82. Como fazer uma horta em casa

triagem jul 11 012Aqui vai um roteiro com 7 etapas para você começar sua produção agrícola doméstica.

Plantar comida no quintal (ou até na varanda do apartamento) tem mil vantagens: reforça o cardápio saudável, ajuda a economizar, diminui a produção de lixo e faz a gente se conectar espiritualmente com a natureza. Minha horta existe há quatro anos e, entre erros e acertos, vai melhorando. Tenho estudado bastante, mas ainda há muito o que aprender. Transformei em dicas práticas algumas das minhas descobertas. Aqui vão elas:

1 – A FASE DO SONHO
Deixe a sementinha da vontade de ter uma horta criar raízes dentro de você. Ou seja, não tenha pressa. Passeie pela varanda ou pelo jardim observando o espaço disponível, a incidência de sol (o ideal é pelo menos 5 horas por dia) e de vento (quanto menos melhor — por isso é bom evitar a face sul). Leia sobre hortas domésticas, procure informações na internet e, se puder, visite quem já possui uma. Comece logo a fazer compostagem ou instale um minhocário: assim você já vai preparando o adubo enquanto planeja sua lavoura.

Ponto de encontro dos Hortelões Urbanos no Facebook (para tirar dúvidas e encontrar colegas):  https://www.facebook.com/groups/170958626306460/

Livros: http://www.viaorganica.com.br/livrosepublicacoes.htm; http://www.livrariatapioca.net/

Onde adquirir minhocário:  http://www.moradadafloresta.org.br/; http://composteira.blogspot.com/; http://cadicominhocas.blogspot.com/ (versão mais econômica); http://www.minhocasa.com/ (esse último em Brasília)

Mais sobre compostagem: http://conectarcomunicacao.com.br/blog/62-decomposio/; http://conectarcomunicacao.com.br/blog/47-queridas-minhocas/

 

2 – DECIDINDO ONDE PLANTAR
Um dia você finalmente resolve escolher o espaço. Pode ser um canto do jardim ou uma área cimentada (nesse caso, a horta será em vasos). Nessa hora é preciso ter cuidado para não cair na tentação da megalomania, pois grandes áreas são trabalhosas e você terá que encaixar as atividades de agricultor na rotina diária. Para começar, quanto menor, melhor. Um metro quadrado ou quatro vasos está muito bom. Quando pegar o jeito, você vai expandindo aos poucos a roça. Um bom tamanho para os vasos é a partir de 30 cm de diâmetro. Os menorzinhos são úteis para espécies mais esguias, como cebolinha, salsinha e tomilho.

Muito cuidado também com a tentação do consumismo (o que mais se vê por aí é excesso de equipamento e falta de dedicação). Baldes velhos, latas e potes de plástico que iriam para o lixo podem virar vasos (basta fazer orifícios no fundo com uma furadeira), mas os de barro são os menores.  Será que algum conhecido tem no fundo do armário instrumentos de jardinagem que nunca utiliza? Ou vasos que iria jogar no lixo? Peça doações.

3 – PREPARAR A TERRA
Se for plantar no chão, delimite o local e, com uma enxada, vá “quebrando” a terra para retirar raízes, grama, pedrinhas. Se conseguir aprofundar o buraco uns 40 centímetros será ótimo. Preencha com a terra retirada e de preferência peneirada (sem pedrinhas ou raízes) e composto orgânico, esterco e/ou húmus de minhoca que você fez em casa. Pó de osso também é muito bom (fonte de fósforo), assim como cinzas (potássio). Depois de afofar, nunca mais pise na terra. Por isso os canteiros devem ter no máximo 1,20m de largura. 20 cm de altura é uma boa medida. Se só for possível acessá-los por um dos lados, reduza para uma medida que você alcance confortavelmente sem pisar.

Após a adubação, cubra o canteiro com uma camada de mais de 10 cm de espessura de material seco (palha, folhas ou podas de grama). Se não tiver o suficiente em seu próprio jardim, recolha da rua ou fique de olho naqueles sacos pretos que os jardineiros absurdamente largam para o caminhão de lixo levar embora. Se for plantar em vasos, coloque no fundo 2 cm de argila expandida, cacos de telha ou até pedaços de louça quebrada(com a parte convexa para cima). Em vasos grandes essa camada pode chegar a 10 cm. Preste atenção para não vedar totalmente os furos, pois um bom escoamento de água é fundamental. Em cima, areia na mesma proporção ou tecido de algodão (trapos). Complete o vaso com terra adubada, deixando uma faixa superior livre, onde vai a generosa camada de matéria seca. Mantenha a terra úmida, mas não encharcada.

Se for plantar em vasos, coloque no fundo 2 cm de argila expandida ou cacos de telha (com a parte convexa para cima). Em vasos grandes essa camada pode chegar a 10 cm. Preste atenção para não vedar totalmente os furos, pois um bom escoamento de água é fundamental. Em cima, areia na mesma proporção ou manta bidim (um tecido drenante que você encontra em lojas de jardinagem). Complete o vaso com terra adubada, deixando uma faixa superior livre, onde vai a generosa camada de matéria seca. Mantenha a terra úmida, mas não encharcada.

4 – ESCOLHER SEMENTES E MUDAS
Quais espécies plantar? Isso depende do que você gosta de comer, da época do ano, do espaço disponível e da intensidade da insolação. O melhor é usar sementes orgânicas. Se não encontrar, fique com as normais, que são vendidas em saquinhos em lojas de jardinagem. Na embalagem estão informações sobre período e forma de plantio e espaçamento das mudas. Para otimizar espaços, use a sementeira (uma bandeja cheia de casulos pequeninos que funciona como viveiro).

Para iniciar a horta, as ervas são uma ótima opção, pois em pouca quantidade já mudam o sabor dos pratos. E você pode ir retirando folhinhas em matar a planta. Começar por espécies como alface e cenoura é complicado, já que, depois de cuidar da planta por meses a fio, em um segundo você colhe e come. E fica aquele espaço vazio na horta…

Tomate é o sonho da maioria dos hortelões, mas prepare-se, pois se trata de uma planta exigente e que vai melhor ao inverno. Dizem que chuchu e maracujá são trepadeiras mais simples de cuidar.

Na agricultura orgânica, misturar espécies é uma prática incentivada, pois reduz o risco de ataque de pragas e ajuda a manter a fertilidade da terra. Nem todas as espécies, no entanto, convivem bem. Embora eu use o método “deixa rolar para ver o que vai dar”, existem tabelas de compatibilidade. Consultando-as, montei a lista de casais e desafetos abaixo:
Juntar: alface/cenoura; alface/beterraba; cebola/cenoura; cenoura/rabanete; pepino/rabanete; tomate/cenoura; tomate/cebola; espinafre/morango; rúcula/pimenta; couve-flor/beterraba.
Separar: tomate < > rúcula; tomate < > rabanete; alface < > pepino; alface < > morango

Onde encontrar mudas de ervas aromáticas e medicinais em São Paulo:  http://www.sabordefazenda.com.br/

 5 – CUIDAR
Como os filhos e os animais de estimação, a horta pede cuidados diários. Dá trabalho, claro, mas é uma atividade deliciosa. Aos poucos, cada um encontra seu ritmo e essas orientações podem ajudar:

  • Regar demais é tão ruim quanto deixar as plantas secarem. Use o “dedômetro” para aferir a umidade ideal. É assim: você enfia o dedo bem fundo na terra e verifica se está úmida e grudando. Em caso afirmativo, não precisa regar mais. Atenção: folhas murchas significam sede.
  • Melhores horários para regar e manejar as plantas: início da manhã ou final da tarde. Prefira os dias nublados e mais frescos para transplantar.
  • O verão tropical escaldante e sujeito a tempestades é um período complicado para as plantas. Paciência e atenção redobrada nessa época.
  • A terra deve estar sempre fofíssima como um bolo. Se ficar endurecida, veja se está faltando água ou se a camada de matéria seca necessita de reforço.
  • Algumas plantas são perenes ou vivem durante várias safras, como é o caso das ervas, da berinjela e do pimentão. Outras têm apenas uma colheita, como o tomate e a alface. Misture esses dois tipos para sempre ter uma horta viva.
  • Enquanto uma safra de folhosas cresce, vá preparando a próxima na sementeira.
  • Quanto mais biodiversidade, melhor. Troque mudas com amigos hortelões, arranje sementes diferentes e vá trazendo novas espécies.
  • Na agroecologia não se fala em ervas daninhas e sim em espécies espontâneas. São os matinhos que crescem sem ser semeados. Não precisa exterminar. Se não estiverem alastrando demais ou atrapalhando o desenvolvimento da planta comestível, deixe lá.
  • O chorume do minhocário diluído em água é um excelente adubo para borrifar nas folhas.
  • A cada mês ou quando sentir que a planta está precisando, adube a terra. Mas sem exagero.
  • Contemple todas as etapas da vida: nascimento, crescimento, frutificação, morte e decomposição. Cada uma tem seu encanto.

 

6 – ACEITAR OS ERROS
Inevitavelmente eles vão acontecer. Por falta de experiência, distração, problemas climáticos ou outras razões. Faz parte do processo. Ter uma horta é uma excelente oportunidade de treinar a resiliência, a humildade, a aceitação de que somos falíveis e nem tudo acontece de acordo com a nossa vontade.

 

7 – CURAR
O solo fértil e povoado de milhares de tipos de microorganismos é a base de um ecossistema agrícola perfeitamente equilibrado, em que doenças e pragas não proliferam. Mas na vida real situações ideais são raras, então a probabilidade de enfrentar problemas em algum momento é quase 100%. Mesmo sem saber diferenciar uma cochonilha de um pulgão, tenho me virado para lidar com os ataques por aqui.

Duas atitudes preventivas importantes: plantar cada espécie em sua época adequada e fazer rotação de culturas, mudando não só a espécie como o tipo de planta. Onde estava uma folhosa entra uma raiz, onde estava uma erva entra alguém que dá frutos, como o pepineiro ou tomateiro. Bom mesmo é fazer uma tal adubação verde antes da próxima safra. Ainda não tentei, mas chego lá. Vale a pena também cultivar flores ao lado de espécies comestíveis, pois elas atraem joaninhas e outros bichinhos do bem que controlam a população dos monstrinhos. Nos livros de agricultura ecológica recomenda-se muito as caldas bordalesa, viçosa e sulfocálcica. As receitas estão na internet, mas achei meio complicadas e por isso ainda não tentei.

Quando encontro a infestação, arregaço as mangas e vou esfregando as folhas com os dedos, para arrastar os bichos. A orientação é jogar depois um jato d’água e, em seguida,os preparados antiinfestação. Nas lojas de jardinagem existe o famoso óleo de nim (ou neen), que eu não uso por seu poder inseticida. Opções caseiras são limonada (sem açúcar, claro), calda de fumo, pimenta ou alho batido com água no liquidificador. Alguma dessas coisas misturada com sabão de coco. Já ouvi dizer que fazer um suco do próprio bicho no liquidificador e borrifar funciona muito bem, já que essa turma pode ser meio bandoleira, mas não é canibal. Achei punk demais e ainda não tive coragem de experimentar algo assim. Mas, se bater o desespero, essa pode ser a salvação da lavoura. Na verdade, quase nunca chego a “tratar” as plantas da minha horta. Vou observando. E percebi que, com o tempo, as infestações diminuem. É importante o solo estar fértil, plantar tudo misturado e deixar virem os mais variados bichinhos que aí as populações se autorregulam.

 

79. Será que vai faltar comida?

Nuvens negras aparecem no horizonte da agricultura mundial. 

A agricultura de larga escala baseada em fertilizantes artificiais e agrotóxicos causa contaminação de pessoas e ambientes, concentra recursos tecnológicos, explora e exclui trabalhadores, provocando o êxodo rural. Como a fertilidade da terra diminui a partir do momento em que se entra no sistema químico, cada vez mais adubos e agrotóxicos são necessários. Os custos vão crescendo e o empreendedor do campo fica na mão das multinacionais do setor. Vem daí a onda global de falência dos pequenos fazendeiros, tanto no Brasil quanto na Índia, no México e em todos os países onde não existem subsídios fortes para deixar a paisagem cheia de fazendas bonitinhas, como é o caso da Europa Ocidental.

E o que você, que mora na cidade e já está cheio de problemas próprios, tem a ver com esses dramas do campo? Para não estender muito a explicação, vou ignorar as questões éticas e o consumo consciente, OK? Então, pensando apenas em nossos umbigos urbanos, a coisa complica porque o sistema agrícola que se disseminou após a Revolução Verde da segunda metade do século XX começa a dar sinais de esgotamento. E isso coloca em risco a segurança alimentar de toda a humanidade.

Dizem os especialistas que ainda há tempo para reverter a situação e iniciar uma transição mais ou menos suave para outro modelo de produção agrícola. Este seria orgânico, descentralizado, diversificado, baseado na manutenção e enriquecimento da fertilidade do solo a partir de técnicas que unem os conhecimentos científicos atuais aos métodos ancestrais de cultivo.  

Se quiser ficar por dentro do assunto, siga esses links:

74. Visita às galinhas

Qual a diferença entre o frango e os ovos orgânicos, caipiras, naturais e convencionais? Para descobrir, fui ao interior conhecer de perto as granjas alternativas.

Comecei esse blog há um ano e tem sido uma experiência e tanto. Como os temas dos posts continuam se desenrolando na minha cabeça depois de publicados, decidi escrever um livro para registrar essas reflexões e experiências de uma forma mais profunda e não fragmentada. No livro, que ainda vai demorar para sair, tem um capítulo chamado Comida. Ao editá-lo, percebi que já tinha visitado ou pelo menos conversado com os fornecedores que elegi, tanto de vegetais e laticínios orgânicos quanto de peixes capturados de forma artesanal. Tenho o maior orgulho deles e recomendo mesmo: www.aboaterra.com.br; www.cestaorganica.com.br; www.pescadooriginal.com.br; www.natadaserra.com.br.

Acontece que eu quase nada sabia sobre a vida das aves que vão parar no meu prato, embora há muitos anos tenha deixado de consumir marcas comuns. O frango de casa é Korin e os ovos, Yamaguishi (com o ótimo slogan “Galinhas não são máquinas de botar ovos”) ou Sabor e Cor.

Embora os produtos sejam mais caros, tomei essa atitude sensibilizada pelos alertas que ecologistas e protetores de animais fazem sobre a realidade nada bonita das granjas modernas, que se tornaram fábricas de proteína movidas por uma engrenagem chamada galinha. Para quem se interessa pelo assunto, o documentário Food,Inc e o livro “Comer Carne”, de Jonathan Safran Foer,  mostram como é a produção convencional de ovos e frango. A ONG Peta (People for The Ethical Treatment of Animals) oferece informações valiosas: http://www.peta.org/issues/animals-used-for-food/chicken-industry.aspx.

Um trailer muito resumido da situação: as aves vivem em galpões apinhados (cerca de 14 por metro quadrado) ou, pior ainda, espremidas em gaiolas, sem jamais conhecer a vida ao ar livre. Seus bicos são cortados para que não se matem reciprocamente. Antibióticos e substâncias químicas que aceleram o crescimento são adicionados à ração e à água, trazendo a perspectiva sinistra de forçar a seleção de bactérias super-resistentes. Para estimular a produção de ovos, a luz fica permanentemente acesa. Com cerca de seis semanas, são abatidas. Enfim, as galinhas comuns parecem viver em um campo de concentração nazista.

Mas será que as granjas alternativas são realmente diferentes?

Para descobrir isso, resolvi fazer um Galinha-Tur, que começou em Ipeúna, perto de Rio Claro, sede do setor agropecuário da Korin. Fui muito bem recebida na empresa e conversei bastante com a gerente de qualidade Cecilia Ifuki Mendes, que muito gentilmente me deixou visitar as instalações e até me convidou para o almoço orgânico no refeitório da firma.

O esquema lá é o seguinte: a Korin compra e distribui pintinhos com um dia de vida para cerca de 20 produtores integrados (sitiantes da região), que os criam dentro de galpões. A empresa também fornece uma ração fabricada em suas dependências e mantém veterinários e zootecnistas percorrendo incessantemente as granjas para verificar se as aves estão sendo tratadas de acordo com as diretrizes da AVAL (Associação de Avicultura Alternativa). Com mais ou menos a mesma idade do frango convencional, vão para o abatedouro da Korin, onde não pude entrar porque no dia da minha visita um grupo de rabinos estava matando as aves de acordo com os preceitos kosher. 

Já as poedeiras são criadas dentro da Korin, em galpões ventilados e não muito lotados. As galinhas ficam pelo chão e não têm dificuldade de caminhar (triste situação que vi no documentário Food, Inc). Elas têm casinhas para colocar os ovos, fazem “glu-glu” o tempo todo e olham curiosas para quem aparece. A luz fica ligada 15 horas por dia e infelizmente não passeiam lá fora. Entrei na fábrica de ração e a comida – uma mistura triturada de milho, soja e sais minerais — parece bem palatável, além de ser totalmente vegetariana, respeitando a característica da espécie.

Embora tenha frangos orgânicos, a maioria da produção da Korin é de “frango natural”. A diferença é que o milho e a soja da ração não são orgânicos. Outra classificação é a da “galinha caipira”, que pode ser orgânica ou não, e vive solta até ser abatida com cerca de 70 dias de vida.

Resumindo minhas impressões: as galinhas da Korin parecem viver em um colégio interno do tipo tradicional.

Saí de Ipeúna e fui direto para Saltinho, perto de Piracicaba, onde encontrei o jovem agrônomo Rogério Sakai, um dos sócios da Sabor e Cor. Com dois outros colegas de faculdade, ele abriu a empresa rural, que atualmente produz ovos e tomates requisitadíssimos por consumidores naturebas como eu e chefs de restaurantes bacanas. No momento da minha visita, eram 4 funcionários e 1.000 galinhas, mas o negócio está em plena expansão. O galpão onde moram as galinhas tem saídas e elas podem passear quando quiserem. Cheguei no final da tarde, momento em que se recolhem. Mas dezenas ainda estavam se divertindo no matinho ao lado. Rogério me contou que galinhas são territorialistas e montam turmas, sendo que as líderes ficam na posição mais alta do poleiro ou dos “predinhos de apartamento” onde colocam os ovos. Cada grupo usa exclusivamente uma das entradas e ocupa uma região específica do galpão, num esquema parecido com o das torcidas de futebol. Entramos. Elas se aproximaram e começaram a dar bicadinhas nos nossos sapatos. Muito fofas! A Sabor e Cor tem uma minifábrica de ração e utiliza soja e milho orgânicos de Foz do Iguaçu (uma das poucas regiões onde ainda não há contaminação de transgênicos). Por isso os ovos são orgânicos. Sem condições de instalar um abatedouro, o start-up do campo não cria aves de corte.

Saí de lá achando que as galinhas Sabor e Cor vivem num colégio interno do tipo liberal.

O engraçado é que, poucos dias depois do passeio, minha cunhada Lucilene, sabendo desses interesses galináceo-alternativos, me presenteou com duas dúzias de ovos vindos do vizinho de sua mãe, que mora em Itapetininga. Lá as galinhas são criadas no quintal, os pintinhos ficam com suas mães e o galo está sempre por perto. Tecnologia nenhuma e muita liberdade. As galinhas comem milho e ciscam à vontade, como sempre foi antes das pessoas se concentrarem nas grandes cidades e a produção de alimentos ser transferida para empresas.

No final, fiquei achando que essas eram as galinhas mais felizes, pois vivem soltas, num  pequeno grupo familiar.

68. 10 razões para optar pelo orgânico

couve linda
Essa couve linda é da minha horta! 🙂

1 – É mais saudável para o consumidor
Os adubos químicos possuem apenas três componentes (nitrogênio, fósforo e potássio) enquanto os orgânicos têm também cálcio, magnésio, boro, zinco e vários outros elementos, além de proteínas, vitaminas, enzimas e aminoácidos. Portanto, os alimentos produzidos dessa forma são mais nutritivos. Além disso, pesticidas, hormônios e antibióticos aplicados na agricultura e na pecuária convencionais persistem nos produtos. Não adianta lavar, pois essas substâncias os impregnam internamente. 

2 – É mais saudável para o produtor
As maiores vítimas dos agrotóxicos são as pessoas que os manuseiam diretamente e que vivem perto das plantações tratadas quimicamente. Casos de envenenamento agudo não são incomuns, mas na maioria das vezes a contaminação se dá pouco a pouco, dia após dia, com consequências muito graves para a saúde.

3 – É mais justo
Produtores orgânicos só obtêm certificação se cumprirem rigorosamente todas as leis trabalhistas e oferecerem condições dignas aos trabalhadores do campo. A fiscalização por parte das entidades certificadoras é frequente.

4 – Preserva a pureza da água
Pesticidas e metais pesados utilizados nos compostos agroquímicos infiltram-se em lençóis freáticos e riachos. A eliminação da mata ciliar e o desrespeito à reserva legal de vegetação nativa, situações comuns no agronegócio convencional, comprometem nascentes e rios.

5 – Mantém a fertilidade do solo
Produtores orgânicos de pequeno porte não praticam a monocultura, não utilizam mecanização intensiva, só aplicam adubos de fontes naturais, mantêm a cobertura vegetal sobre o solo, fazem adubação verde, rotação de culturas e tomam precauções contra a erosão. Todos esses procedimentos preservam — e muitas vezes aumentam! — a capacidade produtiva do solo ao longo dos anos.

6 – Dá uma força para as pequenas propriedades agrícolas
Na agricultura convencional de larga escala, os pequenos não têm vez. O negócio só dá lucro na base do latifúndio, da monocultura e do consumo incessante de insumos caros. Os pequenos produtores quebram, empobrecem e muitos acabam tendo que vender suas terras e mudar para a periferia das cidades, iniciando um ciclo vicioso de problemas sociais. 

7 – Protege a biodiversidade
Na agricultura convencional, os agrotóxicos matam indiscriminadamente pequenos animais e afugentam pássaros. As sementes e espécies crioulas (nativas) são desprezadas. Reservas legais de mata comumente são desrespeitadas e a monocultura é priorizada. Todos esses fatores que contribuem para reduzir a biodiversidade não estão presentes na agricultura orgânica realizada em pequenas propriedades.

8 – Diminui a emissão de gases do efeito estufa
Fertilizantes químicos consomem muita energia na sua produção, geralmente de fontes petrolíferas. Por isso, as indústrias do setor ão grandes emissoras de gases relacionados ao aquecimento global.

9 – Deixa um mundo melhor para a próxima geração
A agricultura baseada em produtos químicos só resulta em produtos mais baratos porque não cuida dos problemas ambientais e de saúde pública que provoca, deixando para o futuro a difícil missão de solucioná-los. Caso fossem computados os gastos com despesas médicas, o pagamento justo aos produtores, os investimentos necessários para recuperar as fontes hídricas e a fertilidade do solo, seu preço seria muito superior ao dos produtos orgânicos. Quem consome orgânicos está pagando por benefícios indiretos para todos, como melhor qualidade da água, do ar, redução da temperatura terrestre e das erosões. 

10 – É mais gostoso
Além de todos os benefícios para a saúde, o meio ambiente e as relações sociais que a produção orgânica proporciona, os alimentos produzidos desse modo são muito mais saborosos. Essa é a opinião de chefs de cozinha renomados — como Alex Atala, Rodrigo Oliveira e Ana Luiza Trajano — e de milhares de consumidores em todo o mundo.

EXPLICANDO…
Esse post tem a ver com algumas novidades.

A primeira é que estou fazendo um curso online de agricultura orgânica e resolvi gastar os novos conhecimentos (rs). Meu professor é o engenheiro agrônomo Silvio Roberto Penteado, que publica os blogs www.viaorganica.com.br e www.agrorganica.com.br

Também estou envolvida com o lançamento do novo site da empresa Alimento Sustentável, que tem produtos orgânicos superbacanas (incluindo peixe, frango e ovos), faz entregas a domicílio em São Paulo e usa embalagens retornáveis. Veja lá: www.cestaorganica.com.br; www.pescadooriginal.com.br; www.queijoartesanal.com.br.

E continuo indicando as cestas orgânicas distribuídas pelo Sítio A Boa Terra (www.aboaterra.com.br), dos meus queridos amigos Joop e Tini.

62. De-com-po-si-ção

 Usar a composteira e o minhocário para fabricar adubo em casa é muito mais do que uma atitude ecológica. Existe algo de profundamente espiritual em permitir que microorganismos e minhocas transformem plantas mortas em alimento para plantas vivas.

Por dentro, o minhocário é assim
Por dentro, o minhocário é assim

Minha horta é irmã gêmea da composteira. Quando resolvi plantar, achei totalmente ilógico continuar jogando fora sobras da cozinha e podas do jardim se teria que comprar “terra vegetal” nas lojas do ramo. Esses resíduos não são lixo e sim matéria prima para fabricar adubo. Sem um espaço especialmente projetado para a composteira, simplesmente cavei um buraco embaixo de um canteiro suspenso e comecei a colocar lá cascas, talos, caroços, folhas e galhos.

Foi inesquecível a primeira vez que abasteci a composteira. Ao depositar os restos do dia na cova e atirar por cima uma pá de terra, percebi que aquilo era literalmente um enterro. Deu arrepio, mas nada parecido com filme de terror. Tive a sensação de estar intensamente conectada ao ciclo da vida. Parei um instante para contemplar os fragmentos do que tinha sido usado na preparação das refeições e agora seria decomposto por exércitos de microorganismos. Depois, esse mesmo material iria fertilizar as próximas gerações de legumes e verduras aqui mesmo.

Semanas se passaram e, como por milagre, não era mais possível enxergar a casca da banana ou o talo do brócolis: tudo tinha virado uma terra preta, soltinha e cheirosa. Com o tempo, me acostumei a revirar a composteira e encontrar minhocas e toda uma mini-fauna desconhecida. Foi assim até que adquiri um minhocário, para onde agora vão as “sobras nobres” (restos da cozinha) misturadas com material seco (folhas, guardanapos brancos usados, rolinhos de papel higiênico e restos de papelão sem nenhuma tinta). Dizem que serragem é excelente para o minhocário, mas não sei como conseguir. Se a mistura fica muito árida, as minhocas desaparecem. Se fica muito úmida e ácida, idem. Aqui já aconteceu invasão de uns vermes esquisitos, que solucionei mudando o manejo. Mais ou menos como cozinhar, aos poucos vamos pegando o jeito e acertando a mão. Troca de experiências e conselhos de quem está na mesma trip minhocal sempre são bem-vindos.  

A composteira continua firme e forte, mas cuida sobretudo do setor de jardinagem. Comprei também um triturador, máquina barulhenta que parece um liquidificador gigante e serve para picar folhas e galhos secos, o que acelera o processo de decomposição. O ritual punk de triturar, aliás, é um santo remédio para o mau humor.

Misturo o composto que produzo ao húmus de minhoca também feito em casa ou a fertilizantes orgânicos (Bokashi e Tsuzuki). Semanalmente ou a cada quinze dias, uso o mix para adubar a horta. A essa mesma fórmula recorro quando quero expandir a lavoura. Só tem um detalhe: composteira e minhocário não aceitam restos de carne, queijo, frutas cítricas, cebola, alho, pimenta, comida muito gordurosa ou temperada.

Andando pelo bairro, fico indignada com aquelas fileiras de sacos pretos que os jardineiros deixam nas calçadas para os lixeiros levarem. Até as empresas de paisagismo entraram na onda da cadeia de produção linear, algo que na natureza não existe! Assim como todos os objetos industrializados, hoje em dia as plantas ornamentais começam sua história numa loja e terminam num grande lixão, onde tudo mistura e se contamina.

O documentário “Lixo Extraordinário”, nas boas locadoras, apaga a ilusão de que o lixo desaparece magicamente quando o caminhão de coleta vira a esquina. E o livro “Cradle To Cradle: Remaking the Way We Make Things” (Do Berço ao Berço: Repensando a maneira como fazemos as coisas — ainda não editado no Brasil) faz uma profunda reflexão sobre o assunto e aponta novos caminhos.

60. Embalagem zero

Na Inglaterra, uma família consegue viver sem produzir lixo. Em São Paulo, troco o supermercado pela feira para adquirir frutas de melhor qualidade e preço sem embalagem alguma. 

Nas últimas semanas falou-se da família britânica Strauss, que em 2010 produziu apenas um saco pequeno de lixo. Eles têm uma horta, transformam os restos da cozinha em adubo, levam seus próprios recipientes ao açougue, só usam baterias recarregáveis e inventaram mil e uma outras maneiras de não gerar resíduos. Seu site (www.myzerowaste.com) virou referência mundial sobre reciclagem e recebe mais de 70 mil acessos por dia. Apenas alguns brinquedos quebrados, lâminas de barbear, canetas e negativos fotográficos sobraram no ano passado. Para 2011, a meta é ainda mais radical: não ter lixo algum para jogar fora.

Richard, de 54 anos, Rachelle, de 38, e a filha deles Verona, de 9, levaram a sério a frase do Gandhi “Seja você a mudança que quer ver no mundo” e viraram meus heróis. Eles moram num lugarejo semirural em Gloucestershire, sudoeste da Inglaterra. Bem humorados, assinam os artigos do site como Mr Green, Mrs Green e Little Miss Green. Suas experiências estão se espalhando por todo o planeta e ajudando muitas outras pessoas a viver de forma mais sustentável e a fazer pressão política para que o sistema mude. No site, ensinam inclusive como cutucar as empresas para que se responsabilizem até as últimas consequências pelos resíduos que geram.  

Lembrei da família Strauss no último sábado, quando fui à feira. Estou retomando o hábito de comprar frutas frescas nesses mercados ao ar livre, pois ando indignada com o excesso de embalagens compulsórias que os supermercados nos empurram. Mesmo recusando bandejas de isopor no balcão de frios, pegando as laranjas uma a uma sem usar saco plástico e fazendo tudo o que posso para reduzir o lixo, nesses estabelecimentos a maioria dos produtos in natura só é vendida com o acompanhamento de invólucros artificiais.

Cheguei à feira armada com três sacolas de lona, recusei os saquinhos oferecidos e voltei para casa com banana, goiaba, abacaxi, mamão, maracujá, maçã e até um galho cheio de lichias. Todas as frutas nuas como vieram ao mundo. Depois de guardá-las, notei o milagre: não sobrou lixo algum! Como planto folhas, temperos, pimentão e pepino na horta de casa e os demais legumes vêm na cesta orgânica do Sítio a Boa Terra, os vegetais praticamente não geram resíduo por aqui (cascas, talos e sementes abastecem o minhocário e viram adubo).

Além das vantagens ecológicas de comprar na feira, o bom humor do ambiente faz muito bem. Ao recusar o saquinho em uma das barracas, ouvi: “Então quer dizer que a moça é ecológica!”. Confesso que, mesmo ciente da centenária habilidade dos feirantes em inflacionar a autoestima da clientela, o tal “moça” me deixou mais animada do que o “ecológica”. Afinal, estou completando 45 anos.

31. A safra de tomates

Não sei o que é melhor: o gosto da salada ou a sensação de olhar para ela e lembrar de que cuidei das plantinhas desde que eram sementes.

Quando planejei uma horta em casa, a imagem que tinha na cabeça era de uma linda fileira de tomates com folhas muito verdes e frutos muito vermelhos. Isso foi em 2006, quando fizemos o projeto da casa. Em setembro, completaremos dois anos morando aqui e, finalmente, tenho uma safra de tomates!

No beiral do janelão da cozinha, acabo de contar 28 deles, prontos para virar salada ou molho. A colheita de alface e rúcula também está farta, de modo que inauguramos todas as refeições com verduras fresquinhas produzidas em casa. Não sei o que é melhor: o gosto dos vegetais na boca ou a sensação de olhar para eles e lembrar de que cuidei das plantinhas desde que eram sementes.

Mas não foi fácil chegar até aqui e ainda tenho muito o que aprender. Meus canteiros são suspensos, pois na parte de baixo da casa não há lugares com bastante sol (exceto o gramado onde meu filho joga futebol, espaço inegociável). Isso não é o ideal. Para complicar, a qualidade da terra a princípio não estava boa. O pior problema, no entanto, é que eu não tinha experiência nenhuma. Quem ajudou muito foi o agrônomo Marcelo Noronha, da Minha Horta (www.minhahorta.com.br), que se dedica às lavouras urbanas. Vale conhecer o trabalho dele e virar cliente, pois até em apartamento o Marcelo consegue produzir temperos e ervas.

Para resolver a questão da terra, durante todo esse tempo estou acrescentando um monte de “alimentos”: o composto orgânico que fazemos com as cascas e sobras de vegetais, o húmus que vem do minhocário doméstico e um adubo orgânico chamado Tsuzuki que descobri em minhas incursões às lojas de produtos agrícolas. Aliás, tenho feito compras ali com muito mais freqüência do que no shopping. De farinha de osso à máquina trituradora de galhos, a lista de esquisitices não tem fim.

Enquanto meus alfaces ficaram tão lindos que poderiam aparecer em capa de revista, as folhas dos pés de tomate amarelaram. A produção vai bem, mais quero que os tomateiros fiquem fortes e viçosos. No momento, a couve também preocupa, já que está crescendo devagar e pegando algumas pragas. Talvez porque essa não seja a época certa da espécie… 

De certeza mesmo, só que preciso estudar mais. Para tentar resultados melhores daqui para frente, estou lendo “Horta Doméstica e Comunitária sem Veneno”, de Silvio Roberto Penteado. Depois eu conto os próximos capítulos da roça urbana.

30. Entrevista com o leiteiro

Vale a pena investir em laticínios orgânicos para escapar dos venenos, remédios e hormônios que as vaquinhas normais tomam.

Acabo de bater um papo pelo telefone com o Ricardo Schiavinato. Ele é agrônomo e proprietário da Fazenda Nata da Serra, que fica em Serra Negra. Lá são produzidos leite, laticínios e vegetais orgânicos. Decidi entrevistá-lo porque há algum tempo me tornei consumidora da manteiga, do requeijão e da mussarela do Ricardo. Os produtos são bacanas e eu tinha várias dúvidas sobre esse lance de animais orgânicos. Veja alguns trechos da conversa e, abaixo, mais algumas informações.

Por que você se tornou produtor orgânico?
A principal razão é que não conseguia mais tomar o leite que produzia, por causa dos antibióticos e venenos que aplicávamos nas vacas. Eu e minha família passamos a consumir o leite de uma vaca que não recebia nenhum tipo de tratamento. Com isso surgiu um dilema ético. Como eu poderia continuar vendendo aquilo que não aceitava consumir? A outra questão é que, no modelo convencional, para ser competitivo é necessário produzir em larga escala, o que não seria possível devido ao tamanho da minha fazenda. Com a agricultura orgânica a pequena propriedade agrícola se viabiliza. Minha transformação para o sistema orgânico aconteceu em 1998.

Qual a diferença entre o leite orgânico e o convencional?
As vacas não recebem veneno contra carrapato, não tomam hormônio para aumentar a produção nem antibiótico. Tudo o que a vaca consome, até o tipo de alimento, interfere no leite. Na Europa, aliás, é proibido induzir o aumento da produção de leite na base do hormônio. Nos Estados Unidos e no Brasil pode. Sobre os antibióticos, o correto é descartar o leite das vacas que estão sendo medicadas, mas a gente sabe que nas propriedades convencionais isso em geral não acontece e a fiscalização é falha. Outra coisa importante é que os cuidados com o bem-estar do animal são muito maiores na produção orgânica. Nós, humanos, também somos mamíferos. Por isso é que, quando a mulher está grávida ou amamentando, há restrição para o consumo de uma série de produtos químicos e remédios. Com os animais leiteiros deveria ser a mesma coisa. Na internet tem muita informação a esse respeito, com opiniões contraditórias, já que as pessoas a favor do uso de substâncias químicas na produção de alimentos fazem pesquisas para defender sua visão. Cada um deve refletir sobre esse assunto e agir de acordo com a própria consciência.

Por que os laticínios orgânicos não chegam às grandes redes de supermercados?
A produção de alimentos orgânicos de origem animal ainda está engatinhando no Brasil. E as grandes redes de supermercado se comprometem a oferecer produtos o ano todo, em grandes quantidades. Isso para o produtor orgânico é complicado. Na minha opinião, precisamos respeitar a época de safra de cada alimento. Fazer como nossos antepassados: comer aquilo que a natureza está disponibilizando em cada período. Vamos ter que reeducar nossos hábitos, pois o planeta não está suportando esse modelo insustentável de produção e consumo.

Tem gente que considera a produção orgânica uma ideia romântica, impraticável em larga escala. Como jamais será possível alimentar toda a população mundial com os orgânicos, argumentam que é melhor desistir de vez. O que você acha desse tipo de afirmação?
Discordo totalmente. Depois de transformar minha propriedade para o sistema orgânico, passei a produzir uma quantidade muito maior de alimentos. Mas tive que diversificar a produção. O que o sistema orgânico não suporta é a monocultura. E lidar com pequenas propriedades de produção diversificada é menos prático para as grandes indústrias.

PARA SABER MAIS sobre esse assunto e descobrir como comprar os produtos Nata da Serra, entre no site: www.natadaserra.com.br

PS1 – O Ricardo me contou também que sua fazenda é a única do Brasil que está no Projeto Balde Cheio, da Embrapa. Isso significa que pesquisadores estão estudando as qualidades do leite que ele produz e a maneira como ele trabalha para disseminar boas práticas pelo Brasil. Parabéns, Ricardo!

PS 2 – Quando estiver passeando pelo site do Nata da Serra, não deixe de olhar as fotos das paisagens da fazenda no esquema “antes e depois”. Ali está um ótimo exemplo de como o sistema orgânico ajuda a regenerar a natureza.

29. Churrasquinho de mato

No Brasil, muitos açougues comercializam carne proveniente de desmatamento na Amazônia, obtida com trabalho escravo e esquemas de lavagem de dinheiro. O Ministério Público Federal começa a se mexer para impedir esses crimes. E nós precisamos colaborar.

Há alguns anos, uma churrascaria moderninha de São Paulo fez uma campanha publicitária baseada no conceito de tirar sarro de quem não come carne. Nos anúncios de rádio e revista, o vegetariano era um cara pálido, molengo, raquítico, meio retardado. Obviamente, para ele sair desse estado lastimável, bastava mastigar umas picanhas no tal restaurante, frequentado apenas por pessoas bacanas e ishpertas.

Lembrei disso ao ler o post “Que tal um churrasco de desmatamento?” no blog do meu colega Bruno Rezende (www.colunazero.com.br). Ele fala sobre a Campanha Carne Legal (http://www.carnelegal.mpf.gov.br/), promovida pelo Ministério Público Federal para incentivar o consumidor a descobrir a origem do alimento que compra. O objetivo é incentivar o boicote a produtores que desmatam de forma ilegal, utilizam trabalho escravo e realizam lavagem de dinheiro. É o que podemos fazer enquanto não rola uma fiscalização melhor e um selo que indique claramente na embalagem de cada produto se o frigorífico é legalizado.

Preste atenção: não se trata de uma campanha de ativistas ecológicos, em geral ridicularizados. São pessoas do governo que estão por trás dessa iniciativa. Nota 10 para o site muito bem feito e didático!

E nota 10 também para o Bruno (que é publicitário e fluminense de Barra Mansa). Ele acaba de ganhar o prêmio da categoria ambiental no maior concurso mundial de blogs: o BOBs (Best Weblogs), oferecido pela Deutsche Welle, a TV estatal alemã.

 Como você pode contribuir para combater os verdadeiros pecados da carne? Aqui vai o trecho do site da campanha que explica: O objetivo da campanha é alertar o consumidor quanto a origem da carne que ele consome. No Brasil ainda não há certificação para a comercialização de carne, a exemplo de outros produtos agropecuários. No entanto, a campanha é um convite para que todos os elos da cadeia produtiva possam discutir o tema. A campanha propõe que o consumidor pergunte no supermercado ou açougue de qual frigorífico vem a carne comercializada naquele estabelecimento. Com essa informação ele pode verificar no site da campanha (www.carnelegal.mpf.gov.br) se aquele é um frigorífico que assinou ou não acordo com o Ministério Público Federal para revender apenas produtos de origem legal.”

25. O mar não está para peixe

Más notícias vêm dos oceanos. Por enquanto, reduzir o consumo de peixes e escolher bem a espécie que vai para a panela é uma opção. No futuro, talvez não tenhamos essa possibilidade…

Há mais de 20 anos não como carne vermelha. No princípio, por um motivo egoísta: vontade de emagrecer. Era a década de 80, tempos do “new age” em alta. Li em algum lugar que a carne era muito “yang” e o açúcar, muito “yin”. Inventei uma teoria alimentar maluca e decidi cortar os dois ingredientes do cardápio. Passaram-se 48 horas e eu estava desesperada por um docinho. Passaram-se décadas e a carne não fez falta nenhuma. Acho que nunca gostei, que não preciso disso para viver bem. O que é ótimo, pois os pastos representam um problemão ambiental e me aflige a ideia de ter que comer um colega mamífero.

Abre parênteses: acredito que as pessoas são bioquimicamente diferentes e conheço muita gente que adora um bife. Por exemplo, meus filhos. Compreendo, respeito e, muitas vezes, vou ao fogão preparar carne. Fecha parênteses.

No reino das proteínas animais, restaram para mim peixe, frango, ovos e laticínios (não tolero leite in natura). Durante um bom tempo, dei preferência aos peixes. Foi antes de aparecer no supermercado o frango Korin (sem hormônios e antibióticos, única marca que entra em casa).

Só que, há alguns anos, começaram a surgir notícias alarmantes sobre o massacre que os seres humanos estão realizando nos oceanos. Sem falar na contaminação dos cardumes criados em cativeiro (sobretudo o salmão). Então, com muita tristeza, passei a comer peixe apenas de vez em quando.

Essa semana, o biólogo marinho Marcelo Szpilman, do heróico Instituto Ecológico Aqualung (www.institutoaqualung.com.br), divulgou uma lista das espécies comerciais mais ameaçadas e das que ainda podem ser consumidas, de acordo com o IBAMA e a União Internacional para Conservação da Natureza. Reproduzo aqui. Abaixo coloquei links para outras informações sobre o assunto.

Espécies que não podem ser consumidas
Cação-anjo, raia-viola, peixe-serra, surubim, cioba, badejo-tigre e mero.

Espécies que deveriam ser evitadas
Atum, badejo, cherne, corvina, enchova, garoupa, merluza, namorado, pargo, pescadinha-foguete, sardinha-verdadeira, tainha e vermelho. Cações ou tubarões em geral, mas principalmente cação-mangona e tubarão-martelo.

Espécies liberadas
Abrótea, agulha, albacora, batata, baúna, bicuda, bijupirá, bonito, caranha, carapeba, castanha, cavala, cavalinha, cocoroca, congro, congro-rosa, dourado, galo, linguado, manjuba, michole, olhete, olho-de-cão, pampo, peixe-espada, pescada, piranjica, piraúna, robalo, sororoca, tira-vira, trilha, xáreu, xerelete e xixarro.

OUTRAS INFORMAÇÕES

Sobre a falta de peixes nos oceanos
http://www.akatu.org.br/central/opiniao/2007/a-fonte-ameaca-secar-o-movimento-pela-culinaria-responsavel/

Veja também o filme infantil “Happy Feet”

Sobre o drama do salmão
http://www.oeco.com.br/todos-os-colunistas/50-frederico-brandini/17089-oeco_12130