10. Semear. Regar. Adubar. Esperar. Colher.

Cuidar da horta aqui em casa é uma das coisas mais deliciosas que existem e não dá para explicar o prazer de comer uma salada colhida no quintal.

Pensando em reduzir o impacto ambiental da minha família e aprender na prática sobre agricultura orgânica, assim que compramos um terreno para construir nossa casa comecei a sonhar com a minha horta.

Infelizmente, perdi contato com meus amigos de adolescência que resolveram fazer faculdade de agronomia. Hoje em dia, convivo sobretudo com jornalistas, administradores de empresas, psicólogos, advogados e designers. Essa turma de profissionais urbanos não ajuda em nada a resolver as dúvidas da micro-agricultora aqui. O que são aquelas pintinhas amarelas nas folhas de rúcula? O que eu faço para o pepineiro não morrer? Por que só alguns pés de pimentão estão produzindo? É verdade que cascas de laranja não servem para fazer adubo? Tento pesquisar esses assuntos na internet e em suplementos agrícolas, mas a safra de informações não é muito abundante.

Com a horta, estou descobrindo um mundo totalmente novo. Encontrar uma minhoca revolvendo a terra, por exemplo, se torna motivo de grande alegria. Lagartas adoram comer couve. No auge do verão, muitas plantas sofrem e, quando esfria, elas ficam viçosas novamente. Demora uns três meses para colher cenoura. Sementes em geral são minúsculas e precisa ter a maior atenção para colocar uma só em cada buraquinho. Não é bom deixar a terra exposta ao sol e à chuva (por isso coloco em volta de cada planta a palha seca que sobra do corte da grama). Manjericão, alecrim, sálvia, erva cidreira e hortelã são fáceis de produzir e se revezam nas receitas aqui de casa. Formigueiros a gente extermina com água fervente e dá pena ver aquela comunidade ser massacrada para não destruir minhas saladas. Pés de abobrinha e berinjela precisam de mais espaço do que há nos canteiros suspensos: agora vou tentar plantá-los no chão. Ainda não consigo organizar muito bem a época da semeadura para ter sempre o que colher.

O mundo agrícola parece o mundo do consumo de cabeça para baixo. Nada é imediato, dinheiro tem pouco valor e lixo não existe. As sobras de vegetais da cozinha e do jardim vão para um buraco na terra (a composteira) onde se transformarão em adubo, reiniciando o ciclo da vida. Esterco de gado é um ótimo presente (!). Ganhei uma porção da minha sogra fazendeira e, inicialmente, a ideia de mexer em cocô de vaca me deu a maior aflição. Demorei semanas para abrir o primeiro saco, mas agora misturar esse material com a terra é uma parte trivial da rotina.

 De manhã, adoro espiar na sementeira os novos brotos saindo da terra. A Rose, que trabalha aqui em casa, é especialista em regar. No final da tarde, sempre que possível, deixo os projetos dos clientes descansarem um pouco e faço o “serviço pesado de camponesa” que for necessário naquele dia. Isso significa, entre outras tarefas, pegar na enxada para revirar a composteira, transplantar mudas ou fazer adubação. E tudo isso acontece diariamente no meu quintal, em pela metrópole!