41. Encontro na metrópole

Duas estranhas se conhecem numa doação de rolhas, tampinhas de garrafa e outras miudezas singelas. Ao descobrir mais alguém que prefere evitar a produção de lixo me senti menos sozinha.

Há alguns meses, meu celular quebrou e o fabricante complicou ao máximo a possibilidade de conserto. Como vingança, resolvi não comprar um novo. E avisei ao pessoal, por meio desse blog, que queria um aparelho usado qualquer (http://conectarcomunicacao.com.br/blog/22-celuless/). Foi a Didiana que fez a doação e estou feliz com a maquininha herdada. O Thompson, outro amigo, sugeriu que eu entrasse para o Freecycle. Trata-se de uma comunidade internacional de pessoas que doam e recebem coisas. Funciona no e-mail. Basta postar uma mensagem “procuro X” ou “ofereço Y” que os interessados entram em contato a combina-se a entrega. Os objetos anunciados variam muito: de colchão a apostila de cursinho, de roupa a eletrônicos, de panela a lustre.

Semana passada chegou um pedido superbacana da Priscila. Ela procurava rolhas, tampinhas, retalhos de tecidos, garrafas PET, caixotes e outras miudezas para decorar sua casa de uma forma ecológica.

Achei o máximo existir alguém disposto a transformar o que os outros consideram lixo em aconchego doméstico. Respondi dizendo que poderia contribuir. E fui mexer na prateleira de sucatas especiais que tenho em casa. É que não me conformo em mandar para o aterro sanitário coisinhas limpas e simpáticas como bandejas de isopor, CDs usados, caixinhas de papelão etc. Esse material as crianças usam para fazer arte em casa ou então envio para a escola. Sabe o robozinho do filme Wall-E? Me identifico totalmente com ele.

Encontrei 43 rolhas, mais de 50 tampinhas de garrafa, peças de plástico colorido provenientes de brinquedos quebrados y otras cositas. Tirei o pó de tudo, preparei uma sacola e marquei com a Priscila um local na rua. A operação durou 30 segundos. Foi o tempo de encostar o carro, passar a encomenda para a jovem meiga que encontrei e desejar que a casa dela fique linda.

Que experiência interessante! Perdidas numa metrópole heavy metal como São Paulo, duas estranhas se encontram para transmitir mercadoria tão singela. Descobri mais alguém que prefere evitar a produção de lixo. Minha alma ficou leve e me senti menos sozinha.

Para fazer parte do Freecycle é só mandar um e-mail para SaoPauloFreecycle@yahoogroups.com ou acessar SaoPauloFreecycle no Yahoo Groups.

39. Plantar. Cozinhar. Lavar. Costurar.

Homens, mulheres, adolescentes e crianças ganham muito quando colocam a mão na massa e encaram as tarefas domésticas.

A propaganda tenta nos convencer a comprar produtos práticos. Em marquetês, praticidade significa adquirir algo industrializado e pré-pronto em vez de colocar a mão na massa. A vantagem embutida nesse tipo de oferta é ganhar tempo. Mas ganhar tempo para quê? Para assistir mais anúncios na televisão? Para adicionar mais amigos virtuais ao Facebook? Para ir ao shopping fazer compras?

É uma pena que o feminismo tenha deixado como efeito colateral a aversão ao mundo doméstico. Obviamente, o fim (ou melhor, o abrandamento) do patriarcado melhorou o ocidente. As notícias que chegam dos países árabes, da África e da China, imensos territórios onde as mulheres ainda passam por suplícios, não deixam sombra de dúvida. Nas últimas décadas, porém, passaram a ser malvistas tarefas como preparar uma refeição, arrumar os armários, pregar botões e lavar a louça.

Na minha opinião, homens, mulheres, adolescentes e crianças saem perdendo quando evitam os trabalhinhos humildes. São coisas deliciosas de fazer e que têm efeitos terapêuticos poderosos. Quando limpo (sem produtos tóxicos) e organizo a casa, faço faxina nos pensamentos e sentimentos. O almoço que preparo no fim de semana com os vegetais fresquinhos e orgânicos aqui do quintal é mil vezes melhor do que as gororobas congeladas servidas pela indústria alimentícia. Melhor até do que a comida delivery da lanchonete bacaninha. Melhor até do que enfrentar um restaurante lotado. Todo o processo de cozinhar e colocar a mesa em família nutre a alma e tempera os vínculos entre nós. Quando temos convidados, a alegria fica maior ainda.  

Passo longas horas diárias pesquisando e escrevendo diante da tela do computador. Para recarregar as baterias, preciso cuidar da horta e passear com o Nino (meu cão), entre outros serviços braçais. Ontem mesmo, acompanhei minha filha Julieta numa atividade. Como sempre, levei um livro. No caso, uma obra-cabeça. Felizmente, tinha comigo agulha e linha e pude consertar a mochila, que estava arrebentando. Li um capítulo e depois fiquei meditando sobre ele enquanto costurava. O tempo voou e saí de lá muito mais disposta do que quando apenas leio.

As crianças de hoje já nasceram numa sociedade acelerada, hiperconectada e viciada em altas doses de diversão. Canais infantis transmitem 24 horas. Filmes 3D são lançados toda semana, assim como novas versões de games e gadgets. Meus filhos gostariam de preencher todos os minutos do dia e da noite com distrações eletrônicas, mas a gente coloca limites. Para eles, o vácuo de atividades, popular tédio, é difícil de encarar. E contribuições mínimas com as tarefas domésticas demandam grande esforço.

Aos poucos, eu gostaria de ensinar ao Alex e à Julieta como é bom plantar, cozinhar, lavar e costurar. Quero que eles saibam que nada cai do céu, como acontece no Playstation. Por enquanto, já está valendo a pena insistir em colocá-los em contato com a realidade mais simples e básica da vida. Lavar o carro, por exemplo, se tornou uma das brincadeiras preferidas do meu filho. Como o calor voltou, vamos fazer isso no próximo sábado (utilizando a menor quantidade possível de água).

OBS 1 – O livro que cito no quarto parágrafo é Small is Beautiful – Economics as If People Mattered, de Ernst Schumacher, economista alemão que viveu na Inglaterra. Trata-se de uma das principais obras do movimento ambientalista e estou adorando. O título já diz muito…