19. Roupas com história

Vale a pena resgatar a velha tradição de passar as roupas infantis de uma criança para a outra em família ou entre amigos.

O título desse post eu peguei emprestado da minha amiga Ciça, o que veio bem a calhar, já que o assunto aqui tem a ver com herdar roupas. Aliás, meu filho Alex já ganhou coisas do Matias e do Tomás, filhos da Ciça. E minha filha Julieta tem o armário recheado de peças que foram da sua adorada prima Paula, hoje adolescente. Sabe a Monica Figueiredo, diretora da revista Pais & Filhos? Pois há um tempo ela fez um brechó hiperlegal em casa e a Julieta até hoje usa uns vestidinhos de verão que foram da Antonia, filha da Monica. (Ô Monica, quando vai ser o próximo?)

Como já deu para perceber, aqui em casa a gente adora receber roupas infantis que foram de outras crianças queridas. E a gente adora também preparar com carinho as peças preferidas e dar para outras crianças, procurando sempre perceber qual o estilo fashion de cada um. Agora mesmo um vestido tamanho 8 espera apenas eu pregar o botão que caiu para entrar na roda da vida novamente.

No meu próprio guarda-roupa tenho uma ou outra peça herdada de amigas. Adoro quando uma delas diz: “Não uso isso nunca e acho que tem a sua cara. Quer de presente?”. Gostaria que isso acontecesse mais vezes.

Doar roupas para pessoas carentes é legal. Também fazemos isso e achamos que, enquanto houver nesse mundo algum ser humano correndo risco de passar frio ou ficar descalço por falta de dinheiro, todo mundo precisa contribuir para a caridade. Mas tudo será muito melhor se algum dia isso não for mais necessário. O que os pobres merecem é receber salários melhores para que possam escolher suas próprias roupas.

As trocas entre pessoas de poder aquisitivo semelhante são mais éticas, mais democráticas e mais gostosas. Saber quem foi o dono anterior daquela camiseta maravilhosa faz com que a gente sempre pense na pessoa ao vestir. Meus filhos aprenderam a gostar das heranças e sentem-se importantes por vestir roupas dos maiores. Parece que vão se preparando por osmose para as etapas futuras. Já eu acredito que essas redes de trocas de objetos colocam nossa família mais conectada à teia da vida.  

Será que vale a pena medir o afeto pelo valor pago pelo presente? Discordo. Prefiro ganhar coisas usadas, com história. Assim como gosto de andar nas ruas pensando nas pessoas que já passaram por elas e não estão mais nesse mundo. Quando vou a um local histórico ou a um lugar selvagem, sempre imagino estar seguindo os rastros de muitos outros que vieram antes de mim e que tiveram a delicadeza de preservar aquele ponto do planeta. É assim que eu gostaria de ser anonimamente lembrada no futuro.

Divaguei demais, não é? Então vamos voltar ao momento de moda vintage…

Em família, já estamos preparando os próximos capítulos de “roupas com história”. No alto do meu guarda-roupa tem uma caixa com várias peças que serão da Julieta quando ela se tornar adolescente. Coisas que eu adorava usar, mas, sabe como é, o tempo vai passando e aquela malha de ursinhos e aquela bolsa de festa cor-de-rosa já não combinam com a fase atual da quarentona aqui. Outro dia, meu cunhado, Eduardo, disse que suas camisas de futebol de times de várias partes do mundo serão do sobrinho Alex assim que ele tiver tamanho de homem. Já a grande coleção que hoje recheia o armário do Alex eu vou guardar com carinho para as crianças da família que ainda vão nascer. Será um privilégio, daqui a algumas décadas, ver novamente uniformes de times exóticos reviverem os momentos futebolísticos que são a parte mais saborosa da infância do meu filho.

18. Um dia no brechó escolar

Faço parte de um grupo de pais de alunos da escola dos meus filhos que resolveu organizar o reaproveitamento e uniformes e material didático.

Sabe como é: as crianças crescem, passam de ano e deixam para trás roupas em bom estado, livros quase novos, pastas, fichários etc. Faço parte da organização de pais da escola onde meus filhos estudam e, antes do início das aulas, nosso grupo resolveu criar uma rede de doações e encaminhamento de uniformes, livros e materiais para serem reutilizados. Os objetivos eram estimular a solidariedade, poupar dinheiro e também cuidar do meio ambiente, evitando que isso tudo fosse parar no lixo ou na reciclagem (o que, na minha opinião, é quase a mesma coisa e no mês que vem explico por quê).

Cinco voluntárias, eu entre elas, se revezaram em um plantão dentro da escola durante um dia inteiro. Tivemos um apoio bem bacana da direção, que forneceu uma mesa enorme onde montamos nossa barraquinha, ou melhor, nosso eco-balcão. As pessoas chegavam com suas sacolas e nós separávamos as roupas por tamanho e tipo, colocávamos de um lado os livros e do outro as pastas. Foi interessante perceber a reação dos adultos e das crianças a essa proposta. Muita gente parecia se sentir aliviada por doar aqueles itens que certamente estavam atulhando seus armários em casa e corria para comprar materiais e uniformes novos, sem ao menos dar uma olhada nas peças seminovas (algumas em perfeitíssimo estado) que tínhamos para fornecer de graça. Outros ficavam muito felizes em remexer nas pilhas e sair dali com diversas calças, camisetas, casacos, bermudas sem pagar absolutamente nada. Sem falar no material didático…

A escola também teve uma ótima iniciativa: incentivar os pais e os alunos a reaproveitarem as pastas e cadernos do ano anterior, além de colocar todos os itens comprados em sacolas de pano que puderam ser devolvidas no primeiro dia de aulas e ficarão reservadas para o mesmo uso em 2011.

No final do dia, sobrou muita coisa. Percebemos que, pelo menos para o público daquele colégio particular, a ideia da doação é muito mais fácil de digerir do que a de reutilizar coisas que foram de outras pessoas. As crianças, em geral, preferiam ir à loja em vez de xeretar nossas ofertas. No entanto, quando a mãe ou o pai demonstravam não ter preconceito com itens usados, a resistência inicial logo desaparecia e comprar sem pagar virava uma brincadeira.

Eu mesma aproveitei bastante o brechó escolar. Apareci lá antes do meu horário de trabalho, acompanhada dos filhos, e peguei todo o uniforme de que precisava e alguns materiais didáticos. Como reaproveitei tudo o que era possível do ano anterior, gastei 1/3 do valor total da lista de compras e R$ 0 em roupas.

No ano que vem, pretendemos ampliar e aperfeiçoar essa ação. E esperamos atrair mais “clientes”, com generosidade tanto para doar quanto para receber doações. As contas bancárias e a natureza vão se beneficiar com esse gesto. Mas o principal lucro será treinar as próximas gerações a estabelecer uma relação de usuário-temporário (e não apenas de consumidor) com tudo o que está no planeta. Se conseguirmos substituir o ciclo do comprar/usar/jogar fora pelo de receber/usar/cuidar/doar, deixaremos um mundo muito melhor para nossos filhos.

17. Voto Sustentável

Cada real que você gasta é um voto a favor ou contra a natureza e a justiça social.

Esse ano os políticos vão pedir insistentemente o seu voto. E farão promessas que, eles sabem e nós também, não serão cumpridas. Mas, bem longe das urnas eletrônicas, sem perceber nós votamos dezenas de vezes todos os dias, do momento em que acordamos até a hora em que vamos dormir. Cada escolha é um voto. Cada coisa que compramos é um voto.

Consumir um item importado, por exemplo, significa votar num navio cargueiro que atravessou o mundo para trazer o produto até você. Quem anda de carro vota em ruas mais congestionadas. Você prefere um suco industrializado a comer a fruta ou preparar a bebida em casa? Está votando em uma embalagem que ficará poluindo o meio ambiente durante séculos. Você embala suas compras de supermercado em saquinhos descartáveis? Seu voto vai então para os bilhões de plásticos que estão vagando pelo planeta e se juntando em enormes ilhas de lixo flutuante no meio dos oceanos. Você acha que não vale a pena consumir produtos orgânicos porque eles são um pouco mais caros? Voto para os agrotóxicos, que contaminam os alimentos, os rios e os lençóis freáticos. Você acha os produtos pirateados uma boa opção? Voto para redes criminosas que submetem pessoas a condições de trabalho terríveis em fábricas ultrapoluidoras. Quem compra um móvel novo (especialmente se for feito de madeira nobre não certificada) está votando na destruição da floresta. Quem desperdiça água aumenta o volume do esgoto e diminui o do reservatório de água potável. Voto para a primeira opção.

Infelizmente, ninguém consegue viver de um jeito 100% sustentável na sociedade de hoje. E as empresas, mesmo as que se dizem engajadas pelo meio ambiente, em geral fazem apenas iniciativas pontuais, que têm impacto positivo muitíssimo inferior ao da poluição que elas mesmas produzem. Mas a gente pode melhorar a qualidade dos nossos votos cotidianos, para ajudar a construir um mundo melhor.

Vote no transporte público, em caminhadas e na bicicleta para ter uma cidade mais respirável e acolhedora para os pedestres.

Vote nos alimentos orgânicos in natura produzidos na sua região para ter mais saúde, livrar o mundo do excesso de embalagem e de veneno e também para reduzir as emissões de gás carbônico durante o transporte.

Vote em comprar menos, em reformar roupas e móveis e em trocar coisas com os amigos. Assim o mundo terá menos fábricas, menos chaminés e menos lixo.

Vote em artesãos de boa qualidade para que nem todas as pessoas precisem trabalhar em grandes empresas e possam ganhar o sustento fazendo pão, massagem, consertando coisas, criando arte, cuidando do outro.

 VOTE NOS PEQUENOS PRODUTORES DE ORGÂNICOS

Eles comercializam a colheita num esquema de cestas semanais entregues em casa. Os alimentos, além de serem mais saudáveis, são produzidos de forma socialmente e ecologicamente correta. As entidades fiscalizadoras exigem que os produtores atuem totalmente na legalidade, registrem todos seus funcionários, tenham alvará da vigilância sanitária e certificação ambiental. A água usada para lavar as verduras precisa ser potável, a mata ciliar deve ser recuperada para proteger córregos e nascentes e as queimadas são proibidas. O mundo que você quer é assim? Então invista na saúde da sua família e no futuro do planeta tornando-se assinante de uma cesta orgânica.  

planetaorganico.com.br
portalorganico.com.br
aao.org.br
sabornatural.com.br
aboaterra.com.br
caminhosdaroca.com.br
familiaorganica.com.br

16. Manual da Ambientalista em Férias

Os hotéis fingem que economizam água e reduzem o lixo enquanto os hóspedes deixam em casa qualquer preocupação ecológica. Quando vamos parar com isso?

Hoje em dia não existe nenhuma empresa ou pessoa que se declare a favor da destruição da natureza. Mas, quando se trata de mudar alguns hábitos bem estabelecidos, as boas intenções muitas vezes perdem para a inércia. As viagens de férias são uma boa ocasião para observar esse fato. Nos hotéis, por exemplo, há sempre uma plaquinha na pia do banheiro com aquele aviso manjado: “Você já imaginou a enorme quantidade de toalhas que são lavadas inutilmente nos hotéis ao redor do mundo blá, blá blá…”. Aí o estabelecimento avisa que se compromete a proteger as águas se o hóspede deixar as toalhas penduradas, sinalizando que pretende usá-las novamente.

Na prática, não é nada disso que acontece. Todas as manhãs, os camareiros simplesmente jogam no cesto de roupa suja todas as toalhas e as roupas de cama. Uma vez, conversando com uma pessoa que trabalha na área, soube que existe até um esquema meio mafioso em alguns locais. Explico: como parte dos hotéis contrata o serviço de lavanderia de fornecedores externos, que são remunerados pelo número de peças, rola uma caixinha para os funcionários mandarem o máximo de itens para a lavagem.

O curioso (ou triste) é que esse tipo de descuido acontece justamente em locais que cobram caro para receber visitantes porque estão situados em pedaços intocados da natureza, cada vez mais raros.

O excesso de lixo produzido pelos hotéis também assusta. Quando encontro aqueles potinhos de plástico com doses minúsculas de xampu, condicionador e cremes, fico triste. E me dá até uma certa revolta ao ver que os hotéis não fornecem água potável para os clientes com o intuito de obrigá-los a consumir uma garrafa PET a cada vez que sentirem sede e assim lucrar mais um pouquinho.

Já cansei de escrever sobre isso naqueles questionários de avaliação de estadia. Nunca obtive nenhuma resposta. Então optei por táticas de guerrilha do Manual da Ambientalista em Férias que eu mesma estou inventando.

No capítulo economia de água, assim que entro no quarto pego as canetinhas coloridas dos meus filhos e escrevo em letras garrafais no maior papel que encontrar: FAVOR NÃO SUBSTITUIR TOALHAS E ROUPAS DE CAMA. VAMOS USÁ-LAS DURANTE TODA A ESTADIA. A NATUREZA AGRADECE.

Em relação ao lixo plástico, antes de viajar encho garrafas PET de cinco ou dez litros que coleciono com água do filtro e coloco na bagagem. Levo na bolsa de mão algumas garrafinhas pequenas, para usar em passeios e quando estiver fora do quarto. Além de reduzir a carga das lixeiras, fazemos economia. Em uma semana de hospedagem, nós quatro costumávamos gastar cerca de R$ 90 só com água mineral. O potinhos de xampu etc simplesmente ignoro porque levo de casa os cosméticos. E os sabonetinhos que sobram voltam comigo para continuar a serem usados.

Fico muito assustada também com o comportamento de certas pessoas. Já flagrei gente usando nada menos do que quatro toalhas nas cadeiras da piscina. Isso sem falar que, quando as refeições são no sistema buffet, o desperdício de comida é generalizado. E tem o pessoal que acha o máximo ligar o chuveiro no máximo para ganhar massagem nas costas. É tão difícil perceber que a natureza sofre com essas atitudes?

HOTÉIS REALMENTE ECOLÓGICOS

Para a família
Hotel Bühler (Visconde de Mauá, RJ) – www.hotelbuhler.com.br
Casa do Lago (Buri, SP)www.casadolago.com.br

Para adultos
Ronco do Bugio (Piedade, SP) – www.roncodobugio.com.br
Hotel Ponto de Luz (Joanópolis) – www.hotelpontodeluz.com.br

15. O brinquedo preferido

Ter centenas de brinquedos não faz bem para as crianças. Reduzir a oferta de presentes é a melhor forma de estimular os pequenos a brincar melhor.

Está na internet o documentário “Criança, a Alma do Negócio”, de Estela Renner. Vale a pena assistir, principalmente nessa época de Natal. É um panorama muito interessante da relação que as crianças têm com a mídia e o consumo hoje em dia. Um dos trechos de que mais gosto mostra um menino de mais ou menos sete anos exibindo com orgulho seu armário atulhado de brinquedos. Aí a entrevistadora pergunta qual o favorito entre todos aqueles. O garoto tira do bolso um bonequinho de plástico muito simples, menor do que seu dedo polegar e diz: “Esse aqui!”.

Quando vi a cena, lembrei de uma coisa que costuma dizer a Lídia Aratangy (psicóloga, escritora, mãe e avó de mão cheia, de quem sou fã). Vou tentar repetir mais ou menos: “O que importa não é tanto o brinquedo, mas sobretudo o vínculo de afeto que a criança estabelece com ele. E nenhuma criança consegue se ligar emocionalmente a 100 brinquedos”.

Na convivência com meus filhos e os amigos deles, tenho observado que a quantidade objetos que possuem é gigantesca. Mas há menos brincadeiras. Quase não rola faz-de-conta, pega-pega, esconde-esconde, cavalinho com cabo de vassoura, banho de esguicho no quintal e atividades do gênero. Talvez por falta de tempo, de iniciativa e até por preguiça. Talvez porque os programas de TV, os videogames, os DSs e os computadores tenham se tornado tão sedutores e estejam disponíveis o tempo todo. Uma pena.

Ao despejar tantas coisas sobre as crianças, nós, adultos, roubamos deles a oportunidade de querer ardentemente e batalhar pela realização de um desejo. Pediu, ganhou! Extinguiu-se o tempo da saudável expectativa ansiosa.

Parece até que eu estou propondo algum tipo de tortura anticonsumista para a garotada, mas é justamente o oposto. Criar expectativa e regular a quantidade de presentes vale a pena. Mesmo. Penso nisso toda vez que vejo minha filha agarrada e batendo altos papos com seu brinquedo preferido, uma tigrinha de pelúcia chamada Lili. Julieta tem uns 30 outros bichos do gênero, a maioria desprezada, empoeirando na estante. Mas Lili é especial: tem uma casa de caixas de papelão e enfeites montada ao lado da cama de sua “mãe” e viaja conosco para todos os lugares.

A tal Lili é daqueles bichos customizáveis, vendidos em quiosques de alguns shoppings, com direito a roupas e acessórios personalizados. Há vários meses, a filhota manifestou a vontade de ter esse brinquedo. Dissemos que ela só ganharia no aniversário (em junho) e minha mãe se prontificou a oferecê-lo. Só que, no dia tão esperado, a loja teve um problema e fechou minutos antes de avó e neta chegarem. Ansiosa como toda criança, Julieta não quis voltar para casa de mãos abanando e trocou o objeto do desejo por outra coisa. No dia seguinte, percebeu o erro e pediu novamente a pelúcia tão sonhada. “Só no Dia das Crianças”, respondemos. Então, em outubro, bastante tempo depois de formulado, o desejo virou realidade. Nada foi feito de propósito, mas o resultado é que Julieta ama Lili acima de todo o pelotão de Barbies e congêneres que povoam seu quarto. Outro dia, uma amiguinha dela, que possui meia dúzia de primos da Lili, feitos na mesma loja, achou estranhou tamanha predileção e comentou: “Julieta, não entendo porque você adora tanto essa Lili!”. Eu entendo.

14. A rainha da primavera

Rachel Carson foi a primeira pessoa a dizer ao grande público (nos anos 60) que os agrotóxicos não fazem bem a saúde das pessoas e dos ecossistemas.

Estou lendo “A Primavera Silenciosa”, de Rachel Carson, numa edição em inglês, já que está fora de catálogo no Brasil. Fiquei curiosa a respeito desse livro, publicado em 1962, porque vários artigos e entrevistas de gente fera em ecologia o citam como um marco no movimento ambientalista. O título se refere ao fato de que o inseticida DDT — na época considerado uma solução eficaz contra as pragas da lavoura – extermina os pequenos animais do solo e voadores, acabando com a melodia dos passarinhos na primavera.

Rachel foi a primeira pessoa a transmitir para fora do mundo acadêmico a mensagem de que os agrotóxicos causam imensos prejuízos para os ecossistemas e a saúde humana. Havia tanta inocência em relação a esses produtos que em 1945, segundo conta meu amigo e produtor orgânico Joop Stoltenborg em seu ótimo informativo, o governo holandês chegou a polvilhar com DDT em pó o corpo de todas as crianças (inclusive ele) para combater piolhos e sarna. Uma década depois da publicação de “A Primavera Silenciosa”, o veneno foi banido dos Estados Unidos. Mas, antes de vencer a batalha e já doente de câncer, Miss Carson, nossa heroína, foi vítima de uma campanha de difamação e acusada, entre outras coisas, de ser comunista e – acredite! – solteirona.

Para aumentar a produção de alimentos, após a Segunda Guerra Mundial todo o arsenal recém-descoberto de venenos passou a ser jogado nas plantações, sendo que várias substâncias eram originalmente armas químicas. Até certo ponto, houve sucesso, pois, sem os predadores naturais, as colheitas realmente foram a princípio mais fartas. No entanto, estamos pagando caro por essa opção até hoje…

Dá tristeza pensar que aquelas pilhas coloridas e apetitosas de frutas e legumes nos supermercados e feiras contêm muitos itens envenenados. Mas essa é a pura verdade. E não se trata de papo de ecoxiita. Em maio desse ano, a Anvisa (órgão do governo brasileiro vinculado ao Ministério da Saúde) publicou a avaliação de 1773 amostras de 17 tipos de vegetais vindos de diversos Estados. Nada menos do que 64% dos pimentões, 30% das cenouras, 19% das alfaces e 18% dos tomates estavam contaminados por inseticidas em níveis acima do permitido por lei.  

O Brasil ostenta atualmente o título de maior consumidor de agrotóxicos do planeta e aqui são comercializadas livremente diversas substâncias proibidas em outros países. Os exatos efeitos desses venenos sobre a saúde das pessoas e do meio ambiente são difíceis de aferir e há interesses econômicos poderosos contra sua divulgação. Intoxicações agudas acontecem sobretudo com trabalhadores rurais e, segundo dados de 2007 do Sistema Nacional de Informações Tóxico-Farmacológicas, naquele ano houve 9.670 casos, com 213 mortes. A revista Veja de 7/1/09 publicou uma matéria sobre a cidade de Jardim Olinda, no Paraná, onde nascem muito mais mulheres do que homens por causa da contaminação do lençol freático por agrotóxicos, fato que está ocorrendo também em outras regiões. Consumidas diariamente em doses homeopáticas, essas substâncias podem causar doenças hormonais, câncer, problemas neurológicos e má formação genética, pois são absorvidas pelo organismo, vão se acumulando ao longo da vida e estão presentes até mesmo no leite materno. 

Várias pessoas já me disseram que se recusam a pagar R$ 3 por um pé de alface e só vão experimentar os orgânicos quando o preço for o mesmo dos produtos convencionais. Entendo o interesse em reduzir a conta do supermercado, mas nessas horas penso no show de horror descrito no parágrafo acima e fico sem palavras.

13. Deixe sua mensagem após o bip

Os fabricantes de celular tentam dificultar ao máximo o conserto dos aparelhos. Se a gente joga fora o produto ao menor sinal de defeito, melhor para eles e pior para o planeta.

Na semana passada, com apenas seis meses de uso, meu celular pifou. O aparelho, um dos mais simples, foi “doado” pela operadora da qual sou cliente como forma de impedir que eu mudasse para a concorrência nos próximos 12 meses. Qual a coisa mais simples a fazer numa situação dessas? Jogar fora o telefone, ir à loja da operadora, pegar outro “de graça” e assinar novamente o papel com o juramento de fidelidade à empresa por mais um ano. Isso tomaria meia hora do meu tempo e ainda me garantiria um telefoninho brilhando de novo.

Acontece que, do ponto de vista do meio ambiente, a história não é nada simples, rápida, prática ou indolor. Se os celulares estão cada vez mais leves e pequenos, os problemas ambientais que causam se tornam a cada dia maiores e mais pesados. A consultoria inglesa Informa Telecoms & Media calcula que, em dezembro passado, tenhamos atingido a incrível marca de 4 bilhões de linhas de celulares em uso no planeta. Estimativas da empresa norte-americana ReCelllular, líder mundial na reciclagem desses equipamentos, indicam que 40 mil celulares são jogados fora todos os dias apenas nos Estados Unidos, acumulando 150 milhões por ano. Somente uma pequena parte dos aparelhos é reciclada (cerca de 6% em 2007, diz a ReCellular).

No Brasil, o número de celulares em operação chegou a 157,5 milhões em junho de 2009, segundo a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel). E não existem estatísticas oficiais sobre o destino dos aparelhos usados. Às vezes ficam esquecidos numa gaveta. Em alguns casos são vendidos ou trocados na compra do aparelho novo ou vão para as caixas de coleta que algumas lojas têm. Mas grande parte é jogada mesmo no lixo comum e acaba nos aterros sanitários poluindo a natureza por séculos com seus ingredientes supertóxicos como mercúrio, chumbo e cádmio.

Com essas informações na cabeça, não consegui simplesmente jogar fora meu celular. Procurei o fabricante (LG) e soube que existem apenas quatro locais numa cidade gigante como São Paulo onde eu poderia levá-lo para o conserto. Nenhuma deles perto da minha casa. Então, esperei quatro dias até conseguir uma brecha na agenda, peguei a nota fiscal e lá fui eu para o hospital dos eletrônicos. Como imaginava, não havia fila, já que é tão mais fácil jogar fora e arranjar um novo. Deixei lá o aparelho, que estava na garantia, e fui informada que dali a sete dias úteis (!) eles entrariam em contato para informar se o conserto foi bem sucedido. Ainda estou nessa fase de espera e em breve vou fazer nova peregrinação pelo trânsito paulista para buscar meu telefoninho. Enquanto isso, já avisei familiares, amigos e clientes que tirei férias do fantástico mundo da telefonia móvel. 

O lado bom? Minha querida irmã, Malu, compadeceu-se da situação e me trouxe um celular velho que estava encostado. Até ensinou a instalar meu chip nele. Por algum mistério da dimensão eletrônica, no entanto, não funcionou. Mas a atitude fofa da Malu já valeu muito mais do que a comodidade de ser interrompida pelo toque do celular a qualquer hora durante a próxima semana.

12. A limpeza que polui

O arsenal de limpeza comum é muito agressivo para o meio ambiente e para a nossa saúde. Eu indico produtos naturais e força muscular!

Brasileiro tem mania de limpeza, mas não gosta de pensar muito sobre o tema. E nem de colocar a mão na massa, pois nosso país é líder mundial na contratação de empregadas domésticas. Resultado: a natureza e nossa saúde sofrem bastante com alguns hábitos arraigados e nunca questionados. Para começar, rola muito desperdício de água. Na hora de lavar calçadas e quintais, por exemplo, a mangueira toma o lugar da vassoura e centenas de litros de água tratada são jogados fora para empurrar algumas folhas caídas. Falando nisso, nunca entendi para quê usar tanto produto e fazer tanta espuma onde dali a cinco minutos todo mundo vai pisar e o pneu imundo do carro vai entrar.

Na hora de comprar detergentes e desinfetantes, a regra costuma ser economizar ao máximo, sem preocupação com a procedência. Reproduzo aqui um trecho que está no site da Fundação Oswaldo Cruz, vinculada ao Ministério da Saúde: “Muitos produtos utilizados no ambiente doméstico são de fabricação clandestina e ilegal. Estes produtos, normalmente, são comercializados de porta em porta, com a promessa de serem ‘mais fortes e menos tóxicos’, além de mais baratos. Na realidade, por serem em geral mais concentrados, causam intoxicação com maior frequência e de maior gravidade que os fabricados legalmente”. E, pesquisando o assunto, descobri que mesmo os produtos de marcas famosas devem ser usados com moderação, pois podem conter componentes corrosivos e irritantes como fosfatos, EDTA, formol e NTA, alguns sob suspeita de serem cancerígenos.

De acordo com diversos estudos de medicina, o excesso de limpeza pode estar por trás do incrível aumento na incidência de alergia nas regiões industrializadas. A teoria é conhecida como “hipótese da higiene” e, se você ou alguém da família é alérgico, vale a pena pesquisar na internet sobre isso e rever alguns procedimentos de faxina.

Aqui em casa estamos implantando algumas mudanças. Para começar, dispensei a faxineira e estou assumindo a lavagem das roupas e boa parte da limpeza doméstica. Tenho usado pouca água, quantidades mínimas de sabão de coco ou sabão artesanal (aquele feito com óleo de cozinha usado) e mais músculos. Eliminei o amaciante de roupas há vários anos e não suporto aquele cheirinho químico nem de longe. Também estamos evitando colocar no cesto as roupas que podem ser usadas mais um pouco.  Tenho certeza de que é o caminho correto a seguir pelo bem do planeta e, sobretudo, para que o meio ambiente interno de casa fique menos poluído. 

Para quem está nessa transição, vale a pena conhecer os produtos da Cassiopéia, feitos com óleos vegetais, sem matérias primas derivadas do petróleo. Prefiro os limpadores líquidos Auxi (a versão concentrada do conhecido Bio Wash) que servem tanto para a faxina quanto para as louças. Vêm em embalagens de 1 litro que duram meses, pois para usar precisa diluir bastante em água. Dá para comprar pelo site: www.cassiopeiaonline.com.br.

Essa receita de detergente natural também é o máximo:

11. Ecossistema do guarda-roupa

Ter menos roupa é uma boa opção para diminuir nosso impacto pessoal no meio ambiente. Além disso, investir em poucas e boas peças ajuda a construir um estilo personalizado de vestir.

Olho para o meu armário e vejo peças feitas de algodão, couro, metal, plástico e borracha. Cada uma delas percorreu longa trajetória até estar pronta para me vestir. Penso em gigantescas plantações de algodão irrigadas dia e noite e no petróleo sendo extraído das profundezas do mar para ser colorido e moldado em formas fashion. Em seringueiros valentes, no meio da floresta tropical, extraindo a borracha que depois vai virar um calçado moderninho.

Por trás dos produtos pelos quais nos apaixonamos nas lojas existe uma complexa teia de relações econômicas, ecológicas, sociais e até emocionais. Incontáveis horas de trabalho e muitos recursos da natureza são investidos na fabricação de roupas. Verbas de marketing astronômicas são usadas para nos fazer desejar a última moda. Muito da nossa autoestima depende do que vemos no espelho quando nos arrumamos para sair. Razões obscuras fazem com que várias peças jamais sejam usadas. E, é bom lembrar, às vezes queimamos nossas reservas financeiras para abastecer o closet com uma profusão de itens.

Você já parou para pensar na quantidade de roupas que compra para si mesmo durante um ano?

Há algum tempo tomei susto por perceber quanta coisa eu trazia para casa em doses homeopáticas naquelas irresistíveis sacolas de griffe. O que me apavorou de verdade foi notar as montanhas de roupas “seminovas” que iam embora aos primeiros sinais de qualquer desgaste. Ou porque eu, a rainha do universo do consumo, tinha enjoado de tal look.

A ficha caiu quando, numa tarde de verão, quis vestir uma calça jeans branca. E não havia nenhuma no closet, embora anos atrás eu tivesse comprado tal peça nos Estados Unidos. Ocorre que, num daqueles surtos de renovação, eu tinha mandado embora a calça. Comprei outra, bem parecida, e decidi que passaria a tomar muito cuidado com essa história de doar roupas. Até porque acho um pouco indigno despejar nas pessoas pobres as coisas que a gente não quer mais. Para fazer uma boa ação real, mais vale presentear uma criança ou adulto carente com uma roupa nova. Ou, melhor ainda, pagar bem as pessoas que trabalham para nós, de modo que elas tenham uma folguinha no orçamento e possam exercitar suas escolhas fashion por si próprias.

 Ao restringir o descarte, mudei minha relação com shoppings e estabelecimentos afins. Agora, quando compro uma roupa, sei que vou me obrigar a viver com ela longos anos. Provavelmente até o dia em que realmente a peça esteja velha, puída, quase destroçada. Claro que não uso coisas em tal estado para passear ou visitar os clientes. Mas, para ficar em casa, roupa velha é a regra. Sem muita opção de enjoar daquilo que adquiri, passei a escolher muito melhor. A ter critérios mais perenes, baseados com meu estilo e tipo físico. As modas passageiras não me interessam. Muitas vezes, acabo gastando mais para adquirir algo de boa qualidade. Mas, como estou em busca de um casamento eterno e não de uma paixão volátil, o investimento vale a pena. De forma geral, vivo feliz para sempre as peças eleitas.

10. Semear. Regar. Adubar. Esperar. Colher.

Cuidar da horta aqui em casa é uma das coisas mais deliciosas que existem e não dá para explicar o prazer de comer uma salada colhida no quintal.

Pensando em reduzir o impacto ambiental da minha família e aprender na prática sobre agricultura orgânica, assim que compramos um terreno para construir nossa casa comecei a sonhar com a minha horta.

Infelizmente, perdi contato com meus amigos de adolescência que resolveram fazer faculdade de agronomia. Hoje em dia, convivo sobretudo com jornalistas, administradores de empresas, psicólogos, advogados e designers. Essa turma de profissionais urbanos não ajuda em nada a resolver as dúvidas da micro-agricultora aqui. O que são aquelas pintinhas amarelas nas folhas de rúcula? O que eu faço para o pepineiro não morrer? Por que só alguns pés de pimentão estão produzindo? É verdade que cascas de laranja não servem para fazer adubo? Tento pesquisar esses assuntos na internet e em suplementos agrícolas, mas a safra de informações não é muito abundante.

Com a horta, estou descobrindo um mundo totalmente novo. Encontrar uma minhoca revolvendo a terra, por exemplo, se torna motivo de grande alegria. Lagartas adoram comer couve. No auge do verão, muitas plantas sofrem e, quando esfria, elas ficam viçosas novamente. Demora uns três meses para colher cenoura. Sementes em geral são minúsculas e precisa ter a maior atenção para colocar uma só em cada buraquinho. Não é bom deixar a terra exposta ao sol e à chuva (por isso coloco em volta de cada planta a palha seca que sobra do corte da grama). Manjericão, alecrim, sálvia, erva cidreira e hortelã são fáceis de produzir e se revezam nas receitas aqui de casa. Formigueiros a gente extermina com água fervente e dá pena ver aquela comunidade ser massacrada para não destruir minhas saladas. Pés de abobrinha e berinjela precisam de mais espaço do que há nos canteiros suspensos: agora vou tentar plantá-los no chão. Ainda não consigo organizar muito bem a época da semeadura para ter sempre o que colher.

O mundo agrícola parece o mundo do consumo de cabeça para baixo. Nada é imediato, dinheiro tem pouco valor e lixo não existe. As sobras de vegetais da cozinha e do jardim vão para um buraco na terra (a composteira) onde se transformarão em adubo, reiniciando o ciclo da vida. Esterco de gado é um ótimo presente (!). Ganhei uma porção da minha sogra fazendeira e, inicialmente, a ideia de mexer em cocô de vaca me deu a maior aflição. Demorei semanas para abrir o primeiro saco, mas agora misturar esse material com a terra é uma parte trivial da rotina.

 De manhã, adoro espiar na sementeira os novos brotos saindo da terra. A Rose, que trabalha aqui em casa, é especialista em regar. No final da tarde, sempre que possível, deixo os projetos dos clientes descansarem um pouco e faço o “serviço pesado de camponesa” que for necessário naquele dia. Isso significa, entre outras tarefas, pegar na enxada para revirar a composteira, transplantar mudas ou fazer adubação. E tudo isso acontece diariamente no meu quintal, em pela metrópole!