95. Occupy serviços públicos

Ótimo atendimento no Posto de Saúde de Pinheiros me anima a jogar fora o preconceito e pesquisar melhor o que o Estado oferece antes de apelar para opções privadas.

Preparando um vaso de sucata, ontem esfaqueei minha mão direita. O corte foi pequeno, mas profundo. Como tudo na cena do crime estava sujo de terra, achei melhor tomar o reforço da vacina antitetânica, há muito tempo vencida.

Procurei o Posto de Saúde de Pinheiros que fica perto de casa. Chegando lá, encontrei instalações simples e limpinhas. Atendimento rápido, sensato e eficiente. Bastou apresentar um documento e responder algumas perguntas sobre meu histórico de imunização. Em 10 minutos, saí de vacinada sem gastar um centavo. E ainda deu tempo para uma conversa sobre como é bom consumir verduras fresquinhas produzidas em casa.

Consciente de que os problemas de saúde pública do Brasil são gigantescos e o sistema tem milhões de falhas, dou nota dez para minha experiência de hoje com o SUS. E fiquei interessada em usar mais os serviços públicos.

Pesquisando na internet (http://www.cidadao.sp.gov.br/servico.php?serv=2825), descobri que no Centro de Saúde/Pinheiros tem um monte de especialidades, incluindo psicologia, oftalmologia, fono, fisio e homeopatia. Ainda não preciso de óculos para ler, mas a idade não perdoa e daqui a pouco a presbiopia me pega. Já sei onde vou.

Aproveito para explicar meu sumiço desse blog nos últimos dias. Estou estudando as 269 páginas do relatório Estado do Mundo 2011, que nesse ano trata de tendências mundiais da agricultura com foco em segurança alimentar e combate à fome. É publicado pelo renomadíssimo World Watch Institute (http://www.worldwatch.org/) e foi traduzido para o português pelo Instituto Akatu. Se quiser embarcar na aventura, o livro está disponível em PDF: http://www.akatu.org.br/Content/Akatu/Arquivos/file/Publicacoes/EstadodoMundo2011_portugues.pdf. Na semana que vem conto minhas descobertas.

94. Bumbum com pano

 

Modelo fofo da marca Bebês Ecológicos

Para os alternativos, colocar fraldas de tecido nos filhos é a coisa mais natural do mundo. Pesquisando o assunto, descobri as várias desvantagens das fraldas  descartáveis e que não há nada de nojento nos modelos reutilizáveis.    

Antes de ter filhos, eu imaginava que trocar fraldas seria a provação extrema para o amor maternal (e paternal). Na hora H, foi a coisa mais simples do mundo. Parece que a natureza prepara a gente para mexer no xixi e no cocô dos filhos. Não que aquele cheirinho vire perfume francês, mas a tarefa se transforma numa rotina básica.

Mesmo assim, há uma década, quando meus filhotes chegaram, não tive coragem de usar fraldas de pano. E hoje me arrependo do montão de lixo que produzi. Ainda mais porque, nas minhas andanças ecológicas, encontro cada vez mais pessoas que, sem preconceito algum, adotam não só fraldas de pano para seus bebês como absorventes menstruais também de tecido.  

Lendo as ótimas instruções do site Bebês Ecológicos (http://fraldasecologicas.art.br/perguntas-frequentes/), descobri um mundo novo. Ali está explicado tim-tim por tim-tim como usar, lavar e organizar a vida usando fraldas de pano que, aliás, não lembram em nada as que conheci há quase 40 anos, quando minha irmã caçula nasceu. No catálogo dessa empresa, que faz parte da Morada da Floresta, encontrei modelos com ótimo design e cores espertas como “bizâncio” e “mentol”. E, por meio do grupo paulistano do Freecycle (www.freecycle.org), conheci Cris Duarte, outra empresária do setor ecofraldal. Ela é proprietária da DiPano (http://www.fraldasdipano.com.br/) e fui visitar seu escritório, cheio de fraldas e de histórias bacanas. 

Nos Estados Unidos, a consciência ecológica e a preocupação com a saúde das crianças está fazendo as vendas de fraldas de pano aumentarem loucamente. Lá existe até uma associação chamada The Real Diaper Association (http://www.realdiaperassociation.org/), que significa algo como Associação da Fralda Verdadeira. Veja alguns dos argumentos da RDA contra as fraldas descartáveis:

  • O produto contém traços de dioxina e tributyl-tin (TBT), substâncias químicas altamente tóxicas;
  • Para o bebê, o contato com as fibras naturais do algodão é mais confortável;
  • A temperatura escrotal dos meninos permanece mais alta com a fralda descartável, o que atrapalha o desenvolvimento dos testículos;
  • Cerca de 27,4 bilhões delas são consumidas por ano nos Estados Unidos, gerando mais de 3 milhões de toneladas de lixo;
  • Enquanto as descartáveis servem apenas por uma vez e demoram séculos para decompor, usa-se uma fralda de pano até 200 vezes.

Quem não se sente à vontade para aderir à fralda de pano do dia para a noite pode fazer umas experiências mais light. Comprar uma ou duas para ir se acostumando com a ideia e experimentar em momentos pós-cocô. Outra opção (essa sim eu testei e aprovei) é deixar as crianças brincarem sem fralda em alguns períodos, principalmente no verão. Para limpar os bumbuns, em vez dos lencinhos úmidos industrializados, optei por pequenas “pizzas massa fina de algodão úmido” que fabricava com as mãos. Comprando pacotes de algodão do tipo hospitalar, de 500g ou 1kg, fica bem mais barato e o lixo plástico diminui bastante. Sem falar que o pequeno se livra dos perfumes artificiais e outros aditivos dos tais lencinhos úmidos.

Quando a gente sai por aí com carrinho de bebê, não faltam os avisos dos pais experientes de que “essa fase passa rápido e depois a gente tem saudades”. Jurei que nunca pronunciaria esse clichê. Até porque, não achei tão rápida a primeira infância dos meus gêmeos e ainda não bateu a saudade das fraldas e mamadeiras. Mas juro que fiquei com vontade de experimentar esses produtos. Acho que vou ter que esperar os netos…

Fiz esse post na sexta-feira e domingo encontrei na Folha de São Paulo reportagem de uma página sobre o mesmo assunto, com outras dicas.Link para assinantes da Folha ou do UOL:   http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff0611201109.htm
Reprodução da matéria aqui: http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=29&task=detalhe&id=49145

93. Como nascem os celulares

A fabricação dos aparelhos moderninhos começa da forma mais primitiva, devastadora e injusta que existe. Esse é o tema do documentário “Blood in the Mobile”.

Nossos celulares contêm dezenas de metais. Alguns velhos conhecidos, como chumbo, cobre e prata. Outros são elementos de nomes exóticos, como paládio, rutênio e columbita-tantalita (esse último apelidado de coltan). Para consegui-los, a mineração tem ocorrido do jeito mais primitivo que existe. Ou seja, moendo seres humanos e degradando toneladas de chão para obter literalmente alguns gramas desses elementos conhecidos no métier industrial como terra rara.

A indústria eletrônica nos brinda com anúncios descolados que prometem uma vida pós-moderna e ultraconectada, onde tudo é diversão e alta tecnologia. No entanto, os aparelhos começam a ser fabricados em locais distantes dos olhos da mídia onde pessoas desprovidas de tudo trabalham em condições piores do que a dos escravos que construíram as pirâmides do Egito.

Esse é o tema do documentário “Blood in the Mobile” (Sangue no Celular), do dinamarquês Frank Poulsen. Proprietário de um Nokia, durante dois meses ele tentou contato com a empresa para saber de onde eram retirados os componentes de seu aparelho. Sem resposta, embarcou numa viagem perigosíssima à mina de cassiterita de Bisie, no interior do Congo. Lá encontrou falta até de água para beber e adolescentes trabalhando em buracos sob a mira de metralhadoras. Enquanto o filme não chega a um cinema ou locadora perto de você, aí vai o trailer: watch?v=wQhlLuBwOtE. Mais informações sobre os bastidores na matéria do Estadão: http://blogs.estadao.com.br/link/tecnologia-consumo-e-dor/.

Com a repercussão de “Blood in the Mobile” e a pressão da ONG “Make IT Fair” (Torne a Tecnologia da Informação Justa) http://makeitfair.org/ , empresas como Nokia, Motorola, Sony, Telefônica, Ericsson, Microsoft, Dell e Philips, entre outras, estão começando a se mexer. A intenção é tentar barrar as matérias primas provenientes de regiões de conflito. Enquanto isso, a China vai ocupando esse mercado e dá mostras de que pretende usar politicamente suas preciosas reservas. Mais detalhes em http://idgnow.uol.com.br/computacao_corporativa/2010/10/06/dispositivos-eletronicos-podem-ser-afetados-pela-ausencia-de-metais-especiais/.  

Mesmo sendo bem ignorante em questões tecnológicas, tenho sugestões para os fabricantes de equipamentos eletrônicos:

  • Manter boas redes de assistência técnica e simplificar ao máximo a vida de quem tenta consertar um aparelho;
  • Tornar possível o upgrade de versões anteriores dos aparelhos, para que os mais antenados não precisem ir às compras toda hora;
  • Criar sistemas eficientes de logística reversa que permitam reutilizar todos os componentes das máquinas antigas em novas, reduzindo ao máximo a necessidade de extrair recursos da natureza;
  • Conhecer melhor os próprios fornecedores, convocar auditorias e acompanhar de perto toda a cadeia produtiva, da mineração à loja;
  • Garantir rendimentos e condições de trabalho dignas para todos os envolvidos na indústria, a começar pelos trabalhadores das minas;
  • Explicar aos consumidores que eles são corresponsáveis pelos impactos ambientais e sociais provocados pela fabricação, uso e descarte dos aparelhos que adquirem. E que vale a pena pagar mais para evitar o envenenamento do planeta e a exploração de seres humanos.

No caso das pessoas físicas, minha proposta é não fingir ignorância e ter em mente que cada novo gadget traz consigo um rastro de destruição e injustiça. Como hoje em dia ficou complicado viver sem as maquininhas, precisamos consumir menos e pressionar a indústria a agir melhor.

Ninguém melhor do que a Annie Leonard para esclarecer dúvidas sobre esse assunto. Não perca “The Story of Eletronics” (A História dos Eletrônicos): watch?v=MPWgqkIVgbw

85. A próxima revolução industrial

E se todo resíduo se tornasse alimento biológico ou tecnológico? E se deixássemos de usar substâncias tóxicas na fabricação de produtos? Mais do que possível, iniciar a extinção do lixo e dos contaminantes é urgentemente necessário.

O arquiteto norte-americano William McDonough e o químico alemão Michael Braungart (ecologistas desde sempre e hoje cinqüentões) apresentaram seu primeiro projeto em parceria durante a Eco 92. O documento “Hannover Principles” estabeleceu diretrizes de sustentabilidade que continuam muito atuais para as áreas de design e arquitetura (http://en.wikipedia.org/wiki/Hannover_Principles). Entre elas estava a proposta de abolir o lixo. Não reduzir ou reciclar os dejetos, mas acabar de vez com esse conceito.

A ideia deu origem ao livro “Cradle to Cradle: Remaking the way we make things” (Do Berço ao Berço: repensando a maneira como produzimos as coisas). Lançado em 2002, até hoje não tem edição brasileira, algo inexplicável, pois a obra se tornou uma das bíblias do ambientalismo. Depois de ler cada página e perceber meus horizontes mentais se expandindo, resolvi resumir e compartilhar o que eles dizem.

Mc Donough e Braungart começam desfilando os horrores da cadeia produtiva industrial que se baseia na extração de matérias primas da natureza (seja petróleo, metal, minério, planta ou bicho). Geralmente isso ocorre de forma brutal, deixando um rastro de poluição e devastação. E eles não nos deixam esquecer que a maioria das reservas desses insumos caminha para o esgotamento.

Depois os autores nos fazem perceber como é rápido o instante em que desfrutamos dos produtos adquiridos com tanto sacrifício para o meio ambiente. Pense na garrafinha de água mineral, na caixinha de suco, na embalagem dos lápis de cor que em um segundo se tornam sucata. E mesmo aquilo que parece durar bastante em nossas mãos (como sapatos e equipamentos eletrônicos) tem uso por apenas um ínfimo fragmento dos séculos que passarão enquanto se decompõe. Pense na carcaça do computador e no brinquedinho de pilha degradando lentamente no aterro e vazando no ar, solo, lençóis freáticos e cursos d’água substâncias tóxicas como cádmio, mercúrio, chumbo & cia.  

Enquanto isso, o esgoto vai recebendo cargas de antibióticos, hormônios e outros remédios expelidos não só pelas pessoas como também pelos bichos criados em fazendas para fornecer carne, leite e ovos. Acrescente os produtos químicos barra pesada usados pelas indústrias e na limpeza doméstica e está explicado por que esses efluentes se tornam a cada dia mais ameaçadores para a saúde pública.

Voltando ao lixo industrializado, a dupla do Cradle (pronuncia-se “creidol”) desvenda uma série de problemas ligados à forma como a reciclagem é feita atualmente. Eles avisam que os materiais geralmente entram num processo de “downcycling” (deterioração de valor) e muita energia e emissão de gases é necessária para o transporte e transformação da sucata. No caso dos plásticos, por exemplo, diferentes tipos se misturam em piscinas de produtos altamente corrosivos gerando um híbrido de baixa qualidade, num processo que também solta contaminantes. Já o aço puríssimo com o qual são feitas algumas peças dos carros acabam se mesclando a outros metais menos nobres e pigmentos das tintas também gerando poluição e o que sai dali não é mais confiável para colocarem automóveis. Ao projetar um item de consumo, ninguém ainda prioriza o ciclo virtuoso de reutilização, reciclagem limpa e ganho de valor nos processos (upcycling). Tanto a indústria como a esmagadora maioria dos cidadãos prefere o baixo custo imediato e a pseudopraticidade dos descartáveis.

O que fazer então?

Imitar a natureza, onde nada se perde e tudo se transforma. McD+Braun propõem que cada resíduo seja transformado em alimento biológico ou tecnológico. Com os orgânicos (incluindo excrementos), o caminho é a compostagem para gerar adubo. Ou seja, esse material não deveria nunca ir parar nos lixões. Para o restante, as empresas devem redesenhar todo o ciclo de produção prevendo que 100% do que sobra ao final do consumo se torne novamente matéria prima (esse é o sentido da expressão “do berço ao berço”). Pelo caminho, é preciso encontrar substitutos para as substâncias tóxicas que hoje fazem parte dos processos industriais e também da agropecuária sejam aposentadas.

Parece difícil e talvez não seja possível imediatamente, mas isso precisa começar a ser feito. De acordo com os autores, diminuir o lixo em X% ou usar Y% menos veneno é apenas caminhar para o desastre em velocidade um pouco menor.

Para quem pretende aprofundar os conhecimentos ecológicos e está disposto a fazer do desenvolvimento sustentável uma realidade, recomendo três livros que mudaram a maneira como a humanidade vê sua relação com a natureza e os problemas sociais e de saúde:

1)    Silent Spring (Primavera Silenciosa), de Rachel Carson/1962 http://conectarcomunicacao.com.br/blog/14-rainha-da-primavera/

2)    Small is Beautiful: Economics as if people matered (O pequeno é bonito: economia como se as pessoas importassem), de E. F. Schumacher/1973 http://conectarcomunicacao.com.br/blog/49-beleza-pequeno/

3)    Cradle to Cradle: Remaking the way we make things (Do Berço ao Berço: repensando a maneira como produzimos as coisas), de William McDonough e Michael Braungart/2002

Infelizmente, nossas livrarias não oferecem no momento a edição em português de nenhum deles. Também em inglês, a ótima apresentação de Mc Donough no TED: http://www.youtube.com/watch?v=IoRjz8iTVoo

84. O veneno está na mesa. Socorro!

Um documentário, divulgado livremente pela internet, mostra os terríveis problemas de saúde pública provocados pela agricultura baseada em agrotóxicos.

O cineasta Silvio Tendler ficou conhecido pelas biografias históricas de JK, Jango e Carlos Marighella, entre outros documentários de cunho social. Sua decisão de enfocar o que está acontecendo no mundo rural brasileiro deu em “O veneno está na mesa”, um filme realizado com o objetivo de levantar essa discussão e, por isso, liberado para assistir na íntegra pela internet http://www.youtube.com/watch?v=8RVAgD44AGg

São 50 minutos de relatos sobre a tragédia que é o uso de agrotóxicos na lavoura, com muitas situações absurdas que a maioria das pessoas ainda desconhece. Veja algumas delas…

O Brasil é o maior consumidor mundial de agrotóxicos e permite o uso de mais de 400 tipos desses venenos. No filme, fala-se em5,2 litrosanuais por pessoa, mas é possível que o dado já esteja defasado. Em julho de 2011, assisti uma apresentação na BioFairem que Rogério Dias(Coordenador de Agroecologia do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento) mencionou que já chegamos a5,7 litros.  

Aquilo que as indústrias do setor chamam eufemisticamente de “defensivos agrícolas” são nada menos do que armas químicas. Entre os mais antigos estão o Zykon, usado nos campos de concentração nazistas, e o Agente Laranja, na Guerra do Vietnã.

A legislação brasileira é uma das mais complacentes em relação aos agrotóxicos. Produtos banidos até na China são usados livremente por aqui. Para complicar, falta fiscalização, como atestou a Agência Nacional de Vigilância Sanitária em relatório divulgado em 2009. Na ocasião, das 3130 amostras coletadas em 26 estados, 29% estavam contaminadas (com mais agrotóxicos do que os níveis já altíssimos permitidos por lei ou com substâncias proibidas). Os alimentos campeões em veneno: pimentão (80%), uva (56%), morango (55%), abacaxi (44%), mamão (39%), alface (38%).  

O crédito governamental para financiamento agrícola está vinculado à aquisição de sementes transgênicas e agrotóxicos. O agricultor precisa mostrar no banco as notas fiscais de compra.

Em março de 2011, Danielly Cristina de Andrade Palma, defendeu tese de mestradoem Saúde Coletivada Universidade Federal do Mato Grosso. Em sua pesquisa, ela analisou o leite materno de 62 mulheres de Lucas do Rio Verde, norte do Estado. 100% das amostras estavam contaminadas com agrotóxicos. Outros estudos demonstram que a contaminação inicia no útero e a exposição aos agrotóxicos na gravidez, sobretudo pelas trabalhadoras rurais, está relacionada à má formação fetal e câncer na infância.

Diversos agricultores contam suas experiências de intoxicação por agrotóxicos. O depoiment que mais choca é o da viúva de Vanderlei Matos da Silva, que era perfeitamente saudável quando foi contratado para misturar as substâncias que seriam aplicadas na lavoura de abacaxi no Ceará e morreu de intoxicação hepática aos 29 anos.

Pesquisadores da ANVISA e da Fundação Oswaldo Cruz, ambos órgãos governamentais, relatam pressão política para não alertar a população sobre esse problema.

Desde que a agricultura foi criada, há cerca de 10 mil anos, os agricultores sempre guardaram parte da colheita para servir de semente na safra seguinte. Mas agora as sementes transgênicas são parte do pacote fechado da agricultura baseada em produtos químicos. Assim, as sementes naturais, chamadas crioulas, estão desaparecendo. Na minha opinião, esse é o maior risco que o atual sistema representa para o futuro da humanidade, pois a perda da biodiversidade é irreparável.

Felizmente, embora ainda pareça longe o dia em que esses venenos serão banidos do país e do mundo, a cada dia aumenta a preocupação geral com o uso de agrotóxicos na lavoura. Silvio Tendler pretende fazer outros documentários sobre o assunto (saiba mais em http://www.brasildefato.com.br/node/6965). Espero que ele resolva enfocar as soluções que já existem. As mais bacanas, na minha opinião, são:

  • Comprar de distribuidores de alimentos agroecológicos (100% orgânicos e ainda melhores, pois dão uma força para a agricultura familiar e o comércio justo):

www.aboaterra.com.br;
www.alimentosustentavel.com.br;
www.sabornatural.com.br;
www.sementesdepaz.com.br;
www.caminhosdaroca.com.br;
www.familiaorganica.com.br

DÊ SUA ADESÃO À CAMPANHA PERMANENTE CONTRA OS AGROTÓXICOS E PELA VIDA   contraosagrotoxicos@gmail.com                (11) 3392 2660

78. Milho transgênico, quentão e lixo industrializado

As festas juninas se tornaram mais uma ocasião para se entupir de comida ruim e distribuir brindes desnecessários, descartáveis, de péssima qualidade e potencialmente tóxicos.

Há alguns anos, estávamos saindo da quermesse da escola quando duas crianças pobres vieram em nossa direção. Meus filhos tinham nas mãos algumas prendas e na mochila eu guardava tantos outros brindes recém-conquistados por eles. Baixinho, sugeri que doassem um brinquedo para cada um dos meninos que se aproximaram. Recusaram-se e eu respeitei a decisão. Meses depois, ao arrumar os armários, encontrei várias daquelas bugigangas intocadas, ainda na embalagem.  Dessa vez não teve conversa: os badulaques foram diretamente encaminhados para doação.

Chegou de novo o momento em que os colégios organizam as festas juninas e, antes do grande dia, convocam os pais a comprar e entregar as tais prendas. Fico bem desconfortável com isso. Percebo que, em geral, as crianças de classe média possuem brinquedos demais e esse excesso de objetos até dificulta (em vez de facilitar) as brincadeiras. Antigamente, a tradição de presentear os participantes fazia todo o sentido. Afinal, as pessoas viviam no campo, sem acesso a produto algum, incluindo brinquedos. Nesse ambiente espartano imagino que receber um brinde era uma emoção enorme. Já na sociedade hiperconsumista em que vivemos, os festejos típicos da época viraram mais uma ocasião de desperdício e de consumo desenfreado de junk food.

Embora não queiram de verdade o que trazem para casa, percebo que durante o evento as crianças (e até adultos!) tentam acumular o maior número possível de prendas. Não seria melhor aproveitar a pesca, a argola, o rabo do burro e tantas outras atrações apenas por prazer, sem receber nada em troca?

Além da quantidade, há o problema da qualidade. Predominam as tralhas de plástico vagabundas, geralmente fabricadas na China. Esse tipo de produto costuma ter matéria prima inferior e potencialmente tóxica, além de muitas vezes ser fruto de exploração de trabalhadores e esquemas de pirataria e contrabando. Ou seja, uma tragédia socioambiental completa (Mais detalhes em http://conectarcomunicacao.com.br/blog/55-brinquedos-envenenados/).

Eu gostaria que as escolas e os pais transformassem as festas juninas num evento menos consumista. Isso significa valorizar o lado cultural das nossas tradições e não oferecer objetos supérfluos e embalagens descartáveis.

Podíamos aproveitar a ocasião para homenagear nossas raízes gastronômicas proibindo o fast-food, os agrotóxicos e os transgênicos. Já pensou que lindo uma quermesse com quitutes feitos em casa pelos participantes utilizando apenas ingredientes orgânicos da agricultura familiar?

76. O Código Florestal de cada um

amazoniaO Congresso Nacional deu seu voto a favor de um modelo de desenvolvimento baseado na concentração de terras e na dilapidação imediata das reservas naturais, pouco se importando com as gerações futuras. Mas podemos recusar o consumo de madeira e outros produtos ilegais da floresta.


No comércio brasileiro, madeira nativa proveniente de manejo florestal (ou seja, retirada conforme a lei) é exceção. Isso quer dizer que as cadeiras onde sentamos, os tacos em que pisamos e as vigas que sustentam nossos telhados são frutos do desmatamento criminoso ou bem antigos, confeccionados com árvores derrubadas antes de haver leis protegendo as florestas.

Quer ver um exemplo? Há alguns anos, eu estava procurando uma mesa de centro para minha sala. Gostei dos móveis de uma loja bacaninha na Vila Madalena e perguntei se ali se trabalhava com madeira certificada. A vendedora, fashion e descolada, disse sem piscar: “Claro que sim!”. Desconfiei da rapidez e concisão da resposta. Por isso questionei se ela sabia o que era certificação de madeira. Ouvi um “não” gaguejado. Tempos depois, foi construída a casa onde hoje moro com minha família. Durante a obra, eu me tornei uma dor-de-cabeça para o engenheiro, pois tentei de todas as maneiras impedir a entrada de madeira de desmatamento na obra e, mesmo no caso das madeiras de reflorestamento, evitar o desperdício desse material. Descobri com meus próprios olhos o que leio aqui e ali: na construção civil, a origem da madeira está longe de ser questionada e o uso exagerado é a regra.

Infelizmente, uma visão de desenvolvimento retrógrada e injusta prevaleceu na votação do novo Código Florestal. Detalhe trágico: naquele mesmo dia, foram assassinados José Cláudio Ribeiro da Silva e Maria do Espírito Santo da Silva, ativistas e líderes de um projeto agroextrativista sustentável no Pará. Mas nós podemos contestar essa decisão todos os dias, usando nosso poder de consumo, algo que, no mundo atual, tem se mostrado mais efetivo do que o voto. É preciso lembrar que só existe comércio de madeira ilegal porque as pessoas compram isso. Só existe pecuária e plantações de soja em áreas de desmatamento porque há mercado.

Então, acho que cada um deve consultar sua consciência e criar um Código Florestal próprio. O meu é esse aí:

  • Evito ao máximo adquirir produtos novos de madeira. Continuo com os que já possuo há anos e, se preciso de algo, dou preferência aos reformados, reciclados, doados. Em último caso, recorro aos itens feitos de bambu, eucalipto e pinus, que são renováveis;
  • Os “armários embutidos” da minha casa são simples prateleiras, sem fundo e sem portas, feitas de pinus.
  • Os tacos do chão foram feitos com cacos de madeira certificada destinada à exportação. Saiu bem caro e foi dificílimo encontrar o Elias, um dos raros fornecedores preocupados em cumprir a lei e não detonar o meio ambiente. Mas valeu a pena e soube que ele também trabalha com peças maiores. Aí vão os contatos: elias-rosa@hotmail.com e (11) 7611-8528;
  • Dou preferência absoluta aos orgânicos, já que os produtores do setor são obrigados a manter áreas preservadas em seus sítios e pelas 10 outras razões que estão aqui: http://conectarcomunicacao.com.br/blog/68-10-razes-para-optar-por-orgnicos/;
  • Eliminei a carne vermelha e controlo a quantidade dos outros ingredientes animais do meu cardápio. Não condeno quem coma, mas não preciso desse alimento e assim aproveito para diminuir a pressão para que os pastos e as plantações de soja se estendam sobre áreas de floresta;
  • Li com muita atenção o relatório Conexões Sustentáveis e coloquei na lista negra as empresas coniventes com fornecedores criminosos  (leia mais em http://conectarcomunicacao.com.br/blog/63-vivendo-em-paulo-destruindo-amaznia/ ). Minha “birra” vai terminar imediatamente quando essas companhias comprovarem ter mudado seus procedimentos;
  • Embora esse assunto não faça muito sucesso em rodinhas de conversa, costumo trazê-lo à tona.

Não vou falar sobre as implicações políticas e sociais da mudança no Código Florestal, pois há quem faça isso com muito mais competência. Recomendo:

Artigo da MIRIAM LEITÃO, no Globo e aqui:
A Terra se move http://oglobo.globo.com/economia/miriam/posts/2011/05/26/a-terra-se-move-382721.asp

Blog do LEONARDO SAKAMOTO, em especial os posts:
Sua vida pode ser melhor, mas o Congresso não deixa http://blogdosakamoto.uol.com.br/2011/05/30/sua-vida-pode-ser-melhor-mas-o-congresso-nao-deixa/comment-page-1/
Violência na Amazônia: falta coragem para resolver o problema http://blogdosakamoto.uol.com.br/2011/05/31/violencia-na-amazonia-falta-coragem-de-enfrentar-o-problema/

Artigo do JOSÉ ROBERTO DE TOLEDO, no Estadão e aqui:
O polígono da violência http://blogs.estadao.com.br/vox-publica/2011/05/30/o-poligono-da-violencia/  

Vídeo do JOSÉ CLAUDIO RIBEITO (o ativista assassinado) no TEDxAmazônia: http://www.youtube.com/watch?v=XO2pwnrji8I

73. Sem medo de dizer adeus às sacolinhas

Finalmente os supermercados deixaram de oferecer sacos plásticos de graça. Veja como transformar o uso das ecobags num hábito.

Já faz quase duas décadas que levo minhas sacolas para o supermercado. Posso garantir que esse sistema é muito melhor não só para o meio ambiente como para a organização doméstica. E me atrevo a responder as dúvidas mais comuns…

Qual o melhor tipo de ecobag?
A que você usa por muito, muito tempo. Aqui em casa, algumas são mais velhas que meus filhos (ou seja, têm mais de dez anos). A sacola pode ser de lona de caminhão, tecido, plástico, outdoor reciclado, a mesma que sua avó levava na feira. Pode ser hype ou lesada, nova ou velha, discreta ou maluca, grande ou pequena. O importante é andar sempre com elas. O principal problema dessa alternativa é quando a pessoa vira consumidora compulsiva de ecobags, vai acumulando dezenas em casa e nunca as leva para as compras. Fique muito claro que as ecobags usam recursos naturais para serem produzidas e o simples ato de comprá-las não torna ninguém um consumidor mais consciente.

Como faço para não esquecer?
Utilize o mesmo método da escovação de dentes: hábito. Aos poucos, pegar a sacola quando pretende ir ao supermercado passa a ser automático. Enquanto isso não acontece, deixe duas ou três no carro, para garantir. E como não esquecer de levar para o carro? Quando guardar as compras, jogue as sacolas perto da porta, bem no meio do caminho. Ao sair de casa de novo, terá que esbarrar nelas. Aí é só recolher e (se estiver com pressa ou for destrambelhada como eu) atirar dentro do veículo de qualquer jeito.

Dá trabalho?
Sim. Da mesma forma que cultivar relacionamentos, ter filhos, animal de estimação, fazer exercícios, comer direito, comprar ingressos para o show da sua banda preferida. Tudo que é bom na vida demanda investimento. Além de arranjar um lugarzinho na cozinha ou área de serviço para elas (recomendo pendurar), de vez em quando será preciso lavar as sacolas. Também tenho preguiça, mas na minha opinião essa é uma das melhores maneiras de passar a limpo a alma. Quando lavo e penduro no varal as sacolas de compras me sinto muito leve. A cada dois meses mais ou menos, vale a pena economizar uns minutos de TV ou Facebook, arregaçar as mangas e deixar as sacolas tinindo. Não vou fazer propaganda enganosa: de vez em quando elas arrebentam e precisam de reparos com agulha e linha. Outra ótima ocasião para evoluir espiritualmente cultivando a humildade e contemplando o ciclo da vida e das coisas.

Com ecobag demora mais para empacotar no supermercado?
Não. Aliás é bem mais rápido do que usando saquinhos. Eu até prefiro dispensar o empacotador para agrupar de um jeito que simplifica a tarefa de guardar. Separe uma sacola para os gelados e vá juntando as compras de acordo com o armário a que se destina. Não esqueça de colocar no fundo garrafas, latas e itens mais resistentes. Se dividir igualmente o peso entre as sacolas, suas vértebras agradecerão.

Ficarei sem saquinhos para o lixo da cozinha e do banheiro?
De forma alguma. Tudo o que a gente compra — de revista a almofada, do pão de forma de todo dia ao gelo da balada — vem em saco plástico. Vá guardando, sabendo que cada tamanho tem sua função. Aqui em casa está sempre sobrando saco plástico. Se por acaso faltar, minha amiga Juliana Valentini, a inventora do saco de lixo de origami feito com jornal ensina nesse vídeo a resolver o problema: http://www.deverdecasa.com/search/label/Sacolinhas%20pl%C3%A1sticas.

Sacolinhas descartáveis feitas plástico a base de milho ou oxibiodegradável são boas para a natureza?
Não. Trata-se de um produto desnecessário, que vira lixo imediatamente e consome à toa os recursos do meio ambiente. O plástico feito com matéria prima vegetal utiliza um espaço onde poderia haver cultivo de alimentos ou preservação florestal. Já o “oxibio” é ainda pior, pois tem componentes químicos tóxicos. Como se desfaz e vira pó, depois fica impossível recolher o poluente.

Os supermercados estão sendo sacanas porque passaram a cobrar por algo que era de graça?
Não vou entrar nessa discussão, já que estou longe de ser fã das grandes corporações de varejo e de produção de alimentos. Ninguém é obrigado a comprar as embalagens que eles vendem. Nem a frequentar esses locais. Se a postura dos supermercados o incomomoda por essas e outras razões, vá mais à feira, ao mercado municipal e, melhor ainda, torne-se cliente dos distribuidores de orgânicos que fazem entregas em casa. Dicas aqui: http://conectarcomunicacao.com.br/blog/98-diga-adeus-aos-agrotxicos/.

 Pronto: agora é só desapegar dos saquinhos!

  • E aproveite o embalo para dispensar também aqueles que embrulham frutas e legumes tanto no supermercado quanto na feira. Basta pegar na mão os vegetais e levá-los para a balança e depois para casa pelados como vieram ao mundo.
  • Quando seu casamento com as ecobags estiver de vento em popa, escolha a mais bonitinha e a transforme em companheira de shopping center. A atitude vanguardista faz o maior sucesso nas lojas descoladas!

72. Quero só um abraço

lion_hug-206x300Para que mesmo existe Dia das Mães, dos Pais, dos Namorados, das Crianças, da Secretária? Adoro meus filhos, mas dispenso os presentes. Prefiro receber “só” carinho. E sem data marcada.

Preocupada com o impacto ambiental do consumo, tento simplificar a vida e possuir menos objetos. Ainda acumulando mais coisas do que gostaria, acredito que “doar para os pobres” nem sempre é a solução (http://conectarcomunicacao.com.br/blog/1-pensamentos-varal/).  Por isso virei adepta do minimalismo e dispenso presentes de Natal, aniversário e Dia das Mães. Em vez de ganhar algo porque chegou o momento X do calendário, prefiro os presentes espontâneos de surpresa em dias comuns e acompanhados pela frase “Isso tem tudo a ver com você”. Meus favoritos são objetos ou roupas que pertenceram à pessoa que está ofertando. Ou então mudas de plantas para minha horta. Amo também guloseimas especiais, vinhos e livros emprestados para ler e comentar depois com a pessoa.    

Sobretudo perto de datas comemorativas, fujo de Shopping Centers, pois eles ficam ainda mais lotados e visualmente poluídos. Só que ser “do contra” não é fácil. Às vezes me sinto meio clandestina, pois escondo esse tipo de opinião para não estragar prazeres alheios. Curioso como os antigos tabus de comportamento social e sexual se foram, mas o preconceito contra os que questionam a sociedade de consumo é bem forte, a começar por apelidos como “ecochato” e “ecoxiita”.

Celebrações como Dia das Mães, dos Pais, dos Namorados, das Crianças e da Secretária não existiam até algumas décadas atrás. A maioria delas foi criada ou popularizada por marqueteiros para incentivar compras. Já eu acharia bem mais interessante se nessas datas os rituais não se resumissem a consumir e cultuar individualidades. Juro que seria a primeira a me engajar nos festejos caso reaprendêssemos a reverenciar as energias da infância, da velhice, do amor, do masculino e do feminino que existem na natureza e dentro de todos cada um. 

Voltando ao tema das compras, deixo registrado que nós, adeptos da simplicidade voluntária, não acumulamos frustrações nem desconhecemos o glamour. Comigo, aliás, aconteceu justamente o inverso. Ao decidir ter apenas o necessário, fiquei muito mais criteriosa e interessada apenas em investir no que vale a pena. Cada aquisição é planejada e curtida gota a gota. Aprecio bons restaurantes, ingredientes culinários de excelente procedência e, nas poucas vezes em que adquiro roupas novas, escolho as melhores griffes.

Meus filhos já sabem que não precisam me dar presentes. Se nesse Dia das Mães fizerem lembrancinhas artísticas para me homenagear (como já ocorreu), vou adorar. Mas aqui em casa isso não virou tradição, muito menos obrigação. De modo que, se no “meu dia” vierem me agarrar de mãos vazias, a alegria será enorme. E se esquecerem a data e mesmo assim passarmos momentos de grande afeto, aí sim é que eu ficarei totalmente realizada.

70. Páscoa sem ovo kitsch e sem coelho

Overdose de guloseimas com qualidade duvidosa e animais abandonados nada têm a ver com o verdadeiro sentido dessa festa, que surgiu a partir de rituais agrícolas muito antigos.

Lendo o Estadão me deparei com a notícia Coelhinhos da Páscoa acabam abandonados http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20110417/not_imp707275,0.php  e soube que algumas pessoas acham divertido dar de presente um coelho vivo a uma criança nessa época. Imaginam o animal como um brinquedo qualquer e não levam em conta o quanto é complicado trazer mais um membro para a família. Assim, muitos desses bichinhos são simplesmente jogados fora e almas caridosas de ONGS como a norte-americana  House Rabbit Society   http://www.rabbit.org/ e a brasileira  Adote um orelhudo  http://www.adoteumorelhudo.com  se esfalfam para recolher e encaminhar os abandonados.

Tenho certeza que eu e você não faríamos essa crueldade, mas o fato revela até onde o consumismo pode nos levar. Antigamente, as festas religiosas tinham significado em si. O que valia era o rito, a reflexão, o sentimento religioso que une a comunidade. Hoje em dia, o templo foi transferido para o Shopping Center. Quando é Páscoa ou Natal, mesmo quem se diz religioso exagera nas compras e são poucos os que aparecem na igreja. A intenção pode ser boa, mas o resultado não: muito lixo produzido, muito dinheiro gasto à toa e, no caso da Páscoa, muita guloseima ruim incentivando maus hábitos alimentares desde a infância.

Veja bem, eu AMO chocolate, mas em outro formato e situação. Troco quantidade por qualidade e prefiro degustar em doses pequenas aquelas marcas justificadamente bem caras. Mantenho o consumo estável ao longo do tempo e não vejo motivo para me entupir de doce só porque é Páscoa. Aliás, a vontade até diminui, pois só de ver os ovos de chocolate das grandes indústrias tenho vontade de comer outras coisas. Feitos com ingredientes inferiores, eles têm embalagem demais e até o formato é péssimo (logo depois de aberto, o produto vira uma maçaroca de papel enrolado em cacos marrons). As versões infantis são piores ainda, com seus personagens licenciados, embalagens kitsch e brinquedos vagabundos dos quais a criança enjoa em dois minutos. Aliás, o Projeto Criança e Consumo, do Instituto Alana, registra que o Código de Defesa do Consumidor proíbe a venda casada de produtos infantis (no caso, ovo + brinquedo). Veja lá: http://www.consumismoeinfancia.com/2011/04/18/ovos-de-pascoa-e-brinquedos-o-que-estamos-comemorando/ .

Antes de ser herdada pelos cristãos, essa festa muito antiga era – e continua sendo — um feriado judaico bem interessante. Para celebrar o fim da escravidão no Egito, até hoje os judeus se reúnem em família para o Sêder, um jantar cerimonial, onde cada alimento tem um significado simbólico. Ou seja, um rito que é a antítese do fast-food. Já tive o privilégio de participar de alguns Sêders e guardo ótimas lembranças.

Num tempo anterior ao judaísmo, as sociedades agrícolas mais antigas já faziam comemorações nessa época do ano. Na Europa, a Páscoa marca o fim do inverno, período em que é impossível plantar e a fome está sempre à espreita. Com a horta em casa, percebo que por aqui também a data acontece num momento especial para a agricultura, mas pelo motivo inverso, já que no verão o excesso de calor e umidade prejudica o cultivo.

Então, a essência da Páscoa é renascimento, início de um novo ciclo de fertilidade. Seria muito bom se reaprendêssemos a expressar sentimentos de outras formas, sem adquirir objetos. Deveríamos festejá-la respeitando e agradecendo a natureza em vez de abandonar bichos e consumir demais.