2. Encaixotando tudo

Na hora da mudança percebi quanta coisa inútil a gente junta. E decidi controlar com muito mais rigor o que vai entrar em casa daqui para frente, especialmente a tralha infantil.

Exatamente agora, minha vida está toda encaixotada e etiquetada. Amanhã nós cinco mudaremos de casa: eu, meu marido, o Alex e a Julieta (nossos filhos gêmeos de sete anos) e o Nino, fox paulistinha, caçula da família. Nas últimas semanas, dediquei muitas horas a organizar tudo o que possuímos. E os pensamentos foram bem mais longe do que a minúscula distância de dois quarteirões que separam o novo lar do antigo.

Engraçado como a memória da gente é feita de uma substância bem leve, etérea. Fechando esse ciclo, penso em meus filhos, que chegaram a essa casa com dois anos, ainda tropeçando pelo gramado, e partem alfabetizados não só em leitura e escrita como também em videogame, computador e programação de TV a cabo. Lembro vagamente dos aniversários, do primeiro dia de aula no maternal, das viagens, do lanche “tranqueira” semanal depois da escola. Os detalhes de cada acontecimento vão se apagando aos poucos e sobram na mente cenas cada vez mais esfumaçadas, parecidas com sonhos. Já os rastros materiais das experiências infantis são duros, pesados, volumosos e numerosos.

Na hora de preparar as caixas de papelão é que me dei conta de quantos brindes de lanchonete fast-food, lembranças de festa infantil e brinquedos dos mais variados tipos fomos juntando. Percebi que passei os últimos anos ora procurando desesperadamente ora tropeçando em peças de quebra-cabeças perdidas, dados fora de lugar, blocos de montar desgarrados, cartas de jogos exiladas de seus pares, bolinhas, bichinhos de plástico, de borracha e de pelúcia espalhados por todo o nosso habitat… Coisas bonitinhas e dadas com carinho, mas que, pelo número excessivo, tornaram a missão de organizar os pertences dos filhos algo penoso. Sem falar que não é possível para uma criança brincar com tantas coisas. No final dessa semana de balanço doméstico, tranco a porta da frente e vou para a casa nova com muitos pontos de interrogação na cabeça.

Será que meus filhos imaginam que, assim como os próprios brinquedos, os recursos do mundo são incontáveis, infinitos, estão muito além da nossa capacidade de usufruir?

Como evitar que as coisas que compramos com nosso dinheiro suado (ou que as pessoas que gostam da gente usaram o próprio dinheiro suado para comprar) se transformem em pilhas de tralha?

O que fazer no final de cada festa de aniversário, quando cada um deles tem dezenas de pacotes para abrir? Mandar metade direto para a caridade sem dar bola para o protesto dos aniversariantes? Fazer doação dos brinquedos velhos e ficar só com os novos? Mas qual criança, pobre ou rica, merece receber de presente boneca desgrenhada e riscada ou carrinho faltando uma roda? A saída é limpar um a um e levar tudo para o conserto antes de doar? E onde arranjo tempo para isso? Se eu jogar o que sobra no lixo, o que faço com a minha consciência? Não posso esconder de mim mesma o fato de que milhões de crianças nesse mundo nunca tiveram um brinquedo sequer.

Será que, daqui a uns 100 anos, quando a filha da filha da filha da Julieta estiver tropeçando em bonecos pela casa, o plástico com que são feitos todos os brinquedos que acabo de encaixotar ainda estará por aí, poluindo o meio ambiente?

Por tudo isso, a comemoração do Dia das Crianças esse ano lá em casa vai ser tomar um picolé e brincar de cabra-cega na praça. E vamos nos divertir muito.