117. Tem horta na Paulista!

Sabe onde é isso? Av. Paulista quase esquina da Consolação.

Sabe o que é isso? O quarto mutirão da Horta Comunitária da Praça do Ciclista (um pedacinho de terra que começamos a cultivar em 12 de outubro). Em 2/12/2012 já deu para colher manjericão e ver tomatinhos aparecendo, além de couves quase no ponto de ir para a feijoada e muitas ervas culinárias crescidas e saudáveis. Nesse encontro especial demarcamos os canteiros, plantamos novidades (como feijão), fizemos pic-nic e aproveitamos a integração com o pessoal da Parada Veg, do Slow food, do Pedal Verde, do Bike Anjo e um monte de gente independente, livre, leve e feliz que apareceu lá para mexer na terra.

O pessoal sempre pergunta: não rola depredação? Não, não rola. A horta está sendo tratada com todo carinho por nós, cidadãos dessa cidade e desse planeta. Plantar comida no canteiro central de uma das principais avenidas dessa metrópole louca é utopia? É loucura? Não, já é realidade e isso é só o começo.

Yes, we can viver uma vida diferente e mais feliz.

(Fotos de Fernanda Danelon)

Para saber mais sobre a Horta do Ciclista: http://pt.wikiversity.org/wiki/Horta_do_Ciclista 

116. As roças de São Paulo

Plantar comida no quintal já é muito bom. Participar de uma horta coletiva em espaço público, simplesmente maravilhoso.

Desde que iniciei minha horta doméstica, há quatro anos, trabalhar a terra coletivamente em plena cidade de São Paulo virou um sonho. Eu duvidava um pouco que fosse possível e não esperava que acontecesse tão cedo. Mas já virou realidade!

Desde julho tenho o privilégio de fazer parte do grupo de voluntários da Horta das Corujas, na Vila Madalena. Está sendo uma experiência incrível, não só de aprendizado sobre plantio, mas principalmente de convivência humana. Nem é preciso mencionar os imensos problemas da metrópole, muito conhecidos por todos, mesmo por quem nunca pisou na pauliceia. Então a princípio o projeto foi visto com certa desconfiança. O terreno é contaminado? A água da nascente (que usamos para regar) está suja? As pessoas vão destruir os canteiros? Não, não e não! A prefeitura deixa? Vai aparecer alguém para ajudar no serviço pesado? Sim e sim! 

Quando eu ainda não plantava, trabalho braçal na roça me parecia algo penoso e desagradável. Não fazia ideia de que pegar na enxada podia fazer tão bem para o corpo, a alma e os relacionamentos. Sequer imaginava que a labuta na terra era tão fértil para o companheirismo e a reconexão com a natureza e o ciclo da vida. E que uma horta é um ímã de gente do bem. Mais detalhes não preciso contar porque nosso blog (www.hortadascorujas.wordpress.com) registra toda a história, desde o comecinho. Basta ler de baixo para cima.

Horta na Paulista?  Em plena avenida mais famosa da megalópole acaba de nascer a Horta do Ciclista. Fica na rotatória entre a Rua Bela Cintra e a Rua da Consolação, um espaço que os ciclistas adotaram como ponto de encontro. Ali não sou das voluntárias mais ativas, apenas participo dos mutirões de plantio em finais de semana. Algumas pessoas que trabalham na região estão se organizando para cuidar da horta no dia-a-dia e o esquema, 100% livre e 50% anárquico, funciona! Tudo na base da camaradagem e da ajuda mútua. Basta um balde (emprestado do prédio em frente) e um pouco de água para manter as plantas vivas até o próximo encontro de trabalho intensivo. Qualquer pessoa pode participar. As dicas estão nessa página wiki: https://pt.wikiversity.org/wiki/Horta_do_Ciclista.  

De novo, a desconfiança inicial foi grande. “Naquele lugar passa tanta gente, o pessoal não vai arrancar e pisotear?”, ouvimos mais de uma vez.  A resposta até agora é não. Os paulistanos estão respeitando esses projetos e, ao que parece, a cidade está preparada para muitas outras hortas coletivas. Que venham elas!

Para quem se interessa por cultivo de alimentos na cidade, mesmo que seja na varanda do apartamento, recomendo o grupo Hortelões Urbanos no Facebook (https://www.facebook.com/groups/170958626306460/).

113. Em vez de reclamar, vamos melhorar São Paulo?

Se existem mil motivos para falar mal de São Paulo, também há infinitos jeitos de dar uma contribuição para a cidade ficar melhor. Superfeliz por estar acompanhando diversas iniciativas que pretendem tornar a metrópole um lugar melhor para viver, vou compartilhar algumas delas, torcendo para que ganhem força e mais apoiadores.

 

  • Duas hortas comunitárias estão nascendo na cidade, ambas ligadas ao movimento dos Hortelões Urbanos. A primeira fica na Praça das Corujas (Vila Madalena) e já está na fase de plantio. Fizemos um blog para contar como anda o projeto www.hortadascorujas.wordpress.com e estamos recebendo voluntários de braços abertos. Os mutirões acontecem nos finais de semana. Os próximos serão em 19/8 (domingo) e 25/8 (sábado) a partir das 9h. A outra, ainda em fase de planejamento, será instalada no Centro Cultural São Paulo (Metrô Vergueiro) e também busca voluntários. Se quiser participar, mande uma mensagem para mim ou comente esse post que coloco você em contato com quem está fazendo o projeto.

 

  • Semana passada participei do Seminário “Compostagem na Cidade de São Paulo: Gestão Adequada dos Resíduos Orgânicos”. Foi na Câmara dos Vereadores, um momento histórico que marcou o início das atividades da Comissão Pró-Viabilização da Compostagem na Cidade de São Paulo. Esse grupo, integrado por representantes do poder público e da sociedade civil, está buscando maneiras de tornar a compostagem uma política pública, reduzindo muito a geração de lixo e ainda produzindo adubo orgânico de alta qualidade dentro da metrópole. Para saber mais:  http://www.moradadafloresta.org.br/artigos/compostagem-na-cidade-de-sao-paulo/618-propostas-pro-compostagem-na-cidade-de-sao-paulo

 

 

  • No sábado dia 25/8 darei o curso Hortas na Metrópole, no Quintal dos Orgânicos (Rua Fradique Coutinho, 1416, Vila Madalena). Vou falar sobre as melhores espécies de vegetais para começar o plantio doméstico, como escolher o local onde os vasos e/ou canteiros ficarão, como preparar a terra e os cuidados necessários para as plantas crescerem fortes e saudáveis. Custa R$ 60 e as inscrições podem ser feitas pelo e-mail claudia@conectar.com.br.

109. Por que os orgânicos são tão caros?

8 fatores explicam o preço mais alto dos alimentos sem agrotóxicos. E nada explica o conformismo diante do alto custo ambiental, social e de saúde pública que vem de brinde com a agricultura baseada em aditivos químicos.

Ninguém, em sã consciência, prefere comida com agrotóxico, mas os orgânicos no Brasil ainda são bem mais caros, o que deixa muita gente inconformada. Outro dia assisti a uma ótima palestra do agrônomo e pesquisador Wilson Tivelli, da Estação Experimental São Roque (ligada à Secretaria Estadual da Agricultura), que explicou brilhantemente essa questão. Aí vai um resumo dos argumentos de Tivelli (veja o artigo original aqui: http://www.aptaregional.sp.gov.br/index.php/component/docman/doc_view/1182-organicos-sao-caros-por-que?Itemid=275) misturados com o que aprendi sobre o assunto nos últimos tempos.

1 – Eles demoram mais para amadurecer
A agricultura orgânica consegue nível semelhante de produção por metro quadrado à da lavoura que usa adubos artificiais e agrotóxicos. No entanto, os alimentos se desenvolvem mais devagar. A cenoura orgânica, por exemplo, é colhida por volta de 116 dias após a semeadura enquanto a versão com aditivos químicos fica pronta em 97 dias. Ou seja, a safra ocupa a terra por mais tempo. E tempo é dinheiro.

Por outro lado, essa desvantagem comercial torna os orgânicos mais nutritivos e saborosos, pois vão extraindo da terra nutrientes mais variados e em maior quantidade. Enquanto os vegetais cultivados à base de compostos químicos sintéticos recebem basicamente apenas três macronutrientes -nitrogênio (N), fósforo (P) e potássio (K) – os adubos orgânicos oferecem toda uma tabela periódica em sua lista de ingredientes.

2 – Certificação
Por incrível que pareça, não há fiscalização obrigatória nas lavouras que usam agrotóxicos. Os abusos, ultrafrequentes, são descobertos pela ANVISA (Agência de Vigilância Sanitária) apenas ao recolher amostras de alimentos em supermercados. Para sentir o drama, é só clicar nesse link: http://www.estadao.com.br/noticias/vidae,pimentao-e-o-campeao-do-agrotoxico-mostra-estudo-da-anvisa,355203,0.htm.

Já o produto orgânico precisa ser certificado. Ou seja, o produtor deve arcar com a auditoria anual de sua propriedade, o que custa em média cerca de R$ 3 mil. Existem outras formas de certificação por meio de cooperativas que, embora sem custo fixo, demandam bastante tempo e dedicação, desviando o agricultor de sua função principal.

3 – Período de conversão
Um agricultor convencional que resolve virar orgânico passará por um tempo de vacas magras, pois sua terra está “viciada” em produtos químicos e não é fácil recompor a fertilidade utilizando recursos naturais. Durante essa fase, não há nenhum tipo de financiamento governamental que permita ao produtor sobreviver até conseguir safras melhores. No campo, essa talvez seja a principal barreira à adoção do sistema orgânico. Ou seja, existe muita gente querendo sair do esquema convencional, mas não consegue por razões financeiras de curto prazo.

4 – Falta de crédito
No Brasil não existem linhas de finaciamento voltadas para a agroecologia. Parece mentira, mas para conseguir liberação de dinheiro no banco, o produtor precisa mostrar a nota fiscal comprovando que adquiriu agrotóxicos. Veja com seus próprios olhos o depoimento deles no documentário “O Veneno está na Mesa”, de Silvio Tendler, e aproveite para ampliar seus conhecimentos sobre o tema. O filme está totalmente livre para cópia e veiculação: http://www.youtube.com/watch?v=8RVAgD44AGg.

5 – Barreira de isolamento
De acordo com a legislação atual, quem usa substâncias potencialmente tóxicas na lavoura não precisa se preocupar com os resíduos que deixa na atmosfera, na água e no solo, além de estar isento de responsabilidade caso seja comprovada a contaminação de um trabalhador. Para completar, nada o impede de borrifar agrotóxicos até o limite de sua propriedade, mesmo sabendo que a pulverização invadirá o território alheio.

Já o produtor orgânico precisa manter uma faixa de vegetação robusta e alta para isolar seu cultivo da química dos vizinhos. Ou seja, uma parte de sua propriedade não pode ser utilizada para plantar alimentos, o que reduz a produtividade.

6 – Menor escala de produção
O agronegócio convencional privilegia a monocultura. Assim, terrenos imensos são ocupados por uma única espécie (algo muito atraente para pragas e doenças, pois, quando o invasor encontra esse farto banquete, se dissemina em altíssima velocidade). No sistema orgânico dá-se preferência ao plantio conjunto de várias espécies vegetais e ao consórcio com a criação animal. Desse modo, é mais rica a produção interna de adubo (feito com esterco e sobras vegetais) e mais eficiente o controle das espécies indesejáveis.

No entanto, uma propriedade com vários cultivos emprega maior número de trabalhadores e há menor possibilidade de mecanização. Outro complicador do ponto de vista comercial é que, ao ter quantidades pequenas de diferentes produtos para oferecer ao mercado, o produtor orgânico perde poder de barganha.  

Um detalhe, porém, não deve ser esquecido: do ponto de vista socioambiental, essas aparentes desvantagens são muito positivas.

7 – Ganância dos supermercados
Grandes varejistas investem bastante em pesquisas sobre hábitos de consumo e logo descobriram que as pessoas com maior poder aquisitivo e nível de instrução são as que mais consomem orgânicos. Encontraram aí uma excelente oportunidade de inflar preços e foi o que fizeram. Uma pesquisa do Idec (Instituto de Defesa do Consumidor) realizada em 2010 flagrou uma diferença de preços de até 463% num mesmo produto orgânico (http://www.idec.org.br/em-acao/revista/142/materia/quer-pagar-quanto). Para quem busca alimentos sem veneno por preço em conta, as feiras de orgânicos são a melhor alternativa (procure aqui: http://www.slowfoodbrasil.com/textos/noticias-slow-food/504-voce-conhece-as-feiras-organicas-da-sua-cidade), seguidas pelos esquemas delivery (para saber mais sobre essa opção: http://conectarcomunicacao.com.br/blog/98-diga-adeus-aos-agrotxicos/.).

8 – Falta de assistência técnica e pesquisa
Antigamente existiam no país as redes de assistência rural financiadas pelo governo. Aos poucos, o poder público foi abandonando essa importante função e deixou o espaço livre para os fabricantes e revendedores de adubos sintéticos e agrotóxicos. Assim, quem dá orientações técnicas aos agricultores hoje em dia são os vendedores dessas fórmulas. Claro que eles não têm interesse nenhum em ajudar quem não consome seus produtos. Além disso, nas faculdades de agronomia predomina o ensino da agricultura baseada em insumos químicos, gerando carência de profissionais que sabem cultivar a terra sem apelar para eles. Para complicar de vez a situação da agroecologia, entidades como a FAPESP, o CNPQ e a CAPES não costumam liberar bolsas de estudos para quem se propõe a estudar agricultura orgânica e familiar.

Com tudo isso, dá para ver que os alimentos convencionais, aparentemente mais baratos, na verdade saem muito caro. Em seu preço não estão computados:

  • O custo social representado pelo abandono do campo e inchaço das periferias urbanas;
  • O custo em termos de saúde pública que tem origem no enorme número de pessoas intoxicadas pelos agrotóxicos, seja de forma aguda ou crônica (câncer, doenças neurológicas e endócrinas entre outras);
  • O custo ambiental devido à contaminação química do ar, da água e do solo, à perda da fertilidade do solo e da biodiversidade.

Do dia para a noite não haverá solução mágica para levar orgânicos baratos à mesa de todos os brasileiros. Mas já existem esquemas alternativos e mais acessíveis para adquiri-los (veja acima o exemplo do delivery e das feiras orgânicas) e outros virão por aí.

A gente pode e deve brigar para virar esse jogo. Temos o direito de exigir que o dinheiro público seja investido num modelo agrícola mais justo e sustentável, em vez de virar subsídio para os agrotóxicos, que, aliás, têm isenção de impostos!

107. Como encontrei minha tribo

Fazer parte dos Hortelões Urbanos (grupo do Facebook de pessoas que plantam comida na cidade) mudou minha vida. Estou superfeliz porque no domingo que vem (22/4) vamos fazer um pic-nic no Parque da Luz para trocar sementes, mudas e ideias. O encontro é aberto, gratuito e você está convidado!

Em fevereiro do ano passado, minha amiga Fernanda Salles colocou um recadinho no Facebook: “Agricultura urbana, aqui vou eu!”. Era o convite para uma oficina da Hubescola (www.hubescola.com.br) em que a jornalista Tatiana Achcar contaria suas andanças pelo mundo atrás de hortas em cidades.

Eu já plantava comida no quintal de casa há quase três anos, totalmente sozinha. Fui ao curso, encontrei minha tribo e fiquei amiga da Tati, que no dia seguinte criou um grupo de discussão por e-mail chamado Hortelões Urbanos, para que os participantes pudessem manter contato e trocar ideias sobre suas microlavouras. Conheci na mesma noite a Susana Prizendt, com quem embarquei em aventuras agroecológicas que desenbocaram na Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida (www.contraosagrotoxicos.org).

Meses depois, Tati me convidou para fazermos juntas uma oficina na Hubescola seguinte, marcada para julho de 2011. Juntando minha vivência doméstica às experiências internacionais da parceira, o resultado foi um encontro delicioso em que cerca de 40 pessoas mergulharam em sonhos e projetos para deixar a cidade mais verde e nutritiva. Decidimos então criar no Facebook o grupo Hortelões Urbanos (https://www.facebook.com/groups/170958626306460/).

Cada um foi convidando seus amigos verdes e hoje já são mais de 600 hortelões conectados e a movimentação diária na página é grande . Por ali rolam informações sobre cultivo, fotos orgulhosas de nossos canteiros, dicas para produzir adubo em casa, combater pragas, usar na cozinha as colheitas e muito mais. Qualquer pessoa pode participar (basta ir na página e solicitar a entrada) e qualquer participante pode trazer adesões.

No próximo domingo finalmente vamos nos encontrar ao vivo. O Encontro dos Hortelões Urbanos/7º Pic-Nic de Trocas de Mudas e Sementes acontecerá no Parque da Luz, das 10h às 14h (para quem não sabe, fica no centro de São Paulo, do lado da Estação Luz do metrô e CPTM). Teremos uma mesa para o lanche comunitário e outra para a troca de sementes e mudas. Na organização, Tati Achcar, Juliana Gatti, Daniela Cuevas e eu. Ju e Dani, que são veteranas nessa atividade (realizaram os seis pic-nics anteriores no parque) acolheram a ideia de agregar os Hortelões com o maior carinho. Para saber mais: http://the-hub.com.br/hubloja/produto.php?id=42

Na noite de 25/4 (quarta-feira), Tati e eu vamos fazer mais uma oficina: No campo, no quintal e no prato: revolução dos alimentos para um mundo melhor. A atividade também faz parte da programação da Hubescola de Outono e pretende gerar reflexões sobre a origem da nossa comida e inspirar mudanças de atitude para melhorar a saúde pessoal e planetária a partir de escolhas alimentares. Informações e inscrições: http://the-hub.com.br/hubloja/produto.php?id=53

A Hubescola de Outono já começou, com muitas oportunidades para expandir horizontes na vida e no trabalho. Dá uma olhada na programação completa: http://www.the-hub.com.br/hubescola/programacao

PS – Hortelão é um homem que cuida de uma horta. Eu posso ser chamada de hortelã e adoro! Aliás, tenho bastante hortelã plantada aqui e vivo fazendo chá e suco com ela.

104. Verão na horta, chuchu na panela

Nessa época do ano, a umidade e o calor em excesso estressam as plantas e quem cuida delas. Mas, enquanto as espécies estrangeiras sofrem, as nativas crescem bem e frutificam.

Quando está calor demais, se bobear a terra encharca, as folhas murcham e as mudas novinhas morrem queimadas. Sem falar que os pulgões & cia aparecem com mais freqüência. Nos anos anteriores, eu molhava demais, inclusive perto do meio-dia, preocupadíssima em evitar a desidratação. Vendo as coitadinhas retorcidas, corria com o regador para dar um alívio. Aprendi que esse é um erro comum. Quando fiquei prática do manejo do “dedômetro” (enfiar o dedo na terra para testar a consistência e umidade) notei que nem sempre elas murcham por falta d’água. Muitas vezes os vegetais estão apenas se protegendo do excesso de raios solares e da temperatura alta demais. E jogar água nas plantas sob o sol forte só piora o problema, pois isso pode literalmente cozinhar as plantas. Hoje prefiro nem aparecer na horta no meio do dia quando a temperatura está acima dos 30ºC, assim não fico nervosa.

Para evitar o superaquecimento, só cobrindo a terra com uma camada de 5 a 10 cm de palha seca e providenciando sombra parcial. Pode ser com toldo, sombrite (tela que existe para isso mesmo e é vendida em casas agrícolas) ou, melhor ainda, com a própria vegetação. Atualmente, crescem em volta dos meus canteiros suspensos trepadeiras que fizeram uma cortina verde e ainda oferecem frutos. Chuchu e maracujá são ótimos para isso e estamos em plena safra! O povo tem razão quando diz que chuchu “dá” demais. Cheguei a colher mais de 10kg num único dia. E saio por aí distribuindo para os vizinhos, pessoas que vêm prestar algum serviço, colegas em reuniões e até no treino de basquete levei para abastecer a despensa das companheiras de time. Eu e a Rose, que trabalha aqui em casa, ficamos craques em receitas com chuchu e coloquei aí embaixo as que fazem mais sucesso. Numa dessas entregas, a Olinda, que mora em frente, recomendou colher os chuchus enquanto estiverem pequenos para ficarem mais tenros e saborosos.

Antes de reclamar do clima, cabe uma reflexão sobre nossas escolhas e histórico alimentar. Grande parte das espécies que cultivo é estrangeira, proveniente de locais em geral mais secos e frios do que São Paulo. Alecrim, tomilho, sálvia, orégano e rúcula, por exemplo, vieram das bordas do mediterrâneo. Alface, da Ásia ocidental. Tomate, do Peru, e manjericão, da Índia. Cebolinha é européia, não sei de que região. Está explicado por que se dão muito melhor no inverno daqui!

Mas basta olhar o pé de taioba, o chuchuzeiro e o maracujazeiro para perceber que, como a maioria dos brasileiros, preferem os dias de verão. Fui pesquisar as origens e — voilá! – são todos tropicalíssimos. A taioba, ignorada por décadas e entrando na moda, é aqui do Brasil (substitui espinafre em qualquer receita). O chuchu, nativo da América Central, vem sendo apreciado desde o tempo dos astecas. E o maracujá também surgiu nas regiões quentes do nosso continente.

Pensando numa agricultura mais sustentável para o futuro, com certeza teremos que recorrer às espécies nativas, totalmente adaptadas ao clima local e, por isso, mais fáceis de cultivar e menos suscetíveis a doenças.

Hora de ir para a cozinha!

TORTILHA DE CHUCHU DA CLAUDIA (fácil e rápida)
Ingredientes
 1 ovo (orgânico de preferência)
– ½ chuchu pequeno ou médio sem casca, ralado grosso
– 1 colher de sopa de cebola crua picada
– gersal (ou sal comum) a gosto
– um pouco de erva fresca picada (salsinha, cebolinha, nirá ou tomilho são as melhores)

Como fazer
Bata o ovo com o garfo. Junte os demais ingredientes e coloque numa frigideira bem pequena para ficar alto como uma tortilha. Quando perceber que o lado de baixo está sequinho e dourado, vire com cuidado. Eu uso o chuchu cru, mas se preferir pode ferver com um mínino de água por 1 minuto e escorrer bem antes de incorporar à mistura.

 

SUFLÊ DE CHUCHU DA ROSE (delicioso e chic)
Ingredientes
– 5 chuchus pequenos ou médios
– 1/2 cebola picada
– 2 gemas
– 2 claras em neve
– 1 colher de manteiga
– 1 colher de sopa de maisena
– 1 colher de café de raspas de limão
– 1 colher de sopa de parmesão
– folhas de manjericão fresco picadas
– sal a gosto

Como fazer
Descasque e corte os chuchus na metade. Cozinhe no vapor até ficar macio. Amasse com um garfo. Em separado, refogue a cebola na manteiga. Depois que o chuchu e a cebola esfriarem, misture todos os ingredientes menos as claras em neve, que devem ser levemente incorporadas no final. Unte uma forma refratária (de preferência redonda) com manteiga e polvilhe com farinha de trigo. Coloque no forno a 180ºC e em cerca de 40 minutos está pronto.

101. O canteiro abdominal

A história do aparelho de ginástica aposentado que virou berço de tomates, berinjelas, cebolinhas e alfaces.

Janeiro é o mês de organizar armários e preparar a casa para o novo ciclo. Um trabalhão, sobretudo porque me esforço ao máximo para não enviar nada para o lixo. Mas também uma delícia, pois a mente e a alma vão encontrando seu lugar enquanto os objetos são reencontrados, ganham limpeza, novas funções, novos donos. No meio das tralhas, achei um velho aparelho de fazer abdominais e resolvi transformá-lo num canteiro. A explicação vem antes e as imagens estão abaixo.

1 ) Comecei a aventura usando uns restos de madeira para fixar a base. Amarrei com arame e chequei a estabilidade.

2) No fundo entrou o sombrite, uma tela preta que as casas agrícolas vendem, e uns pedaços de delimitador de  grama (essa faixa de plástico) para aumentar a sustentação.

3 ) Aí veio a manta drenante (conhecida nas lojas de jardinagem pela marca “bidim”), que tem a função de deixar o excesso de água ir embora mas segurar a terra.

4) Para fixar tanto o sombrite quanto o bidim, costurei no cano usando arame. Aprendi recentemente que alicate serve para cortar arame: é só ir dobrando para cá e para lá. 

5) Enchi com uma mistura de terra, areia, composto e adubo orgânico, húmus das minhas minhocas, vermiculita, cinzas (da pizzaria da esquina) e um pouco de carvão picado. Coloquei as mudas e cobri a terra com palha.

6) Duas semanas depois, as plantas já estavam bem maiores. Apenas o pé de couve não ia bem e, consultando a tabela de alelopatia (combinação de plantas) percebi que não se dá com tomateiro. Então transferi para outro canteiro. Agora é só esperar para comer os tomates e as berinjelas. Alface e cebolinha já está dando para colher! 🙂

Agora, as fotos, que ficaram meio bagunçadas porque essa ferramenta de publicação de blog está maluca. Ou eu. Enfim, depois mando notícias da lavoura-fitness. 

 

96. A comida de amanhã

Vale a pena conhecer o Estado do Mundo 2011, relatório bianual do WWI,  que dessa vez coloca uma lupa nos desafios de alimentar os 7 bilhões de seres humanos.

O World Watch Institute (WWI), fundado em 1974, é o primeiro e mais importante instituto independente de pesquisas sobre questões ambientais do planeta. Anualmente, publica o relatório “Estado do Mundo”, que se torna imediatamente obra de referência. A versão 2011, com o título “Inovações que Nutrem o Planeta”, faz uma radiografia da situação mundial da agricultura, com foco em segurança alimentar e combate à fome.

São 209 páginas de texto e mais 60 de notas bibliográficas produzidas por dezenas de pesquisadores e traduzidas para 30 idiomas. Graças ao Instituto Akatu e vários patrocinadores, há uma versão em português que pode ser baixada aqui http://www.akatu.org.br/Content/Akatu/Arquivos/file/Publicacoes/EstadodoMundo2011_portugues.pdf. Só não adianta procurar nas livrarias, pois o livro está disponível apenas em PDF para economizar recursos naturais.

Nas últimas semanas estive mergulhada nessa leitura e veja o que garimpei:

Sobre a escassez de alimentos
“Dentro de um a dois anos, a maioria dos agricultores africanos que produzem para subsistência própria e usam fertilizante químico precisarão desistir desse insumo, o que ocasionará uma queda sem igual na produtividade, na ordem de 30% a 50%.” (pág. 68)

“Existe crescente escassez de água e as estimativas apontam para uma demanda superior à oferta: calcula-se que, dentro de 20 anos, o abastecimento de água será adequado para atender apenas 60% da população mundial.” (pág. 191)

“A perspectiva a longo prazo é assustadora. A partir do momento em que os recursos naturais registrem queda acentuada (em fertilidade do solo, pesca, florestas, combustíveis fósseis, por exemplo), a economia e o nível de emprego começarão a ser afetados pelo declínio na produção, pelos preços de energia e pelo aumento das emissões. Outras consequências possíveis dessa estratégia são migração em massa resultante da escassez de recursos como água, por exemplo, aceleração das mudanças climáticas e aumento considerável nos índices de extinção de recursos.” (pág. 192)

“Estamos hoje no limiar de um colapso das funções de ecossistemas vitais que sustentam as pessoas e o planeta. Ao mesmo tempo, estamos assistindo a níveis intoleráveis de pobreza, em que cerca de 1 bilhão de pessoas passam fome diariamente.” (pág 197)

“A apreciação mais detalhada da agricultura global até o momento, a Avaliação Internacional do Conhecimento, Ciência e Tecnologia Agrícolas para o Desenvolvimento (IAASTD), conduzida pela ONU, fez isso e mais ainda. Redigido por mais de 400 cientistas e profissionais da área de desenvolvimento de mais de 80 países, e endossado por 58 governos, o relatório concluiu que ‘Fazer os negócios do jeito de sempre não é uma opção’. A avaliação constatou que as tecnologias e práticas agroindustriais, bem como os programas políticos, econômicos e institucionais que as respaldam, conseguiram, em alguns momentos, aumentar a produtividade agrícola, mas cobrando um preço altíssimo em termos de saúde pública, meio ambiente, equidade social, igualdade entre os sexos e dos próprios fundamentos da segurança alimentar.” (pág. 198)

Sobre agronegócio de larga escala
“Durante décadas, com o intuito de sustentar a renda familiar em vista dos retornos líquidos cada vez mais baixos por área cultivada, os fazendeiros norte-americanos simplesmente expandiram a área de suas plantações. Inúmeros fazendeiros na América Latina seguiram essa prática, montando operações que ocupam dezenas de milhares de hectares e fazendo um uso combinado de soja resistente a herbicida e sistemas de plantio direto. Embora altamente produtivas em termos de renda agrícola por hora de trabalho investido, essas fazendas fazem muito pouco para incrementar o bem-estar econômico dos despossuídos que vivem na área da lavoura. A renda gerada, assim como o produto da lavoura, escoa para fora da região.” (pág. 197)

Sobre biodiversidade na agricultura
“Um papel vital da diversidade genética é manter uma ‘caixa de ferramentas’ própria que possa ser utilizada para combater diversas ameaças à lavoura. Mesmo assim, no século 20, perdeu-se 75% da diversidade genética das culturas agrícolas, e atualmente, apenas cerca de 150 espécies de plantas são cultivadas em maior escala, das quais apenas 3 fornecem perto de 60% das calorias derivadas de plantas.” (pág. 83)

Sobre hortas na cidade
“Estima-se que 800 milhões de pessoas em todo o mundo se dedicam à agricultura urbana, produzindo de 15% a 20% de todo o alimento. Desses agricultores urbanos, 200 milhões produzem alimentos para vender nos mercados e empregam 150 milhões de pessoas. Calcula-se que, até 2020, entre 35 e 40 milhões de africanos que vivem nas cidades dependerão da agricultura urbana para suprir suas necessidades alimentares. Isso poderia fornecer a algumas pessoas até 40% da ingestão diária recomendada de calorias e 30% das necessidades proteicas.” (pág. 125)

“O cultivo de alimentos em cidades tem algumas vantagens em relação à agricultura rural, como proximidade dos mercados, baixo custo do transporte e redução de perdas pós-colheita, graças ao menor tempo entre as colheitas. Em períodos de turbulência ou instabilidade, a agricultura urbana sempre mantém as pessoas alimentadas quando o fornecimento de alimentos do campo é interrompido.” (pág. 126)

“Reconhecendo ‘a dura realidade de que fome, insegurança alimentar e desnutrição são questões prementes de saúde, até mesmo em uma cidade rica e vibrante como São Francisco’, na Califórnia, em julho de 2009 o prefeito Gavin Newsom pediu que todas as secretarias municipais realizassem uma auditoria das terras sob sua jurisdição para criar uma lista de terras adequadas à lavoura. Essa medida fez parte da primeira política alimentar implementada no âmbito de toda uma cidade e se baseou, em parte, nas recomendações da San Francisco Urban-Rural Roundtable, um grupo de pessoas interessadas, tanto da área rural como da área urbana, que se reuniram durante nove meses.” (pág. 129)

Sobre hortas escolares
“No Quênia, 12 hortas escolares são administradas em colaboração com a Slow Food Convivia e a Rede Agroecológica na África (NECOFA). Uma dessas hortas, no distrito de Molo, em Elburgon, foi eleita pelo Ministério da Agricultura do Quênia a melhor horta escolar do país. Os produtos cultivados pelos alunos são usados nas merendas escolares e o excedente é disponibilizado às famílias. O programa pedagógico une a horticultura com outras matérias e as plantas são usadas no ensino de matemática (medição do crescimento das plantas), biologia (observação dos ciclos de vida), língua (documentação do desenvolvimento da horta), história (escolha de alimentos tradicionais), arte (exploração das cores, formas e desenho das plantas) e nutrição (preparo de pratos baseados em produtos frescos). As escolas organizam viagens e intercâmbios culturais e, além disso, alunos de comunidades étnicas diferentes se encontram para compartilhar suas experiências e juntos comerem o alimento produzido nas hortas escolares.” (pág. 89)

Sobre o desperdício de comida
“O desperdício é hoje um infeliz e desnecessário corolário da profusão da oferta de alimentos nos países ricos. Jogar fora hortifrútis cosmeticamente ‘imperfeitos’, descartar no mar peixe comestível, desconsiderar casca de pão em fábricas de sanduíche, abastecer em excesso os supermercados e comprar ou cozinhar comida demais em casa são exemplos da negligência perdulária em relação aos alimentos.” (pág. 112)

Sobre democracia alimentar
O funcionamento pleno de uma democracia alimentar requer a educação alimentar de seus integrantes, ou seja, as pessoas precisam não apenas compreender as origens do alimento que consomem, mas também o contexto social, político e cultural de quem o produz e de todos os envolvidos na sua distribuição. (pág. 199)

Se você chegou até aqui, não perca a ótima entrevista com Lester Brown, fundador do Instituto, publicada em 23/10/2011 pelo Estadão: http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,nos-limites-da-terra,789243,0.htm

Para ter acesso a toda a biblioteca digital do WWI, em português: http://www.wwiuma.org.br/sobre.html#.

Xeretei o relatório anterior (2009/2010) e fui fisgada novamente. O título é “Transformando Culturas/Do Consumismo à Sustentabilidade” e meus olhos grudaram nas informações que apareciam na tela. Ou seja, lá vou eu, que ainda prefiro os livros em papel, passar mais um montão de horas na frente da tela do computador, mastigando páginas em PDF (não tenho Kindle ou IPad e nem pretendo ter por enquanto).

86. Mensageiros da Primavera

Enquanto a agricultura química declara guerra aos insetos & cia, a agroecologia ensina a conviver. Nessa época do ano, mais bichinhos aparecem e precisamos reaprender que nossa existência depende deles. 

Tanto as ruas quanto os canteiros aqui de casa estão se enchendo de flores. Além delas e das árvores brotando, há outro indício de que a primavera vem aí: aumenta a população de pequenos animais que vivem ou visitam a horta. Observo as fofas joaninhas, os exóticos grilos e besouros, a movimentação das formigas, os beija-flores flutuando, os bem-te-vis cantando, a chegada das abelhas e a gulodice das lagartas.

Muita gente acredita que, para fazer agricultura orgânica, basta substituir os agrotóxicos pelos adubos naturais. Mas as diferenças são muito mais profundas. Outro dia aprendi que o verdadeiro trabalho do agricultor orgânico não é alimentar as plantas e sim os microorganismos que fertilizam o solo. Já o cultivo com base em produtos químicos declara guerra aos seres vivos, com exceção da espécie que se repete naqueles imensos e monótonos campos de monocultura. “Todo bichinho deve ser exterminado” parece ser o mantra dessa turma.

“Pura ingenuidade dos humanos, esses recém chegados”, deve ser a conversa nos formigueiros. As baratas, por exemplo, conseguirão se virar mesmo se continuarmos empurrando o mundo para o cataclisma ambiental. Elas já existiam antes do surgimento dos dinossauros e sobrevivem a 20 vezes mais radiação do que nós (http://super.abril.com.br/mundo-animal/verdade-so-baratas-sobreviveriam-desastre-nuclear-447831.shtml). E as abelhas (que estão desaparecendo em várias regiões provavelmente por causa da nossa poluição química e eletrônica) são polinizadoras de diversos vegetais (http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,o-misterioso-sumico-das-abelhas,671171,0.htm). Se elas sumirem, desaparecerão também, por exemplo, as maçãs.

Numa floresta virgem não existem pragas, já que todas as espécies são interdependentes e alimentam umas às outras. A diversidade do sistema previne contra a proliferação descontrolada do que quer que seja. Os adeptos da agroecologia tentam restabelecer esse equilíbrio sutil plantando vários tipos de plantas, integrando a lavoura à criação de animais, preservando fontes hídricas e áreas de vegetação natural. Quando a terra está sadia, é possível dispensar adubos químicos e venenos.

No meu quintal tento seguir esses preceitos em escala micro. Aos poucos vão crescendo árvores que ninguém semeou, como uma goiabeira do lado de cozinha e uma embaúba perto do muro. Sonho em cultivar uma agrofloresta urbana em plena SãoPaulo e assim continuar colhendo ervas, hortaliças e legumes no meio das árvores e acolhendo os bichinhos que aparecem.

Mas nem sempre é fácil a convivência com os liliputianos. Pulgões às vezes estragam os pés de couve e os passarinhos pisoteiam as mudas recém-plantadas quando vêm caçar minhocas. As lagartas de fogo aparecem no final do verão e já sofri queimaduras. Semana passada foi a vez de lesmas gigantes atacarem as folhas das palmeiras. Às vezes expulso a galera com jatos d’água ou borrifando limonada, pimenta ou alho batido. Tem também os pernilongos, contra quem pusemos tela e plantamos citronela. Quando começam a picar, corto umas folhas e jogo no chão. O cheiro é gostoso e eles se mandam. 

Cada vez mais, tento observar e entender os ciclos dos bichinhos para tentar uma convivência pacífica. Já aprendi que plantar flores junto com os comestíveis é ótimo para atrair inimigos naturais de quem gosta de devorar a colheita. E fica lindo!

 

84. O veneno está na mesa. Socorro!

Um documentário, divulgado livremente pela internet, mostra os terríveis problemas de saúde pública provocados pela agricultura baseada em agrotóxicos.

O cineasta Silvio Tendler ficou conhecido pelas biografias históricas de JK, Jango e Carlos Marighella, entre outros documentários de cunho social. Sua decisão de enfocar o que está acontecendo no mundo rural brasileiro deu em “O veneno está na mesa”, um filme realizado com o objetivo de levantar essa discussão e, por isso, liberado para assistir na íntegra pela internet http://www.youtube.com/watch?v=8RVAgD44AGg

São 50 minutos de relatos sobre a tragédia que é o uso de agrotóxicos na lavoura, com muitas situações absurdas que a maioria das pessoas ainda desconhece. Veja algumas delas…

O Brasil é o maior consumidor mundial de agrotóxicos e permite o uso de mais de 400 tipos desses venenos. No filme, fala-se em5,2 litrosanuais por pessoa, mas é possível que o dado já esteja defasado. Em julho de 2011, assisti uma apresentação na BioFairem que Rogério Dias(Coordenador de Agroecologia do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento) mencionou que já chegamos a5,7 litros.  

Aquilo que as indústrias do setor chamam eufemisticamente de “defensivos agrícolas” são nada menos do que armas químicas. Entre os mais antigos estão o Zykon, usado nos campos de concentração nazistas, e o Agente Laranja, na Guerra do Vietnã.

A legislação brasileira é uma das mais complacentes em relação aos agrotóxicos. Produtos banidos até na China são usados livremente por aqui. Para complicar, falta fiscalização, como atestou a Agência Nacional de Vigilância Sanitária em relatório divulgado em 2009. Na ocasião, das 3130 amostras coletadas em 26 estados, 29% estavam contaminadas (com mais agrotóxicos do que os níveis já altíssimos permitidos por lei ou com substâncias proibidas). Os alimentos campeões em veneno: pimentão (80%), uva (56%), morango (55%), abacaxi (44%), mamão (39%), alface (38%).  

O crédito governamental para financiamento agrícola está vinculado à aquisição de sementes transgênicas e agrotóxicos. O agricultor precisa mostrar no banco as notas fiscais de compra.

Em março de 2011, Danielly Cristina de Andrade Palma, defendeu tese de mestradoem Saúde Coletivada Universidade Federal do Mato Grosso. Em sua pesquisa, ela analisou o leite materno de 62 mulheres de Lucas do Rio Verde, norte do Estado. 100% das amostras estavam contaminadas com agrotóxicos. Outros estudos demonstram que a contaminação inicia no útero e a exposição aos agrotóxicos na gravidez, sobretudo pelas trabalhadoras rurais, está relacionada à má formação fetal e câncer na infância.

Diversos agricultores contam suas experiências de intoxicação por agrotóxicos. O depoiment que mais choca é o da viúva de Vanderlei Matos da Silva, que era perfeitamente saudável quando foi contratado para misturar as substâncias que seriam aplicadas na lavoura de abacaxi no Ceará e morreu de intoxicação hepática aos 29 anos.

Pesquisadores da ANVISA e da Fundação Oswaldo Cruz, ambos órgãos governamentais, relatam pressão política para não alertar a população sobre esse problema.

Desde que a agricultura foi criada, há cerca de 10 mil anos, os agricultores sempre guardaram parte da colheita para servir de semente na safra seguinte. Mas agora as sementes transgênicas são parte do pacote fechado da agricultura baseada em produtos químicos. Assim, as sementes naturais, chamadas crioulas, estão desaparecendo. Na minha opinião, esse é o maior risco que o atual sistema representa para o futuro da humanidade, pois a perda da biodiversidade é irreparável.

Felizmente, embora ainda pareça longe o dia em que esses venenos serão banidos do país e do mundo, a cada dia aumenta a preocupação geral com o uso de agrotóxicos na lavoura. Silvio Tendler pretende fazer outros documentários sobre o assunto (saiba mais em http://www.brasildefato.com.br/node/6965). Espero que ele resolva enfocar as soluções que já existem. As mais bacanas, na minha opinião, são:

  • Comprar de distribuidores de alimentos agroecológicos (100% orgânicos e ainda melhores, pois dão uma força para a agricultura familiar e o comércio justo):

www.aboaterra.com.br;
www.alimentosustentavel.com.br;
www.sabornatural.com.br;
www.sementesdepaz.com.br;
www.caminhosdaroca.com.br;
www.familiaorganica.com.br

DÊ SUA ADESÃO À CAMPANHA PERMANENTE CONTRA OS AGROTÓXICOS E PELA VIDA   contraosagrotoxicos@gmail.com                (11) 3392 2660