superaquecimento, só cobrindo a terra com uma camada de 5 a 10 cm de palha seca e providenciando sombra parcial. Pode ser com toldo, sombrite (tela que existe para isso mesmo e é vendida em casas agrícolas) ou, melhor ainda, com a própria vegetação. Atualmente, crescem em volta dos meus canteiros suspensos trepadeiras que fizeram uma cortina verde e ainda oferecem frutos. Chuchu e maracujá são ótimos para isso e estamos em plena safra! O povo tem razão quando diz que chuchu “dá” demais. Cheguei a colher mais de 10kg num único dia. E saio por aí distribuindo para os vizinhos, pessoas que vêm prestar algum serviço, colegas em reuniões e até no treino de basquete levei para abastecer a despensa das companheiras de time. Eu e a Rose, que trabalha aqui em casa, ficamos craques em receitas com chuchu e coloquei aí embaixo as que fazem mais sucesso. Numa dessas entregas, a Olinda, que mora em frente, recomendou colher os chuchus enquanto estiverem pequenos para ficarem mais tenros e saborosos.

Antes de reclamar do clima, cabe uma reflexão sobre nossas escolhas e histórico alimentar. Grande parte das espécies que cultivo é estrangeira, proveniente de locais em geral mais secos e frios do que São Paulo. Alecrim, tomilho, sálvia, orégano e rúcula, por exemplo, vieram das bordas do mediterrâneo. Alface, da Ásia ocidental. Tomate, do Peru, e manjericão, da Índia. Cebolinha é européia, não sei de que região. Está explicado por que se dão muito melhor no inverno daqui!

Mas basta olhar o pé de taioba, o chuchuzeiro e o maracujazeiro para perceber que, como a maioria dos brasileiros, preferem os dias de verão. Fui pesquisar as origens e — voilá! – são todos tropicalíssimos. A taioba, ignorada por décadas e entrando na moda, é aqui do Brasil (substitui espinafre em qualquer receita). O chuchu, nativo da América Central, vem sendo apreciado desde o tempo dos astecas. E o maracujá também surgiu nas regiões quentes do nosso continente.

Pensando numa agricultura mais sustentável para o futuro, com certeza teremos que recorrer às espécies nativas, totalmente adaptadas ao clima local e, por isso, mais fáceis de cultivar e menos suscetíveis a doenças.

Hora de ir para a cozinha!

TORTILHA DE CHUCHU DA CLAUDIA (fácil e rápida)
Ingredientes
 1 ovo (orgânico de preferência)
– ½ chuchu pequeno ou médio sem casca, ralado grosso
– 1 colher de sopa de cebola crua picada
– gersal (ou sal comum) a gosto
– um pouco de erva fresca picada (salsinha, cebolinha, nirá ou tomilho são as melhores)

Como fazer
Bata o ovo com o garfo. Junte os demais ingredientes e coloque numa frigideira bem pequena para ficar alto como uma tortilha. Quando perceber que o lado de baixo está sequinho e dourado, vire com cuidado. Eu uso o chuchu cru, mas se preferir pode ferver com um mínino de água por 1 minuto e escorrer bem antes de incorporar à mistura.

 

SUFLÊ DE CHUCHU DA ROSE (delicioso e chic)
Ingredientes
– 5 chuchus pequenos ou médios
– 1/2 cebola picada
– 2 gemas
– 2 claras em neve
– 1 colher de manteiga
– 1 colher de sopa de maisena
– 1 colher de café de raspas de limão
– 1 colher de sopa de parmesão
– folhas de manjericão fresco picadas
– sal a gosto

Como fazer
Descasque e corte os chuchus na metade. Cozinhe no vapor até ficar macio. Amasse com um garfo. Em separado, refogue a cebola na manteiga. Depois que o chuchu e a cebola esfriarem, misture todos os ingredientes menos as claras em neve, que devem ser levemente incorporadas no final. Unte uma forma refratária (de preferência redonda) com manteiga e polvilhe com farinha de trigo. Coloque no forno a 180ºC e em cerca de 40 minutos está pronto.

101. O canteiro abdominal

A história do aparelho de ginástica aposentado que virou berço de tomates, berinjelas, cebolinhas e alfaces.

Janeiro é o mês de organizar armários e preparar a casa para o novo ciclo. Um trabalhão, sobretudo porque me esforço ao máximo para não enviar nada para o lixo. Mas também uma delícia, pois a mente e a alma vão encontrando seu lugar enquanto os objetos são reencontrados, ganham limpeza, novas funções, novos donos. No meio das tralhas, achei um velho aparelho de fazer abdominais e resolvi transformá-lo num canteiro. A explicação vem antes e as imagens estão abaixo.

1 ) Comecei a aventura usando uns restos de madeira para fixar a base. Amarrei com arame e chequei a estabilidade.

2) No fundo entrou o sombrite, uma tela preta que as casas agrícolas vendem, e uns pedaços de delimitador de  grama (essa faixa de plástico) para aumentar a sustentação.

3 ) Aí veio a manta drenante (conhecida nas lojas de jardinagem pela marca “bidim”), que tem a função de deixar o excesso de água ir embora mas segurar a terra.

4) Para fixar tanto o sombrite quanto o bidim, costurei no cano usando arame. Aprendi recentemente que alicate serve para cortar arame: é só ir dobrando para cá e para lá. 

5) Enchi com uma mistura de terra, areia, composto e adubo orgânico, húmus das minhas minhocas, vermiculita, cinzas (da pizzaria da esquina) e um pouco de carvão picado. Coloquei as mudas e cobri a terra com palha.

6) Duas semanas depois, as plantas já estavam bem maiores. Apenas o pé de couve não ia bem e, consultando a tabela de alelopatia (combinação de plantas) percebi que não se dá com tomateiro. Então transferi para outro canteiro. Agora é só esperar para comer os tomates e as berinjelas. Alface e cebolinha já está dando para colher! 🙂

Agora, as fotos, que ficaram meio bagunçadas porque essa ferramenta de publicação de blog está maluca. Ou eu. Enfim, depois mando notícias da lavoura-fitness. 

 

86. Mensageiros da Primavera

Enquanto a agricultura química declara guerra aos insetos & cia, a agroecologia ensina a conviver. Nessa época do ano, mais bichinhos aparecem e precisamos reaprender que nossa existência depende deles. 

Tanto as ruas quanto os canteiros aqui de casa estão se enchendo de flores. Além delas e das árvores brotando, há outro indício de que a primavera vem aí: aumenta a população de pequenos animais que vivem ou visitam a horta. Observo as fofas joaninhas, os exóticos grilos e besouros, a movimentação das formigas, os beija-flores flutuando, os bem-te-vis cantando, a chegada das abelhas e a gulodice das lagartas.

Muita gente acredita que, para fazer agricultura orgânica, basta substituir os agrotóxicos pelos adubos naturais. Mas as diferenças são muito mais profundas. Outro dia aprendi que o verdadeiro trabalho do agricultor orgânico não é alimentar as plantas e sim os microorganismos que fertilizam o solo. Já o cultivo com base em produtos químicos declara guerra aos seres vivos, com exceção da espécie que se repete naqueles imensos e monótonos campos de monocultura. “Todo bichinho deve ser exterminado” parece ser o mantra dessa turma.

“Pura ingenuidade dos humanos, esses recém chegados”, deve ser a conversa nos formigueiros. As baratas, por exemplo, conseguirão se virar mesmo se continuarmos empurrando o mundo para o cataclisma ambiental. Elas já existiam antes do surgimento dos dinossauros e sobrevivem a 20 vezes mais radiação do que nós (http://super.abril.com.br/mundo-animal/verdade-so-baratas-sobreviveriam-desastre-nuclear-447831.shtml). E as abelhas (que estão desaparecendo em várias regiões provavelmente por causa da nossa poluição química e eletrônica) são polinizadoras de diversos vegetais (http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,o-misterioso-sumico-das-abelhas,671171,0.htm). Se elas sumirem, desaparecerão também, por exemplo, as maçãs.

Numa floresta virgem não existem pragas, já que todas as espécies são interdependentes e alimentam umas às outras. A diversidade do sistema previne contra a proliferação descontrolada do que quer que seja. Os adeptos da agroecologia tentam restabelecer esse equilíbrio sutil plantando vários tipos de plantas, integrando a lavoura à criação de animais, preservando fontes hídricas e áreas de vegetação natural. Quando a terra está sadia, é possível dispensar adubos químicos e venenos.

No meu quintal tento seguir esses preceitos em escala micro. Aos poucos vão crescendo árvores que ninguém semeou, como uma goiabeira do lado de cozinha e uma embaúba perto do muro. Sonho em cultivar uma agrofloresta urbana em plena SãoPaulo e assim continuar colhendo ervas, hortaliças e legumes no meio das árvores e acolhendo os bichinhos que aparecem.

Mas nem sempre é fácil a convivência com os liliputianos. Pulgões às vezes estragam os pés de couve e os passarinhos pisoteiam as mudas recém-plantadas quando vêm caçar minhocas. As lagartas de fogo aparecem no final do verão e já sofri queimaduras. Semana passada foi a vez de lesmas gigantes atacarem as folhas das palmeiras. Às vezes expulso a galera com jatos d’água ou borrifando limonada, pimenta ou alho batido. Tem também os pernilongos, contra quem pusemos tela e plantamos citronela. Quando começam a picar, corto umas folhas e jogo no chão. O cheiro é gostoso e eles se mandam. 

Cada vez mais, tento observar e entender os ciclos dos bichinhos para tentar uma convivência pacífica. Já aprendi que plantar flores junto com os comestíveis é ótimo para atrair inimigos naturais de quem gosta de devorar a colheita. E fica lindo!

 

82. Como fazer uma horta em casa

triagem jul 11 012Aqui vai um roteiro com 7 etapas para você começar sua produção agrícola doméstica.

Plantar comida no quintal (ou até na varanda do apartamento) tem mil vantagens: reforça o cardápio saudável, ajuda a economizar, diminui a produção de lixo e faz a gente se conectar espiritualmente com a natureza. Minha horta existe há quatro anos e, entre erros e acertos, vai melhorando. Tenho estudado bastante, mas ainda há muito o que aprender. Transformei em dicas práticas algumas das minhas descobertas. Aqui vão elas:

1 – A FASE DO SONHO
Deixe a sementinha da vontade de ter uma horta criar raízes dentro de você. Ou seja, não tenha pressa. Passeie pela varanda ou pelo jardim observando o espaço disponível, a incidência de sol (o ideal é pelo menos 5 horas por dia) e de vento (quanto menos melhor — por isso é bom evitar a face sul). Leia sobre hortas domésticas, procure informações na internet e, se puder, visite quem já possui uma. Comece logo a fazer compostagem ou instale um minhocário: assim você já vai preparando o adubo enquanto planeja sua lavoura.

Ponto de encontro dos Hortelões Urbanos no Facebook (para tirar dúvidas e encontrar colegas):  https://www.facebook.com/groups/170958626306460/

Livros: http://www.viaorganica.com.br/livrosepublicacoes.htm; http://www.livrariatapioca.net/

Onde adquirir minhocário:  http://www.moradadafloresta.org.br/; http://composteira.blogspot.com/; http://cadicominhocas.blogspot.com/ (versão mais econômica); http://www.minhocasa.com/ (esse último em Brasília)

Mais sobre compostagem: http://conectarcomunicacao.com.br/blog/62-decomposio/; http://conectarcomunicacao.com.br/blog/47-queridas-minhocas/

 

2 – DECIDINDO ONDE PLANTAR
Um dia você finalmente resolve escolher o espaço. Pode ser um canto do jardim ou uma área cimentada (nesse caso, a horta será em vasos). Nessa hora é preciso ter cuidado para não cair na tentação da megalomania, pois grandes áreas são trabalhosas e você terá que encaixar as atividades de agricultor na rotina diária. Para começar, quanto menor, melhor. Um metro quadrado ou quatro vasos está muito bom. Quando pegar o jeito, você vai expandindo aos poucos a roça. Um bom tamanho para os vasos é a partir de 30 cm de diâmetro. Os menorzinhos são úteis para espécies mais esguias, como cebolinha, salsinha e tomilho.

Muito cuidado também com a tentação do consumismo (o que mais se vê por aí é excesso de equipamento e falta de dedicação). Baldes velhos, latas e potes de plástico que iriam para o lixo podem virar vasos (basta fazer orifícios no fundo com uma furadeira), mas os de barro são os menores.  Será que algum conhecido tem no fundo do armário instrumentos de jardinagem que nunca utiliza? Ou vasos que iria jogar no lixo? Peça doações.

3 – PREPARAR A TERRA
Se for plantar no chão, delimite o local e, com uma enxada, vá “quebrando” a terra para retirar raízes, grama, pedrinhas. Se conseguir aprofundar o buraco uns 40 centímetros será ótimo. Preencha com a terra retirada e de preferência peneirada (sem pedrinhas ou raízes) e composto orgânico, esterco e/ou húmus de minhoca que você fez em casa. Pó de osso também é muito bom (fonte de fósforo), assim como cinzas (potássio). Depois de afofar, nunca mais pise na terra. Por isso os canteiros devem ter no máximo 1,20m de largura. 20 cm de altura é uma boa medida. Se só for possível acessá-los por um dos lados, reduza para uma medida que você alcance confortavelmente sem pisar.

Após a adubação, cubra o canteiro com uma camada de mais de 10 cm de espessura de material seco (palha, folhas ou podas de grama). Se não tiver o suficiente em seu próprio jardim, recolha da rua ou fique de olho naqueles sacos pretos que os jardineiros absurdamente largam para o caminhão de lixo levar embora. Se for plantar em vasos, coloque no fundo 2 cm de argila expandida, cacos de telha ou até pedaços de louça quebrada(com a parte convexa para cima). Em vasos grandes essa camada pode chegar a 10 cm. Preste atenção para não vedar totalmente os furos, pois um bom escoamento de água é fundamental. Em cima, areia na mesma proporção ou tecido de algodão (trapos). Complete o vaso com terra adubada, deixando uma faixa superior livre, onde vai a generosa camada de matéria seca. Mantenha a terra úmida, mas não encharcada.

Se for plantar em vasos, coloque no fundo 2 cm de argila expandida ou cacos de telha (com a parte convexa para cima). Em vasos grandes essa camada pode chegar a 10 cm. Preste atenção para não vedar totalmente os furos, pois um bom escoamento de água é fundamental. Em cima, areia na mesma proporção ou manta bidim (um tecido drenante que você encontra em lojas de jardinagem). Complete o vaso com terra adubada, deixando uma faixa superior livre, onde vai a generosa camada de matéria seca. Mantenha a terra úmida, mas não encharcada.

4 – ESCOLHER SEMENTES E MUDAS
Quais espécies plantar? Isso depende do que você gosta de comer, da época do ano, do espaço disponível e da intensidade da insolação. O melhor é usar sementes orgânicas. Se não encontrar, fique com as normais, que são vendidas em saquinhos em lojas de jardinagem. Na embalagem estão informações sobre período e forma de plantio e espaçamento das mudas. Para otimizar espaços, use a sementeira (uma bandeja cheia de casulos pequeninos que funciona como viveiro).

Para iniciar a horta, as ervas são uma ótima opção, pois em pouca quantidade já mudam o sabor dos pratos. E você pode ir retirando folhinhas em matar a planta. Começar por espécies como alface e cenoura é complicado, já que, depois de cuidar da planta por meses a fio, em um segundo você colhe e come. E fica aquele espaço vazio na horta…

Tomate é o sonho da maioria dos hortelões, mas prepare-se, pois se trata de uma planta exigente e que vai melhor ao inverno. Dizem que chuchu e maracujá são trepadeiras mais simples de cuidar.

Na agricultura orgânica, misturar espécies é uma prática incentivada, pois reduz o risco de ataque de pragas e ajuda a manter a fertilidade da terra. Nem todas as espécies, no entanto, convivem bem. Embora eu use o método “deixa rolar para ver o que vai dar”, existem tabelas de compatibilidade. Consultando-as, montei a lista de casais e desafetos abaixo:
Juntar: alface/cenoura; alface/beterraba; cebola/cenoura; cenoura/rabanete; pepino/rabanete; tomate/cenoura; tomate/cebola; espinafre/morango; rúcula/pimenta; couve-flor/beterraba.
Separar: tomate < > rúcula; tomate < > rabanete; alface < > pepino; alface < > morango

Onde encontrar mudas de ervas aromáticas e medicinais em São Paulo:  http://www.sabordefazenda.com.br/

 5 – CUIDAR
Como os filhos e os animais de estimação, a horta pede cuidados diários. Dá trabalho, claro, mas é uma atividade deliciosa. Aos poucos, cada um encontra seu ritmo e essas orientações podem ajudar:

  • Regar demais é tão ruim quanto deixar as plantas secarem. Use o “dedômetro” para aferir a umidade ideal. É assim: você enfia o dedo bem fundo na terra e verifica se está úmida e grudando. Em caso afirmativo, não precisa regar mais. Atenção: folhas murchas significam sede.
  • Melhores horários para regar e manejar as plantas: início da manhã ou final da tarde. Prefira os dias nublados e mais frescos para transplantar.
  • O verão tropical escaldante e sujeito a tempestades é um período complicado para as plantas. Paciência e atenção redobrada nessa época.
  • A terra deve estar sempre fofíssima como um bolo. Se ficar endurecida, veja se está faltando água ou se a camada de matéria seca necessita de reforço.
  • Algumas plantas são perenes ou vivem durante várias safras, como é o caso das ervas, da berinjela e do pimentão. Outras têm apenas uma colheita, como o tomate e a alface. Misture esses dois tipos para sempre ter uma horta viva.
  • Enquanto uma safra de folhosas cresce, vá preparando a próxima na sementeira.
  • Quanto mais biodiversidade, melhor. Troque mudas com amigos hortelões, arranje sementes diferentes e vá trazendo novas espécies.
  • Na agroecologia não se fala em ervas daninhas e sim em espécies espontâneas. São os matinhos que crescem sem ser semeados. Não precisa exterminar. Se não estiverem alastrando demais ou atrapalhando o desenvolvimento da planta comestível, deixe lá.
  • O chorume do minhocário diluído em água é um excelente adubo para borrifar nas folhas.
  • A cada mês ou quando sentir que a planta está precisando, adube a terra. Mas sem exagero.
  • Contemple todas as etapas da vida: nascimento, crescimento, frutificação, morte e decomposição. Cada uma tem seu encanto.

 

6 – ACEITAR OS ERROS
Inevitavelmente eles vão acontecer. Por falta de experiência, distração, problemas climáticos ou outras razões. Faz parte do processo. Ter uma horta é uma excelente oportunidade de treinar a resiliência, a humildade, a aceitação de que somos falíveis e nem tudo acontece de acordo com a nossa vontade.

 

7 – CURAR
O solo fértil e povoado de milhares de tipos de microorganismos é a base de um ecossistema agrícola perfeitamente equilibrado, em que doenças e pragas não proliferam. Mas na vida real situações ideais são raras, então a probabilidade de enfrentar problemas em algum momento é quase 100%. Mesmo sem saber diferenciar uma cochonilha de um pulgão, tenho me virado para lidar com os ataques por aqui.

Duas atitudes preventivas importantes: plantar cada espécie em sua época adequada e fazer rotação de culturas, mudando não só a espécie como o tipo de planta. Onde estava uma folhosa entra uma raiz, onde estava uma erva entra alguém que dá frutos, como o pepineiro ou tomateiro. Bom mesmo é fazer uma tal adubação verde antes da próxima safra. Ainda não tentei, mas chego lá. Vale a pena também cultivar flores ao lado de espécies comestíveis, pois elas atraem joaninhas e outros bichinhos do bem que controlam a população dos monstrinhos. Nos livros de agricultura ecológica recomenda-se muito as caldas bordalesa, viçosa e sulfocálcica. As receitas estão na internet, mas achei meio complicadas e por isso ainda não tentei.

Quando encontro a infestação, arregaço as mangas e vou esfregando as folhas com os dedos, para arrastar os bichos. A orientação é jogar depois um jato d’água e, em seguida,os preparados antiinfestação. Nas lojas de jardinagem existe o famoso óleo de nim (ou neen), que eu não uso por seu poder inseticida. Opções caseiras são limonada (sem açúcar, claro), calda de fumo, pimenta ou alho batido com água no liquidificador. Alguma dessas coisas misturada com sabão de coco. Já ouvi dizer que fazer um suco do próprio bicho no liquidificador e borrifar funciona muito bem, já que essa turma pode ser meio bandoleira, mas não é canibal. Achei punk demais e ainda não tive coragem de experimentar algo assim. Mas, se bater o desespero, essa pode ser a salvação da lavoura. Na verdade, quase nunca chego a “tratar” as plantas da minha horta. Vou observando. E percebi que, com o tempo, as infestações diminuem. É importante o solo estar fértil, plantar tudo misturado e deixar virem os mais variados bichinhos que aí as populações se autorregulam.

 

62. De-com-po-si-ção

 Usar a composteira e o minhocário para fabricar adubo em casa é muito mais do que uma atitude ecológica. Existe algo de profundamente espiritual em permitir que microorganismos e minhocas transformem plantas mortas em alimento para plantas vivas.

Por dentro, o minhocário é assim
Por dentro, o minhocário é assim

Minha horta é irmã gêmea da composteira. Quando resolvi plantar, achei totalmente ilógico continuar jogando fora sobras da cozinha e podas do jardim se teria que comprar “terra vegetal” nas lojas do ramo. Esses resíduos não são lixo e sim matéria prima para fabricar adubo. Sem um espaço especialmente projetado para a composteira, simplesmente cavei um buraco embaixo de um canteiro suspenso e comecei a colocar lá cascas, talos, caroços, folhas e galhos.

Foi inesquecível a primeira vez que abasteci a composteira. Ao depositar os restos do dia na cova e atirar por cima uma pá de terra, percebi que aquilo era literalmente um enterro. Deu arrepio, mas nada parecido com filme de terror. Tive a sensação de estar intensamente conectada ao ciclo da vida. Parei um instante para contemplar os fragmentos do que tinha sido usado na preparação das refeições e agora seria decomposto por exércitos de microorganismos. Depois, esse mesmo material iria fertilizar as próximas gerações de legumes e verduras aqui mesmo.

Semanas se passaram e, como por milagre, não era mais possível enxergar a casca da banana ou o talo do brócolis: tudo tinha virado uma terra preta, soltinha e cheirosa. Com o tempo, me acostumei a revirar a composteira e encontrar minhocas e toda uma mini-fauna desconhecida. Foi assim até que adquiri um minhocário, para onde agora vão as “sobras nobres” (restos da cozinha) misturadas com material seco (folhas, guardanapos brancos usados, rolinhos de papel higiênico e restos de papelão sem nenhuma tinta). Dizem que serragem é excelente para o minhocário, mas não sei como conseguir. Se a mistura fica muito árida, as minhocas desaparecem. Se fica muito úmida e ácida, idem. Aqui já aconteceu invasão de uns vermes esquisitos, que solucionei mudando o manejo. Mais ou menos como cozinhar, aos poucos vamos pegando o jeito e acertando a mão. Troca de experiências e conselhos de quem está na mesma trip minhocal sempre são bem-vindos.  

A composteira continua firme e forte, mas cuida sobretudo do setor de jardinagem. Comprei também um triturador, máquina barulhenta que parece um liquidificador gigante e serve para picar folhas e galhos secos, o que acelera o processo de decomposição. O ritual punk de triturar, aliás, é um santo remédio para o mau humor.

Misturo o composto que produzo ao húmus de minhoca também feito em casa ou a fertilizantes orgânicos (Bokashi e Tsuzuki). Semanalmente ou a cada quinze dias, uso o mix para adubar a horta. A essa mesma fórmula recorro quando quero expandir a lavoura. Só tem um detalhe: composteira e minhocário não aceitam restos de carne, queijo, frutas cítricas, cebola, alho, pimenta, comida muito gordurosa ou temperada.

Andando pelo bairro, fico indignada com aquelas fileiras de sacos pretos que os jardineiros deixam nas calçadas para os lixeiros levarem. Até as empresas de paisagismo entraram na onda da cadeia de produção linear, algo que na natureza não existe! Assim como todos os objetos industrializados, hoje em dia as plantas ornamentais começam sua história numa loja e terminam num grande lixão, onde tudo mistura e se contamina.

O documentário “Lixo Extraordinário”, nas boas locadoras, apaga a ilusão de que o lixo desaparece magicamente quando o caminhão de coleta vira a esquina. E o livro “Cradle To Cradle: Remaking the Way We Make Things” (Do Berço ao Berço: Repensando a maneira como fazemos as coisas — ainda não editado no Brasil) faz uma profunda reflexão sobre o assunto e aponta novos caminhos.